25.10.10

A Palavra

No princípio havia Caos, e Deus chamava-se Acaso.
Mas eis que surgiu a Palavra - o Verbo - e reduziu Deus a um nome.
Um nome.
Um nome que podia ser escrito,
que podia ser falado,
que podia ser... imaginado,
ou nada disso, se ela, a Palavra, não tivesse escrito.

A Palavra chegou, assumiu o mundo e logo emitiu seus decretos. Trouxe o controle. Trouxe a complexidade. Trouxe o medo.
Exigiu do infinito uma definição precisa. E na sua dualidade estabeleceu definições claras de todos os opostos, o Bem e o Mal. Definiu Deus e Acaso como coisas distintas, opostas. Com argumentos prolixos e circulares declarou-se divina. Aprisionou a liberdade das ações em regras gramaticais. Autodenominando-se O Verbo, santificou-se, para que não se creia no que não está escrito.

E assim, o incompreensível foi reduzido a nomes. Acaso tornou-se heresia, Revelação deixou de ser aquilo que se revela diante dos sentidos, para se tornar produto da Palavra escrita. Condenou-se a dúvida, fonte do conhecimento, para louvar convicções e certezas, batizadas de Verdade. Dentre outras violências, ofendeu o equilíbrio do Universo ao santificar a Ordem, enquanto satanizava o Caos, princípio de tudo, fonte de toda a criação, essência da vida.

(baseado em post escrito em 07/09/2004)

Um comentário:

Anônimo disse...

stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemus.