21.3.08

Al Magestum


Sandro Botticelli: La Nascita di Venere (Galeria Uffizi, Florença)

Mustapha tinha uma coleção de estrelas. Não eram estrelas fixas como nos mapas do Al Magestum. Suas estrelas se espalhavam no tempo e no espaço e por todas ele era apaixonado. Mustapha sonhava com as estrelas com as quais elaborava constelações originais, únicas e inesquecíveis.

Nas suas relações mais intensas descobria territórios, planetas e luas. Mergulhava em oceanos alienígenas e ardia nos fogos siderais. Misturava-se com nebulosas vizinhas, acompanhava suas órbitas, conhecia suas galáxias e assistia ao nascimento de supernovas. Mustapha amava seus mundos e os explorava como um aventureiro. Fazia mapas, dava nomes aos astros e ligava os pontinhos. Universos nasciam em explosões apaixonadas e expandiam-se pelo espaço e pelo tempo. As forças gravitacionais cresciam, mas sempre havia um dia em que as órbitas se separavam. Mustapha era vulnerável a correntezas.

- As estrelas se movem.
- Mas todos os dias elas estão lá, certinhas.
- É ilusão. As constelações se desfazem. Quando o tempo é curto parece que é tudo claro, certo, preciso, mas o mundo real é sempre mais misterioso.
- Então nosso universo vai se desfazer?
- Certamente vai mudar, talvez se desfazer. Isto não impede que seja eterno.
- Como não?
- A eternidade está no instante.

E as correntezas podiam tudo menos mover a eternidade do instante, que engolia tudo em redemoinhos. Mustapha aprendeu a fazer buracos negros, singularidades, curvar o espaço e parar o tempo. Fez ventos e tempestades, agitou os oceanos, multiplicou as correntezas.

Até que descobriu a arte: um universo de reflexos que imitam a vida. E houve um dia em que ao contemplar a imagem móvel das estrelas sobre os mares, Mustapha ofuscou-se com a luz de uma estrela refletida. Era ilusão. A luz nascia de um universo de estrelas fixas, imutáveis, mas deixava-se refletir nas ondas reais que moviam-se na correnteza onde eram contadas histórias inventadas. A ilusão era sedutora. Mustapha apaixonara-se por um reflexo.

Mas dizem que houve uma noite em que, como na célebre obra de arte, Zéfiro soprou do leste e Vênus nasceu do mar, e por instantes antes do amanhecer um novo universo surgiu no mundo real. Mustapha, vulnerável às correntezas do vento, deixou-se incendiar pela estrela da manhã e em pouco tempo estava criando novas constelações, explorando mundos, desenhando mapas, como se tudo fosse de verdade. Ao amanhecer ela sempre desaparecia e em certas noites era apenas um reflexo. Mas sempre voltava com as marés ou ventanias, e juntos criavam instantes eternos.

Ainda era uma estrela imaginária. Procurada nas marés do dia não refletia o mesmo olhar. Queria tocá-la mas não podia. Havia um conflito de mundos. Nas noites solitárias ele ansiava pela correnteza que a traria de volta. Ontem a maré subiu e desceu, o vento veio e partiu e ela não apareceu. Várias noites se passaram. Um dia Mustapha encontrou-a na água refletida como uma estrela do mar, e a convidou.

- A maré está enchendo; logo será noite; os ventos estão começando e não há nuvens.
- Eu não posso.
- Aumentarei o vento pela manhã.
- O mar é fundo.
- Farei ondas maiores, marés descomunais.
- O mar me prende.
- Aumentarei a correnteza. Cedo ou mais tarde terás que soltar.
- Eu sei, mas não devo soltar. Quando o instante é eterno parece que é tudo belo, simples, mágico. O mundo real é sempre mais complexo.
- O mar é vasto. O instante é tudo. Sei que queres deixar-te levar.
- Quero.
- Então eu espero anoitecer.

Ela não veio. Nasceu o Sol e nada de Vênus. Mustapha voltou-se para seus universos imaginários e sua coleção de estrelas variáveis que surgem nas correntezas. Mas sempre que acorda antes do Sol ele ainda espera que ela apareça entre as nuvens.

9 comentários:

Nanci disse...

E graças ao Deus (seja Ele como for) que o Universo é assim, uma constante transformação.

Imagine o tédio que ele seria se fosse estático, não é?

Um beijo!

Nanci (não sei se é coincidência, mas além do Sukys, sou da Rocha também) :-)

Dri disse...

A eternidade deve estar no momento em que os pontinhos são ligados - o instante da delicadeza é uma das formas que a minha eternidade assume.

ZmuackzzZz.

Luciana Nunes disse...

Que lindo!
Adorei!!!

Olga Costa disse...

"Words are flying out like/
endless rain into a paper cup"
Talvez um dia eu fale das estrelas também...A idéia fomenta..."Jai guru deva om"... Mais perto do que longe..."Thoughts meander like/a
restless wind inside a letter box"... Um dia você estava certo quanto a viagem..."Limitless undying love which
shines/around me like a million suns"... Um nome falta......"Jai guru deva om".

Társis disse...

O texto está ótimo, é uma bela história. O que me fez lembrar se você conhece ou já jogou Taikodom:
www.taikodom.com.br

Abs!

Gabriel Dias disse...

Olá Helder, meu nome e Gabriel Dias, trabalho no Satyros Educação. Adorei seu texto, "Al Magestum", lindo! Gostaria de sua permissão para posta-lo no meu blog, com o devido crédito.

Obrigado!

Ps: Buti, o Bufom de Oberon, é inesquecível, parabéns!

Juliana disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
Juliana disse...

Olá, estou lendo o trabalho q fez na Divina Comédia de Dante Alighieri. Estou facinada. Não pretende terminar o Paraíso?
Obrigada
Parabéns
Juliana

Helder da Rocha disse...

Nunca digo "eu te amo" com palavras diretas. Eu conto histórias como esta. As histórias dizem isso de maneira mais intensa, só para ela. Para os outros, é uma simples história.

Mas tempos depois descubro que as palavras diretas fizeram falta, e que as histórias não foram suficientes. Talvez por as histórias parecerem hesitantes, por não dizerem nada diretamente, ou pela exclusividade não ser óbvia. Talvez a intensidade sentida tenha sido guardada junto com as ficções e fantasias. Então, chega um dia e que eu me rendo e digo "eu te amo" com essas palavras, diretas, mas da última vez que fiz isto também não funcionou, porque já era tarde.