
Sandro Botticelli: La Nascita di Venere (Galeria Uffizi, Florença)
Mustapha tinha uma coleção de estrelas. Não eram estrelas fixas como nos mapas do Al Magestum. Suas estrelas se espalhavam no tempo e no espaço e por todas ele era apaixonado. Mustapha sonhava com as estrelas com as quais elaborava constelações originais, únicas e inesquecíveis.
Nas suas relações mais intensas descobria territórios, planetas e luas. Mergulhava em oceanos alienígenas e ardia nos fogos siderais. Misturava-se com nebulosas vizinhas, acompanhava suas órbitas, conhecia suas galáxias e assistia ao nascimento de supernovas. Mustapha amava seus mundos e os explorava como um aventureiro. Fazia mapas, dava nomes aos astros e ligava os pontinhos. Universos nasciam em explosões apaixonadas e expandiam-se pelo espaço e pelo tempo. As forças gravitacionais cresciam, mas sempre havia um dia em que as órbitas se separavam. Mustapha era vulnerável a correntezas.
- As estrelas se movem.
- Mas todos os dias elas estão lá, certinhas.
- É ilusão. As constelações se desfazem. Quando o tempo é curto parece que é tudo claro, certo, preciso, mas o mundo real é sempre mais misterioso.
- Então nosso universo vai se desfazer?
- Certamente vai mudar, talvez se desfazer. Isto não impede que seja eterno.
- Como não?
- A eternidade está no instante.
E as correntezas podiam tudo menos mover a eternidade do instante, que engolia tudo em redemoinhos. Mustapha aprendeu a fazer buracos negros, singularidades, curvar o espaço e parar o tempo. Fez ventos e tempestades, agitou os oceanos, multiplicou as correntezas.
Até que descobriu a arte: um universo de reflexos que imitam a vida. E houve um dia em que ao contemplar a imagem móvel das estrelas sobre os mares, Mustapha ofuscou-se com a luz de uma estrela refletida. Era ilusão. A luz nascia de um universo de estrelas fixas, imutáveis, mas deixava-se refletir nas ondas reais que moviam-se na correnteza onde eram contadas histórias inventadas. A ilusão era sedutora. Mustapha apaixonara-se por um reflexo.
Mas dizem que houve uma noite em que, como na célebre obra de arte, Zéfiro soprou do leste e Vênus nasceu do mar, e por instantes antes do amanhecer um novo universo surgiu no mundo real. Mustapha, vulnerável às correntezas do vento, deixou-se incendiar pela estrela da manhã e em pouco tempo estava criando novas constelações, explorando mundos, desenhando mapas, como se tudo fosse de verdade. Ao amanhecer ela sempre desaparecia e em certas noites era apenas um reflexo. Mas sempre voltava com as marés ou ventanias, e juntos criavam instantes eternos.
Ainda era uma estrela imaginária. Procurada nas marés do dia não refletia o mesmo olhar. Queria tocá-la mas não podia. Havia um conflito de mundos. Nas noites solitárias ele ansiava pela correnteza que a traria de volta. Ontem a maré subiu e desceu, o vento veio e partiu e ela não apareceu. Várias noites se passaram. Um dia Mustapha encontrou-a na água refletida como uma estrela do mar, e a convidou.
- A maré está enchendo; logo será noite; os ventos estão começando e não há nuvens.
- Eu não posso.
- Aumentarei o vento pela manhã.
- O mar é fundo.
- Farei ondas maiores, marés descomunais.
- O mar me prende.
- Aumentarei a correnteza. Cedo ou mais tarde terás que soltar.
- Eu sei, mas não devo soltar. Quando o instante é eterno parece que é tudo belo, simples, mágico. O mundo real é sempre mais complexo.
- O mar é vasto. O instante é tudo. Sei que queres deixar-te levar.
- Quero.
- Então eu espero anoitecer.
Ela não veio. Nasceu o Sol e nada de Vênus. Mustapha voltou-se para seus universos imaginários e sua coleção de estrelas variáveis que surgem nas correntezas. Mas sempre que acorda antes do Sol ele ainda espera que ela apareça entre as nuvens.






9 comentários:
E graças ao Deus (seja Ele como for) que o Universo é assim, uma constante transformação.
Imagine o tédio que ele seria se fosse estático, não é?
Um beijo!
Nanci (não sei se é coincidência, mas além do Sukys, sou da Rocha também) :-)
A eternidade deve estar no momento em que os pontinhos são ligados - o instante da delicadeza é uma das formas que a minha eternidade assume.
ZmuackzzZz.
Que lindo!
Adorei!!!
"Words are flying out like/
endless rain into a paper cup"
Talvez um dia eu fale das estrelas também...A idéia fomenta..."Jai guru deva om"... Mais perto do que longe..."Thoughts meander like/a
restless wind inside a letter box"... Um dia você estava certo quanto a viagem..."Limitless undying love which
shines/around me like a million suns"... Um nome falta......"Jai guru deva om".
O texto está ótimo, é uma bela história. O que me fez lembrar se você conhece ou já jogou Taikodom:
www.taikodom.com.br
Abs!
T§
Olá Helder, meu nome e Gabriel Dias, trabalho no Satyros Educação. Adorei seu texto, "Al Magestum", lindo! Gostaria de sua permissão para posta-lo no meu blog, com o devido crédito.
Obrigado!
Ps: Buti, o Bufom de Oberon, é inesquecível, parabéns!
Olá, estou lendo o trabalho q fez na Divina Comédia de Dante Alighieri. Estou facinada. Não pretende terminar o Paraíso?
Obrigada
Parabéns
Juliana
Nunca digo "eu te amo" com palavras diretas. Eu conto histórias como esta. As histórias dizem isso de maneira mais intensa, só para ela. Para os outros, é uma simples história.
Mas tempos depois descubro que as palavras diretas fizeram falta, e que as histórias não foram suficientes. Talvez por as histórias parecerem hesitantes, por não dizerem nada diretamente, ou pela exclusividade não ser óbvia. Talvez a intensidade sentida tenha sido guardada junto com as ficções e fantasias. Então, chega um dia e que eu me rendo e digo "eu te amo" com essas palavras, diretas, mas da última vez que fiz isto também não funcionou, porque já era tarde.
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