21.12.07

Viagens

Passarei algumas semanas sem escrever neste blog. Hoje embarco para Paris, onde fico até o dia 24, e em seguida irei para a Itália. Passarei o Natal em Firenze e o Reveillon em Palermo. No dia 4 ou 5 irei à Tunísia, onde ficarei até o dia 8 ou 9. Voltarei a Paris dia 10 e estarei em São Paulo dia 13. Vou viajar com mochilão com amigos que encontrarei na Itália. Estarei em Paris, Firenze, Pisa, Roma, Palermo, Agrigento, Catania, Mt. Etna, Tunis, Dougga, Sbeitla, El Jam e talvez dê tempo ver os ksares nas redondezas de Tataouine (onde foi filmedo Guerra nas Estrelas). Na volta eu contarei todas as histórias. Vou recuperar o Francês e Italiano e talvez aprender um pouco de Árabe :) Não sei se escrevei no blog, mas provavelmente postarei algumas fotos no Flickr. Bom final de ano para todos e até 2008!

15.12.07

O que é um plágio?

Se eu escrevo um texto, baseando-me em informações obtidas em fontes de domínio público, encontradas em enciclopédias e textos históricos sobre fatos que todos conhecem, sem acrescentar nenhuma pesquisa original, análise crítica ou conclusão, mas organizando as informações que eu considero mais relevantes dessa pesquisa, usando palavras, pontuação, ordem dos assuntos e ênfases escolhidas por mim, e ainda citando todas as fontes, esse texto é:
  1. Um plágio das fontes originais ou enciclopédicas onde eu o pesquisei?
  2. Um texto de domínio público que pode ser reproduzido livremente sem citar o autor (autor ou organizador?), já que não traz nenhuma informação, dado ou conclusão original?
  3. Um texto original que, apesar de não trazer nenhuma informação ou visão nova sobre o assunto, apresenta as informações sob uma forma própria, escolhida pelo autor, guiado pelo que ele considera importante?
Pesquisando nestas fontes eu escrevi este prefácio para uma tradução, em 1998. As fontes continham informações contraditórias, já que tratam da história de personagem histórico que viveu há mais de 700 anos e do qual não se possui dados precisos. Analisando as várias fontes, eu escolhi as que me pareceram mais coerentes (embora não tenha certeza e possa estar errado) e elaborei um roteiro que utilizei para escrevê-lo. Várias fontes estavam em outras línguas, principalmente inglês. O prefácio é uma biografia de Dante Alighieri. A partir do roteiro, eu escrevi, rescrevi, escolhi as palavras, as vírgulas, os parágrafos, e produzi o texto do qual o parágrafo abaixo foi extraído.
A maior parte do poder em Florença estava então nas mãos dos guelfos - opositores do poder imperial. Mas o partido em pouco tempo se dividiu em duas facções. A causa foi novamente uma rixa entre famílias, desta vez, importada da cidade de Pistóia. Os Cancellieri era uma grande família de Pistóia, descendentes de um mesmo pai que tivera, durante sua vida, duas esposas. A família Cancellieri se dividiu quando um membro desajustado da família assassinou o tio e cortou a mão do primo. Os descendentes da primeira esposa do Cancellieri, que se chamava Bianca, decidiram se apelidar de Bianchi. Os rivais, que defendiam o jovem assassino, se apelidaram de Neri (negros) em espírito de oposição. A briga tomou conta de Pistóia e a cidade acabou sofrendo intervenção de Florença, que levou presos os líderes dos grupos rivais. Mas as famílias de Florença não demoraram a tomar partido e, por causa de uma briga de rua (...)
A seguir explicarei os negritos.

Anos depois, foi publicado numa edição especial sobre Dante Alighieri da revista Entre Livros (que aparentemente deixou de circular mês passado), um texto sobre a vida de Dante, assinado pelo professor Dr. Carlos Berriel, PhD, da Unicamp. O texto é três vezes maior que o meu, mas tem vários parágrafos semelhantes, como este, por exemplo:
A maior parte do poder em Florença estava então nas mãos dos guelfos - opositores do poder imperial. Mas o partido em pouco tempo se dividiu em duas facções. A causa foi uma rixa entre famílias, oriundas da cidade de Pistóia. Os Cancellieri eram uma grande família dessa cidade, descendentes de um mesmo pai que tivera, durante sua vida, duas esposas. A família Cancellieri se dividiu quando um membro desajustado da família assassinou o tio e cortou a mão do primo. Os descendentes da primeira esposa de Cancellieri, que se chamava Bianca, decidiram chamar a si mesmos de Bianchi. Os rivais, que defendiam o jovem assassino, passaram a se identificar como Neri (negros), em espírito de oposição. O conflito tomou conta de Pistóia, e a cidade acabou sofrendo a intervenção de Florença, que prendeu os líderes dos grupos rivais. Mas as famílias de Florença não demoraram a tomar partido, posicionamento deflagrado por uma briga de rua (...)
Sim. Os negritos são as únicas diferenças. O texto publicado na Entre Livros foi revisado e (pelo menos este parágrafo) foi corrigido e melhorado em relação ao que eu publiquei no site. Não é apenas um parágrafo semelhante que aparece no artigo publicado na Entre Livros. 80% do meu texto foi usado. Eu publiquei uma comparação e destaquei os trechos semelhantes.

Escrevi um post na época e enviei uma carta para a editora, para o autor, e para a Unicamp, onde o autor é professor. Recebi resposta da editora (e indiretamente do autor), que publiquei neste outro post. Isto faz quase um ano. Há poucos dias recebi a seguinte resposta da reitoria da Unicamp, reproduzida abaixo:
Assunto: Denúncia de Plágio
De: Laisez Jael Cabral Puya Ernandes (email omitido)
Data: 12 de dezembro de 2007, 09h22
Para: Helder da Rocha (email omitido), ‘Ranali’ (email omitido)

Prezado Senhor Helder

De ordem do Sr. Chefe de Gabinete informo que:

Após submeter sua denúncia a nossa Procuradoria Geral, a mesma manifestou-se:
“Pelo exposto detalhadamente até aqui, a Comissão, diante de todo o apurado, conclui que o princípio da anterioridade do escrito apontado como reproduzido se justificaria se o autor pudesse comprovar ou esclarecer, sem qualquer dúvida, que é o criador original dos dados ou informações contida em seu texto. Havendo a coincidência informal e textual de dados bibliográficos a respeito de Dante, tal fato não parece, a nosso ver, ferir propriedades autorais reclamadas por Helder Rocha. Assim, em vista de todo o apurado, não julgamos consistente e clara a configuração de contrafação literária no caso da denúncia em tela”.

Na oportunidade colocamo-nos à disposição.

Atenciosamente

Laisez Ernandes
Assist. Chefe de Gabinete
O grifo é meu.

Se eu entendi a carta, de acordo com as conclusões da comissão formada pela Unicamp para analisar o assunto, o ocorrido não se trata de um plágio porque eu realmente não sou o criador original dos dados e informações que ali estão e eu não descobri novos fatos da história da Itália ou de Dante. Isto [e verdade. Todas as informações que eu usei eram conhecidas. Eu sou o criador original do texto, da forma de apresentar esses dados e informações. Copiar e assumir a autoria de um texto existente que traz informações que todo mundo já sabia não é considerado plágio?

Ou eu não sei o que é plágio ou a Unicamp não sabe o que é plágio. O que é plágio, afinal? Alguém tem uma definição? Eu posso recortar e colar trechos inteiros de um artigo da Enciclopédia Brittanica (que fale de assunto de conhecimento geral) assinar como sendo de minha autoria e incluir na minha tese de doutorado? Será que isto vale para qualquer universidade, ou somente se eu fizer meu doutorado na Unicamp?

12.12.07

Não está no texto, está na vida!

A Santa. A Madonna, de Edward Münch
A Madonna, por Edward Münch

Uma faísca de luz numa noite clara de verão espalhou o fogo. Começou suave, mas fez desabar a casa onde ela dançava. As fundações estavam gastas mas ninguém tinha coragem de tocá-las com medo que as paredes caíssem, até que veio a guerra, e uma inocente faísca. As estruturas vulneráveis sucumbiram, o incêndio alastrou-se e tudo que era estável desintegrou-se em chamas. Nem parecia real, talvez fosse mero reflexo ou cena teatral. Ela, que multiplicara-se em personagens, já não cabia no lugar que tornara-se pequeno demais. Descobriu-se só no vasto e imprevisível mundo, e saiu da cena, livre, guiando-se pelos caminhos abertos pelo fogo.

Ele imaginou-se uma faísca e sonhou com o fogo, onde descobriu seu próprio rosto refletido como num espelho. “O homem”, imaginou ter ouvido alguém falar. Olhou novamente e sentiu as chamas, e novamente o eco refletiu “O fogo”. Era sonho, pois ao acordar só lembrava que era outro, apenas um ator, um ator medíocre. Não lembrava mais nada. Sua identidade parecia existir apenas no texto que esquecera. Era teatro. Mas quando acordava o seu coração continuava em chamas então confundia-se e não sabia se amava a atriz ou a personagem. Talvez nada disso exista, de fato, na vida. É um truque. Talvez esteja apenas no texto.

Nem tudo é real. Nem tudo é apenas teatro. É um truque. E o que é que a Madonna de Münch tem a ver com tudo isto? Não sei. Talvez eu tenha trocado um ou dois idiomas que se misturaram. Assista El Truco (e não leve muito a sério). A última chance é neste próximo domingo, dia 16 de dezembro às 18 horas, no teatro dos Satyros Dois, Praça Roosevelt 134, Centro. É a última chance mesmo! Não haverá outra. Ingresso: 5 a 20 reais. Reserve e chegue cedo pois vai lotar.

(O texto acima e a imagem não têm nada a ver com a peça. Sobre esta peça eu não escrevo nada sério; só viajo. Mas venha ver!)