7.10.07

Últimas Notícias de uma História Só

Foto: divulgação, blog de Otavio Martins
"También hay sorteos impersonales, de propósito indefinido: uno decreta que se arroje a las aguas del Éufrates un zafiro de Taprobana; otro, que desde el techo de una torre se suelte un pájaro; otro, que cada siglo se retire (o se añada) un grano de arena de los innumerables que hay en la playa. Las consecuencias son, a veces, terribles."
-- Jorge Luis Borges, La Loteria en Babilonia (Ficciones)

Últimas Notícias de uma História Só é a história de um seqüestro. Não, isto seria uma simplificação, pois o seqüestro poderia nunca ter ocorrido. Se eu não tivesse assustado o pombo enquanto caminhava pela calçada naquela noite, ele não teria ido para a rua, o motorista não teria tentado desviar, e o motoqueiro não teria sido derrubado. Um engarrafamento monstro teria sido evitado em plena noite de sexta-feira. Foi lamentável, pois o engarrafamento prejudicou Victor, que tinha apenas dez minutos para descer a Consolação e não perder a peça, mas por conta do trânsito levou mais de vinte minutos e não encontrou Flávia, que ele não conhecia, mas que teria encontrado na fila se ele tivesse chegado na hora. Certamente os dois teriam iniciado um papo, pois Flávia levava um exemplar de Ficções, de Jorge Luis Borges, para ler enquanto esperava, já que foi ao teatro sozinha. Victor, que é louco por Borges, jamais deixaria de perceber esse detalhe. Mas o fato é que Victor ganhou um bilhete premiado da Loteria da Babilonia e nunca chegou, e nunca mais chegaria, pois irritado com o trânsito acabou pegando uma contramão, batendo de frente com um ônibus cujo radiador foi irreversivelmente danificado pelos ossos do seu crânio. O acidente bloqueou a rua e atrapalhou os planos de Vanderley, Roberto e sua cúmplice (da qual por um lapso de memória, neste instante, não me lembro o nome), que desistiram de levar adiante um assalto, que se tivesse ocorrido, provavelmente fracassaria, ou evoluiria para um seqüestro mas eu não tenho tanta certeza, pois em momentos como esses coisas incríveis acontecem, até mesmo chuvas de sapos.

Mas nada disso tem a ver com a peça, exceto por um ou dois nomes próprios, a hora e talvez algumas circunstâncias. Se por acaso você chegou a ler este texto, talvez queira saber que história é essa da qual eu falo, porque talvez, apesar de tão diferente, talvez seja tudo uma história só, apenas as últimas notícias de uma história que ainda não terminou.

* * *

Como sempre, isto não é uma crítica de teatro. É só mais uma viagem inspirada pelas impressões despertadas numa madrugada da sexta para o sábado num teatro da Praça Roosevelt.

A peça Últimas Notícias de uma História Só é uma criação coletiva dirigida por Otávio Martins (ex-Cia. do Latão) com Alex Gruli, Luciano Gatti e Melissa Vettore, e está em cartaz toda sexta e sábado, à meia-noite, no Satyros II. E se por um acaso você chegar um pouco mais cedo, tipo antes das 18h, aproveite e assista também El Truco, de Roberto Audio, com o Núcleo Experimental dos Satyros, as 18h, no mesmo teatro.

Amanhã irei ao Rio de Janeiro, a trabalho, mas à noite tentarei ver algumas peças do Festival do Rio. Volto quinta. Na quinta à noite começam as Satyrianas.

5.10.07

Anna Abda

“Ha ocurrido una cosa que es increíble...”
J.L. Borges, “Emma Zunz”

Louise Burghes Azevedo faleceu no dia 14 de junho de 2006, aos 86 anos. Ela era viúva. Seu marido, um arquiteto, era falecido há mais de quarenta anos. Acredita-se que ela tinha dois filhos homens, que moravam fora do país, e que sua mudança para o apartamento da rua Baronesa de Itu ocorrera após a morte repentina de um deles. Louise era uma velhinha simpática. Sorria, fazendo sumir seus olhos azuis na sua pele clara e enrugada, mas não falava muito. Morava sozinha com um mordomo e uma enfermeira que às vezes eram vistos levando-a para caminhar pelos jardins do condomínio. Nos últimos anos ela era vista sempre numa cadeira de rodas, usando chapéu e óculos escuros. Praticamente não falava. Recebia visitas ocasionalmente, mas ninguém sabia muito sobre ela. Não sabiam, por exemplo, que Louise Burghes não era seu verdadeiro nome.

A coleção completa das obras de Jorge Luis Borges que encontrei no sebo do Brandão era assinada por Anna Loewenthal, Buenos Aires, 15 de janeiro de 1962. Era uma coleção atraente. Os volumes tinham capa verde, detalhes dourados e letras grandes. Eu certamente a teria comprado se não fosse o detalhe de que um dos volumes estava com várias páginas faltando. Faltava uma história inteira.

Saiu no jornal O Correio do Povo, de Porto Alegre, em 15 de maio de 1963 a notícia de que “foram encontrados mortos a tiros em sua propriedade rural no município de Bagé, o casal de aposentados Dora Martinez e Zacarias Herrera. O crime teria acontecido por volta das onze e meia da noite de ontem mas o casal só foi encontrado hoje pela manhã, pelo caseiro que chamou a polícia. Até o momento não há pistas dos assassinos.”

Em 11 de novembro de 1918 Hannah Abda conheceu Samuel Loewenberg, apaixonou-se por ele e tornou-se sua amante. Loewenberg era um homem rico, sério e discreto, e era casado. Sua esposa, Rachel, era uma distinta senhora da família Gauss. Eles nunca tiveram filhos. Quando Hannah ficou grávida, seis meses depois, Samuel passou a sustentá-la secretamente com uma pensão mensal. Pouco depois do nascimento de Anna, Rachel morreu de causas desconhecidas e Samuel tornou-se recluso, distante e religioso. Mesmo assim, não cortou a pensão que pagava a Hannah e comunicava-se com ela ocasionalmente por carta. Mas no ano seguinte Samuel foi assassinado, a pensão cessou e Hannah afundou na miséria.

Eurico me ligou no fim da tarde para dizer que havia encontrado as páginas que faltavam da coleção de Borges. Ele as encontrou dentro de um dos diários de Louise Burghes. Voltei do sebo com a coleção, os diários e as páginas soltas de Emma Zunz. Os diários, escritos em espanhol, não traziam nada de muito interessante. Falavam de coisas banais, da falta de dinheiro, das visitas inoportunas. Quase sempre reclamava da vida, uma vida sem graça, onde pequenos problemas eram ampliados para dar sentido às coisas. Em outras páginas havia contas, números de telefone, endereços, notas curtas, rabiscos. Meu interesse maior era pelo que estava solto dentro dos diários: fotos antigas, recortes de jornais e cartas incompletas.

Anna tinha quase dois anos quando seu pai, Samuel Loewenberg, sócio-proprietário da fábrica de tecidos Schreiber & Loewenberg, foi assassinado. Ele foi morto com três tiros no peito, numa noite de sábado, 14 de janeiro de 1922 por uma ex-funcionária que o surpreendeu no escritório. Alegando legítima defesa por ter sido vítima de assédio sexual, Manuela Mayer confessou o crime e submeteu-se a exame de corpo de delito comprovando o ato. Julgada e inocentada, desapareceu dois anos depois e nunca mais foi vista. Dizem que ela casou-se com um marinheiro sueco e mudou-se para o Brasil.

No jornal Diário de Notícias, também de Porto Alegre, a notícia de 27 de maio de 1963 informando que “o exame dos cadáveres do duplo assassinato da semana passada em Bagé revelou um detalhe macabro: uma assinatura, feita com um objeto cortante, no pulso de ambas as vítimas. O criminoso assinou sua obra com o nome de uma mulher: Anna Loewenthal.”

No dia 29 de novembro de 1947, Hannah Abda morreu de tuberculose em um hospital da periferia de Buenos Aires. Em 14 de maio de 1948, sua filha Anna casou-se com o arquiteto George Burghes, assumindo o nome de Louise. No dia seguinte George e Louise Burghes mudaram-se para Londres.

O último recorte datado de 25 de agosto de 1963, é do Jornal do Comércio de Bagé, e noticia que “a polícia de Bagé recebeu ontem uma carta anônima, assinada pela misteriosa Anna Loewenthal, acusando suas vítimas de serem assassinos. De acordo com a carta, Dora Martinez é na verdade Manuela Mayer, acusada de matar, em janeiro de 1922, o empresário argentino Samuel Loewenberg, em Buenos Aires. A carta é longa e revela em riqueza de detalhes as estratégias que teriam sido usadas pela vítima para realizar o crime perfeito e escapar como inocente. Especialistas acreditam que as informações da carta são falsas e foram inventadas pelo assassino, certamente um psicopata, e descartam a possibilidade de que se trate de uma mulher.”

Nas folhas arrancadas de Emma Zunz, que estavam soltas dentro do diário de Louise Burghes, os nomes das personagens estavam sublinhados, e havia uma nota no final, assinada por Anna Loewenthal em Buenos Aires, 31/01/63 (um dia após a morte do seu marido), que dizia: “George partiu então Louise não mais existe. Mas hoje ocorreu uma coisa que é incrível. Descobri Anna, filha de Hannah e Aaron Loewenthal. Ela está de volta para vingar o assassinato do pai e a infelicidade de sua mãe. A partir de hoje Anna Loewenthal é a Morte, e ela chegou para buscar Emma Zunz, onde quer que ela se encontre.”

Até onde pude verificar, foi tudo verdadeiro. Só eram falsas as circunstâncias, a hora, e um ou dois dos nomes próprios.


Clube de Leituras sobre Borges

Este conto foi inspirado pelo Clube de Leituras sobre Jorge Luis Borges organizado por Idelber Avelar, através do seu blog O Biscoito Fino e a Massa. Idelber convida todos a participarem das discussões através da caixa de comentários do seu blog ou escrevendo sobre os contos estudados. O Clube continua e haverá estudo de vários outros contos de Borges. Emma Zunz foi o conto de quarta-feira passada. Eu não consegui escrever sobre o conto, então escrevi uma resposta a Borges. O último parágrafo pertence a ele.