26.9.07

Blindness


"(...) Falo em figurantes pois neste filme eles não são apenas gente que cruza o quadro imitando o movimento das ruas. Aqui estão todos cegos. Todo mundo tem que atuar e esse pequeno detalhe foi o motivo que quase me tirou deste filme quando pensei em dirigi-lo. Cada vez que imaginava uma cidade ocupada só por cegos a imagem que me vinha era a de uma população caminhando pelas ruas com os braços estendidos como num filme B, ou Z, de Zumbi. Socorro, pensava. Mas sei que cegos não andam assim, então a primeira providência foi chamar o Chris Duvenport, preparador de atores, e convidá-lo para me ajudar a evitar que este Ensaio Sobre a Cegueira virasse um remake da Volta dos Mortos Vivos.

De cara, o Chris aceitou o convite. Chamou sua assistente, colocou uma venda preta nos olhos e foi andar pelo Ibirapuera. Se animou com a sensação e resolveu correr, até encontrar uma árvore. (...)"
O trecho acima é do quinto post do Diário de Blindness, iniciado há pouco mais de um mês pelo diretor Fernando Meirelles que está filmando Blindness, uma adaptação para o cinema do livro Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. O filme é uma superprodução com orçamento milionário, que envolve centenas de figurantes (a maioria interpreta cegos) e atores de vários países. Estão no elenco Julianne Moore, Mark Ruffalo, Danny Glover, Gael García Bernal, Alice Braga e outros. As primeiras filmagens aconteceram em Guelph e Toronto, no Canadá, e agora ele está filmando em São Paulo e Montevideo.

O blog é ótimo e os posts são muito bem escritos. Aproveite para ler o blog inteiro enquanto há poucos posts. Fernando atualiza o blog aproximadamente uma vez por semana.

24.9.07

A utopia das ciclovias


Estacionamento de bicicletas em Amsterdam

Por causa do Dia Mundial sem Carro, no último sábado (que fracassou em São Paulo), os meios de transporte alternativos voltaram a ser assunto na mídia. Falou-se muito do uso das bicicletas, da falta de infraestrutura urbana para esse tipo de transporte, e da famigerada solução de sempre: a ciclovia.

É uma discussão inútil. Sempre que esse assunto está em pauta os grupos de interessados se reunem com os governos que produzem projetos mirabolantes. A solução não é a ciclovia. Encher a cidade de ciclovias é a solução mais cara e inviável para estimular o uso de bicicletas. É improvável que esses projetos saiam do papel em menos de uma década ou mais. Nem as motos têm vias exclusivas suficientes; como acreditar que as bicicletas terão? Vão tirar de quem? Dos carros? Dos pedestres?

Eu não me refiro às ciclovias de brinquedo, que ligam nada a lugar nenhum (e que há um monte delas na cidade). Fazer ciclovias assim é fácil, mas se a idéia é incentivar o uso da bicicleta como meio de transporte, essas ciclovias não ajudam em nada.

Ah sim, existem os críticos que acham uma loucura qualquer tipo de investimento nessa área. Já ouvi argumentos que São Paulo não é uma cidade para bicicletas, que tem ladeiras demais, que o trânsito não permite (já bastam as motos e os carroceiros). Também é muito fácil encontrar motivos, fora a preguiça, para não trocar o carro pela bicicleta como transporte individual: o calor, o frio, a chuva, o Sol, o ar seco, a poluição, o risco de assalto, o risco de ser atropelado, os caminhões, o suor, as ladeiras, a lama, os esgotos, os buracos. Eu também consigo enumerar muitos motivos para não caminhar, para não pegar ônibus nem metrô, enfim, há vários motivos para nunca sair de casa.

Na verdade há muita gente que usa bicicleta como meio de transporte na cidade, mas são pessoas que usam por necessidade e talvez não usassem se tivessem carro. Será que as ciclovias iriam fazer com que as outras pessoas, as que usam carro para tudo, aderissem à bicicleta? Eu duvido.

Eu uso a bicicleta como meio de transporte (bem menos do que uso carro, táxi, metrô e ônibus). Utilizo geralmente em trechos pequenos (menos de 6 km). As ciclovias não me fazem falta. Há vias de baixo movimento suficientes para esse tipo de deslocamento. Eu só não utilizo mais porque nunca sei se no meu destino encontrarei um lugar para deixar a bicicleta. E é esse, para mim, é o maior problema da cidade em relação à adoção da bicicleta como meio de transporte.

Eu posso sair de carro e deixá-lo estacionado na rua, se houver vaga, ou pagar um estacionamento. Para a bicicleta eu preciso levar comigo um cadeado e cabo de aço de 2 metros (que permita prender o quadro, as duas rodas e o selim) e de um lugar seguro para prendê-la. Mas nem sempre é fácil. Bicicletas não são sempre bem vindas. Já fui abordado por seguranças de um prédio que não deixaram que eu prendesse a bicicleta na grade de um muro que ficava na calçada. Um deles me informou que se eu insistisse, eles cortariam o cabo. Há exceções, mas a maior parte dos estacionamentos privados e de prédios comerciais também não aceita bicicletas.

Eu uso a bicicleta para ir a uma academia que fica a um quilômetro e meio da minha casa. É uma grande academia multiesportiva que apóia atletas e promove competições de ciclismo urbano mas não possui sequer um lugar na calçada para estacionar bicicletas. A maior parte dos freqüentadores vai de carro ou de moto e o estacionamento conveniado que há no seu subsolo não aceita bicicletas.

Eu utilizaria mais a bicicleta se houvesse onde deixa-la. Não preciso que a cidade tenha dezenas de quilômetros de ciclovias. Preciso de um lugar na estação de metrô mais próxima (que ficam a menos de um quilometro e meio da minha casa) para deixar a bicicleta, e ter esperanças de encontrá-la inteira quando voltar. Consigo chegar em qualquer uma dessas estações em cinco a dez minutos, trafegando por vias locais de pouco movimento. É sempre um problema encontrar um lugar (os poucos lugares bons estão tomados de bicicletas) e os outros são arriscados.

A prefeitura anuncia que está investindo em estacionamentos gratuitos nas estações de metrô e trem. São garagens cobertas, com um funcionário em tempo integral. Ficam lotadas. Mas nem precisava de tanto. Um rack em um local movimentado já seria um grande avanço (já que a disputa é por espaço nos postes). O problema desses investimentos maiores é que eles acontecem numa lentidão insuportável. Até agora inauguraram duas garagens, eu acho. Vão inaugurar mais duas no ano que vem. Talvez em cinqüenta anos chegue uma garagem de bicicletas na estação Sumaré ou Vila Madalena.

Mas por que os estacionamentos que aceitam carros e motos não podem aceitar também bicicletas? Vez ou outra eu pergunto os motivos. Uma vez recebi a informação de que a seguradora não cobria danos ou furtos de bicicletas e por isto o estacionamento não poderia aceitá-los. Será este o motivo? Será que não há como resolver isto? Eu até pagaria uma taxa para estacionar a minha bicicleta com segurança num estacionamento. Há tantos estacionamentos privados na cidade. Não creio que seria necessário um grande investimento da parte deles e da prefeitura para que pudessem oferecer um lugar para acomodar bicicletas. Com certeza seria uma solução bem mais rápida, barata e eficiente do que continuar investindo na utopia das ciclovias.

22.9.07

A Loteria em Babilônia


As Moiras (fiandeiras do destino), por Francisco de Goya.

A Loteria em Babilônia – o conto de Jorge Luis Borges – me parece um monólogo. Consigo até visualizar o ator, sentado em uma cadeira na sala de espera de uma estação, ou de um porto, ou aeroporto, contando, com entusiasmo, a sua história para alguns outros que, como ele, também esperam. Ele se move, gesticula, fixa-se nos olhos de sua platéia, varia o tom e intensidade da voz, cala-se, olha para o lado, e volta a falar com emoção ao descrever suas experiências de vida inacreditáveis. Ele quer a nossa atenção.
“Olhem: à minha mão direita falta o indicador. Olhem: por este rasgão da capa vê-se em meu estômago uma tatuagem vermelha: é o segundo símbolo, Beth (...)”
Quando finalmente consegue prender a atenção da platéia, ele explica a razão que está por trás de tudo: a loteria. Mas não é uma simples loteria. É um jogo de acasos controlado por uma organização onipotente e secreta que tem o poder sobre a sorte e o azar de cada habitante, que interfere na natureza manipulando e intensificando o acaso. Essa organização, que ele chama de A Companhia, tem o poder de causar tempestades ou calmarias, determinar se alguém irá matar ou morrer, alcançar a glória ou a desgraça. Através de pequenas ações, às vezes inócuas, distribui a sorte ou o azar a todos os jogadores. Como as Moiras da mitologia, a Companhia fia os destinos de todos, dia após dia, até a hora da morte.

Ele está de partida, e a nave que vai levá-lo embora já chegou na estação, ou no porto. Mas o tempo que resta é suficiente para que ele nos conte toda a história da loteria, em detalhes. É uma história fascinante, inverossímil. Ao final, admitindo a influência da loteria, confessa ter talvez exagerado, ou mesmo mentido:
“Sob o influxo benfeitor da Companhia (...) eu mesmo, nessa apressada exposição, falseei certo esplendor, certa atrocidade.”
E conclui:
“É indiferente afirmar ou negar a realidade da tenebrosa corporação, porque Babilônia não é outra coisa senão um infinito jogo de acasos.”
A Loteria na Babilônia é, portanto, uma metáfora do acaso. Pode não ser o acaso. Pode ser, como se define, uma ordem que interfere no acaso, mas qual a diferença? Como distinguir o crime perfeito de um acidente? Se um evento for tão bem planejado que seu resultado pareça um evento do acaso, embora não seja, há como dizer que ele não o é? Suponha que estamos em Babilônia, e lá dois carros deslocam-se em sentidos opostos numa rodovia. Um dos motoristas invade a outra faixa. Os carros colidem. Os motoristas morrem. Um acidente. Uma fatalidade. Será? Um animal cruzou a pista? O motorista se distraiu? Uma peça quebrou? Como ter certeza que não houve interferência?

É como se o mundo fosse uma simulação, um programa. Uma ordem de eventos precisamente calculada pode ser o acaso dentro desse sistema. Se você consegue habitar fora do sistema terá condições de entender o algoritmo e decifrar sua chave, mas dentro dele essa ordem parece o caos, o acaso. É por isto que não existe, no mundo dos computadores, nada realmente aleatório (para nós que habitamos fora deles.) No conto, a loteria começa como um sistema simples contido no universo, e é, portanto, compreensível, mas quando se expande a ponto de ocupar todo o universo, torna-se cada vez mais incompreensível para os que habitam nele. Somente quem está de fora é capaz de ter certeza que os eventos não são obra do acaso. Aos habitantes, resta apenas especular sobre isto, ou aderirem à fé.

A Companhia me lembra uma das minhas teorias de conspiração favoritas: a sociedade secreta dos Illuminati da Baviera, que seus seguidores acreditam ainda existir e ser formada por pessoas vivas e mortas. Os Illuminati exercem um governo paralelo do mundo, controlando os rumos da humanidade, influindo nas decisões dos governos, das organizações poderosas, até mesmo alterando o clima. Sua justiça é como a justiça divina: incompreensível aos mortais comuns. Assim, como Deus e A Companhia, suas decisões são indistinguíveis do acaso.

A história, portanto, brinca com a teoria da predestinação, de que não temos controle algum sobre o noso futuro. Nesse contexto tem semelhanças com um conto de Philip K. Dick: Minority Report. Enquanto o conto de Borges descreve uma organização que interfere na realidade, intensificando o caos e causando eventos que não eram previstos, o Minority Report descreve uma organização que utiliza-se de videntes para descobrir eventos que irão acontecer, produzindo um relatório, que é usado, dentre outras coisas, para identificar pessoas que irão cometer um crime e prendê-las antes que elas o façam. Em ambos os contos a predestinação faz parte da natureza: as pessoas não têm a liberdade de decidirem o rumo que darão às suas vidas, não existe livre arbítrio.

Há contos que me fazem viajar nas imagens, outros me enchem de idéias e me estimulam a pensar (nem sempre estou disposto a isto.) Vários contos de Borges são assim, mas eles combinam imagens (nem sempre fáceis de formar) com idéias. Pela forma como descreve a realidade, A Loteria em Babilônia se assemelha a outro conto de Borges: A Biblioteca de Babel.

O conto também associa o jogo de sorte e azar com a alegria de viver. O narrador explica que as pessoas tinham prazer em participar dos acasos, das paixões. Os que não tinham como comprar o bilhete ficavam com inveja dos que se aventuravam no jogo e poderiam ganhar uma grande sorte ou um grande azar. Todos querem viver intensamente. Buscam o terror e a esperança. Qualquer coisa é melhor que a monotonia da paz. Acreditam que a vida vale a pena quando corre-se o risco de perdê-la. Participar da loteria é como entregar-se completamente às paixões da vida, mesmo arriscando encontrar a dor em vez da felicidade. Para amar a vida, é preciso amar o acaso.

Clube de Leituras sobre Borges

Esta resenha sobre o conto A Loteria em Babilônia foi inspirado pelo Clube de Leituras sobre Jorge Luis Borges organizado por Idelber Avelar, através do seu blog O Biscoito Fino e a Massa. Idelber convida todos a participarem das discussões através da caixa de comentários do seu blog ou escrevendo sobre os contos estudados. O Clube continua e haverá estudo de vários outros contos de Borges. A Loteria em Babilônia foi o conto de segunda-feira passada. Eu cheguei atrasado.

14.9.07

El Truco



Who are you? And why, why do you hide?

I dreamt I was the boy who had died
So I saw myself running alone
In a bleak narrow street made of stone
With tiny dark houses on each side
I sought the place where they hid my face
The silent grave that would end my chase
It had no portrait, no cross, no name
Just a mirror in a silver frame
I sought the place where it all began
And there I found the face of a man.

Ein Mann.

Mann?

I'm just a spark of light in a clear summer night
I have no matter, no past, just light, reflected
A well known face
The face... of a man
When I wake up from this dream I am just an actor
A mediocre actor
My memory is blank
But my heart... It's on fire.

Feuer! Überall! Feuer!

Fire!

Fuego? Quizás no. Es solamente una pieza, somente uma peça, um truque.

El Truco, de Roberto Audio, com o Núcleo Experimental dos Satyros. Espaço dos Satyros 2 (3258-6345), praça Roosevelt 124, Consolação (São Paulo). Sábados e domingos às 18 horas, até 16 de dezembro. 70 lugares. Duração 90 minutos.

Sinopse (www.satyros.com.br): Um escritor mal-sucedido relata tudo o que vivenciou num bunker, durante uma guerra desconhecida, com um grupo de sobreviventes que tenta ensaiar o espetáculo “Sonho de uma Noite de Verão” de William Shakespeare.

Elenco: Ana Lúcia Felipe, Ana Pereira, Andressa Cabral, Angela Ribeiro, Cléo de Páris, Edna Elizabeth, Fabiana Souza, Helder da Rocha, Ivam Cabral, Laerte Késsimos, Marba Goicocchea, Maria Campanelli Haas, Paulo Maeda, Ricardo Socalschi, Teka Romualdo, Thammy Allonso, Thiago Baliero, Wagner Mendonça, Wanderley Safir e Washington Calegari.

Não me pergunte sobre a peça porque eu não sei nada sobre a peça. Eu sou o Bute, o bufão de Oberon. O Bute não sabe de nada; ele não decorou o texto. Assistam.

www.satyros.com.br.

6.9.07

E non ho amato mai tanto la vita!


E lucevan de stelle: Luciano Pavarotti (12/10/1935 - 06/09/2007) interpretando o pintor Mario Cavaradossi em cena da ópera "Tosca", de Giacomo Puccinni.

Ópera é teatro. Não basta ser um exímio cantor. Pavarotti também era um ótimo ator, como mostra este vídeo enviado por minha amiga Alessandra. Seus olhos, seu corpo, seus movimentos pelo espaço revelam a personagem que interpreta e tornam o seu canto muito mais dramático.