30.5.07

Fantasmas



Originalmente em inglês: www.helderdarocha.com.br/bloggy.

Sábado. Nove horas da noite. Uma sala escura. Um sofá. Uma mesa. Uma porta. Um pouco de luz vaza por baixo da porta (se não fosse isto não veríamos nada). Tudo está em silêncio.

Mas agora parece que alguém tenta abrir a porta pelo lado de fora. Ouvimos a chave girar uma vez, duas vezes. Afastamos o olhar quando a porta é aberta por causa da luz, que é muito intensa. O ar parece incendiar-se.

Tudo está muito branco e claro demais. Estamos cegos. Mas, depois de um tempo, a claridade gradualmente se dissipa e mais uma vez percebemos a sala. Não há ninguém. A sala está escura, como sempre esteve. Seja quem foi que a atravessou não se importou em acender as luzes. Ele, ou ela, deixou algo sobre a mesa (uma mochila, me parece) e correu para dentro. Percebe-se uma luz fraca em outra parte da casa. Podem-se ver os reflexos nas paredes e móveis, pelo corredor. Ouvimos o som de água derramando. Alguém fazendo xixi. Som de descarga, de porta fechando, de luz sendo desligada. Ninguém retorna à sala. Tudo está escuro novamente. Ouvimos o som de um violino, mas está distante.

A mesa de madeira escura tem em volta quadro cadeiras vazias da mesma madeira escura. Há livros espalhados sobre a mesa, folhas de papel, café derramado. Não dá para perceber os detalhes. O lugar está muito escuro. Tem cheiro de café. Há o retrato de uma mulher na parede. Ela olha para o alto, mas não sorri.

Não há alma viva na sala. Alguns podem acreditar que há duas pessoas sentadas, mas isto não é verdade. Não há ninguém na sala. Alguém pode acreditar que essas duas pessoas sentadas estão conversando, mas é provável que seja apenas imaginação.

- Está vendo?
- Eu não vejo nada. Está muito escuro.
- Tem cheiro de madeira. Faz muito tempo que eu senti cheiro de qualquer coisa. Esqueci que podia cheirar.
- Não sinto cheiro de nada.
- Quando atravessamos aquela rua, naquela tarde, os carros frearam muito perto, quase me tocaram. Eu lembro do cheiro dos pneus. Eu pude sentir o ar que foi deslocado. Você não parou, nem voltou. Correu na direção deles.
- Quando foi isso? Eu lembro disso.
- Estava frio, não estava? Você sentiu a pulsação? Teve a sensação de que estava caindo?
- Eu, eu ainda não entendo isso.
- Você ainda é muito jovem.

O violino agora soa mais alto. Em algum lugar, uma porta foi aberta. Ouvimos passos e alguma luz se espalha pelo corredor, refletindo nas paredes. Alguém tosse. “Merda!” diz uma voz de homem. Uma superfície é arranhada. Alguém espirra, inspira ruidosamente e espirra de novo. Luzes são apagadas com um clique. Mais passos. Uma porta fecha com força. Volta a escuridão e o violino distante.

Mas o som logo pára. Depois de alguns cliques, o silêncio é substituído pelos acordes altos de uma guitarra, ritmos de bateria, vozes gritando. Parece uma banda dos anos setenta. Parece que há vozes falando ao contrário. Parece.

- Baixa isso. Eu não gosto.
- Simplesmente não ouça, e pronto. Não precisa. Ouça os cabos.
- Os cabos?
- Sim. Eles são bons para sentir também. Vibram. E são quentes.
- Eu não sei sentir.

O telefone começa a tocar. Depois de cada toque, o eco some no silêncio. Toca três vezes. Quando termina, a música está mais baixa e podemos ouvir a voz de um homem que vem do quarto. Eu saberia o que ele diz se as outras vozes na minha cabeça ficassem em silêncio, mas elas não calam.

- Lembra de quando a gente brincava?
- O que?
- Quero dizer, eu costumava subir na cerejeira do nosso quintal e me esconder de tal maneira que mamãe não me acharia mesmo se olhasse na minha direção.
- Não sei do que estás falando.
- Era sábado, eu acho. Não sei o que fiz de errado. Eu escorreguei, eu acho. Ainda lembro do filme na minha mente, como se fosse agora. O chão lentamente se aproximando, a grama escurecendo, o vento, a luz do sol. Lembro que senti os galhos rasgando minha pele do braço, as folhas no meu rosto. De repente ficou escuro e frio.
- Do que estás falando?
- É quente e molhado quando você toca, mas parece frio quando escorre sobre a pele, pulsando. Agora eu consigo sentir tudo, a grama, as folhas da cerejeira, o cheiro de chuva, o cheiro dos insetos. Mas no dia não senti como se estivesse caindo. Parecia que flutuava. Ainda não lembro do meu nome, mas você sabia.
- Eu?
- Sim. Você chegou lá antes de mim. Foi você quem a chamou, e ela estava tão triste. Eu tinha conseguido. Eu contei para ela antes da gente sair que eu conseguiria. Eu contei para ela mas ela não levou a sério. Achou que eu estava brincando.

A música foi interrompida com um clique ruidoso. A voz do homem no quarto ficou mais alta. Podemos distinguir palavras “… indo agora … não importa... vejo você já.” e um clique.

- Não tenho certeza se eu entendo.
- Você vai entender depois que eu for embora. Leva um tempo.
- Vais me deixar? Por que?
- Eu tenho que deixar você.
- Para onde vais?
- Não vou muito longe. A gente vai se encontrar. Algum dia.
- Quando?
- Não sei.
- Vamos nos lembrar um do outro?
- Mais ou menos. Talvez. Talvez não. Talvez a gente sinta que se conhece, de algum lugar.
- Não vamos nos reconhecer?
- Talvez nos sonhos, talvez, nos sonhos.

Tosse.

- Ele está doente?
- Está de mudança. Eu já lhe disse isto.
- Para onde.
- Para cá.
- Mas ele já não está aqui?
- Não. Ainda não.

Uma luz intensa e ofuscante toma conta da sala. Na cegueira branca ouvimos passos, a porta fechando, a chave girando. Mas depois tudo se dissipa lentamente para a escuridão. Tudo está outra vez em silêncio. Nem tanto. Podemos ouvir os cabos vibrando. Se você se concentrar pode distinguir diferentes freqüências, ou interrupções, como se fossem vozes.

- Para onde ele foi?
- Encontrar-se com ela, espero.
- Quando volta?
- Em umas duas horas, talvez menos.
- Menos.
- E ele se muda para cá, espero.
- Para cá?
- Sim, aqui.
- E a luz?
- Não haverá mais luz.
- Talvez ele nos veja.
- Ele vai ver a gente.
- Mas, o que ele vai pensar quando nos vir? O que vai acontecer?
- Provavelmente vai ficar confuso, como quando você me viu pela primeira vez.
- O que é que devemos fazer?
- Nós, nada. Você. Eu não estarei aqui. Vou me mudar para lá. Espero.
- Hoje?
- Sim.
- Mas eu preciso de ti. Não posso existir sozinho.
- Você não existe, e se existisse não estaria sozinho. Ele estará aqui com você. Pergunte a ele como é o cheiro da chuva, se ele conseguiu sentir o gosto dela, se estava frio.
- Eu não sei como fazer isto.
- Sabe sim. Você vai descobrir.

Carros passam na rua projetando suas luzes no interior da sala escura. Não ouvimos mais os cabos por causa da chuva. Chiando como um rádio, ela sintoniza minha mente nas suas freqüências, e nela eu ouço as vozes.

- Tenho que ir.
- Mas ele não chegou ainda.
- Olhe ele ali, deitado no sofá. Daqui a pouco acorda.
- Para onde vais?
- Encontrá-la. Me mudo para lá, eu espero.
- E não voltas?
- Não. Espero que não.
- Esperas?
- Espero que ela continue, e não desista.
- E se ela interromper? Tu voltas?
- Não. Me mudarei para outro lugar. Espero.
- Sentirei tua falta.
- Eu também.

Um raio. Trovão. Os cabos não vibram mais.

A sala está escura e em silêncio. Tem cheiro de café. Há o retrato de uma mulher na parede. Ela olha para cima e não sorri. Não há alma viva na sala. Alguns talvez acreditem que há uma pessoa dormindo no sofá e outra, a observando, sentada numa das cadeiras vazias que está diante da mesa, mas isto não é verdade. Não há ninguém na sala. É provável que seja tudo minha imaginação.

27.5.07

Elvis e o centro da terra: parte V (final)

Esta é a quinta e última parte da história iniciada neste post.

Já era dia. Chovia bastante e o trânsito na Marginal Tietê estava infernal. O ônibus tinha saído da via expressa e estava reduzindo a velocidade como se fosse parar. Pela primeira vez pude prestar atenção e perceber os outros passageiros. Alguns conversavam. Outros riam. Era um ônibus normal. A viagem é que foi estranha.

Na poltrona ao lado, meu companheiro Elvis dormia com seus óculos escuros. Não, foi engano. Ele estava acordado e assim que ele percebeu que eu também estava não perdeu a oportunidade de falar primeiro.

- Que chuva, hein?

Permaneci uns minutos olhando para ele. Não sei se ele continuou falando. É bem provável que sim (ele não ficaria calado), mas não lembro o quê. Fiquei aliviado ao contemplar meu reflexo dos seus óculos escuros. Foi tudo apenas um terrível pesadelo. Por um instante senti-me feliz.

Mas não durou muito. Quando ele parou de falar e sorriu, lembrei-me de todas as coisas que aconteceram na noite anterior, e tive raiva. Antes que ele começasse a falar de novo eu manifestei minha raiva.

- Cretino.

- Como?

- Você é um cretino. Por que você fez isto, hein? Eu não disse que não queria seus óculos?

- Como assim? Não entendi.

- Ah, você entendeu sim! - levantei a voz. - Você pôs esses malditos óculos no meu rosto depois que eu peguei no sono! Não foi? Seu filho da mãe! Foi horrível! Uma das piores experiências de toda a minha vida! Nunca mais quero passar por isto.

Ele parecia assustado.

- Eu não!

- Olha aqui. Eu não sou idiota. Eu lembro das suas histórias. Fique longe de mim e não fale comigo, ouviu? Se você vier com conversa ou pior, com esses óculos para o meu lado de novo eu mato você, entendeu?

- Tudo bem, desculpe - ele gaguejou e baixou o rosto.

O ônibus finalmente parou e abriu a porta.

- E por que diabos esse ônibus parou? - perguntei.

- É a primeira parada. Ele também pára perto da rodoviária, na Barra Funda, na praça da República, ...

- Eu não perguntei a você! Estou falando sozinho. Eu vou descer aqui, agora. Com licença.

Eu me levantei aos tropeços, me espremendo entre ele a poltrona da frente. Desci do ônibus sem olhar para trás, paguei o motorista e esperei na chuva enquanto ele tirava a minha mala. Caminhei lentamente até o abrigo. Paranóico, esperei que o ônibus saísse sem tirar os olhos da porta. Precisava ter certeza que ele iria embora e que o dito-cujo não desembarcaria. Desceu apenas mais uma pessoa. Uma mulher. Não era o Elvis. O motorista entrou no ônibus, fechou a porta e deu partida. Esperei mais um pouco e fui atrás de um taxi. No caminho, a mulher segurou meu braço.

- Senhor, com licença.

Tive um susto. Ela continuou.

- O senhor deixou cair isto dentro do ônibus.

Estendi a mão direita e ela me deu um par de óculos escuros. Não eram meus. Eu não uso óculos escuros. Eu odeio óculos escuros. Mas não me importei. Aceitei. Ela sorriu e eu agradeci com um sorriso. Olhei para os óculos, abri, pus no rosto e entrei no táxi.

- Para onde vamos? – perguntou o motorista.

Eu pensei um pouco, sorri, e dei-lhe as instruções.

- Siga em frente, e não pare até acabar o asfalto. Chegando lá eu explico o resto do caminho.

26.5.07

Elvis e o centro da terra: parte IV

Esta é a quarta e penúltima parte da história iniciada neste post.

Era ele, o velho careca.

- O senhor tem que ir.

- Como assim? – respondi de mau humor sem me levantar – Eu mal cheguei.

- O senhor disse que iria embora no dia seguinte.

- Sim, mas ainda é noite. Deixe-me dormir um pouco mais. Daqui a pouco eu levanto.

Não deu cinco minutos. Ele me cutucou de novo. Desta vez havia mais umas dez pessoas no quarto, homens, mulheres e crianças, a maioria parecia índio. Eu me levantei assustado e sentei na rede.

- O que houve? - perguntei.

- O senhor não vai embora?

- Eu lhe paguei por uma noite. A noite não terminou ainda. O que está acontecendo? Que horas são?

- São quatro horas.

- E vocês me acordam às quatro horas da madrugada? – levantei a voz, irritado – Quanto tempo dura uma noite pra vocês?

Eles cochicharam entre si, mas não responderam.

- O que está acontecendo? – perguntei.

Ninguém respondeu.

- Vejam bem, eu lamento atrapalhar a rotina de vocês, mas eu só quero dormir algumas horas. Eu estou aqui contra a minha vontade, mas assim que amanhecer vou dar um jeito de sair daqui, podem ficar tranqüilos. Prometo que vou embora no primeiro ônibus que aparecer.

- Aqui não aparece ônibus – respondeu o velho.

- Tudo bem – observei impaciente – mas eu cheguei aqui em um ônibus, talvez, quem sabe, amanhã chegue outro, ou um carro, um caminhão. Eu farei o possível para ir embora.

- Aqui não chega nem nunca chegou ônibus algum, nem carro, nem caminhão.

A conversa estava ficando irracional. Eles me olhavam como se eu fosse um alienígena e pareciam cada vez mais com um bando de loucos. Ninguém se movia nem ia embora. Só me encarava. Eu decidi me levantar.

- Tudo bem, qual é o problema? Me expliquem!

Houve um princípio de tumulto. Todos eles, com exceção do velho, deram um passo para trás. Pareciam apavorados e por um instante achei que iriam me atacar.

- Queremos que o senhor vá embora – falou o velho. – Já amanheceu. Já está claro. Por que o senhor não vai?

- Claro? Está claro? O senhor é cego? Está tudo escuro!

- Cego estás tu. Escuro é o mundo que está na tua cabeça, homem! – respondeu o velho com agressividade – Faz horas que estás nessa rede. São quatro horas da tarde e se tu não percebes é porque não tiras esses óculos da cara! Este não é teu lugar. Por que voltaste? Vai embora!

Neste momento eu tive uma das visões mais terríveis. Pus a mão no meu rosto e senti os óculos. Mas não foi apenas isto. Senti meus cabelos longos, minhas costeletas, o colar de contas, meu corpo magro. Não podia ser. Era um pesadelo. Tive medo de me olhar no espelho pois eu já sabia o que iria ver, então num impulso, arranquei aquela coisa do meu rosto e atirei longe.

Foi como um choque. Meu corpo endureceu e fiquei sem ar. Achei que ia morrer. A luz me ofuscou e antes que eu conseguisse fechar os olhos me empurrou para trás como se eu tivesse levado um tiro. Caí sentado num lugar macio e logo em seguida o chão começou a tremer. O silêncio foi ocupado por um zumbido ensurdecedor e constante, metal rangendo, roncos e buzinas. No ar havia um cheiro ácido de mofo misturado com fumaça. Ouvi muitas vozes misturadas ao som de chuva forte, mas não vi ninguém nem senti o molhado. Senti calor e mal estar. Minhas costas doíam nos músculos e na coluna. Minha boca ardia. Finalmente abri os olhos e tudo ficou claro.

Parte final

25.5.07

Elvis e o centro da terra: parte III

Esta é a terceira das cinco partes de uma história iniciada neste post.

Aproveitei para descer e esticar as pernas.

O cheiro da noite lembrava proximidade de chuva, mas não estava quente nem frio, nem seco nem úmido. Não havia brisa, nem vento, nem claridade no horizonte. O céu estava completamente negro, como se estivesse coberto por uma camada uniforme de nuvens escuras. Não havia estrelas. Não havia insetos.

O caminho até o posto era iluminado pela luz amarelada que vazava das janelas e portas. Era possível distinguir três construções. Um mercadinho ou bar com três portas no centro, um casebre com duas janelas acesas à esquerda e uma casinha menor, com duas portas iluminadas por uma lâmpada fraca, mais perto, à direita.

Percebi vultos no interior do bar. Não consegui distinguir ninguém, pois a luz era muito fraca. Lembrei-me que se eu entrasse no bar provavelmente encontraria o Elvis (era estranho não ouvir a voz dele). Preferi adiar esse encontro e passar primeiro na casinha à direita, que parecia ser onde ficavam os banheiros.

Não lembro o que aconteceu depois. Quando eu saí algo havia mudado, ou talvez tenha mudado quando entrei no bar.

O chão do bar era liso de cimento vermelho queimado, paredes amarelas, lisas e limpas. Era tudo simétrico. Diante das duas paredes laterais havia exatamente duas mesas quadradas com duas cadeiras cada, e nos fundos, um balcão de madeira escura. Na parede atrás do balcão havia duas estantes vazias. No meio delas pendia uma cortina de retalhos vermelhos que escondia uma porta.

Além disso só o silêncio, e mais nada. Não havia ninguém nas mesas nem atrás do balcão. O bar estava vazio!

Voltei para a porta e procurei pelo ônibus mas não consegui enxergá-lo, então corri até o lugar onde ele deveria estar. Não estava. Custei a acreditar. Era impossível que tivesse sumido tão rápido, sem fazer barulho algum. Eu eu deveria ouvir o motor ou pelo menos conseguir ver o reflexo dos faróis.

Parado e em silêncio, a única coisa que ouvi foi o meu coração batendo acelerado. Será que eu passei mais tempo no banheiro do que eu me recordava? Temi que estivesse ficando louco, mas logo minha mente voltou a pensar de forma prática.

Era um ônibus clandestino, não havia dúvidas. O motorista com certeza não contava os passageiros. Seria difícil rastreá-lo. Minha mala eu poderia considerar perdida. Pelo menos fiquei com a mochila, dinheiro e documentos. A questão seria o que fazer agora.

Voltei ao bar. Parei diante do balcão, bati palmas e fiquei esperando que alguém me atendesse. Silêncio. Levou um minuto mais ou menos até começar a ouvir o som de passos se aproximavam. Tive até um susto quando a cortina foi afastada e dela surgiu uma mulher gorda de cabelos longos com aparência de índia. Sem alterar sua expressão séria, ela caminhou lentamente até o balcão onde eu estava e permaneceu imóvel, me olhando sem dizer nada, como se esperasse que eu falasse alguma coisa. Foi o que fiz:

- Oi! Tudo bem? É que eu acabo de perder meu ônibus. A senhora saberia me informar como eu poderia alcançá-lo? Talvez alguém me pudesse dar uma carona. Ou talvez se a senhora souber como pego um taxi para a cidade mais próxima.

Ela esperou que eu terminasse de falar, baixou os olhos e saiu em silêncio. Mais um minuto e novos passos. Desta vez apareceu um velho pálido e alto de olhos azuis. Ele era magro, careca e usava um uniforme militar cinza. Me encarou sério como se estivesse me examinando. Como ele também não falava, eu tomei a iniciativa:

- O ônibus que parou aqui, o senhor está lembrado? Ele partiu e me deixou por engano. Eu preciso alcançá-lo. O senhor sabe como?

- Aqui não pára ônibus – ele respondeu, lentamente, com uma voz grave e monotônica.

- Por favor, pergunte às pessoas que trabalham aqui - insisti. - Parou um ônibus aqui sim. Ele partiu faz dez minutos no máximo. Eu queria a sua ajuda. Talvez o senhor tenha um carro ou conheça alguém que possa me dar uma carona para tentar alcançá-lo. Eu pago.

- Eu não tenho carro.

- O senhor conhece alguém aqui perto que tenha? Um telefone para chamar um taxi?

- Não.

Desisti.

- Então me diga quando passa o próximo ônibus para São Paulo. Vou precisar também de algum lugar para passar a noite.

Ele não respondeu nada. Ficou só me encarando.

- O senhor me ouviu? Quando passa o próximo ônibus para São Paulo?

- Aqui não passa ônibus.

- Tudo bem. Deixa pra lá. Me arrume então um lugar para passar à noite. Amanhã eu me viro.

Ele calou-se de novo e permaneceu imóvel. Eu já estava ficando impaciente, até que respondeu:

- Dez.

- Dez o que?

- Dez reais.

- Por mim está ótimo.

Ele saiu pela lateral do balcão e saiu pela porta da frente do bar. Eu o segui. Entramos na casa, que era bem simples. O chão era de areia e as paredes mal tinham reboco. Dentro da casa voltei a sentir o cheiro de chuva. Era estranho, pois não havia vento algum.

Entramos pela sala. Sentados num sofá vermelho estava a mulher que vi no bar com duas meninas que pareciam gêmeas. Deviam ter uns sete anos e assistiam a um programa de desenho animado numa TV preto e branco com o som desligado. Se eu não me engano era o episódio de Pernalonga com Marvin, o marciano que vive querendo destruir a terra. Quando eu passei na frente os três me olharam rapidamente, todos sérios, mas logo retornaram suas atenções à TV.

O velho me levou até uma porta à direita, onde uma cortina de retalhos vermelhos isolava a sala de um quarto onde havia apenas uma rede, um espelho e uma janela, que estava aberta. Ele parou e olhou para mim estendendo a mão, onde eu coloquei uma nota de dez reais que tirei da minha mochila. Ele olhou contra a luz, que era fraquíssima, guardou o dinheiro e saiu em silêncio.

Deitei na rede com minha mochila e peguei no sono muito rapidamente. Acho que nem lembrei de apagar a luz. Eu dormi, eu acho, uns trinta minutos quando senti que alguém estava me cutucando. A princípio eu achei que era sonho. Na segunda vez foi mais forte e balançou a rede, que rangeu, e veio acompanhado de uma voz, que me chamava.

- Acorde! Senhor? Acorde por favor!

Continua na parte IV

23.5.07

Elvis e o centro da terra: parte II

Esta é a segunda das cinco partes de uma história iniciada neste post.

- O coronel Fóshti - contava Elvis -, que já deves ter ouvido falar, vive lá há muitos anos. É um explorador americano que nasceu em Londres e dizem que morreu no Brasil. Mas que ele morreu não é verdade. Ele está bem vivo no centro da terra, sabia?

Eu já havia ouvido essas histórias. Acho que o tal coronel chamava-se Fawcett. Ele misturava essas histórias com outras tão absurdas que eu acabava prestando atenção, e consequentemente não conseguia dormir.

– Eu não cheguei a entrar no lago do portal, porque, tu sabes, se entrar não volta mais, mas eu tive a coragem de chegar até a beirada pelo caminho do terceiro fim. É mais simples e não depende da conjunção de astros. Sabes como funciona?

Eu não queria saber. Nada me interessava naquele momento exceto o silêncio. Ele calou-se por um instante, talvez esperando que eu respondesse, mas como eu permaneci imóvel com os olhos fechados, ele continuou.

- Vou explicar como eu fiz. Assim que cheguei na cidade, eu desci do ônibus e entrei no primeiro táxi. Mandei o motorista seguir em frente, sempre em frente, até acabar o asfalto. Depois continuamos toda a vida até acabar a estrada, e quando ela também acabou eu desci e caminhei até não ter mais como continuar. Sabes por que? Porque tudo na frente era escuro. Um breu completo. O silêncio era absoluto. Eu havia chegado ao fim.

Adorei esta parte, pena que não era o fim.

- Era muito escuro! Nossa! - quebrou o silêncio com empolgação - Passei mais de uma hora contemplando a escuridão. E tinha gente morando lá, acreditas? Eu vi um pontinho amarelo no horizonte e fui atrás para descobrir o que era. Chegando mais perto descobri que a luz vinha do interior de uma casa onde vivia uma família humilde, um casal, um velho, filhos e netos. Era um pessoal muito calado, pensei até que eram mudos. Eles nunca viram a luz do sol, tu acreditas?

Eu não estava prestando atenção. Minha mente estava ocupada em fabricar idéias assassinas.

- Mas para eles era tudo claro. Por não ter dia, também não tinha noite. Para mim era só noite. Para eles era só dia. Incrível, não é? E sabe de uma coisa, eu posso te ajudar a chegar lá. Eu não me engano; sei que tu és um iluminado e buscas essa experiência. Não é verdade, meu amigo?

Com isto eu não agüentei. Abri os olhos. A única verdade é que nesse momento eu queria esganá-lo. Minha paciência já estava no limite. Encarei-o com uma cara bem feia para ver se o danado se tocava.

Ele sorriu.

- Eu sabia. Então eu vou começar com...

- Não! Por favor. Não faça isto. Me desculpe. Eu sei que tudo isto deve ser muito interessante, mas no momento, se é que me entende, eu só quero dormir. Eu preciso dormir, entende?

- Claro que entendo. O sono é fundamental. E eu posso lhe ajudar.

Não seria difícil. Calar a boca, por exemplo, seria um bom começo, mas ele tinha uma idéia melhor.

- Eu vou te ensinar uma técnica de meditação que eu desenvolvi especialmente para relaxar em viagens de ônibus.

- Não, não. Muito obrigado. Eu prefiro dormir mesmo.

- Mas tu não estás com sono.

- Eu vou ficar logo, logo, não se preocupe.

- Então coloca isto. Vai ajudar.

Ele tirou não sei de onde um par de óculos escuros e quando percebi, estava tentando por no meu rosto.

- O que é isto? Sai! – eu gritei, afastando a coisa.

- São óculos especiais de relaxamento. Tu vais conseguir relaxar melhor. Eu uso o tempo todo. Ele produz uma energia que ativa a aura e...

- Não, eu não quero. Tira essa coisa daqui. Eu nem imagino como você consegue enxergar no escuro com isto.

- Ah, com eles eu vejo tudo. Tu sabes o que é tudo? É tudo como se fosse um sonho, ou uma viagem na mente, sabe? Ele vai ajudar a expandir tua consciência e assim vais conseguir ver ...

- Pelo amor de deus, cara, você não entende que eu não quero ouvir suas histórias?

Pela primeira vez ele permaneceu calado, me olhando, de óculos escuros, sem sorrir. Fiquei meio sem jeito por ter gritado.

- Me desculpe ter sido grosso com você - continuei, mais calmo -, eu sei que você tem boa intenção, é que eu realmente preciso dormir. A viagem é longa e eu preciso de silêncio, de paz, entende? Se você puder me deixar só por um instante.

- Mas coloca os óculos. Tu vais te sentir melhor. Ele traz o silêncio e a paz que tu procuras, e ainda vais ter um sono tranqüilo e não sentirás o tempo passar. Quando acordares já estarás em São Paulo.

Lá vinha o maluco outra vez tentando colocar aqueles óculos no meu rosto.

- Porra meu! Eu já não disse que não quero! Mas que inferno! Me deixa em paz, por favor, ok?

- Tudo bem - ele gaguejou - Me desculpa. Se quiser, eu espero para te mostrar quando o ônibus parar.

Eu bati o pé com força causando um estrondo na lataria do ônibus e o encarei com uma cara muito, muito feia. Ele virou o rosto e não ousou abrir a boca. Finalmente eu havia conseguido a paz e o silêncio que eu procurava.

Ah, mas dormir foi uma dificuldade. A simples presença do Elvis já era motivo para irritação. Minha mente estava alerta, aguardando ouvir a voz do desgraçado a qualquer instante.

Mas ela não veio, e em algum momento, não sei como nem quando, eu consegui adormecer. Devo ter dormido bastante. A simples ausência da voz do cretino fez com que o ruído do motor e o ranger da lataria parecessem o mais puro silêncio. Era um silêncio profundo, completo, absoluto. Eu sequer sentia os buracos da estrada. Parecia até que o ônibus estava parado.

E estava mesmo. Tive até um susto. Achei até que havia morrido, mas não, o ônibus estava parado. Olhei pela janela e vi que a uns cem metros havia algo que parecia um posto de beira de estrada. Não havia ninguém dentro do ônibus. Aparentemente todos tinham descido, inclusive meu inimigo Elvis.

Continua na parte III

21.5.07

Elvis e o centro da terra: parte I

Era para ser uma viagem curta. Eu devia estar em São Paulo em duas horas, mas o avião não pôde pousar por causa da chuva. Era o único vôo da semana. A cidade era um ovo. A companhia iria providenciar um táxi para um hotel na capital, que ficava a três horas de viagem, onde eu e os outros três passageiros esperaríamos o vôo da manhã seguinte com partida marcada para onze e meia. Como já eram cinco horas da tarde, eu só chegaria em São Paulo depois de umas vinte horas, e olhe lá. Isto, se o vôo não atrasasse como era costume. Mas eu não tinha escolha. Sentei-me na sala de embarque e fiquei esperando o táxi. Eu estava tão distraído que não percebi o cara que sentou-se do meu lado, até que ele me perguntou.

- Tu vais para São Paulo?

Era uma figura que parecia ter saído de um filme dos anos 70. Magro, costeletas, bigode, camisa listrada, colar de contas, calça de boca de sino e sapato de duas cores. Parecia uma versão caipira e mais baixinha do George Harrison. Sorria o tempo todo. Apesar da pouca luz do fim da tarde, usava óculos bem escuros e parecia não ligar para isto.

- Estou tentando, mas pelo visto só vou chegar amanhã à tarde, se tiver sorte.

- Eu sei de um ônibus que sai daqui a pouco e chega em São Paulo em 12 horas.

- Ah é? Então eu vou nele. Onde fica a rodoviária?

- Ele não pára na rodoviária. Passa na beira da estrada. É só mandar parar. Queres? Eu vou agora esperar por ele.

Então fomos para a beira da estrada, que ficava ao lado do aeroporto. Esperamos uns vinte minutos, e nesse meio-tempo o cara não parou de falar por um segundo sequer. Ele começou se apresentando com um cartão de visitas.

- Meu nome é Adalberto Wanderley, mas podes me chamar de Elvis.

- Elvis?

- É. Elvis Presley.

- Ah. Ok.

De acordo com o cartão, ele fazia de tudo: era músico, encanador, motorista, escritor, inventor, pintor, guia turístico, veterinário, místico, e mais um monte de outras coisas que não lembro.

- Você faz tudo isto?

- Faço bem mais. É que não cabe no cartão.

- Entendi.

Chegou o ônibus. Devia ter uns cinqüenta anos. Era uma coisa prateada com listras vermelhas e milhares de penduricalhos atrás do pára-brisa. Combinava com o Elvis. Eu achei que aquilo jamais chegaria em São Paulo, então resolvi que seria melhor retornar à opção do táxi. Ah, mas meu guia de viagem foi mais rápido. Já havia entregue minha bagagem ao motorista que estava fechando a mala do ônibus. Um ônibus feio e velho, pensei, mas inteiro; talvez não tivesse freios, mas já vi piores. As estradas estão repletos deles e eles atravessam o país todos os dias. Eu agüentaria tranqüilamente as 12 horas. Era só arrumar um jeito de pegar no sono.

O resultado foi pior que eu imaginava. O interior do ônibus cheirava a fumaça, e as poltronas de couro vermelho tinham manchas claras e escuras que pareciam mofo. Tive certeza quando sentei. Mas nenhum desses era o pior dos problemas. Já consegui dormir em ônibus fedorento, barulhento e úmido. O pior era que o ônibus estava lotado e as únicas duas poltronas vazias estavam juntas lado-a-lado, ou seja, eu teria que viajar do lado do Elvis Wanderley.

O ônibus partiu, e, como era de se esperar, meu companheiro de viagem iniciou o seu discurso.

- Sabias que a Terra é oca?

E assim começou uma longa exposição místico-pseudo- científica sobre mundos subterrâneos e terras desconhecidas. No início eu fui educado e depois passei gradualmente a demonstrar pouco interesse pela conversa, para ver se ele desistia, mas isto não causou efeito. Como eu não interferi, a história começou a ficar mais absurda.

- Eu já estive lá, no centro da terra.

- Sério?

Ele se animava com essas respostas monossilábicas e falava cinco minutos sem parar. O jeito era não responder. Decidi fechar os olhos e fazer de conta que havia adormecido, mas não funcionou. Ele mesmo respondia às perguntas que fazia. E assim acabei aprendendo sobre a vida e os costumes dos habitantes de Atlântida, bases alienígenas que existem na lua, e outros temas que recheiam as teorias conspiratórias mais esdrúxulas.

Continua na parte II

19.5.07

São Paulo

Rio Pinheiros in Sao Paulo
São Paulo, sobrevoando o rio Pinheiros no início da tarde de uma sexta-feira a caminho do aeroporto de Congonhas.

São Paulo
Quarta-feira passada, um pouco antes do meio dia, já fabricando seu smog (vista do bairro do Ipiranga).


Alguns minutos depois, a uns 8km de altura, Moji, Guarulhos, a Serra da Cantareira e no horizonte, a Serra do Mar. A cidade inteira cabe num olhar. Que tal um mapa?