14.2.07

Resposta da editora

Eu enviei na segunda-feira o email abaixo para a editora EntreLivros.
----- Original Message -----
From: Helder da Rocha
To: [nome da editora omitido*]@duettoeditorial.com.br
Sent: Monday, February 12, 2007 2:11 AM
Subject: A Entre Livros publicou um texto plagiado

Prezado Editor,

O texto publicado entre as páginas 6 e 13 da edição especial Entre Classicos sobre Dante Alighieri, assinado pelo professor doutor Carlos Eduardo O. Berriel, PhD, contém parágrafos inteiros retirados do meu texto "Dante Alighieri", uma minibiografia do poeta que faz parte da minha tradução em prosa do Inferno e Purgatório disponíveis desde 1999 na Web brasileira. O meu site é a principal referência em português sobre Dante (verifique pesquisando no Google).

Verifiquei que o professor utilizou-se de 80% do meu texto para compor 1/3 do seu artigo. A utilização foi não autorizada, não cita a fonte e contém não apenas as idéias do texto mas as mesmas seqüências de palavras, pontuação, e parênteses com pequenas variações na ordem dos parágrafos e escolha de sinônimos.

Eu disponibilizei, na Internet, uma página para a comparação dos dois textos, onde o Sr. poderá verificar a semelhança. O link é http://www.helderdarocha.com.br/blog/comparacao.html. Eu já divulguei esse link para várias pessoas (jornalistas, acadêmicos, cineastas, escritores) que conhecem meu site desde que foi criado, e tenho como provar que meu texto foi escrito antes.

Espero providências da revista quanto a ssa situação. Este email tem a finalidade apenas de informá-lo(s) a respeito.

Atenciosamente,

Helder da Rocha

E obtive como resposta um e-mail que contém uma resposta do professor Carlos Berriel ao editor da série EntreClássicos, Manuel da Costa Pinto. O e-mail está parcialmente reproduzido abaixo:

Prezado Helder,
(... trechos omitidos ...)
Abaixo, reproduzo o e-mail que o prof. Berriel, que está fora do país, enviou a Manuel da Costa Pinto. (...)
[nome da editora omitido*]
Editora
EntreLivros

Caro Prof.Manuel,
lido o material que voce me enviou, e numa resposta imediata, longe que estou de meus materiais (estou fora do pais) posso responder o seguinte:
1) o leitor tem parcialmente razao em suas queixas.
2) utilizei-me de suas informacoes basicas sobre datas e algumas passagens da vida de Dante, como alguem que se utiliza de um verbete de enciclopedia para um artigo de imprensa. As informacoes utilizadas, entretanto, nao sao produto de uma investigacao original por parte do leitor, mas fazem parte de um patrimonio cultural acumulado nos ultimos muitos seculos, pelo menos desde a biografia de Dante publicada, ainda no seculo XIV, por Bocaccio, e incessantemente enriquecida pela tradicao de pesquisa sobre vida e obra dantesca. Este material foi igualmente extraido, pelo leitor justamente queixoso, deste acervo, e nao poderia proceder de outra forma. Seria muito dificil, por exemplo, escrever de uma forma original que Dante foi apaixonado por Beatriz, e que a viu pela primeira vez aos 9 anos, e pela segunda vez depois de outros 9 anos.A leitura de meu artigo indica que seu cerne e possivel interesse està na parte nao exclusivamente informativa, mas que sugere uma compreensao do sentido cultural da vida do poeta. Meu artigo, lido isentamente, està na parte nao reclamada.
3) Entretanto, acredito que involuntariamente causei desconforto ao leitor, pelo que lamento profundamente.
Atenciosamente,
Carlos Berriel

O que vocês acham? Mais tarde escreverei mais sobre este assunto. Estou sem tempo agora.

Update: eu removi o nome da editora uma vez que ela não trabalha mais na Entre Livros e não tem responsabilidade direta nessa história.

9.2.07

Ei, esse texto é meu!


Falsários na décima vala do oitavo círculo do Inferno, por Gustave Doré

"Vimos dois pecadores sentados, um de costas para o outro, com os corpos totalmente cobertos de sarnas. Eles se coçavam freneticamente, afundando suas unhas na pele e tentando, em vão, atenuar a coceira que nunca cessava." (Inferno, Canto XXIX - oitavo círculo, vala dos falsários)
Eu acho que muitos de vocês sabem que eu tenho um site sobre Dante Alighieri, onde publiquei uma tradução em prosa (ou adaptação, versão, como quiser chamar) dos dois primeiros livros da Divina Comédia, que eu fiz de 1998 a 2000. O site não tem só as traduções mas também notas, imagens, desenhos, e outros textos que escrevi durante a pesquisa. Apesar de ter iniciado o trabalho sem grandes pretensões, eu o levei a sério, pesquisei em vários livros, traduzi do inglês, do italiano, e revisei várias vezes. Caprichei também no site, na navegação, na estrutura, usando os melhores recursos que havia na época (não mudei nada desde 2000).

Nunca terminei a Divina Comédia, mas nesses sete anos o site atraiu inúmeros visitantes. Recebi centenas de e-mails de estudantes, pesquisadores, produtores de cinema, promotores de eventos culturais, jornalistas, escritores. Pode ser que seja “apenas mais uma” tradução em prosa, mas não é igual às outras. Estudei e procurei ser fiel ao autor, dentro das possibilidades de uma obra em prosa. Enviei para seis editoras. Tive resposta negativa de duas, e as outras nunca responderam. Ano passado disponibilizei em formato PDF online para quem quisesse baixar e imprimir. O Inferno tem em média 1000 downloads por mês, e o Purgatório pouco mais que a metade disso. O site é a principal referência sobre Dante e sua obra em português, e foi a primeira tradução em português publicada a Internet. Digite “Dante” ou "Dante Alighieri" no www.google.com.br e meu site é o segundo link (o primeiro é da Wikipedia, que cita meu site). Digite “Divina Comédia” e é o primeiro link.

Hoje eu apenas mantenho o site no ar. Já pensei em terminar, em rescrever tudo, em fazer o Paraíso. Talvez aconteça, mas não vai ser tão cedo (talvez com um estímulo - tipo uma editora interessada - as coisas mudem). Mas ainda me interesso sobre o que falam do site. Enquanto esperava um vôo atrasado há duas semanas, achei uma edição especial da revista Entre Livros sobre Dante, com artigos biográficos, textos sobre suas obras, influência nas artes, traduções, livros. Logo comprei a revista e passei a folheá-la para procurar alguma referência ao meu site, uma recomendação, quem sabe uma crítica de uma ou duas frases. Nada. Talvez eles não usem a Internet ou o Google; ou talvez minha tradução seja mesmo muito "mundana". Já é ruim o suficiente ser em prosa e não verso como o original. Não ser tradução direta do original e nunca ter sido publicada em papel deve selar a sentença: não é boa o suficiente para uma revista tão séria. Ah, eu não gosto mesmo de textos sérios; são muito chatos. Mas eu não acredito que os autores que escreveram na Entre Livros sobre Dante não tenham pesquisado no meu site. Duvido que não tenham pelo menos passado por lá!

Mas por que será mesmo que eu estou escrevendo este post? Ora, porque eu me enganei! Um dos meus textos está lá nessa revista, publicado, impresso! Tudo bem, está em pedaços, misturado com outras palavras. Oh, até que meus textos não são tão ruins assim!

Hmmm, mas tem algo errado: o meu nome não é... Carlos. Nunca orientei alunos de mestrado e não me recordo de ter dado aulas de literatura na Unicamp. Também não me lembro de ter sido convidado pra escrever uma biografia sobre Dante. E se tivesse, jamais utilizaria este texto que escrevi há sete anos. De 2000 para cá eu aprendi a escrever bem melhor, mergulhei nos universos de inúmeros autores, filósofos, dramaturgos loucos e escritores malditos, viajei para dois outros continentes, descobri o teatro, já passei da "metade do caminho da nossa vida" e descobri meus próprios infernos e purgatórios. Sou outra pessoa. Não escrevo igual. Hoje tenho um distanciamento para escrever sobre Dante que eu não tinha na época. Se hoje eu fosse convidado para escrever uma biografia de Dante Alighieri, eu certamente escreveria um artigo muito melhor, mais bem humorado e bem mais interessante que esse.

Ah, mas não seria publicado. Seria insuficientemente sério. E eu com certeza arancaria fora do artigo a maior parte das datas e outros detalhes irrelevantes.

Não fui mesmo eu quem escreveu. O autor é outro. Tem as credenciais acadêmicas que eu não tenho. Ele é professor da Unicamp: Carlos Eduardo O. Berriel, PhD. Não, não é verdade que ele publicou meu artigo como sendo dele. Ele apenas utilizou quase 80% de minhas palavras e frases para compor 33% do artigo que leva a sua autoria na revista, que não faz nenhuma menção ao meu site. Ele “melhorou” o texto com datas, datas, detalhes, detalhes, palavras mais bonitas! Mudou também a ordem das frases (ah, mas acho que isto não funcionou direito, professor: o senhor acabou misturando dois conflitos e confundindo guelfos negros e brancos com guelfos e guibelinos!)

Eu tinha que me divertir um pouco com isto, mas agora chega de ironias. O post de hoje não é ficção. Eu sou (ou fui, sei lá) um tradutor de Dante, por mais que alguém questione o método, ou a qualidade do que escrevi. Não ter sido publicado em meio impresso é detalhe irrelevante. Eu também sou escritor e pesquisador. Para escrever os prefácios, as biografias, as notas, eu pesquisei em várias fontes (e as citei) e escrevi os textos com minhas próprias palavras, destacando as citações entre aspas ou em blocos anotados. O texto que foi copiado, foi publicado na Internet em 1999 e provavelmente visto mais vezes que o prefácio de uma tradução impressa (o site foi acessado centenas de milhares de vezes desde 2002). Para mim (e para a Lei de Direitos Autorais) copiar da Web é a mesma coisa que copiar de um texto impresso. Além disso, é muito feio copiar coisas dos outros e dizer que são suas (desde pequeno eu aprendi a não fazer isto). E é pecado também: garante um lugar no penúltimo círculo do inferno de Dante, bem perto do diabo.

Ainda não sei o que vou fazer sobre isto. Há sete anos eu pago para manter o site sobre a Divina Comédia no ar para as pessoas terem acesso aos meus textos de graça, e não gostei de ver coisas que eu escrevi publicadas numa revista impressa, paga, sem citar minha autoria. O mínimo que eu espero é que a revista Entre Livros corrija esse erro. E professor Carlos Berriel, independente da explicação que o senhor vai me dar (que o senhor se enganou, que foi outra pessoa que escreveu o texto), o senhor me deve - no mínimo - um pedido de desculpas público.

Eu transcrevi (sem autorização) o texto do professor Carlos Berriel publicado na Entre Livros, e o publiquei uma comparação com os dois textos lado a lado, para quem quiser avaliar as semelhanças. O que vocês acham? Será que eu estou exagerando?

Atualização

Segui as sugestões do Alex e enviei e-mail para a editoria da revista e para a reitoria da Unicamp (se um pesquisador doutor da Unicamp faz pesquisa com cut-and-paste, o que se pode esperar das teses de doutorado dos seus orientandos?). Um comentarista anônimo me sugeriu o Internet Archive, onde pude comprovar a existência do texto pelo menos desde 2004 (mudei de site 3 vezes desde 2000). Não tenho registro na Biblioteca Nacional para esse texto, mas eu enviei cópias impressas para acadêmicos, escritores, cineastas, jornalistas, desde 2000. Não consegui enviar email para o Carlos Berriel ou para qualquer pessoa do IEL (Instituto de Estudos da Linguagem) da Unicamp. O site parece estar fora do ar. Seguem os links.