5.10.07

Anna Abda

“Ha ocurrido una cosa que es increíble...”
J.L. Borges, “Emma Zunz”

Louise Burghes Azevedo faleceu no dia 14 de junho de 2006, aos 86 anos. Ela era viúva. Seu marido, um arquiteto, era falecido há mais de quarenta anos. Acredita-se que ela tinha dois filhos homens, que moravam fora do país, e que sua mudança para o apartamento da rua Baronesa de Itu ocorrera após a morte repentina de um deles. Louise era uma velhinha simpática. Sorria, fazendo sumir seus olhos azuis na sua pele clara e enrugada, mas não falava muito. Morava sozinha com um mordomo e uma enfermeira que às vezes eram vistos levando-a para caminhar pelos jardins do condomínio. Nos últimos anos ela era vista sempre numa cadeira de rodas, usando chapéu e óculos escuros. Praticamente não falava. Recebia visitas ocasionalmente, mas ninguém sabia muito sobre ela. Não sabiam, por exemplo, que Louise Burghes não era seu verdadeiro nome.

A coleção completa das obras de Jorge Luis Borges que encontrei no sebo do Brandão era assinada por Anna Loewenthal, Buenos Aires, 15 de janeiro de 1962. Era uma coleção atraente. Os volumes tinham capa verde, detalhes dourados e letras grandes. Eu certamente a teria comprado se não fosse o detalhe de que um dos volumes estava com várias páginas faltando. Faltava uma história inteira.

Saiu no jornal O Correio do Povo, de Porto Alegre, em 15 de maio de 1963 a notícia de que “foram encontrados mortos a tiros em sua propriedade rural no município de Bagé, o casal de aposentados Dora Martinez e Zacarias Herrera. O crime teria acontecido por volta das onze e meia da noite de ontem mas o casal só foi encontrado hoje pela manhã, pelo caseiro que chamou a polícia. Até o momento não há pistas dos assassinos.”

Em 11 de novembro de 1918 Hannah Abda conheceu Samuel Loewenberg, apaixonou-se por ele e tornou-se sua amante. Loewenberg era um homem rico, sério e discreto, e era casado. Sua esposa, Rachel, era uma distinta senhora da família Gauss. Eles nunca tiveram filhos. Quando Hannah ficou grávida, seis meses depois, Samuel passou a sustentá-la secretamente com uma pensão mensal. Pouco depois do nascimento de Anna, Rachel morreu de causas desconhecidas e Samuel tornou-se recluso, distante e religioso. Mesmo assim, não cortou a pensão que pagava a Hannah e comunicava-se com ela ocasionalmente por carta. Mas no ano seguinte Samuel foi assassinado, a pensão cessou e Hannah afundou na miséria.

Eurico me ligou no fim da tarde para dizer que havia encontrado as páginas que faltavam da coleção de Borges. Ele as encontrou dentro de um dos diários de Louise Burghes. Voltei do sebo com a coleção, os diários e as páginas soltas de Emma Zunz. Os diários, escritos em espanhol, não traziam nada de muito interessante. Falavam de coisas banais, da falta de dinheiro, das visitas inoportunas. Quase sempre reclamava da vida, uma vida sem graça, onde pequenos problemas eram ampliados para dar sentido às coisas. Em outras páginas havia contas, números de telefone, endereços, notas curtas, rabiscos. Meu interesse maior era pelo que estava solto dentro dos diários: fotos antigas, recortes de jornais e cartas incompletas.

Anna tinha quase dois anos quando seu pai, Samuel Loewenberg, sócio-proprietário da fábrica de tecidos Schreiber & Loewenberg, foi assassinado. Ele foi morto com três tiros no peito, numa noite de sábado, 14 de janeiro de 1922 por uma ex-funcionária que o surpreendeu no escritório. Alegando legítima defesa por ter sido vítima de assédio sexual, Manuela Mayer confessou o crime e submeteu-se a exame de corpo de delito comprovando o ato. Julgada e inocentada, desapareceu dois anos depois e nunca mais foi vista. Dizem que ela casou-se com um marinheiro sueco e mudou-se para o Brasil.

No jornal Diário de Notícias, também de Porto Alegre, a notícia de 27 de maio de 1963 informando que “o exame dos cadáveres do duplo assassinato da semana passada em Bagé revelou um detalhe macabro: uma assinatura, feita com um objeto cortante, no pulso de ambas as vítimas. O criminoso assinou sua obra com o nome de uma mulher: Anna Loewenthal.”

No dia 29 de novembro de 1947, Hannah Abda morreu de tuberculose em um hospital da periferia de Buenos Aires. Em 14 de maio de 1948, sua filha Anna casou-se com o arquiteto George Burghes, assumindo o nome de Louise. No dia seguinte George e Louise Burghes mudaram-se para Londres.

O último recorte datado de 25 de agosto de 1963, é do Jornal do Comércio de Bagé, e noticia que “a polícia de Bagé recebeu ontem uma carta anônima, assinada pela misteriosa Anna Loewenthal, acusando suas vítimas de serem assassinos. De acordo com a carta, Dora Martinez é na verdade Manuela Mayer, acusada de matar, em janeiro de 1922, o empresário argentino Samuel Loewenberg, em Buenos Aires. A carta é longa e revela em riqueza de detalhes as estratégias que teriam sido usadas pela vítima para realizar o crime perfeito e escapar como inocente. Especialistas acreditam que as informações da carta são falsas e foram inventadas pelo assassino, certamente um psicopata, e descartam a possibilidade de que se trate de uma mulher.”

Nas folhas arrancadas de Emma Zunz, que estavam soltas dentro do diário de Louise Burghes, os nomes das personagens estavam sublinhados, e havia uma nota no final, assinada por Anna Loewenthal em Buenos Aires, 31/01/63 (um dia após a morte do seu marido), que dizia: “George partiu então Louise não mais existe. Mas hoje ocorreu uma coisa que é incrível. Descobri Anna, filha de Hannah e Aaron Loewenthal. Ela está de volta para vingar o assassinato do pai e a infelicidade de sua mãe. A partir de hoje Anna Loewenthal é a Morte, e ela chegou para buscar Emma Zunz, onde quer que ela se encontre.”

Até onde pude verificar, foi tudo verdadeiro. Só eram falsas as circunstâncias, a hora, e um ou dois dos nomes próprios.


Clube de Leituras sobre Borges

Este conto foi inspirado pelo Clube de Leituras sobre Jorge Luis Borges organizado por Idelber Avelar, através do seu blog O Biscoito Fino e a Massa. Idelber convida todos a participarem das discussões através da caixa de comentários do seu blog ou escrevendo sobre os contos estudados. O Clube continua e haverá estudo de vários outros contos de Borges. Emma Zunz foi o conto de quarta-feira passada. Eu não consegui escrever sobre o conto, então escrevi uma resposta a Borges. O último parágrafo pertence a ele.

Um comentário:

Idelber disse...

Uau, uma continuação bem borgeana para o conto. Obrigado, Hélder, adorei mesmo o relato. Um abração.