24.9.07

A utopia das ciclovias


Estacionamento de bicicletas em Amsterdam

Por causa do Dia Mundial sem Carro, no último sábado (que fracassou em São Paulo), os meios de transporte alternativos voltaram a ser assunto na mídia. Falou-se muito do uso das bicicletas, da falta de infraestrutura urbana para esse tipo de transporte, e da famigerada solução de sempre: a ciclovia.

É uma discussão inútil. Sempre que esse assunto está em pauta os grupos de interessados se reunem com os governos que produzem projetos mirabolantes. A solução não é a ciclovia. Encher a cidade de ciclovias é a solução mais cara e inviável para estimular o uso de bicicletas. É improvável que esses projetos saiam do papel em menos de uma década ou mais. Nem as motos têm vias exclusivas suficientes; como acreditar que as bicicletas terão? Vão tirar de quem? Dos carros? Dos pedestres?

Eu não me refiro às ciclovias de brinquedo, que ligam nada a lugar nenhum (e que há um monte delas na cidade). Fazer ciclovias assim é fácil, mas se a idéia é incentivar o uso da bicicleta como meio de transporte, essas ciclovias não ajudam em nada.

Ah sim, existem os críticos que acham uma loucura qualquer tipo de investimento nessa área. Já ouvi argumentos que São Paulo não é uma cidade para bicicletas, que tem ladeiras demais, que o trânsito não permite (já bastam as motos e os carroceiros). Também é muito fácil encontrar motivos, fora a preguiça, para não trocar o carro pela bicicleta como transporte individual: o calor, o frio, a chuva, o Sol, o ar seco, a poluição, o risco de assalto, o risco de ser atropelado, os caminhões, o suor, as ladeiras, a lama, os esgotos, os buracos. Eu também consigo enumerar muitos motivos para não caminhar, para não pegar ônibus nem metrô, enfim, há vários motivos para nunca sair de casa.

Na verdade há muita gente que usa bicicleta como meio de transporte na cidade, mas são pessoas que usam por necessidade e talvez não usassem se tivessem carro. Será que as ciclovias iriam fazer com que as outras pessoas, as que usam carro para tudo, aderissem à bicicleta? Eu duvido.

Eu uso a bicicleta como meio de transporte (bem menos do que uso carro, táxi, metrô e ônibus). Utilizo geralmente em trechos pequenos (menos de 6 km). As ciclovias não me fazem falta. Há vias de baixo movimento suficientes para esse tipo de deslocamento. Eu só não utilizo mais porque nunca sei se no meu destino encontrarei um lugar para deixar a bicicleta. E é esse, para mim, é o maior problema da cidade em relação à adoção da bicicleta como meio de transporte.

Eu posso sair de carro e deixá-lo estacionado na rua, se houver vaga, ou pagar um estacionamento. Para a bicicleta eu preciso levar comigo um cadeado e cabo de aço de 2 metros (que permita prender o quadro, as duas rodas e o selim) e de um lugar seguro para prendê-la. Mas nem sempre é fácil. Bicicletas não são sempre bem vindas. Já fui abordado por seguranças de um prédio que não deixaram que eu prendesse a bicicleta na grade de um muro que ficava na calçada. Um deles me informou que se eu insistisse, eles cortariam o cabo. Há exceções, mas a maior parte dos estacionamentos privados e de prédios comerciais também não aceita bicicletas.

Eu uso a bicicleta para ir a uma academia que fica a um quilômetro e meio da minha casa. É uma grande academia multiesportiva que apóia atletas e promove competições de ciclismo urbano mas não possui sequer um lugar na calçada para estacionar bicicletas. A maior parte dos freqüentadores vai de carro ou de moto e o estacionamento conveniado que há no seu subsolo não aceita bicicletas.

Eu utilizaria mais a bicicleta se houvesse onde deixa-la. Não preciso que a cidade tenha dezenas de quilômetros de ciclovias. Preciso de um lugar na estação de metrô mais próxima (que ficam a menos de um quilometro e meio da minha casa) para deixar a bicicleta, e ter esperanças de encontrá-la inteira quando voltar. Consigo chegar em qualquer uma dessas estações em cinco a dez minutos, trafegando por vias locais de pouco movimento. É sempre um problema encontrar um lugar (os poucos lugares bons estão tomados de bicicletas) e os outros são arriscados.

A prefeitura anuncia que está investindo em estacionamentos gratuitos nas estações de metrô e trem. São garagens cobertas, com um funcionário em tempo integral. Ficam lotadas. Mas nem precisava de tanto. Um rack em um local movimentado já seria um grande avanço (já que a disputa é por espaço nos postes). O problema desses investimentos maiores é que eles acontecem numa lentidão insuportável. Até agora inauguraram duas garagens, eu acho. Vão inaugurar mais duas no ano que vem. Talvez em cinqüenta anos chegue uma garagem de bicicletas na estação Sumaré ou Vila Madalena.

Mas por que os estacionamentos que aceitam carros e motos não podem aceitar também bicicletas? Vez ou outra eu pergunto os motivos. Uma vez recebi a informação de que a seguradora não cobria danos ou furtos de bicicletas e por isto o estacionamento não poderia aceitá-los. Será este o motivo? Será que não há como resolver isto? Eu até pagaria uma taxa para estacionar a minha bicicleta com segurança num estacionamento. Há tantos estacionamentos privados na cidade. Não creio que seria necessário um grande investimento da parte deles e da prefeitura para que pudessem oferecer um lugar para acomodar bicicletas. Com certeza seria uma solução bem mais rápida, barata e eficiente do que continuar investindo na utopia das ciclovias.

3 comentários:

Társis disse...

Gosto muito de bicicletas. Queria ganhar uma agora que estou há 15 minutos a pé do trabalho.

Agora pedir bom senso para que se façam ações construtivas para a melhoria da vida em SP é como pedir um milagre... :S

Escuta, estou com saudades de ti! Apareça em casa que eu e a Gabi estamos com saudades! E te devo uma pizza ;-)

Abraço!

Ana disse...

Meu sempre fiquei me perguntando sobre isso!

Tipo realmente em SP praticamente não existe onde estacionar a magrela....

Nem em faculdades ou empresas.

Não há a visão da possibilidade da bicicleta ser um meio de transporte. Em SP bike é encarado como esporte e lazer.

Não que deixe de ser, mas como você mesmo disse, pra distâncias curtas é uma ótima opção.

E em questão de tempo x Trânsito segundo um teste do SPTV perde apenas pra moto! Chega antes do carro e do ônibus = O

Yoda disse...

Concordo com o fato de que ciclovia é só prá político em véspera de eleição mostrar serviço! E que serviço!!!

Aumentando o consumo de bikes, o preço deveria cair...

Na Europa compra-se uma bike com boa qualidade pela metade do preço de uma similar aqui no Brasil...