22.9.07

A Loteria em Babilônia


As Moiras (fiandeiras do destino), por Francisco de Goya.

A Loteria em Babilônia – o conto de Jorge Luis Borges – me parece um monólogo. Consigo até visualizar o ator, sentado em uma cadeira na sala de espera de uma estação, ou de um porto, ou aeroporto, contando, com entusiasmo, a sua história para alguns outros que, como ele, também esperam. Ele se move, gesticula, fixa-se nos olhos de sua platéia, varia o tom e intensidade da voz, cala-se, olha para o lado, e volta a falar com emoção ao descrever suas experiências de vida inacreditáveis. Ele quer a nossa atenção.
“Olhem: à minha mão direita falta o indicador. Olhem: por este rasgão da capa vê-se em meu estômago uma tatuagem vermelha: é o segundo símbolo, Beth (...)”
Quando finalmente consegue prender a atenção da platéia, ele explica a razão que está por trás de tudo: a loteria. Mas não é uma simples loteria. É um jogo de acasos controlado por uma organização onipotente e secreta que tem o poder sobre a sorte e o azar de cada habitante, que interfere na natureza manipulando e intensificando o acaso. Essa organização, que ele chama de A Companhia, tem o poder de causar tempestades ou calmarias, determinar se alguém irá matar ou morrer, alcançar a glória ou a desgraça. Através de pequenas ações, às vezes inócuas, distribui a sorte ou o azar a todos os jogadores. Como as Moiras da mitologia, a Companhia fia os destinos de todos, dia após dia, até a hora da morte.

Ele está de partida, e a nave que vai levá-lo embora já chegou na estação, ou no porto. Mas o tempo que resta é suficiente para que ele nos conte toda a história da loteria, em detalhes. É uma história fascinante, inverossímil. Ao final, admitindo a influência da loteria, confessa ter talvez exagerado, ou mesmo mentido:
“Sob o influxo benfeitor da Companhia (...) eu mesmo, nessa apressada exposição, falseei certo esplendor, certa atrocidade.”
E conclui:
“É indiferente afirmar ou negar a realidade da tenebrosa corporação, porque Babilônia não é outra coisa senão um infinito jogo de acasos.”
A Loteria na Babilônia é, portanto, uma metáfora do acaso. Pode não ser o acaso. Pode ser, como se define, uma ordem que interfere no acaso, mas qual a diferença? Como distinguir o crime perfeito de um acidente? Se um evento for tão bem planejado que seu resultado pareça um evento do acaso, embora não seja, há como dizer que ele não o é? Suponha que estamos em Babilônia, e lá dois carros deslocam-se em sentidos opostos numa rodovia. Um dos motoristas invade a outra faixa. Os carros colidem. Os motoristas morrem. Um acidente. Uma fatalidade. Será? Um animal cruzou a pista? O motorista se distraiu? Uma peça quebrou? Como ter certeza que não houve interferência?

É como se o mundo fosse uma simulação, um programa. Uma ordem de eventos precisamente calculada pode ser o acaso dentro desse sistema. Se você consegue habitar fora do sistema terá condições de entender o algoritmo e decifrar sua chave, mas dentro dele essa ordem parece o caos, o acaso. É por isto que não existe, no mundo dos computadores, nada realmente aleatório (para nós que habitamos fora deles.) No conto, a loteria começa como um sistema simples contido no universo, e é, portanto, compreensível, mas quando se expande a ponto de ocupar todo o universo, torna-se cada vez mais incompreensível para os que habitam nele. Somente quem está de fora é capaz de ter certeza que os eventos não são obra do acaso. Aos habitantes, resta apenas especular sobre isto, ou aderirem à fé.

A Companhia me lembra uma das minhas teorias de conspiração favoritas: a sociedade secreta dos Illuminati da Baviera, que seus seguidores acreditam ainda existir e ser formada por pessoas vivas e mortas. Os Illuminati exercem um governo paralelo do mundo, controlando os rumos da humanidade, influindo nas decisões dos governos, das organizações poderosas, até mesmo alterando o clima. Sua justiça é como a justiça divina: incompreensível aos mortais comuns. Assim, como Deus e A Companhia, suas decisões são indistinguíveis do acaso.

A história, portanto, brinca com a teoria da predestinação, de que não temos controle algum sobre o noso futuro. Nesse contexto tem semelhanças com um conto de Philip K. Dick: Minority Report. Enquanto o conto de Borges descreve uma organização que interfere na realidade, intensificando o caos e causando eventos que não eram previstos, o Minority Report descreve uma organização que utiliza-se de videntes para descobrir eventos que irão acontecer, produzindo um relatório, que é usado, dentre outras coisas, para identificar pessoas que irão cometer um crime e prendê-las antes que elas o façam. Em ambos os contos a predestinação faz parte da natureza: as pessoas não têm a liberdade de decidirem o rumo que darão às suas vidas, não existe livre arbítrio.

Há contos que me fazem viajar nas imagens, outros me enchem de idéias e me estimulam a pensar (nem sempre estou disposto a isto.) Vários contos de Borges são assim, mas eles combinam imagens (nem sempre fáceis de formar) com idéias. Pela forma como descreve a realidade, A Loteria em Babilônia se assemelha a outro conto de Borges: A Biblioteca de Babel.

O conto também associa o jogo de sorte e azar com a alegria de viver. O narrador explica que as pessoas tinham prazer em participar dos acasos, das paixões. Os que não tinham como comprar o bilhete ficavam com inveja dos que se aventuravam no jogo e poderiam ganhar uma grande sorte ou um grande azar. Todos querem viver intensamente. Buscam o terror e a esperança. Qualquer coisa é melhor que a monotonia da paz. Acreditam que a vida vale a pena quando corre-se o risco de perdê-la. Participar da loteria é como entregar-se completamente às paixões da vida, mesmo arriscando encontrar a dor em vez da felicidade. Para amar a vida, é preciso amar o acaso.

Clube de Leituras sobre Borges

Esta resenha sobre o conto A Loteria em Babilônia foi inspirado pelo Clube de Leituras sobre Jorge Luis Borges organizado por Idelber Avelar, através do seu blog O Biscoito Fino e a Massa. Idelber convida todos a participarem das discussões através da caixa de comentários do seu blog ou escrevendo sobre os contos estudados. O Clube continua e haverá estudo de vários outros contos de Borges. A Loteria em Babilônia foi o conto de segunda-feira passada. Eu cheguei atrasado.

Um comentário:

Anônimo disse...

Sua resenha foi bastante esclarecedora em alguns pontos. Somente discodo, e aqui discordo completamente, do seu último ponto. Segundo minha interpretação, Borges não estendeu a loteria para todas as pessoas por achar que as pessoas naturalmente gostam de correr risco e viver intensamente. A verdade é justamente o contrário, não é preciso estar em contato muito próximo com o povo para perceber isso. O que Borges quis fazer foi assemelhar a sua metáfora, isto é, o acaso, com seu significado. O acaso, ele bem sabia, não atingia somente um grupo de pessoas, mas a todos nós. Foi por isso que Borges inventou que todos queriam participar da loteria, mas para isso ele foi contra a própria natureza humana, ou seja, que ela sempre foi avessa ao perigo.