8.7.07

Gôndolas



Sonhei outra vez com Mustaphá Smith numa tarde quente do dia sete de sete de dois mil e sete. Estávamos em uma minúscula gôndola verde, ele de um lado e eu do outro. Ninguém remava. A gôndola era levada pela correnteza. Mustaphá tinha três dentes, barba grisalha e olhos grandes. Desta vez ele não estava de turbante. Usava um quepe de oficial russo e vestia-se em pele de urso como um guerreiro esquimó. Sorrindo, cantava cantos armênios, mongóis, americanos e russos, misturando Karabushka com When The Saints Go Marching In e batendo os pés no barco com força ao ritmo do seu canto. Vez ou outra parava de cantar, olhava para mim e fazia sons de chuva com seus lábios secos. Às vezes parava bruscamente e gritava meia dúzia de frases incompreensíveis, ria alto e voltava a cantar. Como sempre, mesmo quando me olhava, agia como se me ignorasse, como se eu não existisse.

Eu tinha um sombreiro imenso sobre a minha cabeça, que impedia que eu olhasse para cima. Não havia muito para ver. Era só céu e mar. Nenhuma nuvem. Acima deveria estar o Sol. Na minha frente apenas Mustaphá, a gôndola e o mar.

Mas a gôndola parou no centro do oceano, no ponto mais distante de todas as costas, e quando isto aconteceu, ela tornou-se o mar. Não havia mais gôndola e nem Mustaphá, apenas um sombreiro colorido flutuando no meio do mar, que na verdade eu só percebi ao olhar para o alto e não achar o Sol, mas uma sombra circular num mar azul brilhante. O riso histérico de Mustaphá ecoava nas bolhas que subiam da minha garganta que se enchia de água salgada.

Acordei às sete horas e já era noite. Levantei-me e fui até a porta mas não consegui abri-la pois estava trancada. Abri a janela e procurei pela paisagem da cidade, mas ela não se movia e parecia pintada. Ainda sonhava. Precisava acordar. Corri, pulei e joguei-me contra a parede. Fiz cálculos complexos de cabeça. Eu tentava voar quando ouvi um riso vindo da sala. A porta do quarto estava entreaberta e eu saí. Na sala havia uma mesa, coberta por uma toalha branca e um castiçal de quatro velas ao centro. A toalha branca e tinha desenhos azuis de carneirinhos e umas vinte e poucas taças de tamanhos diferentes contendo líquidos coloridos. Havia alguém sentado do outro lado. As velas não deixavam ver o rosto, apenas as mãos escuras e ressecadas que desenhavam com um lápis de cera vermelho na toalha da mesa. Desenhava o que parecia um lobo.

Sentei-me do lado oposto da mesa, e ele não falou nada. Apenas ria baixinho, como se estivesse tendo uma crise e não conseguisse parar de rir. Bebi um pouco da taça roxa (parecia uva mas na verdade era tamarindo.) Mustaphá (sim, devia ser ele mas nunca tive certeza) começou a rir bem alto, e os carneirinhos começaram a correr. Eles berravam, corriam e a mesa tremia. O lobo devorava um a um com violência, derrubando as taças e manchando a toalha de sangue que escorria para o chão. Em poucos minutos a sala inteira estava submersa em sangue. Agarrei-me à mesa para não me afogar, mas a toalha cedeu. Sobre a mesa quatro anões de sombreiro cantavam músicas mexicanas e quando eu puxei a toalha, os quatro caíram e se afogaram (ou morreram eletrocutados por seus microfones, pois houve um curto-circuito.) Permaneceram os quatro sombreiros flutuando sobre o sangue. Eu fiquei observando e senti os pingos. Era a chuva. Começou a chover forte. Em poucos minutos ela havia levado embora todo o sangue e a sala estava limpa.

No centro do mar, agora, há uma gôndola. Dentro dela dorme uma mulher nua, de lado, abraçada a um travesseiro em posição fetal, protegida do frio por uma pele de urso. Ela tem pele clara, cabelos negros, lisos e traços orientais. Ela sonha. Ao lado da gôndola há um sombreiro colorido flutuando sobre a água. Está claro mas o dia ainda vai nascer. Sentado na mesa da sala eu observo a paisagem da cidade. O castiçal tem apenas duas velas, e elas estão apagadas. Tento fazer sons de chuva com meus lábios enquanto imagino carneiros roxos no vinho derramado sobre a toalha da mesa.

Um comentário:

Anônimo disse...

Olá. Procurava p uma imagem para um de meus poemas e me deparei com o seu conto.Gosteimuito. Quanto a imagem, gostaria de saber o autor - se sua, vc me autorizaria a usá-la? in: http://recantodasletras.uol.com.br/forum/index.php?topic=3901.msg118748#msg118748 -
Abrs e sucesso sempre
Soaroir@yahoo.com.br