9.5.07

Um mundo perfeito

"Rivalizamos com os melhores sistemas [de controle de tráfego aéreo] do mundo, como o dos Estados Unidos." Waldir Pires, ministro da defesa (outubro/2006)
É perfeito. A aeronáutica vive afirmando que o sistema de controle de tráfego aéreo no Brasil é confiável. O governo, incapaz de qualquer auto-crítica, defende a aeronáutica que certamente sabe do que diz. Veja! Os vôos não estão atrasando! Está tudo sob controle. Quem disse que o risco de haver outro caos é iminente? Desde o acidente da Gol o que foi feito para melhorar o sistema de controle de tráfego aéreo. Nada, ora. Mas por que? Porque não precisa! É um dos melhores do mundo. Rivaliza com o dos Estados Unidos. Para que mudar se está funcionando?

Ah, tem uma CPI. Talvez, quem sabe, ela consiga atiçar os demônios e agitar o limbo.

A Polícia Federal finalmente concluiu a tão esperada investigação sobre as causas do acidente da Gol e encontrou os dois tão esperados culpados. Quem? Os pilotos norte-americanos Joe Lepore e Jan Paladino, é claro. Quem mais? O inquérito sairá nos próximos dias, pois está sendo no momento cuidadosamente redigido pelo delegado Ronaldo Sayão. A informação saiu ontem e está no blog de Josias de Souza.

A notícia surpreende? Que nada! Desde o início das investigações a Polícia Federal tem demonstrado a intenção de condenar os pilotos como únicos responsáveis pelo acidente, independente de quaisquer provas e evidências contrárias. Nem mesmo as gravações da caixa-preta do Legacy foram suficientes para sequer desviar o rumo do inquérito. Bem antes a Polícia Federal já havia indiciado os dois pilotos por homicídio culposo, no dia em que foram autorizados a deixar o país.

No artigo Investigação sobre acidente aéreo aponta que torre errou, publicado na Folha no final do ano passado, Eliane Cantanhêde comenta trechos da caixa-preta do Legacy onde fica clara a dificuldade de comunicação entre os pilotos e o controle de vôo (que mal sabe falar inglês). Também revela que
"A torre de controle de vôos de São José dos Campos (SP) autorizou os pilotos do Legacy, Joe Lepore e Jan Paladino, a voar na altitude de 37 mil pés até o aeroporto Eduardo Gomes, em Manaus, apesar de essa altitude ter se tornado "contramão" na rota após Brasília -- e onde estava o Boeing-737 da Gol atingido e derrubado no choque com o jato da Embraer.
Ou seja, a torre claramente autorizou o piloto a subir a 37 mil pés, "até o aeroporto Eduardo Gomes", de Manaus, contrariando o plano de vôo original. No último contato do Legacy com a torre, o piloto Lepore informou que estava a 37 mil pés e desejou "boa tarde" em inglês, ao que o controlador de plantão respondeu que apertassem o botão do transponder, e desejou boa viagem. O botão do transponder não funcionou.

O delegado Sayão havia comentado sobre as gravações dos controladores (antes delas sairem na imprensa) que elas "não levam à conclusão nenhuma." (Folha, 1/11/2006)

Os controladores não sabem falar inglês. O que acontece quando uma pessoa insegura no inglês é questionada por outra segura no idioma? A pessoa insegura pode admitir que não conhece bem a língua e pedir esclarecimentos sobre as questões que não compreender, e só responder sim ou não tendo certeza do que está dizendo. Mas, e se a pessoa for insegura e não puder admitir que não conhece a língua (tipo, um controlador de vôo inexperiente, pressionado por superiores militares)? Ela vai fazer de conta que entendeu e responder rapidamente? Existe o risco dos dois lados acharem que entenderam coisas diferentes? Talvez não; eu estou só viajando. Os caras são experientes. São bem treinados. Falam inglês como ninguém.

Então, para o governo está tudo sob controle (claro, o competentíssimo Waldir Pires está lá ainda!) E para a Polícia Federal o sistema de controle de tráfego aéreo brasileiro não tem responsabilidade nenhuma, nenhuma no acidente. A culpa só podia ser dos americanos.

Mas falando sério, por um instante, isto tudo nos traz insegurança. Não só a insegurança de voar em um espaço aéreo gerenciado por uma instituição incompetente (e pior, incapaz de admitir sua incompentência para pelo menos buscar melhorar), mas também a insegurança de viver num país onde a Polícia Federal pode conduzir investigações fictícias e guiar os resultados para onde bem entender.

Hoje eu ia escrever ficção para tirar este blog do marasmo, mas estava com idéias muito sérias, e a realidade me pareceu muito mais absurda e inacreditável.

3 comentários:

Anônimo disse...

Dá para concluir duas coisas nesse post. Uma: você deve continuar falando sobre ficção. Sobre a realidade você repete apenas o que diz a mídia tão comprometida com tantos interesses em jogo. Segunda: Você é americanizado. Não é de hoje. Mas a escrever sobre um assunto tão sério querendo dar uma de advogado desses dois irresponsáveis americanos (ou será que todo americano é responsável?) é de causar enjôo. Sugiro que você pegue o próximo vôo em direção ao mundo da ficção e deixe o da realidade em paz. Provavelmente você estará na primeira classe. E sem atrasos.

Anônimo disse...

soh flw merda otario

rosa disse...

Quem controla este país? rsrsrs. Esta CPI fala inglês? rsrsrrs

A questão esta em mães sérissimas a policia e os politicos rsrsrsr, se chegarem a alguma conclusão ja estamos no lucro.

Mas se a policia puder dar uns tapas nos pilotos americanos, ja estou satisfeita rsrs.