30.5.07

Fantasmas



Originalmente em inglês: www.helderdarocha.com.br/bloggy.

Sábado. Nove horas da noite. Uma sala escura. Um sofá. Uma mesa. Uma porta. Um pouco de luz vaza por baixo da porta (se não fosse isto não veríamos nada). Tudo está em silêncio.

Mas agora parece que alguém tenta abrir a porta pelo lado de fora. Ouvimos a chave girar uma vez, duas vezes. Afastamos o olhar quando a porta é aberta por causa da luz, que é muito intensa. O ar parece incendiar-se.

Tudo está muito branco e claro demais. Estamos cegos. Mas, depois de um tempo, a claridade gradualmente se dissipa e mais uma vez percebemos a sala. Não há ninguém. A sala está escura, como sempre esteve. Seja quem foi que a atravessou não se importou em acender as luzes. Ele, ou ela, deixou algo sobre a mesa (uma mochila, me parece) e correu para dentro. Percebe-se uma luz fraca em outra parte da casa. Podem-se ver os reflexos nas paredes e móveis, pelo corredor. Ouvimos o som de água derramando. Alguém fazendo xixi. Som de descarga, de porta fechando, de luz sendo desligada. Ninguém retorna à sala. Tudo está escuro novamente. Ouvimos o som de um violino, mas está distante.

A mesa de madeira escura tem em volta quadro cadeiras vazias da mesma madeira escura. Há livros espalhados sobre a mesa, folhas de papel, café derramado. Não dá para perceber os detalhes. O lugar está muito escuro. Tem cheiro de café. Há o retrato de uma mulher na parede. Ela olha para o alto, mas não sorri.

Não há alma viva na sala. Alguns podem acreditar que há duas pessoas sentadas, mas isto não é verdade. Não há ninguém na sala. Alguém pode acreditar que essas duas pessoas sentadas estão conversando, mas é provável que seja apenas imaginação.

- Está vendo?
- Eu não vejo nada. Está muito escuro.
- Tem cheiro de madeira. Faz muito tempo que eu senti cheiro de qualquer coisa. Esqueci que podia cheirar.
- Não sinto cheiro de nada.
- Quando atravessamos aquela rua, naquela tarde, os carros frearam muito perto, quase me tocaram. Eu lembro do cheiro dos pneus. Eu pude sentir o ar que foi deslocado. Você não parou, nem voltou. Correu na direção deles.
- Quando foi isso? Eu lembro disso.
- Estava frio, não estava? Você sentiu a pulsação? Teve a sensação de que estava caindo?
- Eu, eu ainda não entendo isso.
- Você ainda é muito jovem.

O violino agora soa mais alto. Em algum lugar, uma porta foi aberta. Ouvimos passos e alguma luz se espalha pelo corredor, refletindo nas paredes. Alguém tosse. “Merda!” diz uma voz de homem. Uma superfície é arranhada. Alguém espirra, inspira ruidosamente e espirra de novo. Luzes são apagadas com um clique. Mais passos. Uma porta fecha com força. Volta a escuridão e o violino distante.

Mas o som logo pára. Depois de alguns cliques, o silêncio é substituído pelos acordes altos de uma guitarra, ritmos de bateria, vozes gritando. Parece uma banda dos anos setenta. Parece que há vozes falando ao contrário. Parece.

- Baixa isso. Eu não gosto.
- Simplesmente não ouça, e pronto. Não precisa. Ouça os cabos.
- Os cabos?
- Sim. Eles são bons para sentir também. Vibram. E são quentes.
- Eu não sei sentir.

O telefone começa a tocar. Depois de cada toque, o eco some no silêncio. Toca três vezes. Quando termina, a música está mais baixa e podemos ouvir a voz de um homem que vem do quarto. Eu saberia o que ele diz se as outras vozes na minha cabeça ficassem em silêncio, mas elas não calam.

- Lembra de quando a gente brincava?
- O que?
- Quero dizer, eu costumava subir na cerejeira do nosso quintal e me esconder de tal maneira que mamãe não me acharia mesmo se olhasse na minha direção.
- Não sei do que estás falando.
- Era sábado, eu acho. Não sei o que fiz de errado. Eu escorreguei, eu acho. Ainda lembro do filme na minha mente, como se fosse agora. O chão lentamente se aproximando, a grama escurecendo, o vento, a luz do sol. Lembro que senti os galhos rasgando minha pele do braço, as folhas no meu rosto. De repente ficou escuro e frio.
- Do que estás falando?
- É quente e molhado quando você toca, mas parece frio quando escorre sobre a pele, pulsando. Agora eu consigo sentir tudo, a grama, as folhas da cerejeira, o cheiro de chuva, o cheiro dos insetos. Mas no dia não senti como se estivesse caindo. Parecia que flutuava. Ainda não lembro do meu nome, mas você sabia.
- Eu?
- Sim. Você chegou lá antes de mim. Foi você quem a chamou, e ela estava tão triste. Eu tinha conseguido. Eu contei para ela antes da gente sair que eu conseguiria. Eu contei para ela mas ela não levou a sério. Achou que eu estava brincando.

A música foi interrompida com um clique ruidoso. A voz do homem no quarto ficou mais alta. Podemos distinguir palavras “… indo agora … não importa... vejo você já.” e um clique.

- Não tenho certeza se eu entendo.
- Você vai entender depois que eu for embora. Leva um tempo.
- Vais me deixar? Por que?
- Eu tenho que deixar você.
- Para onde vais?
- Não vou muito longe. A gente vai se encontrar. Algum dia.
- Quando?
- Não sei.
- Vamos nos lembrar um do outro?
- Mais ou menos. Talvez. Talvez não. Talvez a gente sinta que se conhece, de algum lugar.
- Não vamos nos reconhecer?
- Talvez nos sonhos, talvez, nos sonhos.

Tosse.

- Ele está doente?
- Está de mudança. Eu já lhe disse isto.
- Para onde.
- Para cá.
- Mas ele já não está aqui?
- Não. Ainda não.

Uma luz intensa e ofuscante toma conta da sala. Na cegueira branca ouvimos passos, a porta fechando, a chave girando. Mas depois tudo se dissipa lentamente para a escuridão. Tudo está outra vez em silêncio. Nem tanto. Podemos ouvir os cabos vibrando. Se você se concentrar pode distinguir diferentes freqüências, ou interrupções, como se fossem vozes.

- Para onde ele foi?
- Encontrar-se com ela, espero.
- Quando volta?
- Em umas duas horas, talvez menos.
- Menos.
- E ele se muda para cá, espero.
- Para cá?
- Sim, aqui.
- E a luz?
- Não haverá mais luz.
- Talvez ele nos veja.
- Ele vai ver a gente.
- Mas, o que ele vai pensar quando nos vir? O que vai acontecer?
- Provavelmente vai ficar confuso, como quando você me viu pela primeira vez.
- O que é que devemos fazer?
- Nós, nada. Você. Eu não estarei aqui. Vou me mudar para lá. Espero.
- Hoje?
- Sim.
- Mas eu preciso de ti. Não posso existir sozinho.
- Você não existe, e se existisse não estaria sozinho. Ele estará aqui com você. Pergunte a ele como é o cheiro da chuva, se ele conseguiu sentir o gosto dela, se estava frio.
- Eu não sei como fazer isto.
- Sabe sim. Você vai descobrir.

Carros passam na rua projetando suas luzes no interior da sala escura. Não ouvimos mais os cabos por causa da chuva. Chiando como um rádio, ela sintoniza minha mente nas suas freqüências, e nela eu ouço as vozes.

- Tenho que ir.
- Mas ele não chegou ainda.
- Olhe ele ali, deitado no sofá. Daqui a pouco acorda.
- Para onde vais?
- Encontrá-la. Me mudo para lá, eu espero.
- E não voltas?
- Não. Espero que não.
- Esperas?
- Espero que ela continue, e não desista.
- E se ela interromper? Tu voltas?
- Não. Me mudarei para outro lugar. Espero.
- Sentirei tua falta.
- Eu também.

Um raio. Trovão. Os cabos não vibram mais.

A sala está escura e em silêncio. Tem cheiro de café. Há o retrato de uma mulher na parede. Ela olha para cima e não sorri. Não há alma viva na sala. Alguns talvez acreditem que há uma pessoa dormindo no sofá e outra, a observando, sentada numa das cadeiras vazias que está diante da mesa, mas isto não é verdade. Não há ninguém na sala. É provável que seja tudo minha imaginação.

3 comentários:

nanci disse...

Olá, moço.

Antes de tudo, obrigada pela (boa) visita. Fiquei contente com suas palavras :-)

Li seu post em inglês. Muito bom, me lembra um roteiro de filme alternativo! ;-)

Um abraço e apareça sempre que quiser.

Edward Bloom disse...

Puxa, que trabalho escrever tudo isto em inglês. E ficou legal pra caramba. Gosto bastante da minha língua, mas me parece que "But then it all fades away slowly towards darkness." soa muito melhor que "Mas depois tudo se dissipa lentamente para a escuridão." Acho que sim.

Eu até já tentei escrever coisas em inglês, mas tenho de fazer muita força e sempre sai ruim. Invejo sua capacidade.

Abraços.

Anônimo disse...

nossa. li agora seu comentário no alessandro martins. vc não processou o cara? que absurdo!

k