26.5.07

Elvis e o centro da terra: parte IV

Esta é a quarta e penúltima parte da história iniciada neste post.

Era ele, o velho careca.

- O senhor tem que ir.

- Como assim? – respondi de mau humor sem me levantar – Eu mal cheguei.

- O senhor disse que iria embora no dia seguinte.

- Sim, mas ainda é noite. Deixe-me dormir um pouco mais. Daqui a pouco eu levanto.

Não deu cinco minutos. Ele me cutucou de novo. Desta vez havia mais umas dez pessoas no quarto, homens, mulheres e crianças, a maioria parecia índio. Eu me levantei assustado e sentei na rede.

- O que houve? - perguntei.

- O senhor não vai embora?

- Eu lhe paguei por uma noite. A noite não terminou ainda. O que está acontecendo? Que horas são?

- São quatro horas.

- E vocês me acordam às quatro horas da madrugada? – levantei a voz, irritado – Quanto tempo dura uma noite pra vocês?

Eles cochicharam entre si, mas não responderam.

- O que está acontecendo? – perguntei.

Ninguém respondeu.

- Vejam bem, eu lamento atrapalhar a rotina de vocês, mas eu só quero dormir algumas horas. Eu estou aqui contra a minha vontade, mas assim que amanhecer vou dar um jeito de sair daqui, podem ficar tranqüilos. Prometo que vou embora no primeiro ônibus que aparecer.

- Aqui não aparece ônibus – respondeu o velho.

- Tudo bem – observei impaciente – mas eu cheguei aqui em um ônibus, talvez, quem sabe, amanhã chegue outro, ou um carro, um caminhão. Eu farei o possível para ir embora.

- Aqui não chega nem nunca chegou ônibus algum, nem carro, nem caminhão.

A conversa estava ficando irracional. Eles me olhavam como se eu fosse um alienígena e pareciam cada vez mais com um bando de loucos. Ninguém se movia nem ia embora. Só me encarava. Eu decidi me levantar.

- Tudo bem, qual é o problema? Me expliquem!

Houve um princípio de tumulto. Todos eles, com exceção do velho, deram um passo para trás. Pareciam apavorados e por um instante achei que iriam me atacar.

- Queremos que o senhor vá embora – falou o velho. – Já amanheceu. Já está claro. Por que o senhor não vai?

- Claro? Está claro? O senhor é cego? Está tudo escuro!

- Cego estás tu. Escuro é o mundo que está na tua cabeça, homem! – respondeu o velho com agressividade – Faz horas que estás nessa rede. São quatro horas da tarde e se tu não percebes é porque não tiras esses óculos da cara! Este não é teu lugar. Por que voltaste? Vai embora!

Neste momento eu tive uma das visões mais terríveis. Pus a mão no meu rosto e senti os óculos. Mas não foi apenas isto. Senti meus cabelos longos, minhas costeletas, o colar de contas, meu corpo magro. Não podia ser. Era um pesadelo. Tive medo de me olhar no espelho pois eu já sabia o que iria ver, então num impulso, arranquei aquela coisa do meu rosto e atirei longe.

Foi como um choque. Meu corpo endureceu e fiquei sem ar. Achei que ia morrer. A luz me ofuscou e antes que eu conseguisse fechar os olhos me empurrou para trás como se eu tivesse levado um tiro. Caí sentado num lugar macio e logo em seguida o chão começou a tremer. O silêncio foi ocupado por um zumbido ensurdecedor e constante, metal rangendo, roncos e buzinas. No ar havia um cheiro ácido de mofo misturado com fumaça. Ouvi muitas vozes misturadas ao som de chuva forte, mas não vi ninguém nem senti o molhado. Senti calor e mal estar. Minhas costas doíam nos músculos e na coluna. Minha boca ardia. Finalmente abri os olhos e tudo ficou claro.

Parte final

Um comentário:

Paulo Jerônimo disse...

Helder, mais uma vez, sua estória é delirante... Hehhehe... Puxa, eu me lembro de teus óculos (grandes, ocupando quase o rosto todo) acho q agora entendo o motivo de você utilizá-los! Ahahahha