25.5.07

Elvis e o centro da terra: parte III

Esta é a terceira das cinco partes de uma história iniciada neste post.

Aproveitei para descer e esticar as pernas.

O cheiro da noite lembrava proximidade de chuva, mas não estava quente nem frio, nem seco nem úmido. Não havia brisa, nem vento, nem claridade no horizonte. O céu estava completamente negro, como se estivesse coberto por uma camada uniforme de nuvens escuras. Não havia estrelas. Não havia insetos.

O caminho até o posto era iluminado pela luz amarelada que vazava das janelas e portas. Era possível distinguir três construções. Um mercadinho ou bar com três portas no centro, um casebre com duas janelas acesas à esquerda e uma casinha menor, com duas portas iluminadas por uma lâmpada fraca, mais perto, à direita.

Percebi vultos no interior do bar. Não consegui distinguir ninguém, pois a luz era muito fraca. Lembrei-me que se eu entrasse no bar provavelmente encontraria o Elvis (era estranho não ouvir a voz dele). Preferi adiar esse encontro e passar primeiro na casinha à direita, que parecia ser onde ficavam os banheiros.

Não lembro o que aconteceu depois. Quando eu saí algo havia mudado, ou talvez tenha mudado quando entrei no bar.

O chão do bar era liso de cimento vermelho queimado, paredes amarelas, lisas e limpas. Era tudo simétrico. Diante das duas paredes laterais havia exatamente duas mesas quadradas com duas cadeiras cada, e nos fundos, um balcão de madeira escura. Na parede atrás do balcão havia duas estantes vazias. No meio delas pendia uma cortina de retalhos vermelhos que escondia uma porta.

Além disso só o silêncio, e mais nada. Não havia ninguém nas mesas nem atrás do balcão. O bar estava vazio!

Voltei para a porta e procurei pelo ônibus mas não consegui enxergá-lo, então corri até o lugar onde ele deveria estar. Não estava. Custei a acreditar. Era impossível que tivesse sumido tão rápido, sem fazer barulho algum. Eu eu deveria ouvir o motor ou pelo menos conseguir ver o reflexo dos faróis.

Parado e em silêncio, a única coisa que ouvi foi o meu coração batendo acelerado. Será que eu passei mais tempo no banheiro do que eu me recordava? Temi que estivesse ficando louco, mas logo minha mente voltou a pensar de forma prática.

Era um ônibus clandestino, não havia dúvidas. O motorista com certeza não contava os passageiros. Seria difícil rastreá-lo. Minha mala eu poderia considerar perdida. Pelo menos fiquei com a mochila, dinheiro e documentos. A questão seria o que fazer agora.

Voltei ao bar. Parei diante do balcão, bati palmas e fiquei esperando que alguém me atendesse. Silêncio. Levou um minuto mais ou menos até começar a ouvir o som de passos se aproximavam. Tive até um susto quando a cortina foi afastada e dela surgiu uma mulher gorda de cabelos longos com aparência de índia. Sem alterar sua expressão séria, ela caminhou lentamente até o balcão onde eu estava e permaneceu imóvel, me olhando sem dizer nada, como se esperasse que eu falasse alguma coisa. Foi o que fiz:

- Oi! Tudo bem? É que eu acabo de perder meu ônibus. A senhora saberia me informar como eu poderia alcançá-lo? Talvez alguém me pudesse dar uma carona. Ou talvez se a senhora souber como pego um taxi para a cidade mais próxima.

Ela esperou que eu terminasse de falar, baixou os olhos e saiu em silêncio. Mais um minuto e novos passos. Desta vez apareceu um velho pálido e alto de olhos azuis. Ele era magro, careca e usava um uniforme militar cinza. Me encarou sério como se estivesse me examinando. Como ele também não falava, eu tomei a iniciativa:

- O ônibus que parou aqui, o senhor está lembrado? Ele partiu e me deixou por engano. Eu preciso alcançá-lo. O senhor sabe como?

- Aqui não pára ônibus – ele respondeu, lentamente, com uma voz grave e monotônica.

- Por favor, pergunte às pessoas que trabalham aqui - insisti. - Parou um ônibus aqui sim. Ele partiu faz dez minutos no máximo. Eu queria a sua ajuda. Talvez o senhor tenha um carro ou conheça alguém que possa me dar uma carona para tentar alcançá-lo. Eu pago.

- Eu não tenho carro.

- O senhor conhece alguém aqui perto que tenha? Um telefone para chamar um taxi?

- Não.

Desisti.

- Então me diga quando passa o próximo ônibus para São Paulo. Vou precisar também de algum lugar para passar a noite.

Ele não respondeu nada. Ficou só me encarando.

- O senhor me ouviu? Quando passa o próximo ônibus para São Paulo?

- Aqui não passa ônibus.

- Tudo bem. Deixa pra lá. Me arrume então um lugar para passar à noite. Amanhã eu me viro.

Ele calou-se de novo e permaneceu imóvel. Eu já estava ficando impaciente, até que respondeu:

- Dez.

- Dez o que?

- Dez reais.

- Por mim está ótimo.

Ele saiu pela lateral do balcão e saiu pela porta da frente do bar. Eu o segui. Entramos na casa, que era bem simples. O chão era de areia e as paredes mal tinham reboco. Dentro da casa voltei a sentir o cheiro de chuva. Era estranho, pois não havia vento algum.

Entramos pela sala. Sentados num sofá vermelho estava a mulher que vi no bar com duas meninas que pareciam gêmeas. Deviam ter uns sete anos e assistiam a um programa de desenho animado numa TV preto e branco com o som desligado. Se eu não me engano era o episódio de Pernalonga com Marvin, o marciano que vive querendo destruir a terra. Quando eu passei na frente os três me olharam rapidamente, todos sérios, mas logo retornaram suas atenções à TV.

O velho me levou até uma porta à direita, onde uma cortina de retalhos vermelhos isolava a sala de um quarto onde havia apenas uma rede, um espelho e uma janela, que estava aberta. Ele parou e olhou para mim estendendo a mão, onde eu coloquei uma nota de dez reais que tirei da minha mochila. Ele olhou contra a luz, que era fraquíssima, guardou o dinheiro e saiu em silêncio.

Deitei na rede com minha mochila e peguei no sono muito rapidamente. Acho que nem lembrei de apagar a luz. Eu dormi, eu acho, uns trinta minutos quando senti que alguém estava me cutucando. A princípio eu achei que era sonho. Na segunda vez foi mais forte e balançou a rede, que rangeu, e veio acompanhado de uma voz, que me chamava.

- Acorde! Senhor? Acorde por favor!

Continua na parte IV

Nenhum comentário: