23.5.07

Elvis e o centro da terra: parte II

Esta é a segunda das cinco partes de uma história iniciada neste post.

- O coronel Fóshti - contava Elvis -, que já deves ter ouvido falar, vive lá há muitos anos. É um explorador americano que nasceu em Londres e dizem que morreu no Brasil. Mas que ele morreu não é verdade. Ele está bem vivo no centro da terra, sabia?

Eu já havia ouvido essas histórias. Acho que o tal coronel chamava-se Fawcett. Ele misturava essas histórias com outras tão absurdas que eu acabava prestando atenção, e consequentemente não conseguia dormir.

– Eu não cheguei a entrar no lago do portal, porque, tu sabes, se entrar não volta mais, mas eu tive a coragem de chegar até a beirada pelo caminho do terceiro fim. É mais simples e não depende da conjunção de astros. Sabes como funciona?

Eu não queria saber. Nada me interessava naquele momento exceto o silêncio. Ele calou-se por um instante, talvez esperando que eu respondesse, mas como eu permaneci imóvel com os olhos fechados, ele continuou.

- Vou explicar como eu fiz. Assim que cheguei na cidade, eu desci do ônibus e entrei no primeiro táxi. Mandei o motorista seguir em frente, sempre em frente, até acabar o asfalto. Depois continuamos toda a vida até acabar a estrada, e quando ela também acabou eu desci e caminhei até não ter mais como continuar. Sabes por que? Porque tudo na frente era escuro. Um breu completo. O silêncio era absoluto. Eu havia chegado ao fim.

Adorei esta parte, pena que não era o fim.

- Era muito escuro! Nossa! - quebrou o silêncio com empolgação - Passei mais de uma hora contemplando a escuridão. E tinha gente morando lá, acreditas? Eu vi um pontinho amarelo no horizonte e fui atrás para descobrir o que era. Chegando mais perto descobri que a luz vinha do interior de uma casa onde vivia uma família humilde, um casal, um velho, filhos e netos. Era um pessoal muito calado, pensei até que eram mudos. Eles nunca viram a luz do sol, tu acreditas?

Eu não estava prestando atenção. Minha mente estava ocupada em fabricar idéias assassinas.

- Mas para eles era tudo claro. Por não ter dia, também não tinha noite. Para mim era só noite. Para eles era só dia. Incrível, não é? E sabe de uma coisa, eu posso te ajudar a chegar lá. Eu não me engano; sei que tu és um iluminado e buscas essa experiência. Não é verdade, meu amigo?

Com isto eu não agüentei. Abri os olhos. A única verdade é que nesse momento eu queria esganá-lo. Minha paciência já estava no limite. Encarei-o com uma cara bem feia para ver se o danado se tocava.

Ele sorriu.

- Eu sabia. Então eu vou começar com...

- Não! Por favor. Não faça isto. Me desculpe. Eu sei que tudo isto deve ser muito interessante, mas no momento, se é que me entende, eu só quero dormir. Eu preciso dormir, entende?

- Claro que entendo. O sono é fundamental. E eu posso lhe ajudar.

Não seria difícil. Calar a boca, por exemplo, seria um bom começo, mas ele tinha uma idéia melhor.

- Eu vou te ensinar uma técnica de meditação que eu desenvolvi especialmente para relaxar em viagens de ônibus.

- Não, não. Muito obrigado. Eu prefiro dormir mesmo.

- Mas tu não estás com sono.

- Eu vou ficar logo, logo, não se preocupe.

- Então coloca isto. Vai ajudar.

Ele tirou não sei de onde um par de óculos escuros e quando percebi, estava tentando por no meu rosto.

- O que é isto? Sai! – eu gritei, afastando a coisa.

- São óculos especiais de relaxamento. Tu vais conseguir relaxar melhor. Eu uso o tempo todo. Ele produz uma energia que ativa a aura e...

- Não, eu não quero. Tira essa coisa daqui. Eu nem imagino como você consegue enxergar no escuro com isto.

- Ah, com eles eu vejo tudo. Tu sabes o que é tudo? É tudo como se fosse um sonho, ou uma viagem na mente, sabe? Ele vai ajudar a expandir tua consciência e assim vais conseguir ver ...

- Pelo amor de deus, cara, você não entende que eu não quero ouvir suas histórias?

Pela primeira vez ele permaneceu calado, me olhando, de óculos escuros, sem sorrir. Fiquei meio sem jeito por ter gritado.

- Me desculpe ter sido grosso com você - continuei, mais calmo -, eu sei que você tem boa intenção, é que eu realmente preciso dormir. A viagem é longa e eu preciso de silêncio, de paz, entende? Se você puder me deixar só por um instante.

- Mas coloca os óculos. Tu vais te sentir melhor. Ele traz o silêncio e a paz que tu procuras, e ainda vais ter um sono tranqüilo e não sentirás o tempo passar. Quando acordares já estarás em São Paulo.

Lá vinha o maluco outra vez tentando colocar aqueles óculos no meu rosto.

- Porra meu! Eu já não disse que não quero! Mas que inferno! Me deixa em paz, por favor, ok?

- Tudo bem - ele gaguejou - Me desculpa. Se quiser, eu espero para te mostrar quando o ônibus parar.

Eu bati o pé com força causando um estrondo na lataria do ônibus e o encarei com uma cara muito, muito feia. Ele virou o rosto e não ousou abrir a boca. Finalmente eu havia conseguido a paz e o silêncio que eu procurava.

Ah, mas dormir foi uma dificuldade. A simples presença do Elvis já era motivo para irritação. Minha mente estava alerta, aguardando ouvir a voz do desgraçado a qualquer instante.

Mas ela não veio, e em algum momento, não sei como nem quando, eu consegui adormecer. Devo ter dormido bastante. A simples ausência da voz do cretino fez com que o ruído do motor e o ranger da lataria parecessem o mais puro silêncio. Era um silêncio profundo, completo, absoluto. Eu sequer sentia os buracos da estrada. Parecia até que o ônibus estava parado.

E estava mesmo. Tive até um susto. Achei até que havia morrido, mas não, o ônibus estava parado. Olhei pela janela e vi que a uns cem metros havia algo que parecia um posto de beira de estrada. Não havia ninguém dentro do ônibus. Aparentemente todos tinham descido, inclusive meu inimigo Elvis.

Continua na parte III

Um comentário:

Vozes obrigaram e o Társis lhes disse...

NÃOO!! Pelo amor, termine a história agora.. (meio Stephen King do Sertão). Preciso saber o que houve!!!

Ah....

(:S