21.5.07

Elvis e o centro da terra: parte I

Era para ser uma viagem curta. Eu devia estar em São Paulo em duas horas, mas o avião não pôde pousar por causa da chuva. Era o único vôo da semana. A cidade era um ovo. A companhia iria providenciar um táxi para um hotel na capital, que ficava a três horas de viagem, onde eu e os outros três passageiros esperaríamos o vôo da manhã seguinte com partida marcada para onze e meia. Como já eram cinco horas da tarde, eu só chegaria em São Paulo depois de umas vinte horas, e olhe lá. Isto, se o vôo não atrasasse como era costume. Mas eu não tinha escolha. Sentei-me na sala de embarque e fiquei esperando o táxi. Eu estava tão distraído que não percebi o cara que sentou-se do meu lado, até que ele me perguntou.

- Tu vais para São Paulo?

Era uma figura que parecia ter saído de um filme dos anos 70. Magro, costeletas, bigode, camisa listrada, colar de contas, calça de boca de sino e sapato de duas cores. Parecia uma versão caipira e mais baixinha do George Harrison. Sorria o tempo todo. Apesar da pouca luz do fim da tarde, usava óculos bem escuros e parecia não ligar para isto.

- Estou tentando, mas pelo visto só vou chegar amanhã à tarde, se tiver sorte.

- Eu sei de um ônibus que sai daqui a pouco e chega em São Paulo em 12 horas.

- Ah é? Então eu vou nele. Onde fica a rodoviária?

- Ele não pára na rodoviária. Passa na beira da estrada. É só mandar parar. Queres? Eu vou agora esperar por ele.

Então fomos para a beira da estrada, que ficava ao lado do aeroporto. Esperamos uns vinte minutos, e nesse meio-tempo o cara não parou de falar por um segundo sequer. Ele começou se apresentando com um cartão de visitas.

- Meu nome é Adalberto Wanderley, mas podes me chamar de Elvis.

- Elvis?

- É. Elvis Presley.

- Ah. Ok.

De acordo com o cartão, ele fazia de tudo: era músico, encanador, motorista, escritor, inventor, pintor, guia turístico, veterinário, místico, e mais um monte de outras coisas que não lembro.

- Você faz tudo isto?

- Faço bem mais. É que não cabe no cartão.

- Entendi.

Chegou o ônibus. Devia ter uns cinqüenta anos. Era uma coisa prateada com listras vermelhas e milhares de penduricalhos atrás do pára-brisa. Combinava com o Elvis. Eu achei que aquilo jamais chegaria em São Paulo, então resolvi que seria melhor retornar à opção do táxi. Ah, mas meu guia de viagem foi mais rápido. Já havia entregue minha bagagem ao motorista que estava fechando a mala do ônibus. Um ônibus feio e velho, pensei, mas inteiro; talvez não tivesse freios, mas já vi piores. As estradas estão repletos deles e eles atravessam o país todos os dias. Eu agüentaria tranqüilamente as 12 horas. Era só arrumar um jeito de pegar no sono.

O resultado foi pior que eu imaginava. O interior do ônibus cheirava a fumaça, e as poltronas de couro vermelho tinham manchas claras e escuras que pareciam mofo. Tive certeza quando sentei. Mas nenhum desses era o pior dos problemas. Já consegui dormir em ônibus fedorento, barulhento e úmido. O pior era que o ônibus estava lotado e as únicas duas poltronas vazias estavam juntas lado-a-lado, ou seja, eu teria que viajar do lado do Elvis Wanderley.

O ônibus partiu, e, como era de se esperar, meu companheiro de viagem iniciou o seu discurso.

- Sabias que a Terra é oca?

E assim começou uma longa exposição místico-pseudo- científica sobre mundos subterrâneos e terras desconhecidas. No início eu fui educado e depois passei gradualmente a demonstrar pouco interesse pela conversa, para ver se ele desistia, mas isto não causou efeito. Como eu não interferi, a história começou a ficar mais absurda.

- Eu já estive lá, no centro da terra.

- Sério?

Ele se animava com essas respostas monossilábicas e falava cinco minutos sem parar. O jeito era não responder. Decidi fechar os olhos e fazer de conta que havia adormecido, mas não funcionou. Ele mesmo respondia às perguntas que fazia. E assim acabei aprendendo sobre a vida e os costumes dos habitantes de Atlântida, bases alienígenas que existem na lua, e outros temas que recheiam as teorias conspiratórias mais esdrúxulas.

Continua na parte II

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