7.3.07

Coisas importantes

Foi um dia corrido. Reuniões e reuniões. No final, algumas coisas seriam decididas. Coisas importantes. No dia seguinte, mais pessoas, mais reuniões, novos prazos. Responsáveis. Problemas a serem solucionados. Coisas muito importantes. O vôo atrasou e o trânsito não ajudou. Era preciso ficar até mais tarde. Havia documentos a redigir e pontos a serem esclarecidos.

Lá dentro tem um robô que atende ao aperto de um botão, mói grãos de café e mistura com água quente e açucar. A luz é branca, artificial, e pisca sessenta vezes por segundo. Há janelas. Elas são escuras. O ar é condicionado e a temperatura é constante. Há um zumbido constante e baixo, bipes de máquinas diversas, telefones celulares, impressoras rangendo, cliques, vozes discutindo coisas importantes.

Lá fora tem o universo que não atende a botões, que não se controla. Chove. Foi uma chuva rápida depois de um dia quente. Um mendigo seminu corre atrás de um casal de quero-queros, que voam e gritam. Folhas das árvores balançam. Nuvens refletem no lago onde ainda bate sol. Mas aqui dentro não dá para ouvir nada disso. Aqui dentro é outro mundo, que atende a botões, que se acredita controlar. Vozes de fora entram pelo telefone, digitalizadas. Pessoas entram pela garagem nos carros de vidros escuros e fechados. Protegidos do mundo de fora, da chuva, do sol, dos mendigos e dos quero-queros, nós, os robôs orgânicos cuidamos das coisas realmente importantes, dia após dia, hora após hora, reunião após reunião, apertando nossos botões, controlando nossas torneiras, planejando a vida e inventando um sentido controlável, certo, previsível para tudo.

Uma tarde, sonhei que a energia acabava. O universo lá de fora não atende a botões. Não havia como ligar a chave. Mas lá fora era dia, havia sol, havia vida. Era aqui dentro que os botões não funcionavam. As impressoras não se mexiam, o robô do café não trabalhava, o ar condicionado não funcionava, as luzes fluorescentes não ligavam, os elevadores não íam nem vinham, os computadores não respondiam e nem mesmo os celulares tocavam. Estava tudo escuro, quente, abafado. Os prazos iriam atrasar. A reunião teria que ser cancelada. O cronograma estourou. Procurava-se o responsável pois ninguém mais sabia quais eram as coisas importantes. Do lado de fora meninos seminus corriam atrás dos quero-queros, e riam. Aqui dentro a coisa mais importante era saber de quem era a responsabilidade pelo botão da energia.

2 comentários:

Beth disse...

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Eu também viajo nas palavras.
Valeu

Anônimo disse...

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Parabens!
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