21.12.07

Viagens

Passarei algumas semanas sem escrever neste blog. Hoje embarco para Paris, onde fico até o dia 24, e em seguida irei para a Itália. Passarei o Natal em Firenze e o Reveillon em Palermo. No dia 4 ou 5 irei à Tunísia, onde ficarei até o dia 8 ou 9. Voltarei a Paris dia 10 e estarei em São Paulo dia 13. Vou viajar com mochilão com amigos que encontrarei na Itália. Estarei em Paris, Firenze, Pisa, Roma, Palermo, Agrigento, Catania, Mt. Etna, Tunis, Dougga, Sbeitla, El Jam e talvez dê tempo ver os ksares nas redondezas de Tataouine (onde foi filmedo Guerra nas Estrelas). Na volta eu contarei todas as histórias. Vou recuperar o Francês e Italiano e talvez aprender um pouco de Árabe :) Não sei se escrevei no blog, mas provavelmente postarei algumas fotos no Flickr. Bom final de ano para todos e até 2008!

15.12.07

O que é um plágio?

Se eu escrevo um texto, baseando-me em informações obtidas em fontes de domínio público, encontradas em enciclopédias e textos históricos sobre fatos que todos conhecem, sem acrescentar nenhuma pesquisa original, análise crítica ou conclusão, mas organizando as informações que eu considero mais relevantes dessa pesquisa, usando palavras, pontuação, ordem dos assuntos e ênfases escolhidas por mim, e ainda citando todas as fontes, esse texto é:
  1. Um plágio das fontes originais ou enciclopédicas onde eu o pesquisei?
  2. Um texto de domínio público que pode ser reproduzido livremente sem citar o autor (autor ou organizador?), já que não traz nenhuma informação, dado ou conclusão original?
  3. Um texto original que, apesar de não trazer nenhuma informação ou visão nova sobre o assunto, apresenta as informações sob uma forma própria, escolhida pelo autor, guiado pelo que ele considera importante?
Pesquisando nestas fontes eu escrevi este prefácio para uma tradução, em 1998. As fontes continham informações contraditórias, já que tratam da história de personagem histórico que viveu há mais de 700 anos e do qual não se possui dados precisos. Analisando as várias fontes, eu escolhi as que me pareceram mais coerentes (embora não tenha certeza e possa estar errado) e elaborei um roteiro que utilizei para escrevê-lo. Várias fontes estavam em outras línguas, principalmente inglês. O prefácio é uma biografia de Dante Alighieri. A partir do roteiro, eu escrevi, rescrevi, escolhi as palavras, as vírgulas, os parágrafos, e produzi o texto do qual o parágrafo abaixo foi extraído.
A maior parte do poder em Florença estava então nas mãos dos guelfos - opositores do poder imperial. Mas o partido em pouco tempo se dividiu em duas facções. A causa foi novamente uma rixa entre famílias, desta vez, importada da cidade de Pistóia. Os Cancellieri era uma grande família de Pistóia, descendentes de um mesmo pai que tivera, durante sua vida, duas esposas. A família Cancellieri se dividiu quando um membro desajustado da família assassinou o tio e cortou a mão do primo. Os descendentes da primeira esposa do Cancellieri, que se chamava Bianca, decidiram se apelidar de Bianchi. Os rivais, que defendiam o jovem assassino, se apelidaram de Neri (negros) em espírito de oposição. A briga tomou conta de Pistóia e a cidade acabou sofrendo intervenção de Florença, que levou presos os líderes dos grupos rivais. Mas as famílias de Florença não demoraram a tomar partido e, por causa de uma briga de rua (...)
A seguir explicarei os negritos.

Anos depois, foi publicado numa edição especial sobre Dante Alighieri da revista Entre Livros (que aparentemente deixou de circular mês passado), um texto sobre a vida de Dante, assinado pelo professor Dr. Carlos Berriel, PhD, da Unicamp. O texto é três vezes maior que o meu, mas tem vários parágrafos semelhantes, como este, por exemplo:
A maior parte do poder em Florença estava então nas mãos dos guelfos - opositores do poder imperial. Mas o partido em pouco tempo se dividiu em duas facções. A causa foi uma rixa entre famílias, oriundas da cidade de Pistóia. Os Cancellieri eram uma grande família dessa cidade, descendentes de um mesmo pai que tivera, durante sua vida, duas esposas. A família Cancellieri se dividiu quando um membro desajustado da família assassinou o tio e cortou a mão do primo. Os descendentes da primeira esposa de Cancellieri, que se chamava Bianca, decidiram chamar a si mesmos de Bianchi. Os rivais, que defendiam o jovem assassino, passaram a se identificar como Neri (negros), em espírito de oposição. O conflito tomou conta de Pistóia, e a cidade acabou sofrendo a intervenção de Florença, que prendeu os líderes dos grupos rivais. Mas as famílias de Florença não demoraram a tomar partido, posicionamento deflagrado por uma briga de rua (...)
Sim. Os negritos são as únicas diferenças. O texto publicado na Entre Livros foi revisado e (pelo menos este parágrafo) foi corrigido e melhorado em relação ao que eu publiquei no site. Não é apenas um parágrafo semelhante que aparece no artigo publicado na Entre Livros. 80% do meu texto foi usado. Eu publiquei uma comparação e destaquei os trechos semelhantes.

Escrevi um post na época e enviei uma carta para a editora, para o autor, e para a Unicamp, onde o autor é professor. Recebi resposta da editora (e indiretamente do autor), que publiquei neste outro post. Isto faz quase um ano. Há poucos dias recebi a seguinte resposta da reitoria da Unicamp, reproduzida abaixo:
Assunto: Denúncia de Plágio
De: Laisez Jael Cabral Puya Ernandes (email omitido)
Data: 12 de dezembro de 2007, 09h22
Para: Helder da Rocha (email omitido), ‘Ranali’ (email omitido)

Prezado Senhor Helder

De ordem do Sr. Chefe de Gabinete informo que:

Após submeter sua denúncia a nossa Procuradoria Geral, a mesma manifestou-se:
“Pelo exposto detalhadamente até aqui, a Comissão, diante de todo o apurado, conclui que o princípio da anterioridade do escrito apontado como reproduzido se justificaria se o autor pudesse comprovar ou esclarecer, sem qualquer dúvida, que é o criador original dos dados ou informações contida em seu texto. Havendo a coincidência informal e textual de dados bibliográficos a respeito de Dante, tal fato não parece, a nosso ver, ferir propriedades autorais reclamadas por Helder Rocha. Assim, em vista de todo o apurado, não julgamos consistente e clara a configuração de contrafação literária no caso da denúncia em tela”.

Na oportunidade colocamo-nos à disposição.

Atenciosamente

Laisez Ernandes
Assist. Chefe de Gabinete
O grifo é meu.

Se eu entendi a carta, de acordo com as conclusões da comissão formada pela Unicamp para analisar o assunto, o ocorrido não se trata de um plágio porque eu realmente não sou o criador original dos dados e informações que ali estão e eu não descobri novos fatos da história da Itália ou de Dante. Isto [e verdade. Todas as informações que eu usei eram conhecidas. Eu sou o criador original do texto, da forma de apresentar esses dados e informações. Copiar e assumir a autoria de um texto existente que traz informações que todo mundo já sabia não é considerado plágio?

Ou eu não sei o que é plágio ou a Unicamp não sabe o que é plágio. O que é plágio, afinal? Alguém tem uma definição? Eu posso recortar e colar trechos inteiros de um artigo da Enciclopédia Brittanica (que fale de assunto de conhecimento geral) assinar como sendo de minha autoria e incluir na minha tese de doutorado? Será que isto vale para qualquer universidade, ou somente se eu fizer meu doutorado na Unicamp?

12.12.07

Não está no texto, está na vida!

A Santa. A Madonna, de Edward Münch
A Madonna, por Edward Münch

Uma faísca de luz numa noite clara de verão espalhou o fogo. Começou suave, mas fez desabar a casa onde ela dançava. As fundações estavam gastas mas ninguém tinha coragem de tocá-las com medo que as paredes caíssem, até que veio a guerra, e uma inocente faísca. As estruturas vulneráveis sucumbiram, o incêndio alastrou-se e tudo que era estável desintegrou-se em chamas. Nem parecia real, talvez fosse mero reflexo ou cena teatral. Ela, que multiplicara-se em personagens, já não cabia no lugar que tornara-se pequeno demais. Descobriu-se só no vasto e imprevisível mundo, e saiu da cena, livre, guiando-se pelos caminhos abertos pelo fogo.

Ele imaginou-se uma faísca e sonhou com o fogo, onde descobriu seu próprio rosto refletido como num espelho. “O homem”, imaginou ter ouvido alguém falar. Olhou novamente e sentiu as chamas, e novamente o eco refletiu “O fogo”. Era sonho, pois ao acordar só lembrava que era outro, apenas um ator, um ator medíocre. Não lembrava mais nada. Sua identidade parecia existir apenas no texto que esquecera. Era teatro. Mas quando acordava o seu coração continuava em chamas então confundia-se e não sabia se amava a atriz ou a personagem. Talvez nada disso exista, de fato, na vida. É um truque. Talvez esteja apenas no texto.

Nem tudo é real. Nem tudo é apenas teatro. É um truque. E o que é que a Madonna de Münch tem a ver com tudo isto? Não sei. Talvez eu tenha trocado um ou dois idiomas que se misturaram. Assista El Truco (e não leve muito a sério). A última chance é neste próximo domingo, dia 16 de dezembro às 18 horas, no teatro dos Satyros Dois, Praça Roosevelt 134, Centro. É a última chance mesmo! Não haverá outra. Ingresso: 5 a 20 reais. Reserve e chegue cedo pois vai lotar.

(O texto acima e a imagem não têm nada a ver com a peça. Sobre esta peça eu não escrevo nada sério; só viajo. Mas venha ver!)

29.11.07

El Truco: últimas apresentações



O escritor inventou tudo, inclusive a si próprio. O bunker era imaginário, assim como os nomes dos atores, das personagens e das pessoas que inventavam os nomes das personagens. Eram reais apenas seus instintos primitivos, o medo, o amor, o ódio, o riso, a dor, a luxúria, o sonho e a loucura, a vida e a morte. A peça em si foi uma grande farsa, um ensaio interminável ou um delírio coletivo.

Mas faça de conta que existe uma peça. Faça de conta que existe um livro. Faça de conta que você existe, e que sabe quem é realmente. Faça de conta que é tudo verdade e que o bunker é um espelho. Veja seu rosto refletido. O reflexo é um truque: é apenas um raio de luz. A noite clara faz sonhar com a floresta. Quando acordar verá que são apenas atores.

O casamento nunca aconteceu. O duende nunca ganhou seu papel. A guerra nunca terminou e na fuga ninguém sobreviveu. A peça nunca sequer começou.

É um espelho. Um truque de luz, uma brincadeira. Assista El Truco, mas não leve muito a sério. Espaço dos Satyros Dois, Praça Roosevelt 134, Centro. Domingos dias 02, 09 e 16 de dezembro às 18 horas. Ingresso: 5 a 20 reais.

A história continua dentro da coxia.

15.11.07

O Blog, a Chuva e a Lua



Havia coisas demais para escrever, então desisti de publicar. Não sei se é doença de blogueiro ou a tendência de afogar-se com o excesso de informação. Faz um mês que não escrevo nada.

Caía água demais, então desisti de sair. A chuva alaga a rua. Há o risco de afogar-se com o excesso de água. A rua é o princípio de uma ladeira, então imagino que lá embaixo as coisas estejam piores. Faz uma hora e meia que não faço nada.

Foi clicando que cheguei numa foto da Terra vista da Lua. Há um robô japonês orbitando os pólos lunares, fazendo filmes e tirando fotos. Faz tempo que ninguém vê a Terra da Lua. Neste vídeo a nave orbita o pólo norte da Lua e assiste a Terra surgir no horizonte. Neste outro, com mais zoom, a Terra surge de cima e some no horizonte. Os japoneses chamam os vídeos de fotos em movimento.


A Terra vista da Lua

Enquanto a chuva lá fora aumentava eu conversava com uma amiga no MSN que me mostrou aquele site dos que duvidam das viagens à Lua. Eu já conhecia. Adoro sites de teorias conspiratórias. Me divirto muito com eles. Além de não acreditar que os humanos pisaram na Lua, eles também acreditam que o Sol gira em torno da Terra, que a bomba atômica não existe e que as notícias que contradizem esses fatos são mentiras difundidas por grupos poderosos que não querem que a verdade seja revelada. Eu nunca havia clicado nas páginas traduzidas. Tem tradução até para chinês, russo e japonês. Devem ser engraçadíssimas, pois as páginas em inglês foram traduzidas pelo Babelfish e contém trechos como "Paid NASA plus a mico when announcing that it would go to contract writer to prove that gone the Moon would have been truth and to give up the depois." Lunáticos.

A chuva diminui. Eu já poderia desligar o computador e ir embora, mas a viagem me levou a sites que defendem o geocentrismo e me peguei lendo argumentos que defendem que na verdade a Terra é plana. Que interessante. Consegui escapar através do Google. Além de mapear a Terra, Marte e o Universo, o Google também possui um site com mapas da Lua. Usa a mesma estrutura do Google Maps, e tem além das fotos, diagramas detalhados da superfície lunar (com cores de relevo) e descrições detalhadas sobre as seis missões do projeto Apollo que foram à Lua. Fiquei lendo até que a chuva parou.


Google Moon

A chuva parou mesmo. Agora é só esperar um pouco para a água escoar. Talvez dê tempo escrever alguma coisa no blog antes de sair. Talvez para falar da ausência de posts, da chuva, escrever algo sobre a Lua.

7.10.07

Últimas Notícias de uma História Só

Foto: divulgação, blog de Otavio Martins
"También hay sorteos impersonales, de propósito indefinido: uno decreta que se arroje a las aguas del Éufrates un zafiro de Taprobana; otro, que desde el techo de una torre se suelte un pájaro; otro, que cada siglo se retire (o se añada) un grano de arena de los innumerables que hay en la playa. Las consecuencias son, a veces, terribles."
-- Jorge Luis Borges, La Loteria en Babilonia (Ficciones)

Últimas Notícias de uma História Só é a história de um seqüestro. Não, isto seria uma simplificação, pois o seqüestro poderia nunca ter ocorrido. Se eu não tivesse assustado o pombo enquanto caminhava pela calçada naquela noite, ele não teria ido para a rua, o motorista não teria tentado desviar, e o motoqueiro não teria sido derrubado. Um engarrafamento monstro teria sido evitado em plena noite de sexta-feira. Foi lamentável, pois o engarrafamento prejudicou Victor, que tinha apenas dez minutos para descer a Consolação e não perder a peça, mas por conta do trânsito levou mais de vinte minutos e não encontrou Flávia, que ele não conhecia, mas que teria encontrado na fila se ele tivesse chegado na hora. Certamente os dois teriam iniciado um papo, pois Flávia levava um exemplar de Ficções, de Jorge Luis Borges, para ler enquanto esperava, já que foi ao teatro sozinha. Victor, que é louco por Borges, jamais deixaria de perceber esse detalhe. Mas o fato é que Victor ganhou um bilhete premiado da Loteria da Babilonia e nunca chegou, e nunca mais chegaria, pois irritado com o trânsito acabou pegando uma contramão, batendo de frente com um ônibus cujo radiador foi irreversivelmente danificado pelos ossos do seu crânio. O acidente bloqueou a rua e atrapalhou os planos de Vanderley, Roberto e sua cúmplice (da qual por um lapso de memória, neste instante, não me lembro o nome), que desistiram de levar adiante um assalto, que se tivesse ocorrido, provavelmente fracassaria, ou evoluiria para um seqüestro mas eu não tenho tanta certeza, pois em momentos como esses coisas incríveis acontecem, até mesmo chuvas de sapos.

Mas nada disso tem a ver com a peça, exceto por um ou dois nomes próprios, a hora e talvez algumas circunstâncias. Se por acaso você chegou a ler este texto, talvez queira saber que história é essa da qual eu falo, porque talvez, apesar de tão diferente, talvez seja tudo uma história só, apenas as últimas notícias de uma história que ainda não terminou.

* * *

Como sempre, isto não é uma crítica de teatro. É só mais uma viagem inspirada pelas impressões despertadas numa madrugada da sexta para o sábado num teatro da Praça Roosevelt.

A peça Últimas Notícias de uma História Só é uma criação coletiva dirigida por Otávio Martins (ex-Cia. do Latão) com Alex Gruli, Luciano Gatti e Melissa Vettore, e está em cartaz toda sexta e sábado, à meia-noite, no Satyros II. E se por um acaso você chegar um pouco mais cedo, tipo antes das 18h, aproveite e assista também El Truco, de Roberto Audio, com o Núcleo Experimental dos Satyros, as 18h, no mesmo teatro.

Amanhã irei ao Rio de Janeiro, a trabalho, mas à noite tentarei ver algumas peças do Festival do Rio. Volto quinta. Na quinta à noite começam as Satyrianas.

5.10.07

Anna Abda

“Ha ocurrido una cosa que es increíble...”
J.L. Borges, “Emma Zunz”

Louise Burghes Azevedo faleceu no dia 14 de junho de 2006, aos 86 anos. Ela era viúva. Seu marido, um arquiteto, era falecido há mais de quarenta anos. Acredita-se que ela tinha dois filhos homens, que moravam fora do país, e que sua mudança para o apartamento da rua Baronesa de Itu ocorrera após a morte repentina de um deles. Louise era uma velhinha simpática. Sorria, fazendo sumir seus olhos azuis na sua pele clara e enrugada, mas não falava muito. Morava sozinha com um mordomo e uma enfermeira que às vezes eram vistos levando-a para caminhar pelos jardins do condomínio. Nos últimos anos ela era vista sempre numa cadeira de rodas, usando chapéu e óculos escuros. Praticamente não falava. Recebia visitas ocasionalmente, mas ninguém sabia muito sobre ela. Não sabiam, por exemplo, que Louise Burghes não era seu verdadeiro nome.

A coleção completa das obras de Jorge Luis Borges que encontrei no sebo do Brandão era assinada por Anna Loewenthal, Buenos Aires, 15 de janeiro de 1962. Era uma coleção atraente. Os volumes tinham capa verde, detalhes dourados e letras grandes. Eu certamente a teria comprado se não fosse o detalhe de que um dos volumes estava com várias páginas faltando. Faltava uma história inteira.

Saiu no jornal O Correio do Povo, de Porto Alegre, em 15 de maio de 1963 a notícia de que “foram encontrados mortos a tiros em sua propriedade rural no município de Bagé, o casal de aposentados Dora Martinez e Zacarias Herrera. O crime teria acontecido por volta das onze e meia da noite de ontem mas o casal só foi encontrado hoje pela manhã, pelo caseiro que chamou a polícia. Até o momento não há pistas dos assassinos.”

Em 11 de novembro de 1918 Hannah Abda conheceu Samuel Loewenberg, apaixonou-se por ele e tornou-se sua amante. Loewenberg era um homem rico, sério e discreto, e era casado. Sua esposa, Rachel, era uma distinta senhora da família Gauss. Eles nunca tiveram filhos. Quando Hannah ficou grávida, seis meses depois, Samuel passou a sustentá-la secretamente com uma pensão mensal. Pouco depois do nascimento de Anna, Rachel morreu de causas desconhecidas e Samuel tornou-se recluso, distante e religioso. Mesmo assim, não cortou a pensão que pagava a Hannah e comunicava-se com ela ocasionalmente por carta. Mas no ano seguinte Samuel foi assassinado, a pensão cessou e Hannah afundou na miséria.

Eurico me ligou no fim da tarde para dizer que havia encontrado as páginas que faltavam da coleção de Borges. Ele as encontrou dentro de um dos diários de Louise Burghes. Voltei do sebo com a coleção, os diários e as páginas soltas de Emma Zunz. Os diários, escritos em espanhol, não traziam nada de muito interessante. Falavam de coisas banais, da falta de dinheiro, das visitas inoportunas. Quase sempre reclamava da vida, uma vida sem graça, onde pequenos problemas eram ampliados para dar sentido às coisas. Em outras páginas havia contas, números de telefone, endereços, notas curtas, rabiscos. Meu interesse maior era pelo que estava solto dentro dos diários: fotos antigas, recortes de jornais e cartas incompletas.

Anna tinha quase dois anos quando seu pai, Samuel Loewenberg, sócio-proprietário da fábrica de tecidos Schreiber & Loewenberg, foi assassinado. Ele foi morto com três tiros no peito, numa noite de sábado, 14 de janeiro de 1922 por uma ex-funcionária que o surpreendeu no escritório. Alegando legítima defesa por ter sido vítima de assédio sexual, Manuela Mayer confessou o crime e submeteu-se a exame de corpo de delito comprovando o ato. Julgada e inocentada, desapareceu dois anos depois e nunca mais foi vista. Dizem que ela casou-se com um marinheiro sueco e mudou-se para o Brasil.

No jornal Diário de Notícias, também de Porto Alegre, a notícia de 27 de maio de 1963 informando que “o exame dos cadáveres do duplo assassinato da semana passada em Bagé revelou um detalhe macabro: uma assinatura, feita com um objeto cortante, no pulso de ambas as vítimas. O criminoso assinou sua obra com o nome de uma mulher: Anna Loewenthal.”

No dia 29 de novembro de 1947, Hannah Abda morreu de tuberculose em um hospital da periferia de Buenos Aires. Em 14 de maio de 1948, sua filha Anna casou-se com o arquiteto George Burghes, assumindo o nome de Louise. No dia seguinte George e Louise Burghes mudaram-se para Londres.

O último recorte datado de 25 de agosto de 1963, é do Jornal do Comércio de Bagé, e noticia que “a polícia de Bagé recebeu ontem uma carta anônima, assinada pela misteriosa Anna Loewenthal, acusando suas vítimas de serem assassinos. De acordo com a carta, Dora Martinez é na verdade Manuela Mayer, acusada de matar, em janeiro de 1922, o empresário argentino Samuel Loewenberg, em Buenos Aires. A carta é longa e revela em riqueza de detalhes as estratégias que teriam sido usadas pela vítima para realizar o crime perfeito e escapar como inocente. Especialistas acreditam que as informações da carta são falsas e foram inventadas pelo assassino, certamente um psicopata, e descartam a possibilidade de que se trate de uma mulher.”

Nas folhas arrancadas de Emma Zunz, que estavam soltas dentro do diário de Louise Burghes, os nomes das personagens estavam sublinhados, e havia uma nota no final, assinada por Anna Loewenthal em Buenos Aires, 31/01/63 (um dia após a morte do seu marido), que dizia: “George partiu então Louise não mais existe. Mas hoje ocorreu uma coisa que é incrível. Descobri Anna, filha de Hannah e Aaron Loewenthal. Ela está de volta para vingar o assassinato do pai e a infelicidade de sua mãe. A partir de hoje Anna Loewenthal é a Morte, e ela chegou para buscar Emma Zunz, onde quer que ela se encontre.”

Até onde pude verificar, foi tudo verdadeiro. Só eram falsas as circunstâncias, a hora, e um ou dois dos nomes próprios.


Clube de Leituras sobre Borges

Este conto foi inspirado pelo Clube de Leituras sobre Jorge Luis Borges organizado por Idelber Avelar, através do seu blog O Biscoito Fino e a Massa. Idelber convida todos a participarem das discussões através da caixa de comentários do seu blog ou escrevendo sobre os contos estudados. O Clube continua e haverá estudo de vários outros contos de Borges. Emma Zunz foi o conto de quarta-feira passada. Eu não consegui escrever sobre o conto, então escrevi uma resposta a Borges. O último parágrafo pertence a ele.

26.9.07

Blindness


"(...) Falo em figurantes pois neste filme eles não são apenas gente que cruza o quadro imitando o movimento das ruas. Aqui estão todos cegos. Todo mundo tem que atuar e esse pequeno detalhe foi o motivo que quase me tirou deste filme quando pensei em dirigi-lo. Cada vez que imaginava uma cidade ocupada só por cegos a imagem que me vinha era a de uma população caminhando pelas ruas com os braços estendidos como num filme B, ou Z, de Zumbi. Socorro, pensava. Mas sei que cegos não andam assim, então a primeira providência foi chamar o Chris Duvenport, preparador de atores, e convidá-lo para me ajudar a evitar que este Ensaio Sobre a Cegueira virasse um remake da Volta dos Mortos Vivos.

De cara, o Chris aceitou o convite. Chamou sua assistente, colocou uma venda preta nos olhos e foi andar pelo Ibirapuera. Se animou com a sensação e resolveu correr, até encontrar uma árvore. (...)"
O trecho acima é do quinto post do Diário de Blindness, iniciado há pouco mais de um mês pelo diretor Fernando Meirelles que está filmando Blindness, uma adaptação para o cinema do livro Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. O filme é uma superprodução com orçamento milionário, que envolve centenas de figurantes (a maioria interpreta cegos) e atores de vários países. Estão no elenco Julianne Moore, Mark Ruffalo, Danny Glover, Gael García Bernal, Alice Braga e outros. As primeiras filmagens aconteceram em Guelph e Toronto, no Canadá, e agora ele está filmando em São Paulo e Montevideo.

O blog é ótimo e os posts são muito bem escritos. Aproveite para ler o blog inteiro enquanto há poucos posts. Fernando atualiza o blog aproximadamente uma vez por semana.

24.9.07

A utopia das ciclovias


Estacionamento de bicicletas em Amsterdam

Por causa do Dia Mundial sem Carro, no último sábado (que fracassou em São Paulo), os meios de transporte alternativos voltaram a ser assunto na mídia. Falou-se muito do uso das bicicletas, da falta de infraestrutura urbana para esse tipo de transporte, e da famigerada solução de sempre: a ciclovia.

É uma discussão inútil. Sempre que esse assunto está em pauta os grupos de interessados se reunem com os governos que produzem projetos mirabolantes. A solução não é a ciclovia. Encher a cidade de ciclovias é a solução mais cara e inviável para estimular o uso de bicicletas. É improvável que esses projetos saiam do papel em menos de uma década ou mais. Nem as motos têm vias exclusivas suficientes; como acreditar que as bicicletas terão? Vão tirar de quem? Dos carros? Dos pedestres?

Eu não me refiro às ciclovias de brinquedo, que ligam nada a lugar nenhum (e que há um monte delas na cidade). Fazer ciclovias assim é fácil, mas se a idéia é incentivar o uso da bicicleta como meio de transporte, essas ciclovias não ajudam em nada.

Ah sim, existem os críticos que acham uma loucura qualquer tipo de investimento nessa área. Já ouvi argumentos que São Paulo não é uma cidade para bicicletas, que tem ladeiras demais, que o trânsito não permite (já bastam as motos e os carroceiros). Também é muito fácil encontrar motivos, fora a preguiça, para não trocar o carro pela bicicleta como transporte individual: o calor, o frio, a chuva, o Sol, o ar seco, a poluição, o risco de assalto, o risco de ser atropelado, os caminhões, o suor, as ladeiras, a lama, os esgotos, os buracos. Eu também consigo enumerar muitos motivos para não caminhar, para não pegar ônibus nem metrô, enfim, há vários motivos para nunca sair de casa.

Na verdade há muita gente que usa bicicleta como meio de transporte na cidade, mas são pessoas que usam por necessidade e talvez não usassem se tivessem carro. Será que as ciclovias iriam fazer com que as outras pessoas, as que usam carro para tudo, aderissem à bicicleta? Eu duvido.

Eu uso a bicicleta como meio de transporte (bem menos do que uso carro, táxi, metrô e ônibus). Utilizo geralmente em trechos pequenos (menos de 6 km). As ciclovias não me fazem falta. Há vias de baixo movimento suficientes para esse tipo de deslocamento. Eu só não utilizo mais porque nunca sei se no meu destino encontrarei um lugar para deixar a bicicleta. E é esse, para mim, é o maior problema da cidade em relação à adoção da bicicleta como meio de transporte.

Eu posso sair de carro e deixá-lo estacionado na rua, se houver vaga, ou pagar um estacionamento. Para a bicicleta eu preciso levar comigo um cadeado e cabo de aço de 2 metros (que permita prender o quadro, as duas rodas e o selim) e de um lugar seguro para prendê-la. Mas nem sempre é fácil. Bicicletas não são sempre bem vindas. Já fui abordado por seguranças de um prédio que não deixaram que eu prendesse a bicicleta na grade de um muro que ficava na calçada. Um deles me informou que se eu insistisse, eles cortariam o cabo. Há exceções, mas a maior parte dos estacionamentos privados e de prédios comerciais também não aceita bicicletas.

Eu uso a bicicleta para ir a uma academia que fica a um quilômetro e meio da minha casa. É uma grande academia multiesportiva que apóia atletas e promove competições de ciclismo urbano mas não possui sequer um lugar na calçada para estacionar bicicletas. A maior parte dos freqüentadores vai de carro ou de moto e o estacionamento conveniado que há no seu subsolo não aceita bicicletas.

Eu utilizaria mais a bicicleta se houvesse onde deixa-la. Não preciso que a cidade tenha dezenas de quilômetros de ciclovias. Preciso de um lugar na estação de metrô mais próxima (que ficam a menos de um quilometro e meio da minha casa) para deixar a bicicleta, e ter esperanças de encontrá-la inteira quando voltar. Consigo chegar em qualquer uma dessas estações em cinco a dez minutos, trafegando por vias locais de pouco movimento. É sempre um problema encontrar um lugar (os poucos lugares bons estão tomados de bicicletas) e os outros são arriscados.

A prefeitura anuncia que está investindo em estacionamentos gratuitos nas estações de metrô e trem. São garagens cobertas, com um funcionário em tempo integral. Ficam lotadas. Mas nem precisava de tanto. Um rack em um local movimentado já seria um grande avanço (já que a disputa é por espaço nos postes). O problema desses investimentos maiores é que eles acontecem numa lentidão insuportável. Até agora inauguraram duas garagens, eu acho. Vão inaugurar mais duas no ano que vem. Talvez em cinqüenta anos chegue uma garagem de bicicletas na estação Sumaré ou Vila Madalena.

Mas por que os estacionamentos que aceitam carros e motos não podem aceitar também bicicletas? Vez ou outra eu pergunto os motivos. Uma vez recebi a informação de que a seguradora não cobria danos ou furtos de bicicletas e por isto o estacionamento não poderia aceitá-los. Será este o motivo? Será que não há como resolver isto? Eu até pagaria uma taxa para estacionar a minha bicicleta com segurança num estacionamento. Há tantos estacionamentos privados na cidade. Não creio que seria necessário um grande investimento da parte deles e da prefeitura para que pudessem oferecer um lugar para acomodar bicicletas. Com certeza seria uma solução bem mais rápida, barata e eficiente do que continuar investindo na utopia das ciclovias.

22.9.07

A Loteria em Babilônia


As Moiras (fiandeiras do destino), por Francisco de Goya.

A Loteria em Babilônia – o conto de Jorge Luis Borges – me parece um monólogo. Consigo até visualizar o ator, sentado em uma cadeira na sala de espera de uma estação, ou de um porto, ou aeroporto, contando, com entusiasmo, a sua história para alguns outros que, como ele, também esperam. Ele se move, gesticula, fixa-se nos olhos de sua platéia, varia o tom e intensidade da voz, cala-se, olha para o lado, e volta a falar com emoção ao descrever suas experiências de vida inacreditáveis. Ele quer a nossa atenção.
“Olhem: à minha mão direita falta o indicador. Olhem: por este rasgão da capa vê-se em meu estômago uma tatuagem vermelha: é o segundo símbolo, Beth (...)”
Quando finalmente consegue prender a atenção da platéia, ele explica a razão que está por trás de tudo: a loteria. Mas não é uma simples loteria. É um jogo de acasos controlado por uma organização onipotente e secreta que tem o poder sobre a sorte e o azar de cada habitante, que interfere na natureza manipulando e intensificando o acaso. Essa organização, que ele chama de A Companhia, tem o poder de causar tempestades ou calmarias, determinar se alguém irá matar ou morrer, alcançar a glória ou a desgraça. Através de pequenas ações, às vezes inócuas, distribui a sorte ou o azar a todos os jogadores. Como as Moiras da mitologia, a Companhia fia os destinos de todos, dia após dia, até a hora da morte.

Ele está de partida, e a nave que vai levá-lo embora já chegou na estação, ou no porto. Mas o tempo que resta é suficiente para que ele nos conte toda a história da loteria, em detalhes. É uma história fascinante, inverossímil. Ao final, admitindo a influência da loteria, confessa ter talvez exagerado, ou mesmo mentido:
“Sob o influxo benfeitor da Companhia (...) eu mesmo, nessa apressada exposição, falseei certo esplendor, certa atrocidade.”
E conclui:
“É indiferente afirmar ou negar a realidade da tenebrosa corporação, porque Babilônia não é outra coisa senão um infinito jogo de acasos.”
A Loteria na Babilônia é, portanto, uma metáfora do acaso. Pode não ser o acaso. Pode ser, como se define, uma ordem que interfere no acaso, mas qual a diferença? Como distinguir o crime perfeito de um acidente? Se um evento for tão bem planejado que seu resultado pareça um evento do acaso, embora não seja, há como dizer que ele não o é? Suponha que estamos em Babilônia, e lá dois carros deslocam-se em sentidos opostos numa rodovia. Um dos motoristas invade a outra faixa. Os carros colidem. Os motoristas morrem. Um acidente. Uma fatalidade. Será? Um animal cruzou a pista? O motorista se distraiu? Uma peça quebrou? Como ter certeza que não houve interferência?

É como se o mundo fosse uma simulação, um programa. Uma ordem de eventos precisamente calculada pode ser o acaso dentro desse sistema. Se você consegue habitar fora do sistema terá condições de entender o algoritmo e decifrar sua chave, mas dentro dele essa ordem parece o caos, o acaso. É por isto que não existe, no mundo dos computadores, nada realmente aleatório (para nós que habitamos fora deles.) No conto, a loteria começa como um sistema simples contido no universo, e é, portanto, compreensível, mas quando se expande a ponto de ocupar todo o universo, torna-se cada vez mais incompreensível para os que habitam nele. Somente quem está de fora é capaz de ter certeza que os eventos não são obra do acaso. Aos habitantes, resta apenas especular sobre isto, ou aderirem à fé.

A Companhia me lembra uma das minhas teorias de conspiração favoritas: a sociedade secreta dos Illuminati da Baviera, que seus seguidores acreditam ainda existir e ser formada por pessoas vivas e mortas. Os Illuminati exercem um governo paralelo do mundo, controlando os rumos da humanidade, influindo nas decisões dos governos, das organizações poderosas, até mesmo alterando o clima. Sua justiça é como a justiça divina: incompreensível aos mortais comuns. Assim, como Deus e A Companhia, suas decisões são indistinguíveis do acaso.

A história, portanto, brinca com a teoria da predestinação, de que não temos controle algum sobre o noso futuro. Nesse contexto tem semelhanças com um conto de Philip K. Dick: Minority Report. Enquanto o conto de Borges descreve uma organização que interfere na realidade, intensificando o caos e causando eventos que não eram previstos, o Minority Report descreve uma organização que utiliza-se de videntes para descobrir eventos que irão acontecer, produzindo um relatório, que é usado, dentre outras coisas, para identificar pessoas que irão cometer um crime e prendê-las antes que elas o façam. Em ambos os contos a predestinação faz parte da natureza: as pessoas não têm a liberdade de decidirem o rumo que darão às suas vidas, não existe livre arbítrio.

Há contos que me fazem viajar nas imagens, outros me enchem de idéias e me estimulam a pensar (nem sempre estou disposto a isto.) Vários contos de Borges são assim, mas eles combinam imagens (nem sempre fáceis de formar) com idéias. Pela forma como descreve a realidade, A Loteria em Babilônia se assemelha a outro conto de Borges: A Biblioteca de Babel.

O conto também associa o jogo de sorte e azar com a alegria de viver. O narrador explica que as pessoas tinham prazer em participar dos acasos, das paixões. Os que não tinham como comprar o bilhete ficavam com inveja dos que se aventuravam no jogo e poderiam ganhar uma grande sorte ou um grande azar. Todos querem viver intensamente. Buscam o terror e a esperança. Qualquer coisa é melhor que a monotonia da paz. Acreditam que a vida vale a pena quando corre-se o risco de perdê-la. Participar da loteria é como entregar-se completamente às paixões da vida, mesmo arriscando encontrar a dor em vez da felicidade. Para amar a vida, é preciso amar o acaso.

Clube de Leituras sobre Borges

Esta resenha sobre o conto A Loteria em Babilônia foi inspirado pelo Clube de Leituras sobre Jorge Luis Borges organizado por Idelber Avelar, através do seu blog O Biscoito Fino e a Massa. Idelber convida todos a participarem das discussões através da caixa de comentários do seu blog ou escrevendo sobre os contos estudados. O Clube continua e haverá estudo de vários outros contos de Borges. A Loteria em Babilônia foi o conto de segunda-feira passada. Eu cheguei atrasado.

14.9.07

El Truco



Who are you? And why, why do you hide?

I dreamt I was the boy who had died
So I saw myself running alone
In a bleak narrow street made of stone
With tiny dark houses on each side
I sought the place where they hid my face
The silent grave that would end my chase
It had no portrait, no cross, no name
Just a mirror in a silver frame
I sought the place where it all began
And there I found the face of a man.

Ein Mann.

Mann?

I'm just a spark of light in a clear summer night
I have no matter, no past, just light, reflected
A well known face
The face... of a man
When I wake up from this dream I am just an actor
A mediocre actor
My memory is blank
But my heart... It's on fire.

Feuer! Überall! Feuer!

Fire!

Fuego? Quizás no. Es solamente una pieza, somente uma peça, um truque.

El Truco, de Roberto Audio, com o Núcleo Experimental dos Satyros. Espaço dos Satyros 2 (3258-6345), praça Roosevelt 124, Consolação (São Paulo). Sábados e domingos às 18 horas, até 16 de dezembro. 70 lugares. Duração 90 minutos.

Sinopse (www.satyros.com.br): Um escritor mal-sucedido relata tudo o que vivenciou num bunker, durante uma guerra desconhecida, com um grupo de sobreviventes que tenta ensaiar o espetáculo “Sonho de uma Noite de Verão” de William Shakespeare.

Elenco: Ana Lúcia Felipe, Ana Pereira, Andressa Cabral, Angela Ribeiro, Cléo de Páris, Edna Elizabeth, Fabiana Souza, Helder da Rocha, Ivam Cabral, Laerte Késsimos, Marba Goicocchea, Maria Campanelli Haas, Paulo Maeda, Ricardo Socalschi, Teka Romualdo, Thammy Allonso, Thiago Baliero, Wagner Mendonça, Wanderley Safir e Washington Calegari.

Não me pergunte sobre a peça porque eu não sei nada sobre a peça. Eu sou o Bute, o bufão de Oberon. O Bute não sabe de nada; ele não decorou o texto. Assistam.

www.satyros.com.br.

6.9.07

E non ho amato mai tanto la vita!


E lucevan de stelle: Luciano Pavarotti (12/10/1935 - 06/09/2007) interpretando o pintor Mario Cavaradossi em cena da ópera "Tosca", de Giacomo Puccinni.

Ópera é teatro. Não basta ser um exímio cantor. Pavarotti também era um ótimo ator, como mostra este vídeo enviado por minha amiga Alessandra. Seus olhos, seu corpo, seus movimentos pelo espaço revelam a personagem que interpreta e tornam o seu canto muito mais dramático.

31.7.07

Ingmar Bergman


Trecho da ópera A Flauta Mágica, de Mozart (cena de Papageno e Papagena) em produção teatral produzida e dirigida por Ingmar Bergman em 1975. Esta versão foi produzida para a TV sueca. Bergman (falecido ontem) teve grande atuação no teatro. A Wikipedia lista 171 produções que incluem óperas e clássicos de Shakespeare, Ibsen, Eugene O'Neill, Tchekhov e outros. Eu vi apenas 10% dos seus 54 filmes. Dentre eles, o meu favorito é o Sétimo Selo (1957).


Trailer de O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman

23.7.07

Vôo 3721



O terminal não está emitindo o seu bilhete eletrônico? O senhor terá que enfrentar aquela fila. Mas meu vôo vai sair em 45 minutos! Para onde o senhor vai viajar? São Paulo, 18 horas? 3721? Este vôo foi cancelado. Dirija-se àquela outra fila, onde tentaremos acomodá-lo em outro vôo. Aquela fila imensa ali? Não, aquela não. A outra, depois dela. Ah, ok.

Aqui está seu bilhete. Vôo 3715, 19h30. Embarque às 18h50 no portão seis. Tenha uma boa viagem. Obrigado.

Aqui também? Por que esta fila? É porque agora é preciso mostrar a identidade ao entrar na área de embarque. Ah, entendi. Depois tem mais outra fila, para o detector de metais. Laptop? Sim. É preciso tira-lo da mochila. Ok. Por favor, tire também da capa protetora. Acendeu a luz. Moedas, chaves? Não? Tire o cinto, por favor. Ok. Por favor, senhor, poderia arrumar sua mochila em outro lugar para dar espaço para as bagagens dos outros passageiros? Sim, claro, estou apenas colocando o notebook de volta.

Portão seis? Não é este o vôo. A companhia é outra. Deve estar no painel. Ah, achei. É quatro. O portão agora é o quatro e o vôo não sai mais às 19h30 como foi informado no balcão. Está previsto para as 20h15.

Vôo 3715 para São Paulo, informamos aos senhores passageiros que sua aeronave tem seu pouso previsto para as 20 horas, e seu embarque, quando autorizado, será realizado através do portão onze. Ela falou mesmo o vôo 3715? O portão onze fica do outro lado do aeroporto. No bilhete está escrito seis, mas no painel continua quatro. E agora?

Embarque portões nove a onze. Sim, é preciso mostrar a identidade novamente, Sim, é preciso tirar o laptop novamente. Pode passar outra vez, senhor? Moedas, chaves, celular? O cinto. Ah, esqueci. O cinto!

Painel do portão onze. São Luís, Manaus. Não é o meu vôo. Provavelmente ainda não foi atualizado. Mas já são 20h15.

Parece que estão anunciando. O avião já se encontra em solo, mas devido ao reposicionamento das aeronaves agora seu embarque foi alterado para o portão C. No bilhete o portão é quatro, no painel foi seis, mudou e continua onze. Já são 20h30, mas no painel o vôo vai partir às 20h15.

O embarque é imediato. É um ônibus, normal, de quatro rodas. O ônibus não é tão confortável quanto o terminal, principalmente por não ter assentos na porta. Ele está lotado e é muito quente. Fica parado, com o motor ligado, soltando fumaça que os passageiros quietos inalam. O tempo passa devagar. Mais de quinze minutos. Talvez meia hora. Chegam os dois últimos passageiros engravatados e apressados, e ele parte.

Dois ônibus lotados esperam ao lado de um Airbus A320. Três pessoas uniformizadas esperam diante de uma escada e ao lado de um tapete vermelho. As portas do ônibus estão fechadas, o motor continua ligado, e passageiros suados e pacientes observam as pessoas uniformizadas, a nave e o tapete vermelho pelas janelas. Cinco, dez, talvez quinze minutos.

Outra fila. Ah, mas esta não preciso enfrentar. 22E fica nos fundos. Na porta traseira a fila é menor. A bagagem não cabe. O compartimento está cheio. Vou ter que colocar debaixo do assento. É ruim para esticar as pernas. Com licença, eu estou no 22F. Claro! Um momento que eu vou sair. Acho melhor tirar a minha mochila senão você não vai conseguir entrar. Desculpe. Com licença. Obrigado.

Todos sentados. Estamos esperando alguma coisa. Mais meia hora. Onde guardei o iPod? Devo ter despachado. Todos já embarcaram? Parece que sim. Bala de chocolate? Não obrigado. Pensando bem, eu quero.

Não ouvi. O que ele falou? Ah. Esperando o seqüenciamento das aeronaves. Quanto tempo dura isto?

Portas em automático. Neste momento é preciso desligar os telefones celulares. Já está desligado. Poltronas na posição vertical. Ela mal reclina.

E a nave se move, lentamente, até mais uma fila. Que sono. Não posso reclinar o banco ainda. Atenção tripulação. A nave acelera, decola. Agora posso reclinar a poltrona, pouco, um giro de cinco graus.

Perdi o lanche. Dormi. Sim. Eu ainda quero. Claro. Faz horas que não como nada. Sanduíche frio, úmido, pesado, que gruda no céu da boca. Cem mililitros de suco, 30% de gelo.

Não ouvi. O que ele falou? Ele está falando inglês? Não dá para entender nada. Parece que chegaremos às onze horas e trinta minutos. Que ótimo. Cinco horas e meia de viagem.

Vou saber de cor o mapa de Ribeirão Preto. Já vamos iniciar a sétima volta. Ou será a décima? Não sei. Já perdi a conta. Consigo identificar o estádio, avenidas, praças. Quase uma hora dando voltas como um urubu. É culpa do tal seqüenciamento. Tem uma fila para pousar em Congonhas.

Senhores passageiros, aqui quem fala é o comandante, obrigado pela paciência. O que mais ele falou? Não ouvi. O som é ruim. Por que as pessoas estão reclamando? Ele disse que Congonhas fechou e que teremos que pousar em Guarulhos. Ah, que ótimo. Que horas? Não sei.

Meia hora. Esteira D. Por que as malas não chegam? Quase uma da madrugada. As malas não chegam. A esteira é essa mesmo? As malas não chegam. Eu quero dormir. Ah, as malas.

Não senhor, o ônibus não pode parar no meio do caminho. Nós somos uma empresa terceirizada. O contrato é para levar os passageiros até Congonhas. O senhor pode falar com o motorista, se o senhor estiver sem bagagem ele talvez possa parar.

Não. Não vai dar. Vou pela Vinte e Três de Maio. Não dá para parar. Não posso assumir o risco, você me entende? Claro.

Congonhas, São Paulo. 15 graus, 1h55. Aeroporto fechado. Brasília a São Paulo, 8 horas. Cai uma chuva fina e constante. As pessoas esperam na fila do táxi. Esqueceram de colocar o tapete vermelho.

21.7.07

Lançamentos

Eu li Virgínia Berlim, de Luís Biajoni. É ótimo. Escrevi um post mas acabei não publicando. Vou publicar na semana que vem junto com outro post inédito que escrevi há séculos sobre outro e-book (um livro de contos) de Alex Castro. Hoje tem lançamento em São Paulo de três livros, dois do Alex e um do Biajoni. Um dos livros é intangível, mas vai ser lançado mesmo assim. Apesar de intangível é legível. Você pode assistir ao trailer do livro lendo este blog.



Ah, também existe um trailer de Virgínia Berlim, que foi escrito como um livro mas que ao ser lido flui como um filme ou uma peça de teatro. E que tem uma ótima trilha sonora!

Ainda não li as crônicas cubanas - o tal livro intangível, que Alex escreveu durante uma viagem a Cuba no mês passado. As crônicas libertinas são ótimas. O livro é uma boa introdução ao blog Liberal Libertário Libertino, que tem várias outras pérolas nunca publicadas como As Prisões.

16.7.07

A Esfinge

Dizem que os egípcios construíram a Esfinge inspirados nas estrelas. Não sei de onde veio essa teoria. Acho que vi em algum programa de televisão. Essas teorias geralmente se baseiam mais em suposições e imaginação que em fatos, já que não há como ter certeza de nada, mas é divertido imaginar que possa ser verdade.

Usando o Starry Night (software que simula o céu como um planetário) consegui voltar ao passado, perto do ano 5000 a.C. e, situando-me na cidade do Cairo, assistir à constelação de Leão nascer no leste.

Qualquer um pode ligar os pontinhos e imaginar as constelações que bem entender, e diferentes civilizações interligaram as estrelas de forma bem diversa, mas a figura tradicional do Leão é uma das constelações retratadas em mapas astronômicos egípcios desde 4200 a.C.

Então, supondo que os egípcios ligavam os pontinhos da forma como ainda fazemos hoje, podemos imaginar a esfinge, de perfil, nascendo no leste, às margens do rio Nilo (passe o mouse sobre a imagem abaixo se não conseguir).


Imagem gerada pelo Starry Night Digital Download 6

E onde está a constelação de Leão hoje? Com o Sol em Gêmeos, o céu ainda está claro quando Leão está se pondo. Procure-o após o por do Sol, com o rosto da esfinge voltado para o horizonte.

Se você estiver em São Paulo, desista. A chuva por aqui não parece que vai dar trégua. Se hoje à noite você estiver em algum lugar com céu aberto, procure a Lua crescente no oeste após o por do Sol. Perto dela estão dois planetas: Vênus e Saturno, todos à esquerda da esfinge. Veja na imagem abaixo (a figura da esfinge está virada com o rosto olhando para baixo.)


Lua, Vênus, Saturno, Lua e a Esfinge, hoje, após o por do Sol. Clique para ver uma imagem ampliada.

Não deu para ver por causa das nuvens? Tente de novo amanhã (e depois). Amanhã a Lua já estará em outro lugar, e Vênus terá se movido um pouco, mas muito pouco. Todos os dias, porém, o Leão irá se por mais cedo até que em algumas semanas não será mais visível por estar muito próximo ao Sol.


Lua, Vênus, Saturno, Lua e a Esfinge, no dia 17, após o por do Sol. Clique para ver uma imagem ampliada.

Amanhã estarei em Brasília, onde as nuvens são raras, e vou tentar fotografar Saturno com um telescópio. A imagem abaixo mostra como Saturno deve aparecer no céu de Brasília, visto através de um telescópio com aumento de cerca de 120 vezes.


Imagem gerada no Starry Night Digital Download 6

12.7.07

É muito sério


Imagem: agência O Globo.

O técnico da seleção brasileira de arremesso de havaianas e seus doze atletas desembarcaram às 18 horas e dez minutos no aeroporto de Reykjavik, na Islândia. Eles foram selecionados para representar o Brasil no Campeonato Internacional de Arremesso de Calçados que aconteceria por lá. Era março e estava muito frio. A média estava em torno de seis graus negativos. Mas para os atletas estava mais frio ainda, pois era verão no Brasil.

O técnico e seis atletas chegaram primeiro no hotel, e dirigiram-se a uma sala aquecida onde fariam uma reunião e dariam entrevistas antes de descansar. Enquanto esperavam os outros, ficaram conversando e fazendo piadas sobre o frio.

– Nossa, isto aqui está uma Sibéria – comentou o técnico.

Todos riram. Os outros chegariam em breve, e o técnico, para saudá-los de forma bem-humorada, escreveu no quadro branco que havia na sala, “Bem vindos à Sibéria”.

Foi um escândalo. Jornalistas entraram na sala e viram o quadro. Tiraram fotos. Muitas pessoas apareceram e houve um tumulto na entrada. A entrevista acabou ficando para o dia seguinte. Mas, na manhã do dia seguinte jornais de todo o país estampavam na primeira página uma foto do quadro e do técnico. Políticos e autoridades locais se manifestaram contra a atitude do técnico:

– "É uma afronta. Um absurdo! Mas como ousam comparar-nos àqueles bárbaros siberianos? Nós somos sérios. Isto é um país sério." – Hagar Terribilis, juiz aposentado.

– Quem eles pensam que são? Só porque são campeões mundiais em arremesso de sapatos acham que são melhores? É isto? – Hans Ikikurrah, engenheiro.

Não adiantou o técnico explicar que era apenas uma brincadeira. Mas ele percebeu que havia cometido uma gafe diplomática. Pediu desculpas aos islandeses e se defendeu dizendo que não teve a intenção de ofendê-los. Era uma piada por causa do frio intenso que fazia lá fora.

– Ora, que desculpa esfarrapada! – comentou uma mulher – Frio? Que frio? Seis graus abaixo de zero? Faça me o favor! Ele escreveu isto dentro do hotel que é climatizado! Agora ele está atrás de uma desculpa para se safar!

O prefeito percebeu a gravidade da situação e fez uma declaração pública à imprensa:

– Foi uma declaração infeliz. Qualquer um sabe que somos muito diferentes da Sibéria. Nada contra a Sibéria, claro, um país bonito, de um povo honrado, nômade, descendentes dos grandes mongóis, mas a comparação foi irresponsável e revelou algum preconceito. Senso de humor é bom, mas tem limites.

O técnico ainda tentou defender-se através da mídia:

- Preconceito? Onde? Contra os imigrantes orientais? Eu juro que não fiz comparação alguma. Era uma piada, já disse. Mas, e se fosse uma comparação? Eu não sabia que era uma ofensa fazer comparações assim. Aqui também não há planícies e lagos frios como na Sibéria? E eu gosto daqui! Não ligo para o frio. Eu sempre quis conhecer a Islândia.

Temendo que o episódio causasse um desgaste nas relações entre os dois países, a CBAC – Confederação Brasileira de Arremesso de Calçados achou melhor afastar o técnico e enviar um substituto. O prefeito da cidade aplaudiu a decisão, e autoridades de ambos os países trocaram elogios. Tudo voltou ao normal e o evento foi um grande sucesso.

Leia também:

8.7.07

Gôndolas



Sonhei outra vez com Mustaphá Smith numa tarde quente do dia sete de sete de dois mil e sete. Estávamos em uma minúscula gôndola verde, ele de um lado e eu do outro. Ninguém remava. A gôndola era levada pela correnteza. Mustaphá tinha três dentes, barba grisalha e olhos grandes. Desta vez ele não estava de turbante. Usava um quepe de oficial russo e vestia-se em pele de urso como um guerreiro esquimó. Sorrindo, cantava cantos armênios, mongóis, americanos e russos, misturando Karabushka com When The Saints Go Marching In e batendo os pés no barco com força ao ritmo do seu canto. Vez ou outra parava de cantar, olhava para mim e fazia sons de chuva com seus lábios secos. Às vezes parava bruscamente e gritava meia dúzia de frases incompreensíveis, ria alto e voltava a cantar. Como sempre, mesmo quando me olhava, agia como se me ignorasse, como se eu não existisse.

Eu tinha um sombreiro imenso sobre a minha cabeça, que impedia que eu olhasse para cima. Não havia muito para ver. Era só céu e mar. Nenhuma nuvem. Acima deveria estar o Sol. Na minha frente apenas Mustaphá, a gôndola e o mar.

Mas a gôndola parou no centro do oceano, no ponto mais distante de todas as costas, e quando isto aconteceu, ela tornou-se o mar. Não havia mais gôndola e nem Mustaphá, apenas um sombreiro colorido flutuando no meio do mar, que na verdade eu só percebi ao olhar para o alto e não achar o Sol, mas uma sombra circular num mar azul brilhante. O riso histérico de Mustaphá ecoava nas bolhas que subiam da minha garganta que se enchia de água salgada.

Acordei às sete horas e já era noite. Levantei-me e fui até a porta mas não consegui abri-la pois estava trancada. Abri a janela e procurei pela paisagem da cidade, mas ela não se movia e parecia pintada. Ainda sonhava. Precisava acordar. Corri, pulei e joguei-me contra a parede. Fiz cálculos complexos de cabeça. Eu tentava voar quando ouvi um riso vindo da sala. A porta do quarto estava entreaberta e eu saí. Na sala havia uma mesa, coberta por uma toalha branca e um castiçal de quatro velas ao centro. A toalha branca e tinha desenhos azuis de carneirinhos e umas vinte e poucas taças de tamanhos diferentes contendo líquidos coloridos. Havia alguém sentado do outro lado. As velas não deixavam ver o rosto, apenas as mãos escuras e ressecadas que desenhavam com um lápis de cera vermelho na toalha da mesa. Desenhava o que parecia um lobo.

Sentei-me do lado oposto da mesa, e ele não falou nada. Apenas ria baixinho, como se estivesse tendo uma crise e não conseguisse parar de rir. Bebi um pouco da taça roxa (parecia uva mas na verdade era tamarindo.) Mustaphá (sim, devia ser ele mas nunca tive certeza) começou a rir bem alto, e os carneirinhos começaram a correr. Eles berravam, corriam e a mesa tremia. O lobo devorava um a um com violência, derrubando as taças e manchando a toalha de sangue que escorria para o chão. Em poucos minutos a sala inteira estava submersa em sangue. Agarrei-me à mesa para não me afogar, mas a toalha cedeu. Sobre a mesa quatro anões de sombreiro cantavam músicas mexicanas e quando eu puxei a toalha, os quatro caíram e se afogaram (ou morreram eletrocutados por seus microfones, pois houve um curto-circuito.) Permaneceram os quatro sombreiros flutuando sobre o sangue. Eu fiquei observando e senti os pingos. Era a chuva. Começou a chover forte. Em poucos minutos ela havia levado embora todo o sangue e a sala estava limpa.

No centro do mar, agora, há uma gôndola. Dentro dela dorme uma mulher nua, de lado, abraçada a um travesseiro em posição fetal, protegida do frio por uma pele de urso. Ela tem pele clara, cabelos negros, lisos e traços orientais. Ela sonha. Ao lado da gôndola há um sombreiro colorido flutuando sobre a água. Está claro mas o dia ainda vai nascer. Sentado na mesa da sala eu observo a paisagem da cidade. O castiçal tem apenas duas velas, e elas estão apagadas. Tento fazer sons de chuva com meus lábios enquanto imagino carneiros roxos no vinho derramado sobre a toalha da mesa.

1.7.07

Setes



Sonhei com sete sagüis. Sete micos. Eu tinha que cuidar deles, mas eles não paravam. Pulavam para todo lado. Saíam pela janela e me deixavam louco. Quando eu tentava me aproximar eles me mordiam. Era uma sala de aula. Talvez os sagüis fossem alunos. Não lembro, era apenas um sonho. Eu só tinha uma certeza: eram sete.

Acordei no primeiro sol do mês sete, de dois mil e sete. E fiquei a pensar em setes, nos sete micos, nos sete samurais, nos sete anões e nas sete cabeças da besta. Depois das trombetas vieram os sete dias. Em sete dias a data será sete, de sete, de sete. Muito sete. Até que ficam esteticamente belas, em traços arábicos, as datas do mês sete: 07/07/07, por exemplo, cai no sábado, o dia sete, sagrado. Mas também tem o dia 20/07/2007, uma sexta-feira (eu ainda prefiro a sexta-feira 13, do sete, do sete). Se é festa que cai no sábado, dia 21, e é uma festa de geeks, deve começar às sete horas do dia 07+07+07/07/07.

Mas os planetas já não são mais sete, e nem nove, as sete quedas não mais existem e tenho dúvidas se há mesmo sete continentes, ou sete mares, ou se foram apenas sete contra Tebas, e não nove. O mes sete já foi cinco, antes de César, e o ano dois mil e sete talvez seja dois mil e dezessete. Eu conto sete micos, mas há máquinas que contam sete como 13, e outras que só falam 111, mas os micos são sete (tenho certeza). Eu contei.

O que eu nunca entendi é porque os gatos no Brasil têm apenas sete vidas. É uma injustiça. Nos países desenvolvidos eles têm nove.

26.6.07

Iz sobre o arco-íris

Israel "Iz" Kamakawiwo Ole foi o mais influente músico do arquipélago do Havaí. Brother Iz - como era chamado em sua terra - não era grande apenas no sobrenome. Tinha quase um metro e noventa e ocupava bastante espaço com seus 350 quilos. Mas ele tinha um estado de epírito tal que parecia não se incomodar com sua imagem obesa. Pelo contrário, estava totalmente à vontade com seu peso e tirava proveito dela em seus vídeos e discos que tinham capas surreais. Tinha uma vida ativa: envolveu-se com questões políticas do arquipélago e foi ativista a favor da sua independência. Mas, apesar de sempre alegre e sorridente, tinha dificuldades para caminhar e vários problemas de saúde devido à obesidade, que acabou causando a sua morte aos 38 anos de idade, no dia 26 de junho de 1997, há 10 anos.


Brother IZ tocando o seu maior sucesso: uma regravação de Under the Rainbow e What a Wonderful World.

Quer saber mais? Há poucos meses o Alexandre Inagaki escreveu um ótimo artigo sobre Iz. Confira!

19.6.07

Júpiter e o Escorpião

Uma das constelações mais fáceis de identificar é a constelação de Escorpião. É uma das poucas que realmente parece com o animal que representa. Nesta época do ano ela estará no céu durante a noite inteira. E se você encontrar o Escorpião, também encontrará o planeta Júpiter, que atualmente está bem próximo. Talvez seja até mais fácil fazer o contrário. Procurar por Júpiter - o astro brilhante que nasce no leste quando o Sol de põe no oeste - e depois tentar identificar o Escorpião. Se você estiver em uma cidade muito iluminada, espere até um pouco mais tarde, depois das nove ou dez horas da noite. Se não houver nuvens deve ser fácil identificá-lo perto do zênite (às vezes é até mais fácil do que na zona rural, pois as estrelas visíveis são as que dão a forma do o escorpião).

Veja a imagem abaixo e depois tente localizar o escorpião no céu. Passe o mouse sobre a imagem para ver como ligar os pontos.


Passe o mouse sobre a imagem para ver o escorpião

Mas não confunda Júpiter com Vênus. Ambos brilham bastante (são os astros mais brilhantes do céu depois da Lua), porém Júpiter está nascendo no leste enquanto Vênus está se pondo no oeste.

Se você procurar por Vênus hoje, irá encontrá-lo perto da Lua, e poderá aproveitar para também identificar o planeta Saturno, que está próximo. Procure a Lua no horizonte por volta das sete horas da noite ou mais tarde. Um pouco abaixo, há um astro muito brilhante que é Vênus. Entre Vênus e a Lua há outro astro brilhante, porém de menor intensidade. É Saturno. Se não houver nuvens, dá para vê-los até mesmo em uma cidade iluminada como São Paulo.


Esta imagem é válida para o dia 19 de junho. No dia seguinte a Lua estará um pouco mais distante.

A imagem acima vale para o dia 19 de junho, mas nos outros dias do mês, Vênus irá se mover muito pouco em relação a Saturno. A Lua é que não estará mais lá. Em julho, por volta do dia 17, haverá nova conjunção de Vênus com a Lua crescente, que estará mais próxima dos dois planetas.

Finalmente, no dia 28 de junho, a estrela brilhante que estará próxima da Lua quase cheia será Júpiter.

18.6.07

Mesa virtual

Esta semana mudei de computador e estreei uma peça de teatro. Na verdade isto foi na semana passada, mas só agora eu estou conseguindo trabalhar na máquina, e só agora a peça se encontrou (em outro post eu farei a divulgação). Então estou de volta com vários e-mails para responder, trabalho acumulado, uma enorme lista de tarefas pendendes e sem tempo para escrever.

Ainda estou me adaptando ao mouse de um botão só e às teclas diferentes, acentos e outros problemas de ambiente. Foi uma mudança de religião. Quase. O Microsoft Windows XP não sumiu de vez, e o Sun Solaris (que eu antes acessava remotamente no trabalho) agora faz companhia ao Windows e me permite trabalhar à distância, mas é o Mac OS X que domina e controla tudo, e que me proporciona o som ambiente.

Agora trabalho no caos que é representado pela tela deste computador de onde escrevo. Normalmente eu tento mantê-lo sob controle, mas com três sistemas que podem rodar simultaneamente e minha natural capacidade de dispersão há um grande risco de entropia.


Desktop da minha máquina (Apple MacBook Pro) rodando o sistema operacional Apple Mac OS X (10.4.9), com o Microsoft Windows XP e Sun Solaris 10 se intrometendo (clique para ver uma imagem maior).

Tive a idéia de postar o desktop depois de ver meu blog estava parado e não encontrar tempo para escrever algo interessante, e também depois de passar uma hora (que poderia ter usado para escrever) lendo outros blogs, principalmente o post do Marcos Donizetti que postou sua área de trabalho inspirado neste outro post. É coisa de übergeek. Mas, e o seu desktop, que cara tem?

30.5.07

Fantasmas



Originalmente em inglês: www.helderdarocha.com.br/bloggy.

Sábado. Nove horas da noite. Uma sala escura. Um sofá. Uma mesa. Uma porta. Um pouco de luz vaza por baixo da porta (se não fosse isto não veríamos nada). Tudo está em silêncio.

Mas agora parece que alguém tenta abrir a porta pelo lado de fora. Ouvimos a chave girar uma vez, duas vezes. Afastamos o olhar quando a porta é aberta por causa da luz, que é muito intensa. O ar parece incendiar-se.

Tudo está muito branco e claro demais. Estamos cegos. Mas, depois de um tempo, a claridade gradualmente se dissipa e mais uma vez percebemos a sala. Não há ninguém. A sala está escura, como sempre esteve. Seja quem foi que a atravessou não se importou em acender as luzes. Ele, ou ela, deixou algo sobre a mesa (uma mochila, me parece) e correu para dentro. Percebe-se uma luz fraca em outra parte da casa. Podem-se ver os reflexos nas paredes e móveis, pelo corredor. Ouvimos o som de água derramando. Alguém fazendo xixi. Som de descarga, de porta fechando, de luz sendo desligada. Ninguém retorna à sala. Tudo está escuro novamente. Ouvimos o som de um violino, mas está distante.

A mesa de madeira escura tem em volta quadro cadeiras vazias da mesma madeira escura. Há livros espalhados sobre a mesa, folhas de papel, café derramado. Não dá para perceber os detalhes. O lugar está muito escuro. Tem cheiro de café. Há o retrato de uma mulher na parede. Ela olha para o alto, mas não sorri.

Não há alma viva na sala. Alguns podem acreditar que há duas pessoas sentadas, mas isto não é verdade. Não há ninguém na sala. Alguém pode acreditar que essas duas pessoas sentadas estão conversando, mas é provável que seja apenas imaginação.

- Está vendo?
- Eu não vejo nada. Está muito escuro.
- Tem cheiro de madeira. Faz muito tempo que eu senti cheiro de qualquer coisa. Esqueci que podia cheirar.
- Não sinto cheiro de nada.
- Quando atravessamos aquela rua, naquela tarde, os carros frearam muito perto, quase me tocaram. Eu lembro do cheiro dos pneus. Eu pude sentir o ar que foi deslocado. Você não parou, nem voltou. Correu na direção deles.
- Quando foi isso? Eu lembro disso.
- Estava frio, não estava? Você sentiu a pulsação? Teve a sensação de que estava caindo?
- Eu, eu ainda não entendo isso.
- Você ainda é muito jovem.

O violino agora soa mais alto. Em algum lugar, uma porta foi aberta. Ouvimos passos e alguma luz se espalha pelo corredor, refletindo nas paredes. Alguém tosse. “Merda!” diz uma voz de homem. Uma superfície é arranhada. Alguém espirra, inspira ruidosamente e espirra de novo. Luzes são apagadas com um clique. Mais passos. Uma porta fecha com força. Volta a escuridão e o violino distante.

Mas o som logo pára. Depois de alguns cliques, o silêncio é substituído pelos acordes altos de uma guitarra, ritmos de bateria, vozes gritando. Parece uma banda dos anos setenta. Parece que há vozes falando ao contrário. Parece.

- Baixa isso. Eu não gosto.
- Simplesmente não ouça, e pronto. Não precisa. Ouça os cabos.
- Os cabos?
- Sim. Eles são bons para sentir também. Vibram. E são quentes.
- Eu não sei sentir.

O telefone começa a tocar. Depois de cada toque, o eco some no silêncio. Toca três vezes. Quando termina, a música está mais baixa e podemos ouvir a voz de um homem que vem do quarto. Eu saberia o que ele diz se as outras vozes na minha cabeça ficassem em silêncio, mas elas não calam.

- Lembra de quando a gente brincava?
- O que?
- Quero dizer, eu costumava subir na cerejeira do nosso quintal e me esconder de tal maneira que mamãe não me acharia mesmo se olhasse na minha direção.
- Não sei do que estás falando.
- Era sábado, eu acho. Não sei o que fiz de errado. Eu escorreguei, eu acho. Ainda lembro do filme na minha mente, como se fosse agora. O chão lentamente se aproximando, a grama escurecendo, o vento, a luz do sol. Lembro que senti os galhos rasgando minha pele do braço, as folhas no meu rosto. De repente ficou escuro e frio.
- Do que estás falando?
- É quente e molhado quando você toca, mas parece frio quando escorre sobre a pele, pulsando. Agora eu consigo sentir tudo, a grama, as folhas da cerejeira, o cheiro de chuva, o cheiro dos insetos. Mas no dia não senti como se estivesse caindo. Parecia que flutuava. Ainda não lembro do meu nome, mas você sabia.
- Eu?
- Sim. Você chegou lá antes de mim. Foi você quem a chamou, e ela estava tão triste. Eu tinha conseguido. Eu contei para ela antes da gente sair que eu conseguiria. Eu contei para ela mas ela não levou a sério. Achou que eu estava brincando.

A música foi interrompida com um clique ruidoso. A voz do homem no quarto ficou mais alta. Podemos distinguir palavras “… indo agora … não importa... vejo você já.” e um clique.

- Não tenho certeza se eu entendo.
- Você vai entender depois que eu for embora. Leva um tempo.
- Vais me deixar? Por que?
- Eu tenho que deixar você.
- Para onde vais?
- Não vou muito longe. A gente vai se encontrar. Algum dia.
- Quando?
- Não sei.
- Vamos nos lembrar um do outro?
- Mais ou menos. Talvez. Talvez não. Talvez a gente sinta que se conhece, de algum lugar.
- Não vamos nos reconhecer?
- Talvez nos sonhos, talvez, nos sonhos.

Tosse.

- Ele está doente?
- Está de mudança. Eu já lhe disse isto.
- Para onde.
- Para cá.
- Mas ele já não está aqui?
- Não. Ainda não.

Uma luz intensa e ofuscante toma conta da sala. Na cegueira branca ouvimos passos, a porta fechando, a chave girando. Mas depois tudo se dissipa lentamente para a escuridão. Tudo está outra vez em silêncio. Nem tanto. Podemos ouvir os cabos vibrando. Se você se concentrar pode distinguir diferentes freqüências, ou interrupções, como se fossem vozes.

- Para onde ele foi?
- Encontrar-se com ela, espero.
- Quando volta?
- Em umas duas horas, talvez menos.
- Menos.
- E ele se muda para cá, espero.
- Para cá?
- Sim, aqui.
- E a luz?
- Não haverá mais luz.
- Talvez ele nos veja.
- Ele vai ver a gente.
- Mas, o que ele vai pensar quando nos vir? O que vai acontecer?
- Provavelmente vai ficar confuso, como quando você me viu pela primeira vez.
- O que é que devemos fazer?
- Nós, nada. Você. Eu não estarei aqui. Vou me mudar para lá. Espero.
- Hoje?
- Sim.
- Mas eu preciso de ti. Não posso existir sozinho.
- Você não existe, e se existisse não estaria sozinho. Ele estará aqui com você. Pergunte a ele como é o cheiro da chuva, se ele conseguiu sentir o gosto dela, se estava frio.
- Eu não sei como fazer isto.
- Sabe sim. Você vai descobrir.

Carros passam na rua projetando suas luzes no interior da sala escura. Não ouvimos mais os cabos por causa da chuva. Chiando como um rádio, ela sintoniza minha mente nas suas freqüências, e nela eu ouço as vozes.

- Tenho que ir.
- Mas ele não chegou ainda.
- Olhe ele ali, deitado no sofá. Daqui a pouco acorda.
- Para onde vais?
- Encontrá-la. Me mudo para lá, eu espero.
- E não voltas?
- Não. Espero que não.
- Esperas?
- Espero que ela continue, e não desista.
- E se ela interromper? Tu voltas?
- Não. Me mudarei para outro lugar. Espero.
- Sentirei tua falta.
- Eu também.

Um raio. Trovão. Os cabos não vibram mais.

A sala está escura e em silêncio. Tem cheiro de café. Há o retrato de uma mulher na parede. Ela olha para cima e não sorri. Não há alma viva na sala. Alguns talvez acreditem que há uma pessoa dormindo no sofá e outra, a observando, sentada numa das cadeiras vazias que está diante da mesa, mas isto não é verdade. Não há ninguém na sala. É provável que seja tudo minha imaginação.

27.5.07

Elvis e o centro da terra: parte V (final)

Esta é a quinta e última parte da história iniciada neste post.

Já era dia. Chovia bastante e o trânsito na Marginal Tietê estava infernal. O ônibus tinha saído da via expressa e estava reduzindo a velocidade como se fosse parar. Pela primeira vez pude prestar atenção e perceber os outros passageiros. Alguns conversavam. Outros riam. Era um ônibus normal. A viagem é que foi estranha.

Na poltrona ao lado, meu companheiro Elvis dormia com seus óculos escuros. Não, foi engano. Ele estava acordado e assim que ele percebeu que eu também estava não perdeu a oportunidade de falar primeiro.

- Que chuva, hein?

Permaneci uns minutos olhando para ele. Não sei se ele continuou falando. É bem provável que sim (ele não ficaria calado), mas não lembro o quê. Fiquei aliviado ao contemplar meu reflexo dos seus óculos escuros. Foi tudo apenas um terrível pesadelo. Por um instante senti-me feliz.

Mas não durou muito. Quando ele parou de falar e sorriu, lembrei-me de todas as coisas que aconteceram na noite anterior, e tive raiva. Antes que ele começasse a falar de novo eu manifestei minha raiva.

- Cretino.

- Como?

- Você é um cretino. Por que você fez isto, hein? Eu não disse que não queria seus óculos?

- Como assim? Não entendi.

- Ah, você entendeu sim! - levantei a voz. - Você pôs esses malditos óculos no meu rosto depois que eu peguei no sono! Não foi? Seu filho da mãe! Foi horrível! Uma das piores experiências de toda a minha vida! Nunca mais quero passar por isto.

Ele parecia assustado.

- Eu não!

- Olha aqui. Eu não sou idiota. Eu lembro das suas histórias. Fique longe de mim e não fale comigo, ouviu? Se você vier com conversa ou pior, com esses óculos para o meu lado de novo eu mato você, entendeu?

- Tudo bem, desculpe - ele gaguejou e baixou o rosto.

O ônibus finalmente parou e abriu a porta.

- E por que diabos esse ônibus parou? - perguntei.

- É a primeira parada. Ele também pára perto da rodoviária, na Barra Funda, na praça da República, ...

- Eu não perguntei a você! Estou falando sozinho. Eu vou descer aqui, agora. Com licença.

Eu me levantei aos tropeços, me espremendo entre ele a poltrona da frente. Desci do ônibus sem olhar para trás, paguei o motorista e esperei na chuva enquanto ele tirava a minha mala. Caminhei lentamente até o abrigo. Paranóico, esperei que o ônibus saísse sem tirar os olhos da porta. Precisava ter certeza que ele iria embora e que o dito-cujo não desembarcaria. Desceu apenas mais uma pessoa. Uma mulher. Não era o Elvis. O motorista entrou no ônibus, fechou a porta e deu partida. Esperei mais um pouco e fui atrás de um taxi. No caminho, a mulher segurou meu braço.

- Senhor, com licença.

Tive um susto. Ela continuou.

- O senhor deixou cair isto dentro do ônibus.

Estendi a mão direita e ela me deu um par de óculos escuros. Não eram meus. Eu não uso óculos escuros. Eu odeio óculos escuros. Mas não me importei. Aceitei. Ela sorriu e eu agradeci com um sorriso. Olhei para os óculos, abri, pus no rosto e entrei no táxi.

- Para onde vamos? – perguntou o motorista.

Eu pensei um pouco, sorri, e dei-lhe as instruções.

- Siga em frente, e não pare até acabar o asfalto. Chegando lá eu explico o resto do caminho.

26.5.07

Elvis e o centro da terra: parte IV

Esta é a quarta e penúltima parte da história iniciada neste post.

Era ele, o velho careca.

- O senhor tem que ir.

- Como assim? – respondi de mau humor sem me levantar – Eu mal cheguei.

- O senhor disse que iria embora no dia seguinte.

- Sim, mas ainda é noite. Deixe-me dormir um pouco mais. Daqui a pouco eu levanto.

Não deu cinco minutos. Ele me cutucou de novo. Desta vez havia mais umas dez pessoas no quarto, homens, mulheres e crianças, a maioria parecia índio. Eu me levantei assustado e sentei na rede.

- O que houve? - perguntei.

- O senhor não vai embora?

- Eu lhe paguei por uma noite. A noite não terminou ainda. O que está acontecendo? Que horas são?

- São quatro horas.

- E vocês me acordam às quatro horas da madrugada? – levantei a voz, irritado – Quanto tempo dura uma noite pra vocês?

Eles cochicharam entre si, mas não responderam.

- O que está acontecendo? – perguntei.

Ninguém respondeu.

- Vejam bem, eu lamento atrapalhar a rotina de vocês, mas eu só quero dormir algumas horas. Eu estou aqui contra a minha vontade, mas assim que amanhecer vou dar um jeito de sair daqui, podem ficar tranqüilos. Prometo que vou embora no primeiro ônibus que aparecer.

- Aqui não aparece ônibus – respondeu o velho.

- Tudo bem – observei impaciente – mas eu cheguei aqui em um ônibus, talvez, quem sabe, amanhã chegue outro, ou um carro, um caminhão. Eu farei o possível para ir embora.

- Aqui não chega nem nunca chegou ônibus algum, nem carro, nem caminhão.

A conversa estava ficando irracional. Eles me olhavam como se eu fosse um alienígena e pareciam cada vez mais com um bando de loucos. Ninguém se movia nem ia embora. Só me encarava. Eu decidi me levantar.

- Tudo bem, qual é o problema? Me expliquem!

Houve um princípio de tumulto. Todos eles, com exceção do velho, deram um passo para trás. Pareciam apavorados e por um instante achei que iriam me atacar.

- Queremos que o senhor vá embora – falou o velho. – Já amanheceu. Já está claro. Por que o senhor não vai?

- Claro? Está claro? O senhor é cego? Está tudo escuro!

- Cego estás tu. Escuro é o mundo que está na tua cabeça, homem! – respondeu o velho com agressividade – Faz horas que estás nessa rede. São quatro horas da tarde e se tu não percebes é porque não tiras esses óculos da cara! Este não é teu lugar. Por que voltaste? Vai embora!

Neste momento eu tive uma das visões mais terríveis. Pus a mão no meu rosto e senti os óculos. Mas não foi apenas isto. Senti meus cabelos longos, minhas costeletas, o colar de contas, meu corpo magro. Não podia ser. Era um pesadelo. Tive medo de me olhar no espelho pois eu já sabia o que iria ver, então num impulso, arranquei aquela coisa do meu rosto e atirei longe.

Foi como um choque. Meu corpo endureceu e fiquei sem ar. Achei que ia morrer. A luz me ofuscou e antes que eu conseguisse fechar os olhos me empurrou para trás como se eu tivesse levado um tiro. Caí sentado num lugar macio e logo em seguida o chão começou a tremer. O silêncio foi ocupado por um zumbido ensurdecedor e constante, metal rangendo, roncos e buzinas. No ar havia um cheiro ácido de mofo misturado com fumaça. Ouvi muitas vozes misturadas ao som de chuva forte, mas não vi ninguém nem senti o molhado. Senti calor e mal estar. Minhas costas doíam nos músculos e na coluna. Minha boca ardia. Finalmente abri os olhos e tudo ficou claro.

Parte final

25.5.07

Elvis e o centro da terra: parte III

Esta é a terceira das cinco partes de uma história iniciada neste post.

Aproveitei para descer e esticar as pernas.

O cheiro da noite lembrava proximidade de chuva, mas não estava quente nem frio, nem seco nem úmido. Não havia brisa, nem vento, nem claridade no horizonte. O céu estava completamente negro, como se estivesse coberto por uma camada uniforme de nuvens escuras. Não havia estrelas. Não havia insetos.

O caminho até o posto era iluminado pela luz amarelada que vazava das janelas e portas. Era possível distinguir três construções. Um mercadinho ou bar com três portas no centro, um casebre com duas janelas acesas à esquerda e uma casinha menor, com duas portas iluminadas por uma lâmpada fraca, mais perto, à direita.

Percebi vultos no interior do bar. Não consegui distinguir ninguém, pois a luz era muito fraca. Lembrei-me que se eu entrasse no bar provavelmente encontraria o Elvis (era estranho não ouvir a voz dele). Preferi adiar esse encontro e passar primeiro na casinha à direita, que parecia ser onde ficavam os banheiros.

Não lembro o que aconteceu depois. Quando eu saí algo havia mudado, ou talvez tenha mudado quando entrei no bar.

O chão do bar era liso de cimento vermelho queimado, paredes amarelas, lisas e limpas. Era tudo simétrico. Diante das duas paredes laterais havia exatamente duas mesas quadradas com duas cadeiras cada, e nos fundos, um balcão de madeira escura. Na parede atrás do balcão havia duas estantes vazias. No meio delas pendia uma cortina de retalhos vermelhos que escondia uma porta.

Além disso só o silêncio, e mais nada. Não havia ninguém nas mesas nem atrás do balcão. O bar estava vazio!

Voltei para a porta e procurei pelo ônibus mas não consegui enxergá-lo, então corri até o lugar onde ele deveria estar. Não estava. Custei a acreditar. Era impossível que tivesse sumido tão rápido, sem fazer barulho algum. Eu eu deveria ouvir o motor ou pelo menos conseguir ver o reflexo dos faróis.

Parado e em silêncio, a única coisa que ouvi foi o meu coração batendo acelerado. Será que eu passei mais tempo no banheiro do que eu me recordava? Temi que estivesse ficando louco, mas logo minha mente voltou a pensar de forma prática.

Era um ônibus clandestino, não havia dúvidas. O motorista com certeza não contava os passageiros. Seria difícil rastreá-lo. Minha mala eu poderia considerar perdida. Pelo menos fiquei com a mochila, dinheiro e documentos. A questão seria o que fazer agora.

Voltei ao bar. Parei diante do balcão, bati palmas e fiquei esperando que alguém me atendesse. Silêncio. Levou um minuto mais ou menos até começar a ouvir o som de passos se aproximavam. Tive até um susto quando a cortina foi afastada e dela surgiu uma mulher gorda de cabelos longos com aparência de índia. Sem alterar sua expressão séria, ela caminhou lentamente até o balcão onde eu estava e permaneceu imóvel, me olhando sem dizer nada, como se esperasse que eu falasse alguma coisa. Foi o que fiz:

- Oi! Tudo bem? É que eu acabo de perder meu ônibus. A senhora saberia me informar como eu poderia alcançá-lo? Talvez alguém me pudesse dar uma carona. Ou talvez se a senhora souber como pego um taxi para a cidade mais próxima.

Ela esperou que eu terminasse de falar, baixou os olhos e saiu em silêncio. Mais um minuto e novos passos. Desta vez apareceu um velho pálido e alto de olhos azuis. Ele era magro, careca e usava um uniforme militar cinza. Me encarou sério como se estivesse me examinando. Como ele também não falava, eu tomei a iniciativa:

- O ônibus que parou aqui, o senhor está lembrado? Ele partiu e me deixou por engano. Eu preciso alcançá-lo. O senhor sabe como?

- Aqui não pára ônibus – ele respondeu, lentamente, com uma voz grave e monotônica.

- Por favor, pergunte às pessoas que trabalham aqui - insisti. - Parou um ônibus aqui sim. Ele partiu faz dez minutos no máximo. Eu queria a sua ajuda. Talvez o senhor tenha um carro ou conheça alguém que possa me dar uma carona para tentar alcançá-lo. Eu pago.

- Eu não tenho carro.

- O senhor conhece alguém aqui perto que tenha? Um telefone para chamar um taxi?

- Não.

Desisti.

- Então me diga quando passa o próximo ônibus para São Paulo. Vou precisar também de algum lugar para passar a noite.

Ele não respondeu nada. Ficou só me encarando.

- O senhor me ouviu? Quando passa o próximo ônibus para São Paulo?

- Aqui não passa ônibus.

- Tudo bem. Deixa pra lá. Me arrume então um lugar para passar à noite. Amanhã eu me viro.

Ele calou-se de novo e permaneceu imóvel. Eu já estava ficando impaciente, até que respondeu:

- Dez.

- Dez o que?

- Dez reais.

- Por mim está ótimo.

Ele saiu pela lateral do balcão e saiu pela porta da frente do bar. Eu o segui. Entramos na casa, que era bem simples. O chão era de areia e as paredes mal tinham reboco. Dentro da casa voltei a sentir o cheiro de chuva. Era estranho, pois não havia vento algum.

Entramos pela sala. Sentados num sofá vermelho estava a mulher que vi no bar com duas meninas que pareciam gêmeas. Deviam ter uns sete anos e assistiam a um programa de desenho animado numa TV preto e branco com o som desligado. Se eu não me engano era o episódio de Pernalonga com Marvin, o marciano que vive querendo destruir a terra. Quando eu passei na frente os três me olharam rapidamente, todos sérios, mas logo retornaram suas atenções à TV.

O velho me levou até uma porta à direita, onde uma cortina de retalhos vermelhos isolava a sala de um quarto onde havia apenas uma rede, um espelho e uma janela, que estava aberta. Ele parou e olhou para mim estendendo a mão, onde eu coloquei uma nota de dez reais que tirei da minha mochila. Ele olhou contra a luz, que era fraquíssima, guardou o dinheiro e saiu em silêncio.

Deitei na rede com minha mochila e peguei no sono muito rapidamente. Acho que nem lembrei de apagar a luz. Eu dormi, eu acho, uns trinta minutos quando senti que alguém estava me cutucando. A princípio eu achei que era sonho. Na segunda vez foi mais forte e balançou a rede, que rangeu, e veio acompanhado de uma voz, que me chamava.

- Acorde! Senhor? Acorde por favor!

Continua na parte IV

23.5.07

Elvis e o centro da terra: parte II

Esta é a segunda das cinco partes de uma história iniciada neste post.

- O coronel Fóshti - contava Elvis -, que já deves ter ouvido falar, vive lá há muitos anos. É um explorador americano que nasceu em Londres e dizem que morreu no Brasil. Mas que ele morreu não é verdade. Ele está bem vivo no centro da terra, sabia?

Eu já havia ouvido essas histórias. Acho que o tal coronel chamava-se Fawcett. Ele misturava essas histórias com outras tão absurdas que eu acabava prestando atenção, e consequentemente não conseguia dormir.

– Eu não cheguei a entrar no lago do portal, porque, tu sabes, se entrar não volta mais, mas eu tive a coragem de chegar até a beirada pelo caminho do terceiro fim. É mais simples e não depende da conjunção de astros. Sabes como funciona?

Eu não queria saber. Nada me interessava naquele momento exceto o silêncio. Ele calou-se por um instante, talvez esperando que eu respondesse, mas como eu permaneci imóvel com os olhos fechados, ele continuou.

- Vou explicar como eu fiz. Assim que cheguei na cidade, eu desci do ônibus e entrei no primeiro táxi. Mandei o motorista seguir em frente, sempre em frente, até acabar o asfalto. Depois continuamos toda a vida até acabar a estrada, e quando ela também acabou eu desci e caminhei até não ter mais como continuar. Sabes por que? Porque tudo na frente era escuro. Um breu completo. O silêncio era absoluto. Eu havia chegado ao fim.

Adorei esta parte, pena que não era o fim.

- Era muito escuro! Nossa! - quebrou o silêncio com empolgação - Passei mais de uma hora contemplando a escuridão. E tinha gente morando lá, acreditas? Eu vi um pontinho amarelo no horizonte e fui atrás para descobrir o que era. Chegando mais perto descobri que a luz vinha do interior de uma casa onde vivia uma família humilde, um casal, um velho, filhos e netos. Era um pessoal muito calado, pensei até que eram mudos. Eles nunca viram a luz do sol, tu acreditas?

Eu não estava prestando atenção. Minha mente estava ocupada em fabricar idéias assassinas.

- Mas para eles era tudo claro. Por não ter dia, também não tinha noite. Para mim era só noite. Para eles era só dia. Incrível, não é? E sabe de uma coisa, eu posso te ajudar a chegar lá. Eu não me engano; sei que tu és um iluminado e buscas essa experiência. Não é verdade, meu amigo?

Com isto eu não agüentei. Abri os olhos. A única verdade é que nesse momento eu queria esganá-lo. Minha paciência já estava no limite. Encarei-o com uma cara bem feia para ver se o danado se tocava.

Ele sorriu.

- Eu sabia. Então eu vou começar com...

- Não! Por favor. Não faça isto. Me desculpe. Eu sei que tudo isto deve ser muito interessante, mas no momento, se é que me entende, eu só quero dormir. Eu preciso dormir, entende?

- Claro que entendo. O sono é fundamental. E eu posso lhe ajudar.

Não seria difícil. Calar a boca, por exemplo, seria um bom começo, mas ele tinha uma idéia melhor.

- Eu vou te ensinar uma técnica de meditação que eu desenvolvi especialmente para relaxar em viagens de ônibus.

- Não, não. Muito obrigado. Eu prefiro dormir mesmo.

- Mas tu não estás com sono.

- Eu vou ficar logo, logo, não se preocupe.

- Então coloca isto. Vai ajudar.

Ele tirou não sei de onde um par de óculos escuros e quando percebi, estava tentando por no meu rosto.

- O que é isto? Sai! – eu gritei, afastando a coisa.

- São óculos especiais de relaxamento. Tu vais conseguir relaxar melhor. Eu uso o tempo todo. Ele produz uma energia que ativa a aura e...

- Não, eu não quero. Tira essa coisa daqui. Eu nem imagino como você consegue enxergar no escuro com isto.

- Ah, com eles eu vejo tudo. Tu sabes o que é tudo? É tudo como se fosse um sonho, ou uma viagem na mente, sabe? Ele vai ajudar a expandir tua consciência e assim vais conseguir ver ...

- Pelo amor de deus, cara, você não entende que eu não quero ouvir suas histórias?

Pela primeira vez ele permaneceu calado, me olhando, de óculos escuros, sem sorrir. Fiquei meio sem jeito por ter gritado.

- Me desculpe ter sido grosso com você - continuei, mais calmo -, eu sei que você tem boa intenção, é que eu realmente preciso dormir. A viagem é longa e eu preciso de silêncio, de paz, entende? Se você puder me deixar só por um instante.

- Mas coloca os óculos. Tu vais te sentir melhor. Ele traz o silêncio e a paz que tu procuras, e ainda vais ter um sono tranqüilo e não sentirás o tempo passar. Quando acordares já estarás em São Paulo.

Lá vinha o maluco outra vez tentando colocar aqueles óculos no meu rosto.

- Porra meu! Eu já não disse que não quero! Mas que inferno! Me deixa em paz, por favor, ok?

- Tudo bem - ele gaguejou - Me desculpa. Se quiser, eu espero para te mostrar quando o ônibus parar.

Eu bati o pé com força causando um estrondo na lataria do ônibus e o encarei com uma cara muito, muito feia. Ele virou o rosto e não ousou abrir a boca. Finalmente eu havia conseguido a paz e o silêncio que eu procurava.

Ah, mas dormir foi uma dificuldade. A simples presença do Elvis já era motivo para irritação. Minha mente estava alerta, aguardando ouvir a voz do desgraçado a qualquer instante.

Mas ela não veio, e em algum momento, não sei como nem quando, eu consegui adormecer. Devo ter dormido bastante. A simples ausência da voz do cretino fez com que o ruído do motor e o ranger da lataria parecessem o mais puro silêncio. Era um silêncio profundo, completo, absoluto. Eu sequer sentia os buracos da estrada. Parecia até que o ônibus estava parado.

E estava mesmo. Tive até um susto. Achei até que havia morrido, mas não, o ônibus estava parado. Olhei pela janela e vi que a uns cem metros havia algo que parecia um posto de beira de estrada. Não havia ninguém dentro do ônibus. Aparentemente todos tinham descido, inclusive meu inimigo Elvis.

Continua na parte III