28.11.06

Não pense mais nisso

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     Ela era uma menina brilhante, e ele apenas um cara qualquer, um sonhador. Eles representavam seus papéis na vida, como todo mundo. Mas um dia ela descobriu sua ilha de tesouros e o viu com outros olhos. E alguns dias depois ele se encontrou nos olhos dela. No início nada foi dito e nada foi realizado. Eles apenas falavam suas próprias línguas e entendiam tudo. No princípio foram levados pelo vento, leves, brilhando. Como sementes de dente-de-leão deixaram-se levar, sem saber onde iriam se encontrar, ou se iam mesmo pousar em algum lugar.

     – O que você acha de tudo isto? – ela perguntou, um dia.

     – Eu não sei – respondeu ele – Eu não penso nisso, eu só deixo levar.

     Ela era uma menina esperta, e ele apenas um sonhador qualquer, apaixonado. Eles representavam seus papéis na vida, para todo mundo. Mas um dia ela descobriu outra ilha de tesouros e o viu com outros olhos. E alguns dias depois ele não mais se encontrou nos olhos dela. No final nada foi dito e tudo foi realizado. Eles apenas falavam suas próprias línguas e entendiam nada. No final foram separados pelo vento, bruscos, sangrando. Como sementes de dente-de-leão deixaram-se afastar, sem saber por que nunca se acharam, ou se queriam ir mesmo pousar em algum lugar.

     – O que você acha de tudo isto? – ele perguntou, um dia.

     – Eu não sei – respondeu ela – Não pense mais nisso; só deixe que eu vá.

(Adaptada de versão que escrevi originalmente em inglês)

24.11.06

Singularidades



Na manhã em que acordei sozinho fui despertado por um beijo gelado em meu rosto. Era o vento. A janela aberta agitava as cortinas como naqueles filmes de terror, iluminadas por uma luz suave ou sinistra (não sei) de um amanhecer lento, meio azulado, meio amarelado. Levantei-me para fechá-la quando percebi que não estava no meu quarto, pois na janela do meu quarto não há cortinas.

Não eram cortinas. Eu as toquei e elas se desfizeram. Pareciam de seda, mas ao tocá-las percebi que eram de algo pegajoso que se desmanchava como teia de aranha, como açúcar. As paredes me pareceram normais. Eram ásperas, frias e duras.

Finalmente eu encarei a paisagem. Um horizonte plano, imenso, amarelo em baixo e azul em cima. Era um azul meio pálido, assim como o amarelo era meio cinza ou marrom. A cena parecia fotografia com baixa saturação e lembrava pintura em aquarela. Mas não era estática. O vento assobiava em notas dissonantes e rabiscava desenhos na relva. Talvez fosse uma plantação de trigo (mas não sei se era trigo; eu não tenho certeza se sei com que se parece uma plantação de trigo.) As folhas não eram verdes. Eram meio amareladas, desbotadas.

Por alguns instantes, as folhas se mexendo pareciam multidões (de gente mesmo). Pareciam pessoas se deslocando de um lado para o outro, como numa praça de uma cidade grande. Era uma miragem, eu creio. Gente circulando sem parar como se fossem robôs. Era uma visão turva, às vezes transparente, meio névoa, porque quando eu parava para olhar com atenção eu via apenas um campo de folhas amarelas sendo agitadas pelo vento.

Fechei a janela porque não suportei a visão. Tudo parecia estranho demais. Voltei para a cama e deitei-me novamente. Procurei nos lençóis cheiros que não fossem meus, mesmo que imaginários e voltei a dormir na esperança que despertaria em um lugar menos deserto.

Acho que até dormi. Não estou certo. Só sei que acordei no mesmo lugar. Era tudo igual. As cortinas eram as mesmas e ainda estavam rasgadas. Era desanimador. Restou a porta, fechada, que ainda estimulava minha curiosidade. Não precisei de muita coragem para me levantar, girar a maçaneta e abri-la deixando entrar uma luz ofuscante. Quando abri os olhos lá estava ela: a mesma paisagem desbotada, azul, amarela, pálida, cinza, chata! Novamente eu estava sozinho num mundo familiar que eu não queria encontrar.

Sim, era familiar. Era o mesmo universo, sempre! A mesma casa, as mesmas paredes, os mesmos campos. Eu o conhecia. Sabia que se andasse o suficiente, de um lado eu encontraria o mar, e do outro, um penhasco. Conhecia os castelos, as ruínas, os jardins, as fontes, os rios, as árvores, os labirintos, as passagens secretas, as estrelas e as paisagens mágicas. Eu sabia exatamente onde estava e que eu poderia andar para sempre em qualquer direção e nunca encontraria outra alma viva naquele universo senão a minha. Eu estava preso dentro de mim. Era um pesadelo.

Então senti como se alguém me tocasse as costas; uma mão macia acariciando a minha nuca. Fechei os olhos e tentei tocar a mão que me acariciava, mas quando toquei ela derreteu. Não havia nada. Eram as cortinas me iludindo! Estendidas pelo quarto, ondulavam-se como luzes da aurora boreal, desenhando um mundo colorido. Nesse mundo eu a vi surgir no meio das luzes como em holograma.

Ah, mas não durou. Pelas costas, o vento me atingiu batendo a porta violentamente. A onda de choque trincou as cortinas como cristal, que fragmentou-se em milhões de pedacinhos junto com todas as ilusões. O pó que restou espalhou-se pelo chão, e quando abri novamente a porta o vento soprou tudo embora. Não havia mais ninguém (nunca houve, eu imagino), então eu fugi. Saí pela porta da frente para enfrentar a relva e tentar encontrar o sentido de tudo.

Encontrei. Foi um encontro inesperado. Caminhei por mais de uma hora até perceber, no meio do campo amarelado, a silhueta que surgira no horizonte. Eu sabia quem era. Era eu. Ansioso, eu corri na minha direção. Corremos. Mas quando cheguei perto eu parei, ou paramos, por um instante. Encontramo-nos ali, nós, a sós, eu e eu. Olhei, ou olhamos, sem coragem de tocar a visão narcisística. Mas certa hora o medo foi esquecido e me abracei sem pensar em mais nada. Foi um longo abraço. Eu e eu choramos juntos a nossa solidão em meio às multidões que balançavam ao vento, comemoramos juntos a nossa solidão em meio às plantações que recuperavam suas cores, brindamos juntos à nossa solidão rindo no meio das ilusões que se desfaziam, e a terra tremeu.

Começou com um tremor leve, mas logo a paisagem começou a se derreter e as cores tornaram-se mais saturadas. Senti que tornava-me o mundo, mas também que sempre fui o chão, o vento e o espaço. Enquanto estávamos eu e eu abraçados, nós, as plantações, fomos despertando aos poucos, acordamos nas cores saturadas e percebemo-nos vivas. Levantando-nos, corremos para também nos abraçar. Eu, todos nós, de todos os anos, de todos os minutos, de todos os segundos, de todos os lugares. Chegamos e partimos em espirais, girando como estrelas numa grande festa que durou por uma eternidade e que acelerava-se ansiosa pelo fim. Giramos eu e todos os eus na crescente curvatura de mim, este universo, até que um lado dos meus lados encontrou o outro – o mesmo, e o espaço que me define foi encolhendo, encolhendo, até consumir-se completamente, no silêncio do vácuo, numa autofagia urobórica.

14.11.06

A máquina do tempo



- Fico imaginando. Se com meu beijo o sapo vira príncipe, e com outras coisas, no que será que ele se transforma?

- Acho que ele se transubstancializa em outra dimensão; acho que ele enxerga o infinito. Sabia que sapos vêem fótons individuais? Eles percebem quando o espaço encolhe, quando o tempo pára.

- O que é muito mais maravilhoso que ser príncipe.

- Croac!

***

- Será que existe uma máquina do tempo?

- Quando não há mais espaço entre nós o tempo pára de repente, por um instante apenas.

- É verdade. Quando o tempo pára as outras pessoas ficam minúsculas como grãos de poeira.

- Isso tem uma explicação física. A atração cresce de forma infinitesimal, a luz fica presa, a matéria some e o tempo pára. É a verdadeira máquina do tempo: um buraco negro que dilacera a matéria mas que faz tudo renascer em outro universo.

- E que mundo será esse que surge quando o espaço entre eu e você desaparece? Será que fica próximo a uma certa paisagem de cerejeiras?

- Sem dúvida. Lá existe um grande jardim de cerejeiras.

- Ao lado de um oceano lunar.

- Com um riacho que flui entre elas, de pedras polidas, de águas claras. É mesmo aquela paisagem de sonho que existe, que se deseja, da qual se sente falta, e que se só se alcança por breves instantes.

- Instantes que valem mais que muitos e muitos dias terrenos. No mundo das cerejeiras o tempo tem uma lógica própria.

- Sim. O lugar é como se fosse o próprio tempo, e se ele passa nós passamos juntos. É o espaço que fica para trás.

- É uma visão que não tem preço. É uma das coisas mais lindas que há no mundo.

- É outro mundo. As estrelas são outras.

***

- Mas como é se faz uma maquina do tempo?

- Pode ser com uma Sonata de Vênus?

- Sonata de Vênus?

- Preciso de um vinho. Você tem algum?

- Tem Merlot, Pinot Noir.

- Acho que eu tenho Syrrah e Malbec.

- E então.

- Eu faço assim, derramando um pouco nesta superfície quente e macia.

- Ui!

- Lentamente. É preciso deixar que escorra um pouco, pelos caminhos curvos. Prova-se com uma língua ávida, mas suavemente, lentamente, deixando que ele passe por lugares interessantes antes de saboreá-lo. Tem um sabor unico! Dizem que uma mistura do vinho com esses temperos e líquidos vivos tem o poder de parar o tempo por um instante.

- Eu acredito. Um instante tão breve que parece infinito. Não consigo pensar em mais nada.

- Também não. Apenas vejo os rios de vinho descendo o planalto na direção do monte, atravessando a selva, buscando o vale. Preciso controlar o fluxo das afluentes. Acho que uma mistura de merlot com syrrah e malbec ficará bem. Um no meio e dois nas laterais, para misturar melhor com as nascentes.

- Acho que o chão está tremendo.

- Sim. Eu também sinto. É o músico deslizando suas notas sobre os caminhos lisos. Ele é um barítono e precisa exercitar a língua. Os sons vibram em passadas transversais, ressoam em cortes diagonais, e de vez em quando silenciam em uns mergulhos verticais bastante profundos.

- Estou ficando tonta.

- Deve ser o vinho.

- Não. Deve ser o tempo.

- Ainda falta preparar a orquestra. Preciso sentir o território, inspecionar os instrumentos. Desço devagar e paro no alto do monte. Está ótimo. Agora deixo-me escorregar para um dos lados, fazendo pressão para não cair no solo liso.

- Eu que vou cair.

- O chão está mesmo vibrando. É isto. É o músico. Ele gira como um redemoinho até tornar-se onda. Lamberá as costas até inundar toda a selva rolando sobre suas praias úmidas, em um ritmo constante, como um pulso.

- Vai começar a música. Já sinto que ela se inicia.

- Sim. A princípio parecem notas tocadas em um piano. Mas não são ouvidas. São sentidas como dedos que fazem pressão suave em todas as teclas, formando acordes nas notas altas e arpejos nas notas baixas. Às vezes parecem violinos, esticando as cordas em pizzicatto ou sendo feridos com stacattos. Outras vezes arrastam-se escorregadios como legatos e gemem como se fossem rabecas.

- As palavras vão virar pontinhos.

- É o tempo que já desacelera, e se o tempo muda as freqüências mudam junto. Cada vez surge uma nova composição, ora harmônica, ora melódica, sempre espasmódica, que no auge será...

- Orgásmica!

- Mas ainda repetem. Da Capo Al Fine, Al Coda, Ad Infinitum. Por ora accellerando, depois ritardando, rallentando, a tempo em diferentes intensidades: piano, mezzo piano. Em ritmo de pulso, às vezes mazurca, às vezes valsa, às vezes ardendo num rock intenso. A crina passa arranhando as cordas com firmeza enquanto os dedos as apertam em vibrato. E assim cresce a melodia que entra em ressonância intensa e constante até o instante em que...

- ... o tempo pára!

3.11.06

Satyrianas



Ontem começaram as Satyrianas – o evento anual promovido pelo teatro dos Satyros. O evento geralmente na semana que dá início à primavera, mas este ano, a prefeitura não autorizou o evento - que dura 78 horas ininterruptas - e ele acabou não acontecendo em setembro.

Participam do evento os dois espaços dos Satyros, o espaço dos Parlapatões, o Next, a Compania do Feijão, o Teatro Fábrica São Paulo e a Biblioteca Mário de Andrade. Há uma vasta programação cultural que envolve 46 espetáculos teatrais, saraus poéticos e literários, shows, intervenções teatrais, oficinas, teatro de rua, uma peça de 78 horas de duração (o Uroborus), um festival de curtas e outras coisas que não lembro agora.

A abertura aconteceu no teatro dos Parlapatões na praça Roosevelt, onde o Mário Bortolotto cantou umas músicas e depois iniciou, com a atriz Helena Ignez, o Uroborus.

É a segunda vez que acontece o Uroborus nas Satyrianas. Eu participei dele no ano passado e escrevi um post. O esquema é o mesmo: 78 duplas revezam-se e interpretam o mesmo texto, inventam, criam, e fazem qualquer coisa para que a peça não pare e que continue interessante. Este ano vou participar e entrarei em cena às 7 horas da manhã de sábado (amanhã, eu creio – eu estou meio desorientado). O texto é outro (chama-se Ai de Mim, e agora, neste momento, ai de mim, não lembro do nome do autor – depois eu atualizo isto). Recebi o texto ontem, é enorme, não sei o que vai ser dele, mas prometo que farei o melhor teatro para os corajosos que por acaso aparecerem na platéia.

As Satyrianas é uma ótima oportunidade para quem ficou em São Paulo no feriado e sabiamente evitou os aeroportos e as estradas. As peças custam o valor que você quiser pagar. E são ótimas peças que geralmente custam de 15 a 35 reais. A qualquer hora do dia, da noite ou da madrugada acontece alguma coisa. É um programa ótimo para os insones. A programação está disponível no site dos Satyros.

Do Núcleo Experimental dos Satyros haverá duas peças. Chico em Obras (sábado, 16 horas), produzido pelos oficineiros dos Satyros de 2005, é uma peça inspirada nas músicas e peças de Chico Buarque. A apresentação nas Satyrianas é única pois a peça saiu de cartaz no ano passado. Vestir o Corpo de Espinhos (domingo, 17 horas) foi produzida pelo Núcleo no ano passado e representou o Brasil no festival Play-off/06 na Alemanha. Voltou neste segundo semestre com novo elenco. Eu participei da criação do texto da peça, fiz objetos usados em cena e compus a trilha sonora original. Nesta temporada participo tocando acordeón e piano. Excepcionalmente nas Satyrianas eu estarei também atuando como um personagem cego.

Há mais sobre as Satyrianas no site dos Satyros, no blog do Ivam Cabral e no portal de teatro do UOL (que ainda não foi inaugurado oficialmente, mas que já tem conteúdo).