14.10.06

No meu quarto há um anjo

No meu quarto há um anjo. Eu não consigo vê-la, mas eu sei que ela está aqui; sempre esteve desde que eu me lembro. Ela está lá, no meu quarto, no meu sonho. Ela tem meus olhos e algo mais que eu só encontro na minha mente, mas ela não sou eu, assim como eu não sou ela. Disto eu estou certo.

Diante da janela assisto o universo girar, e eu canto. Eu olho para baixo e não vejo nada, então deixo que minha cabeça escorregue janela abaixo. Eu caio como se voasse. É uma sensação estranha. Sinto o vento, ele me estica; é meio doloroso, mas não há dor ao atingir o chão. Sinto o cheiro do oceano, e como sempre, ela está lá. Eu consigo sentir sua respiração acariciando minha orelha.

Este lugar perto do mar está bem além da janela. Para chegar aqui da última vez cruzei um labirinto de pontes e monstros. Quando eu a encontrei dentro do castelo, nos demos as mãos e subimos pelas escadas espirais da torre mais alta. Lá em cima, ela abriu a porta e nos deparamos com esta mesma praia iluminada pelo luar. E lá, diante do mar, estava a mesma árvore torta e azulada.

Mas isto foi da outra vez. Desta vez eu simplesmente caí da janela.

Naquele mundo eu sou apenas um menino. Lá nos sentamos no balanço que pende do galho mais longo da cerejeira azulada. Sentamos face a face, e nos olhos dela eu vejo a mim. Eu nunca consigo lembrar do seu rosto.

Adormeci mais uma vez e quando acordei estava novamente diante da janela. Parecia a mesma janela, mas o céu estava nublado e abaixo de mim não havia mais o nada, apenas a cidade.

(publicado originalmente em inglês)

13.10.06

Ela se foi

" But our love it was stronger by far than the love
Of those who were older than we-
Of many far wiser than we-
And neither the angels in heaven above,
Nor the demons down under the sea,
Can ever dissever my soul from the soul
Of the beautiful Annabel Lee."
(Edgar Allan Poe, Annabel Lee)

Não consigo dormir, apesar do sono. Então fico aqui, sozinho, escrevendo, expondo-me, nesta manhã nublada, buscando algo que mude as cores do dia. Eu sou aquele que deixou-se apaixonar, eu diria, perdidamente (que outra palavra poderia usar?), que deixou-se cegar, que deixou-se acreditar, que abriu espaço na sua alma para que fosse preenchida por ilusões inventadas (belíssimas, por sinal), que deixou-se entorpecer por carinhos e palavras, que acreditou em sputniks, cerejeiras, e em sonhos felizes e distantes (e que faria tudo isto de novo e de novo). Tão perdido estava que quando caí (ou fui empurrado) do navio em alto mar, a princípio achei que era sonho, ou pesadelo, e sequer tentei nadar para me salvar. Tendo escapado do afogamento e dos tubarões famintos, escrevo isolado no alto de um penhasco de uma ilha deserta que apenas eu conheço (antes diria que ela também conhecia). Escrevo palavras inúteis, inebriadas, numa folha encharcada, que depois lançarei ao mar aberto dentro desta garrafa de vinho tinto (que ainda não está vazia.) Escrevo que amo, e que amei-a, que aprendi a amá-la, incondicionalmente, a amá-la de amor, e agora de saudade. Escrevo que preciso do cheiro do seu corpo, do qual tornei-me dependente. Escrevo para aquela que um dia chamei de minha sputnika; aquela com a qual por dois verões, dois outonos, dois invernos, e uma primavera foi minha companheira de viagem, com a qual fui feliz. Escrevo em vão, pois este mar é vasto, e ela está longe, e a garrafa é escura.

Hoje, sinto dor na minha alma vazia. As feridas, que cicatrizam, de vez em quando abrem e sangram, como agora. Do alto deste penhasco eu vejo o meu mundo, eu me vejo, eu vejo o meu paraíso, mas eu não a vejo mais quando acordo. Sinto apenas a brisa, e escrevo.

4.10.06

Call me Ishmael

Capa do Audio Book da Penguin Classics

Estou lendo Moby Dick, de Herman Melville através do serviço Daily Lit, que envia livros para o seu e-mail em fragmentos diários. Descobri o serviço através do blog do Alexandre Soares Silva. O serviço é gratuito e tem vários livros disponíveis. Você se cadastra e escolhe os livros que quer receber, e a periodicidade. Os livros não são necessariamente enviados por capítulo. Se você ler um trecho e quiser continuar, não precisa esperar até o dia seguinte e pode solicitar o próximo imediatamente.

Eu li uma tradução em português de Moby Dick quando tinha 13 anos, mas nunca tinha lido o original em inglês. Adoro a forma como Melville forma imagens com palavras. Parece um filme.