28.9.06

Sobre o sentido da vida

Ontem eu estive em uma conferência muito séria. Como eu estava na platéia, e não em pé, defendendo pontos de vista, eu naturalmente adormeci, como sempre faço nas conferências. Na verdade, eu não lembro de ter ido à conferência, apenas lembro de ter acordado quando meu vizinho me cutucou, provavelmente porque eu estava roncando, embora eu tenha certeza que eu não ronco.

Eu demorei para perceber o tema da conferência, pois apesar de muito séria, os argumentos dos palestrantes me pareciam totalmente absurdos. Tinham uma lógica precisa, uma abordagem cuidadosa e tudo parecia claro, óbvio, perfeito, conseqüentemente absurdo.

Meu despertar foi lento, e a sala estava um tanto escura. Foi por isto que só algum tempo depois percebi que se tratava de um simpósio. Era o que estava escrito numa faixa que pendia da mesa que estava atrás do palestrante: XVII Simpósio Internacional sobre o Sentido da Vida. Era mesmo absurdo! Como é que se discute uma coisa dessas? Todos sabem que o sentido da vida é 42.

O próximo palestrante era o Paulo Betti. Concluí que só poderia estar tendo um pesadelo. Não sei o que ele estava fazendo ali, mas ele veio com uma tese interessantíssima: o sentido da vida é a Merda. Ele já havia, em outros fóruns, convincentemente demonstrado por argumentos filosóficos chauístas o papel importantíssimo da Merda na política e desenvolvimento das nações. Ele aparentemente foi convidado para desenvolver o seu argumento. Mas o que isto tem a ver com o sentido da vida? Ora, segundo o palestrante, toda a evolução da humanidade e das espécies visa unicamente à perpetuação dela: a Merda. É a principal fonte de vida e de energia. É ela quem nutre o solo, que nutre as plantas, que são comidas pelos animais, que são comidos pelos humanos, e que um dia irão fazer cocô em outros planetas e espalhar-se Universo. Mostrou que se o mundo parasse de fazer cocô, toda a civilização e a biosfera entrariam em colapso e a Terra viraria um deserto estéril. Através de complicadas equações matemáticas demonstrou sua tese de que era a Merda a misteriosa matéria escura cuja massa ocupa a maior parte do Universo, e o principal componente dos buracos negros que devoram as galáxias. Conseqüentemente, o Big Bang foi um gigantesco pum que espalhou os gases incandescentes e partículas fecais que formam todo o Universo conhecido. Em suma, enterrar as mãos na Merda é uma forma sublime de encontro com a divindade, com a essência primordial do Universo.

Eu não consegui assistir até o fim. Ele começou a viajar em digressões absurdas contrastando sua tese com as teorias do Rev. Dawkins e do Dr. Pangloss e eu cochilei. Tive pesadelos com lulas gigantes, porcos falantes e sanguessugas barbudas que me perseguiam. Fugi para a floresta. No meio do caminho, no fim da rua encontrei um precipício. Não tive dúvidas: pulei.

Fui salvo por um indiano de turbante rosa, hálito de alho, olhos enormes e um sorriso desdentado que se apresentou como Mustafá Smith. Ele por acaso passava no momento do meu salto em seu tapete voador fabricado em Ashgabat. A única coisa que ele falou que eu entendi foi seu nome. Depois passou o resto da noite contando piadas na língua dele e rindo da minha cara. Eu não entendia nada, mas ele ria tanto que eu ria também sem saber por que. O tapete era ridículo. Tinha ursinhos rosas estampados e uma etiqueta enorme onde se lia "Made in Ashgabat". Era tudo tão ridículo que não havia sentido em fazer outra coisa a não ser rir. Quando eu já não aguentava mais de tanto rir, Mustafá falou alguma coisa, fez umas caretas grotescas e me empurrou violentamente. Pude ouvir suas gargalhadas histéricas enquanto eu caia das alturas a espatifar-me nas areias do deserto. Doeu horrores. Fiz fumacinha que nem o coiote. Morri rindo, com a cabeça estourada e sem mandíbula. Tudo era uma grande piada.

Acordei algum tempo depois em outras terras com o Sol queimando a pele do meu rosto. Foi demais para uma noite. Tive uma crise de riso tão intensa que quase morri de asfixia. Passei o resto do dia rindo à toa, como um louco.

Acho que na noite passada corri um grande risco de levar a vida a sério, mas fui salvo por um tal de Mustafá Smith em seu tapete de ursinhos rosas.

25.9.06

Vincent, de Tim Burton (1982)



Adoro Tim Burton, e adoro este curta-metragem que ele fez em 1982, que conta a história de um menino chamado Vincent Malloy, que tinha 7 anos, e que queria ser Vincent Price. Ele me lembra outro menino que também criava seus mundos, que realmente acreditava que eles existiam, e neles vivia dia após dia. Esses mundos ainda estão lá, esperando que ele os acorde.

I once was a young boy, somewhat, like Vincent Malloy.

Vincent, by Tim Burton (1982)

Vincent Malloy is seven-years-old,
He's always polite and does what he's told,
For a boy his age, he's considerate and nice,
But he wants to be just like Vincent Price.

He doesn't mind living with his sister dog and cats,
Though he'd rather share a home with spiders and bats,
There, he could reflect on the horrors he's invented,
And wonder dark hallways alone and tormented.

Vincent is nice when his Aunt comes to see him,
But imagines dipping her in wax for his wax museum.

He likes to experiment on his dog Abercrombie,
In the hopes of creating a horrible zombie,
So he and his horrible zombie dog,
Could go searching for victims in the London fog.

His thoughts though aren't always of ghoulish crime,
He likes to paint and read to pass some of the time,
While other kids read books like Go Jane Go,
Vincent's favourite author is Edgar Allan Poe.

One night, while reading a gruesome tale,
He read a passage that made him turn pale,
Such horrible news, he could not survive,
For his beautiful wife had been buried alive!

He dug out her grave to make sure she was dead,
Unaware that her grave was his mother's flowerbed.

His mother sent Vincent off to his room,
He knew he'd been banished to the Tower Of Doom.
Where he was sentenced to spend the rest of his life,
Alone with the portrait of his beautiful wife.

All alone and insane, incased in his doom,
Vincent's mother burst suddenly into the room.
She said, "If you want to, you can go out and play"
"It's sunny outside, and a beautiful day."

Vincent tried to talk, but he just couldn't speak,
The years of isolation had made him quite weak,
So he took out some paper, and scrawled with a pen,
"I am possessed by this house, and can never leave it again."

His mother said, "You're not possessed,
     and you're not almost dead!"
"These games that you play are all in your head!"
"You're not Vincent Price, you're Vincent Malloy!"
"You're not tormented and insane, you're just a young boy!"

"You're seven-years-old and you are my son,"
"I want you to get outside and have some real fun."

Her anger now spent, she walked out through the hall,
And while Vincent backed slowly against the wall,
The room started to sway, to shiver and creak,
His horrid insanity had reached it's peak!

He saw Abercrombie, his zombie slave,
And heard his wife call from beyond the grave,
She spoke from her coffin, and made ghoulish demands,
While through crackly walls, reached skeleton hands.

Every horror in his life, that had crept through his dreams,
Swept his mad laughter to terrified screams!

To escape the madness, he reached for the door,
But fell limp and lifeless down on the floor.

His voice was soft and very slow,
As he quoted The Raven, from Edgar Allan Poe,
"And my soul from out that shadow that lies floating on the floor,
Shall be lifted--Nevermore!"

23.9.06

Os últimos versos


Por do Sol no Cariri Paraibano (Lajedo Pai Mateus, Cabaceiras, PB). Foto de Helder da Rocha (Janeiro, 2006)

O poema abaixo foi publicado no livro Veinte poemas de amor y una canción desesperada do poeta chileno Pablo Neruda, falecido há exatamente 33 anos (23/09/1973). Os versos são tristes, mas não são lamentos: são versos de saudade. Celebram momentos felizes que ficaram para trás, que não voltam mais, mas que valeram a pena. Existem apenas na memória dos que os viveram. Somente momentos realmente felizes ganham versos tristes como estes versos de Neruda.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Pablo Neruda

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: 'A noite está estrelada,
e cintilam azuis, os astros, distantes'.

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a quis, e às vezes ela também me quis.

Em noites como esta eu a tive entre meus braços.
Beijei-a tantas vezes debaixo do céu infinito.

Ela me quis, às vezes eu também a queria.
Como não ter amado seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que eu a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto cai o sereno.

Que importa que meu amor não pôde guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isto é tudo. Bem distante alguém canta. Bem distante.
Minha alma não se contenta em tê-la perdido.

Como para aproximá-la meu olhar a procura
Meu coração a procura, e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.
Nós, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a quero, é certo, mas quanto eu a quis.
Minha voz buscava o vento para tocar o seu ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.

Já não a quero, é certo, mas talvez a queira.
É tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta eu a tive entre meus braços,
Minha alma não se contenta em tê-la perdido.

Ainda que seja esta a última dor que ela me causa
e sejam estes os últimos versos que eu a escrevo.

Traduzido do original em espanhol por Helder da Rocha.

22.9.06

O Sol da primavera


Manhã de hoje durante o eclipse parcial.
"These late eclipses in the sun and moon portend
no good to us: though the wisdom of nature can
reason it thus and thus, yet nature finds itself
scourged by the sequent effects: love cools,
friendship falls off, brothers divide: in
cities, mutinies; in countries, discord; in
palaces, treason; and the bond cracked 'twixt son
and father. "
(William Shakespeare, King Lear, act I, scene 2)

No final, as nuvens se dissiparam e a Lua escureceu um quarto do Sol na manhã de hoje. Tirei umas fotos. Meu equipamento fotográfico é terrível. Tenho uma câmera digital velha, de 4 anos, 2 mega pixels e que não filma. Por outro lado tenho um telescópio que eu equipei com um filtro especial para apontar para o Sol. Tirei umas 10 fotos equilibrando a câmera na ocular do telescópio. Salvou-se uma:


Foto do Sol usando telescópio ETX-125 com ocular de 40mm.

Minha câmera de vídeo é pior ainda: uma web cam da Creative com resolução 320x240 ligada ao computador. Ela capta luz de forma estranha. Quando apontei para o Sol, no lugar apareceu uma bola preta, como se ela estivesse detectando a sombra da Lua. Mas não tenho certeza. Vou ter que fazer uns testes. Eu gravei um vídeo mesmo assim.


Vídeo gravado às 7h55 do dia 22/09.

Dois eclipses escureceram o país neste ano. Para compensar as superstições de Gloucester (na citação acima), vou terminar com outra citação da mesma peça (Rei Lear):
"This is the excellent foppery of the world, that,
when we are sick in fortune,--often the surfeit
of our own behavior,--we make guilty of our
disasters the sun, the moon, and the stars: as
if we were villains by necessity; fools by
heavenly compulsion; knaves, thieves, and
treachers, by spherical predominance; drunkards,
liars, and adulterers, by an enforced obedience of
planetary influence; and all that we are evil in,
by a divine thrusting on: an admirable evasion
of whoremaster man, to lay his goatish
disposition to the charge of a star!"
(É a resposta lúcida de Edmund, o filho bastardo. Mas oh não! Ele é o vilão! Quem será que está com a razão?)

Atualização
O eclipse em São Paulo cobriu apenas 25% do Sol. No nordeste a crescente ficou bem mais bonita. A foto ao lado, que mostra 68% do Sol encoberto pela Lua, foi tirada pelo meu pai, em Campina Grande, na Paraíba, usando uma câmera digital com filtro.

21.9.06

O Sol e o equinócio



O Sol, flagrado às 8h20 de hoje, véspera do equinócio de primavera, em São Paulo. Ele tem uma "pintinha"! Amanhã ele tem um encontro com a Lua.

Os Quatro Elementos - O Fogo
(Vinicius de Moraes)

O Sol, desrespeitoso do equinócio
Cobre o corpo da amiga de desvelos
Amorena-lhe a tez, doura-lhe os pelos
Enquanto ela, feliz, desfaz-se em ócio.

E ainda, ademais, deixa que a brisa roce
O seu rosto infantil e os seus cabelos
De modo que eu, por fim, vendo o negócio
Não me posso impedir de pôr-me em zelos.

E pego, encaro o Sol com ar de briga
Ao mesmo tempo que, num desafogo
Proíbo-a formalmente que prossiga

Com aquele dúbio e perigoso jogo...
E para protege-la, cubro a Amiga
Com a sombra espessa do meu corpo em fogo.

Fonte: http://www.viniciusdemoraes.com.br

O anel da primavera


Simulação do eclipse anular de sexta-feira sobre o rio Oiapoque, no Amapá.

A primavera do hemisfério sul vai começar no Brasil com um eclipse anelar do Sol, nesta sexta-feira, dia 22, pouco depois do amanhecer. Há seis meses, foi o outono que começou pouco antes de um eclipse total, também visto no Brasil (veja videos, fotos e relatos no post anterior.) Depois de sexta-feira, os dias voltarão a ser mais longos que as noites.


O eclipse em Oiapoque
O fenômeno será visível em quase todo o país na sua fase parcial. O melhor lugar para vê-lo no Brasil será no município de Oiapoque, no Amapá, que fica próximo da linha central (veja figura abaixo). Acontecerá pela manhã, cerca de duas horas após o amanhecer. No resto do país o eclipse será parcial. As fases parciais dos eclipses anulares são mais bonitas, pois a crescente do Sol encoberto é maior.


A faixa entre as linhas vermelhas mostram onde o eclipse será visto na fase anelar.

A imagem abaixo mostra como o eclipse será visto no seu auge em várias cidades brasileiras. A passagem da Lua pelo Sol durará em torno de duas horas.


O eclipse em várias cidades no Brasil

Na terça-feira consultei a previsão do tempo para a sexta-feira pela manhã em São Paulo e fiquei animado pois havia a possibilidade de haver céu limpo. Ontem a previsão já mudou para céu nublado, então não sei se iremos conseguir ver qualquer coisa. Mas, como as previsões podem falhar, quem sabe se as nuvens não se dissipam na hora do eclipse? A imagem abaixo mostra várias fases do eclipse em São Paulo. O auge do eclipse ocorrerá às 7h42.


O eclipse em São Paulo.

Para observar um eclipse parcial ou anular é preciso tomar cuidados especiais. Nunca aponte um binóculo ou telescópio para o Sol e para observar o Sol diretamente use um filtro de soldador número 11 ou superior (você encontra em qualquer loja de ferragens e custa cerca de R$ 2,00). Não olhe diretamente para o Sol sem proteção ou com óculos escuros.

Leia mais sobre eclipses no meu post de 28 de março: Amanhã o Sol vai nascer escuro.

Informações mais detalhadas sobre o eclipse do dia 22 de setembro podem ser encontradas no site Uranometria Nova dos astrônomos Irineu Varella e Priscilla Oliveira do planetário municipal de São Paulo. Há uma tabela para várias cidades brasileiras com horários, percentagem de cobertura, e outros dados. As simulações da visão do eclipse neste artigo foram calculadas usando as ferramentas do site CalsSky.

Atualização

The Sky
A previsão do tempo agora está mais desfavorável: o Sol só é esperado à tarde. Mas astrônomos são seres otimistas. A previsão para hoje de manhã era de céu nublado e o Sol apareceu. Esta foto ao lado foi tirada da varanda do meu apartamento pouco antes do meio-dia de ontem. O clima muda rapidamente; muda mais rápido que as previsões.

20.9.06

Vídeos do eclipse total de 29 de março


O vídeo do ecplise total do Sol que eu assisti há seis meses (29 de março) está no YouTube. O vídeo foi feito na praia de Tabatinga (próximo de Natal) por Lucas Medeiros e eu editei as cenas no Movie Maker. Na época escrevi vários posts onde publiquei relatos e fotos:
Bruno Ávila fez outro vídeo que vale a pena assistir e que mostra a fase de totalidade do eclipse inteira sem interrupção.

O assunto está de volta porque haverá outro eclipse do Sol nesta sexta-feira, visível em todo o Brasil. Falarei sobre ele no próximo post.

5.9.06

Frio


O ar está frio. O espaço é silêncio. O que um dia tinha cores vivas está a tornar-se pálido, comum. Perdeu-se o hábito de buscar novos ângulos desconhecidos. Na fria calmaria, as falhas vieram à tona, repetindo-se em tons irritantes. O amor exposto à dura realidade da razão tornou-se ridículo. Não tinha mais graça. Todas as fantasias, quando expostas, revelaram-se absurdas. A paciência esgotou-se com os truques do mágico, que, diante de tais olhos não mais surpreende. Seu mundo revelou ser apenas um palco vazio, comum, com manchas e rachaduras, como qualquer outro palco. O castelo era apenas a ruína de um casebre de taipa e o riso imaginário era apenas vento. O que um dia pulsava e aquecia, petrifica-se e volta a ser estátua, de gelo opaco. Se não acordar a tempo, derreterá no próximo Sol, até evaporar, tornando-se nada, espalhando-se pelo todo até o esquecimento.