25.5.06

A montanha do Purgatório

Baixe aqui o e-bookComo fiz com o Inferno, agora estou disponibilizando para download minha adaptação do Purgatorio, - o segundo livro da Divina Comédia de Dante, em formato PDF. São 240 páginas e o arquivo é menor que o Inferno: 2Mb. Foi formatado para ser impresso em frente-e-verso (as notas ficam nas páginas pares e o texto flui nas páginas ímpares). É necessário ter o Adobe Acrobat Reader ou compatível para ler e imprimir o arquivo.

Dentre os mundos descritos na Divina Comédia, o Purgatório é a criação mais original de Dante. Os outros dois livros falam de reinos cuja existência é doutrina fundamental em diversas religiões. Já o purgatório é mais recente e tem origem nas doutrinas patrísticas consolidadas por teólogos como Santo Agostinho e Tomás de Aquino. O purgatório de Dante é uma montanha que fica "do outro lado do mundo" em oposição a Jerusalém, e é um lugar de sofrimento também, como o inferno, mas é um sofrimento que tem fim. Como o inferno, também é dividido em círculos e habitado por personalidades mitológicas e históricas. Em alguns círculos o sofrimento é tão terrível quanto no inferno.

Dos três livros, é o meu favorito. Não há grandes momentos dramáticos nem personalidades de grande destaque como no Inferno, tem um ou outro discurso mais longo, mas a história vai ficando mais interessante à medida em que se sobe a montanha, e os cantos finais recompensam todo o esforço da subida. No final, Dante conta a história da igreja Católica como se estivesse presenciando o Apocalipse, usando símbolos e representações metafóricas que seriam escandalosas até mesmo nos dias de hoje.

Quem quiser ler o Purgatorio online ainda pode fazê-lo através do meu site sobre a Divina Comédia, que tem informações e recursos que não estão incluídos na versão em PDF.

23.5.06

Encontro ao por do Sol



Havia neblina, mas era da imagem pois era como sonho. Foi num domingo à tarde (essas coisas sempre acontecem num domingo à tarde.) Eu estava dentro do ônibus. Eu conseguia vê-la esperando no segundo andar da plataforma, na sacada. Ela ficou lá em pé uns cinco minutos antes de ir embora. Não sei no que ela estava pensando. Ela olhava para o nada. Eu estava partindo, mas logo nos viríamos novamente. No entanto, ela estava lá esperando o ônibus partir, e aquele olhar eu nunca esqueci.

Anos depois ela partiu para sempre, ou fomos nós que partimos um do outro. O mundo nos afastou e hoje ela existe apenas na minha memória.

- Eu lembro desse dia.

- Sério?

- Sim. Eu não sabia se ia vê-lo de novo. Era como um sonho bom quando chega a hora de acordar. Eu não queria esquecer, não queria acordar.

Ela falava, mas eu não a via. Ela estava do meu lado e contemplávamos o Mediterrâneo que nunca vi. Eu apenas sentia a sua presença ao meu lado. Eu falava para o mar como se não houvesse ninguém ali, como se ela fosse a brisa.

- Você não veio, não é? Você não conhece?

- Não. Nunca fiz a viagem.

- Era seu sonho. Você devia fazer. Até brigamos por causa disso!

- Vou fazer.

- Este mar azul é lindo não é?

- É. Ainda vou vê-lo e lembrarei de você, quando vier.

As crianças estavam brincando no jardim. Eu era um cavalinho, e as duas estavam montadas nas minhas costas, as mãozinhas puxando meus cabelos. Riam tanto que soluçavam. E ela assistia a tudo e ria sem parar. Não sei de onde vieram essas imagens, esses sons e essas cores. Não sei de onde vieram os rostos das duas meninas que pareciam muito com ela. Mas nada disso existiu. Foi fabricado na memória.

- Era eu mesma. Você me escreveu uma carta em que falava disso.

- Eu sei.

- Foi quando nos separamos pela primeira vez. E tempos depois, perto do fim, eu mandei a carta para você, lembra? Você não lembrava dela.

- Lembrava sim. Eu não esqueceria essas imagens.

- Você me dizia que eram lembranças do futuro, e eu sonhei com ele também. Havia sapos e cajueiros e grilos cantando.

- Sapos. Era 23 de fevereiro.

- Era sempre 23 de fevereiro. Estávamos no balanço contemplando as estrelas. As mesmas que nos observaram quando tudo começou.

Diante de mim há uma parede. Atrás da parede há uma cidade. E na cidade há indiferença. Na cidade da indiferença tento respirar, mas o ar é pobre, e a angústia não consegue se materializar. A angústia é solitária, no meio da multidão, sou ninguém. Há contas para pagar. Mas essa é a parte menor da história. No escuro, não encontro uma mão para segurar e se encontro, é uma mão que segura a minha, mas que não irá buscá-la se ela se soltar novamente. Uma vez sonhei que no meio da multidão eu a perdia. Por um momento, um instante apenas, eu soltei a sua mão e nunca mais a vi.

- Eu segurei a sua mão no escuro. Mesmo cansada eu não soltaria nunca. E todas as vezes em que você se desvencilhou de mim, eu fui atrás. Você era minha vida, meu companheiro.

- Mas depois você não a quis mais.

- Nunca quis outra, mas ela sempre partia, e me deixava sozinha. Você queria o mundo.

- Foi o ipsilon.

- Foi. Lembra? Desde o início sabíamos os dois que ele chegaria um dia. Os universos paralelos se bifurcaram. Mas as lembranças eram reais. São mesmo lembranças do futuro. São lembranças dos outros universos que não aconteceram.

Ela calou-se. Ouvi apenas os ecos sumindo nas chapadas. Virei o rosto para sentir a brisa e acordei sozinho. O domingo chegava ao fim e a brisa tinha o cheiro da cidade.

(fev-2005)

22.5.06

Os astrônomos



Quando deixaram a cidade não havia uma só nuvem no céu. Chegaram à casa do sítio na beira da estrada e em uma hora montaram os instrumentos. Elas logo perceberam e aos poucos foram cobrindo o céu em camadas finas e esparsas. Era sempre assim. Eles não desistiam. Eram pacientes. Esperavam o vento que as levaria embora.

O vento desta vez percebeu a prepotência e não gostou. Achou melhor acabar logo com a festa. Mandou uns cúmulos mais densos e uns estratos mais escuros que sorrateiramente cobriram o céu de branco.

Eles não saíram do lugar. Ficaram lá contando estórias e fazendo piadinhas com as formas das nuvens. Era só o que faltava! Notus agitou os nimbos que tornaram-se mais visíveis e mais barulhentos. Nuvens luminosas, em raios e faíscas secas, tremeram o ar com estrondos constantes. Um pingo, outro maior, dois, quatro, oito, dezesseis. Milhares. Em quinze minutos eles estavam loucos, correndo por todos os lados para guardar seus instrumentos de voyeurismo espacial, cobrir as lentes, fechar as malas, proteger as peças secas. Normalmente isto era suficiente. Mas não. Eles não iam embora! Estavam lá na varanda cantando felizes e esperando a chuva passar

O vento descontrolou-se. Mudou de forma. Tornou-se sádico, cruel. Maltratou árvores, arrancou folhas, espalhou a chuva sem dó aumentando o peso, o ritmo e o tom agudo dos seus pingos. Multiplicaram-se os raios e os trovões. Finalmente eles correram para os seus carros, mas já era tarde. Pedras de gelo afiadas já estalavam nas latarias, quebrando as telhas e estragando os telescópios. Equipamentos desmancharam-se e foram arrastados pela lama. Um raio cortou o horizonte e no estrondo nasceu Adamastor no céu incandescente. Molhado e perverso, arrancou duas árvores, lançou pedras, revirou a poeira, agitou os carros. Sua raiva materializou-se em funis negros e lamacentos, puxando fios, galhos, lentes, sapatos.

Os carros fugiam pela estrada. Até estavam tranqüilos ignorando a chuva no asfalto seguro. Boreas enfureceu-se. Minuano mesclou nuvens em cores e redemoinhos abrindo a terra e partindo a estrada. Instrumentos óticos, automóveis e corpos humanos desaguaram no rio, decorando com vidros e sangue seus penhascos de erosão. Bastou um raio para apagar toda a cidade. Por meia hora a terra estremeceu sob as nuvens, até que eles finalmente cansaram. Chega! Chega de violência. Era só um bando de astrônomos-pollyana, coitados! Calaram-se e deixaram Zéfiro espreguiçar-se numa brisa longa e suave. As nuvens relaxaram e aos poucos foram seguindo seu rumo, revelando as estrelas que iluminaram o céu como não acontecia há muito tempo, e a terra descansou em silêncio.

(jan/2005)

Ficções



Considera ficção, ou considera passado. Considera como quiser, já que é ilusão. Se não é imaginário, por que só existe na minha mente, ou aqui, nestas páginas de palavras imaginadas? Em outras, em que apareces, eu não estou. Talvez seja ficção. Uma insuportável ficção.

Faço de conta que nada existe. Numa noite, numa festa, não é difícil. Deixo que vivas tua ficção, e eu invento uma para mim. Ficções são curtas e terminam. Não foi tão fácil. Atuar não é fácil. Tive que buscar mil distrações e senti-me como se de fato estivesse no teatro, assumindo um papel, obviamente falso, enganando a todos. Mas e se a ficção estende-se além da noite? E se a peça não termina? E se eu não te encontro quando mais preciso? E se depois te acho em imagens reais, no mundo real, da forma como estavas no conto de ficção? Como não duvidar da minha realidade? Será que somos mesmo reais?

Se o teatro foi mesmo a realidade, e não foi ficção, o que faço aqui alimentando estas fantasias? Testei os limites do meu amor irracional. Segurei meu mundo nas costas mas ele escorregou e caiu sem amparo porque ninguém sabia que ele existia. Eu o segurava sozinho. Mas que diabos é essa realidade só minha? Esta página de palavras fantasiosas? Esta imagem, talvez, que só existe aqui, Alessandra? Considera ficção, ou então, se achar melhor, considera passado, ou não. Cria a tua história. Esta, é a minha.

Qualquer semelhança com pessoas e fatos reais será mera coincidência, e os pixels, e os nomes, como sempre, foram trocados para preservar-se a privacidade das pessoas reais.

21.5.06

Pequenas tragédias


"Foi o próprio Deus que, ao fim da sua jornada de trabalho,
estendeu-se em forma de serpente sob a Árvore do
Conhecimento: assim descansou de ser Deus. Havia feito
tudo bonito demais. O Diabo é apenas a ociosidade de
Deus a cada sete dias."
(Friedrich W. Nietzsche, “Ecce Homo”)

Estava tudo perfeito demais. Nada faltava. Todos estavam satisfeitos. O crime não existia. Não havia catástrofes naturais. Os impostos eram pagos em dia. A natalidade estava sob controle. As fábricas não poluíam. Em paz eles nasciam, cresciam, casavam, trabalhavam, envelheciam e morriam. A brincadeira não tinha mais graça. A felicidade permanente não se distinguia do estado natural. Era tudo muito chato. Mais chato que a samambaia da sala. A samambaia pelo menos precisava de alguns cuidados para não secar e morrer. Eles não. Eles pareciam um relógio, uma máquina perpétua, um câncer. Eram uma aberração da natureza. Uma violação de todas as leis da física. Eles não podiam existir. Se existissem a existência seria insuportável. Parecia tudo falso. Devia ser um engano.

Era mesmo. Era um pesadelo. Ufa! Acordei tonto com uma ressaca terrível e fui conferir. Não, nada estava funcionando direito. Havia peças faltando e outras ruindo. Havia incerteza, medo e doença, criação e destruição. Havia coisas a resolver, a melhorar, e não havia garantia de que nada se realizaria. O paraíso nunca seria alcançado mas havia vontade, esperança, sonhos e ilusões. Havia movimento. Havia muita dor. Havia vida. O amor nascia e morria. Tive até vontade de agitar um pouco o aquário, causar umas pequenas tragédias, mas achei que não seria preciso.

19.5.06

Virada Cultural e Copo Vermelho

Neste final de semana acontece, em São Paulo, a Virada Cultural: uma maratona cultural de 24 horas com espetáculos de dança, teatro, cinema, literatura, circo e artes visuais que acontecem nas ruas, nas praças, nos teatros, cinemas e outros espaços da cidade. Começa às 18 horas de sábado e termina às 18 horas do domingo. A programação é vasta.

Eu fui convidado para a festa do copo vermelho, uma festa de blogueiros que acontece sábado na Vila Madalena. Recebi um e-mail pedindo para confirmar o meu nome e de minha acompanhante... Acompanhante? Pois é, está em aberto. Alguém se habilita?

Terror imaginário

A cidade parou. Mas não foi por causa dos tiros, das bombas ou dos incêndios. A cidade parou por causa do medo. E o medo foi muito, muito maior que o fato. O medo fechou as portas das lojas, esvaziou as ruas, cancelou as aulas. As obviedades tomaram contas dos jornais, e de repente todo mundo tem algo a dizer, todo mundo tem razão, todo mundo sabe a solução. O medo foi tão poderoso que chego a me perguntar se não poderia causar esse estrago todo sem precisar da causa em si. O medo alimentou a irracionalidade e autorizou a violência, o assassinato, o julgamento sumário e a pena de morte. Mas o que foi, afinal, que começou tudo isto? Vivemos em um mundo que é refém da informação. Tenho mais medo dos boatos que se espalham que das balas perdidas.

17.5.06

Amores imaginários



Eu pensei que fosse ciúme. Não era. Descobri enquanto caminhava, enquanto subia e descia as ladeiras e desviava dos buracos nas calçadas. A noite estava fria. A lua estava bela. Iluminava as nuvens. Havia estrelas.

Não era ciúme. Talvez fosse inveja. Acho que era. Era inveja. Inveja do espaço, do mundo, da liberdade de mostrar, de amar e de gritar. Talvez de não poder mostrar, como outros puderam. Talvez de não poder gritar. Uma liberdade não exercida, talvez, por reciprocidade.

O grito é restrito. Te olho com desejo, te beijo calorosamente na frente de todos, te toco, te faço carinho; exponho ao mundo o amor que sinto. Mas tudo fica naquele recinto, naquela praça, naquele palco. Para o resto do mundo, como no mundo das palavras, eu existo sozinho. É como se não nos conhecêssemos, ou como se fôssemos apenas conhecidos, amigos virtuais, nada mais.

Há liberdade em não se expor. Mas acho que há mais em revelar. Gosto da transparência, de não precisar esconder o que existe, ou penso que existe. Assumo o risco das tragédias, dos desmoronamentos, das mágoas, dos ressentimentos. Desconfio que a verdade das coisas que precisam se esconder é limitada ao universo onde elas se escondem. Mas meu amor transborda. Ignora limites. Ignora verdades. É faminto. É megalomaníaco. Quer existir em todos os mundos. Quer revelar-se sem pudor. Quer ser tudo. Talvez queira demais, e por querer tanto sente-se preso, e sentindo-se preso, talvez queira fugir, talvez queira arriscar-se em universos maiores, irracionalmente, como sempre age o amor.

Meu amor não quer esconder nada. De ninguém. Se amamos porque o mundo não pode saber? Talvez o mundo nem se importe tanto. Se nos revelamos ao mundo, nos revelamos apenas por apelidos e charadas. Disseminamos a incerteza, e a incerteza agora nos atinge.

Selecionei fotos de viagens, de paisagens deslumbrantes. Cogitei publicá-las, mas me vi escolhendo apenas aquelas em que ela não estava. Não quis misturá-la com a realidade. Mas é a realidade que eu temo, pois a realidade existe e aparece. Pode não ter borboletas, pode não ter cerejeiras, pode não entender a profundidade do que significa comer-se, mas espalha-se transparentemente, expõe-se pelos espaços vastos e permanece, intensifica-se, e cresce, sem temer revelar-se, mesmo quando ainda é um mistério. O que está oculto, por mais belo e mais intenso, por mais autêntico, livre e sincero, vira apenas sonho, memória ou bela história. A realidade está me levando, com um amor que espalha-se sem pudor, mesmo com dor e amor incerto. O meu outro amor que ainda quero, que mais eu quero, que eu quero livre, que eu amo, ninguém conhece. Oculto permanece sem nunca revelar o nome.

15.5.06

Ele é um bom menino


Foto: Fernando Donasci / Folha Imagem

Marquinho é um bom menino, pode confiar. God sempre dizia isto. Mesmo quando ele escapou da cozinha e tocou fogo na biblioteca. Ele é um bom menino. Mesmo quando ele queimava seus soldadinhos de plástico no banheiro só para ver os floquinhos pretos voando pelo ar. Ele só precisa de amor e carinho. É um anjinho.

Marquinho adorava brincar com fogo, mas a babá não deixava. Marquinho não gostava de babás. Elas sempre queriam conversar. Se ele era um bom menino, qual era o problema? É tão desumano não deixar ele brincar. Se todos podem, porque ele não pode?

Como ele conseguia, Ninguém sabe. Ninguém tem nome. Marquinho sempre arrumava fogo. Ninguém deixou que ele escapasse outra vez, mas não ligou quando ele mandou sinais de fumaça para ameaçar os seus amiguinhos. Na conversa tudo se acerta, não é babá? Um dia, Marquinho ligou para todos os seus amiguinhos para juntos brincarem de inferninho. God achou tudo uma gracinha. O doutor perguntou e ele disse que não era nada, que estava tudo sob controle. É melhor deixar quieto. Para que tanta sirene? É só fumaça. É só ameaça. Ele é um bom menino! Se o fogo se espalhou não é culpa dele, coitado. Deixa ele. Deixa ele ir.

Ele saiu para ver sua mamãe. Todos os seus amiguinhos bem comportados, foram correndo para os braços de suas adoráveis mamães, e receberam conselhos. Mamãe mandou que fossem brincar de carrinho, então espalharam-se pela casa para brincar de guerra. Partilharam os brinquedinhos e queimaram os carrinhos. Não perdoaram as babás malvadas. Bum! E foi-se a babá! Era um joguinho muito divertido. Rá-tá-tá-tá e vidro para todo lado. Rá-tá-tá-tá e sangue para todo lado. Rá-tá-tá-tá e gente para todo lado. A babá toca a sirene. Eba! Rá-tá-tá-tá e ela não mia mais. Tchau babá!

Marquinho e seus amiguinhos são bons meninos. Eles não têm culpa por suas travessuras. Se alguém tem culpa é você! Foi você que me colocou naquele lugar miserável, seu filho da puta! Você nunca me deu uma chance! Você ri da minha cara! Você me corrompe! Quero o que é meu de direito. O direito que você me deu. O que você tem não lhe pertence. Foi você que roubou de mim. Você não pode me tocar, mas eu posso lhe matar, assim, de brincadeirinha, quando eu sentir vontade. Pow-pow!

Marquinho é um bom menino. Ele sabe se comportar. Ele só pede que o deixem trabalhar em paz. God garantiu que já está tudo sob controle. Está mesmo! Ele sabia de tudo, era previsto. Se não soubesse, seria muito pior. Marquinho está de castigo. God proibiu-o de ligar para seus amiguinhos. Ele só pode receber telefonemas de sua mamãe. Está tudo sob controle. Rá-tá-tá-tá!

13.5.06

Que tal ir para o Inferno?

Baixe aqui o e-bookEu disponibilizei para download minha tradução do Inferno de Dante, em PDF, para impressão. São 250 páginas. O arquivo tem 4Mb. Fica melhor (e menor) se imprimir frente-e-verso. Você vai precisar do Adobe Acrobat Reader ou compatível para ler e imprimir o arquivo.

Em 1999 publiquei na Web uma tradução da Divina Comédia de Dante Alighieri que hoje está no site www.stelle.com.br e pode ser lida online. Se você tem vontade de ler a Divina Comédia e apreciar sua poesia, sua música, seus efeitos sonoros e suas narrativas dramáticas, leia em italiano. Nenhuma tradução preserva a simplicidade e a musicalidade dos versos de Dante. No mínimo, procure uma edição bilíngüe. Mas se quiser ler a história em português como se lê um romance, então leia uma versão em prosa como a minha.

Sempre recebo emails de leitores do meu site sobre a Divina Comédia, mas nunca tive o cuidado de comparar as estatísticas de acesso ao site. Surpreendi-me ao descobrir que ele tem dez vezes mais acessos diários que este blog, mesmo sendo um site estático que praticamente não mudo há quase seis anos. Tenho um monte de leitores que nunca vieram aqui.

Já me perguntaram e eu não sei responder porque decidi fazer essa tradução. Foi por acaso. Era o livro que eu estava lendo no momento que veio a vontade. Poderia ter sido outro. Qualquer outro. Poderia escrito algo original. Não sou cristão nem sou religioso e a Divina Comédia nem é meu clássico favorito, e nem mesmo o meu estilo favorito de obra clássica. Me interesso muito mais por obras como o Decamerão, de Boccacio e Histórias, de Heródoto. Eu nem gosto muito de chamar o que eu fiz de "tradução" pois o original é um poema e comecei adaptando do inglês e não do italiano, por diversão, sem pretensão alguma. Foi só mais uma das coisas que comecei. Eu sempre começo. Começo mil coisas e consigo terminar meia dúzia, às vezes nem isto, se é que eu termino alguma coisa. Acho que comecei porque queria entender, e continuei porque seria um desafio, porque iria ter um pretexto para estudar italiano, porque adoro história, porque gosto de estudar religiões, porque sinto prazer em pesquisar qualquer coisa, interpretar, traduzir, inventar, porque gosto de escrever, porque quero aprender a escrever melhor.

Decidi ler a Divina Comédia depois de ler os Lusíadas e ficar boiando nas referências que o autor fazia à obra de Dante. Na época eu estava terminando um mestrado e escrevendo uma série de livros de Web Design (nunca terminados) para usar como apostilas em treinamentos, e buscava um exemplo de site cujo conteúdo se lê em seqüência. Usei seis cantos do meu resumo do Inferno. Me perguntaram sobre os outros cantos, então aumentei o site. Procurei corrigir, melhorar, rescrever, fui me aprofundando, e acabei me envolvendo por dois anos com a obra de Dante. Depois me dispersei. Quando leio muito meus interesses se espalham. Me apaixonei pelos pecadores do Inferno. Foi Dante me me mostrou Epicuro. E assim como Virgílio guiou Dante, Aristóteles me levou a Peter Singer, por Santo Agostinho me aproximei de Voltaire e Nietszche e conheci Sade. Em pouco tempo eu estava em outro universo e não dava mais para suportar as sumas teológicas de Tomás de Aquino, nem mesmo quando ele fala em terça rima na esfera do Sol.

Então me perguntam quando eu vou terminar de traduzir a obra toda. A resposta é: eu não sei. Primeiro, eu considero que terminei duas obras (Inferno e Purgatório), e não dois terços. Nem todo mundo concorda. Pessoas que poderiam ter interesse em publicar meu livro não concordam. Isto só já seria um bom motivo para terminar o Paraíso. Não é minha prioridade no momento (mas passará a ser caso alguma editora com distribuição nacional tenha interesse em publicar a obra) Para continuar, teria me envolver com a Divina Comédia de novo.

Mas já me desviei do assunto deste post. Escrevi-o para responder a segunda pergunta mais freqüente que recebo. Não é pergunta, é um pedido: "por favor me envie a obra toda para que eu possa ler offline." Eu tinha criado um serviço para enviar os cantos por e-mail, mas não é a mesma coisa. Então agora disponibilizo os livros em formato para impressão. Vou começar pelo Inferno. Semana que vem (se eu tiver tempo) eu faço o mesmo com o Purgatório, e assim terei duas perguntas a menos que não precisarei responder.

5.5.06

Cría cuervos y te sacarán los ojos



Pedro Luís Inácio Brás criava corvos cubanos nas casas de suas amantes latinas. Alimentava-os com idéias genuínas. Beatriz Olívia os divertia com as folhas que Eva, sua governanta, colhia nos altiplanos. Uma tarde, as águias malvadas do norte sobrevoaram as proximidades da casa de Olívia, danificando as plantações. Eva revoltou-se e resolveu libertar os corvos insones. Foi nesse dia que Pedro, que era do leste, voltava de um bem sucedido mergulho em águas profundas. No caminho, ouviu os gritos de Nevermore e chegou a desconfiar da conspiração. Ligou para Olívia, mas ela o tranqüilizou com belas palavras. Ao chegar, tentou abrir a porta, mas não conseguiu. Eva havia mandado trancar tudo com novas Chaves e fechaduras Fiel, e ele não pôde entrar. Tentou entrar pela cozinha, ao sul, mas Nestor K., el cocinero, sempre atrapalhado, tinha perdido suas chaves. Chamou em vão por Beatriz Olívia, mas Eva, das muralhas, já controlava tudo com sua tribo. Os corvos sinistros estavam enlouquecidos. Apesar de livres, não partiam. Queriam estabelecer o que já tinham. Queriam tudo, queriam a casa, queriam a fazenda. Queriam Pedro, que estava lá, que não reagia, e que apesar de tudo, ainda cedia. Fortalecidos, cresciam em coragem e não mais hesitavam. Não mais reconheciam aquele que construíra a casa e que soube transformar ventos incandescentes em comida. Viam apenas um bandido, que roubara suas paisagens e agora queria seus ventos. Então, num rasante inesperado pela sinistra, golpearam Pedro Brás pelas costas, marcaram-lhe a face com suas cores, e sacaram-lhe os olhos. Beatriz Olívia assistiu tudo pela janela e por Luís Inácio nada pôde ou quis fazer. Acreditava em Eva, que sempre dizia: se os olhos foram levados, é porque as paisagens que ele via pertenciam aos nossos corvos; ele não as tinha quando chegou, e não era justo que as levasse embora. A casa ficou vazia e as torneiras foram lacradas, pois Eva acabou perdendo as Chaves, e as fechaduras Fiel continuaram, como sempre, muito bem fechadas. No dia seguinte, os ventos incandescentes se apagaram e os corvos espalharam-se pelo continente.

3.5.06

Quando tento explicar



Escrevo sem pensar como se estivesse a conversar. Se eu penso, não escrevo, ou escrevo o que não penso. O problema é que eu escrevo sem que a razão segure as palavras, que escapam soltas, selvagens, procurando descrever aquilo que vejo, ou as coisas que sonho, ou ainda o que eu sinto no momento em que elas, as palavras, se formam. E às vezes, enquanto escrevo, meus humores se invertem, e as palavras, se ainda livres, seguem o fluxo de suas correntezas, demolindo as afirmações mais sinceras. Tento consertar, mas não posso se não pensar. E se penso muito, é inevitável: entro em contradição, e já não sei mais o que eu acho, muito menos o que eu achava que sabia. E toda a aventura só não acaba sendo inútil porque ao escrever, sem pensar, revelo a mim mesmo nas palavras, coisas que os pensamentos ocultavam, ou que talvez soubessem, mas censuravam. Assim acredito que talvez haja mais verdade nas minhas contradições, que nas minhas análises mais cuidadosamente elaboradas (que são claramente mentiras tão descaradas quanto esta que acabo de redigir.) Mas o que é, afinal, essa verdade? Nada do que falo é verdade, logo o que escrevo, sem pensar, também não pode ser. Verdade mesmo talvez sejam apenas as coisas que escrevo depois de muito pensar, com cuidado de acertar e não errar: são as coisas que eu invento, que eu explico com palavras tão bem colocadas, que ninguém sequer desconfia que o que elas dizem é apenas fantasia. Então não me ouça, e nem me leia quanto tento explicar. Não sou um. Sou muitos a cada instante. Eu só me revelo nas minhas contradições, pois minhas contradições somos quem eu sou.