29.3.06

Hoje eu vi o olho de Deus


Eclipse total do Sol, fotografado hoje, em Tabatinga, RN

“Lá estava o olho de Deus novamente, assustador e magnífico. Após a luz azul-metálica nos envolver por completo, fui invadido por uma vaga sensação de terror, ao mesmo tempo primordial e sublime. Essa luz não vinha deste mundo, mas de um mundo que existe além do tempo; mais uma vez, passados 34 anos, eu vislumbrava o eterno nos céus.” Marcelo Gleiser, físico e escritor, ao presenciar pela segunda vez, aos 40 anos um eclipse total do Sol (trecho de “O fim da terra e do céu”)

Hoje de madrugada viajei para o Rio Grande do Norte em uma van fretada pela ONG Nova Consciência, que organizou as palestras que ministrei aqui, em Campina Grande, sobre o eclipse do Sol. Éramos 17. Partimos de Campina Grande às 23 horas de ontem com destino a Tibau do Sul. Felizmente, nos perdemos e passamos reto, chegando em Nísia Floresta. Então, já que havíamos errado o caminho, mudamos de idéia e fomos para Barra de Tabatinga, que era a praia mais próxima. Felizmente, porque Tibau teve tempo encoberto. Quando chegamos, ainda era madrugada e faltavam mais de duas horas para o Sol nascer. Ficamos conversando, caminhando na praia, molhando os pés nas ondas da maré que já baixava. Observamos as estrelas, os planetas e as luzes piscantes que cruzavam o céu noturno. Vimos as nuvens chegarem e torcemos para que ficassem longe. Aos poucos, o céu foi clareando, as nuvens foram aumentando, mas nunca o céu ficou encoberto. Escolhemos o melhor lugar. Parecia que havia uma clareira aberta somente para nós. Havia nuvens dispersas ao norte, na direção de Natal, e ao Sul nuvens densas cobriam o céu na região de Tibau do Sul, onde estaríamos caso não tivessemos errado o caminho. No lugar onde estávamos, conseguíamos ver as estrelas, as constelações e Vênus, cuja luz atravessava as fracas nuvens e refletia nas ondas do mar.

Uma hora antes do Sol nascer, as estrelas já começavam a sumir e as nuvens destacavam-se no céu que já clareava. Às cinco horas da manhã, quando ainda faltavam 23 minutos para que o Sol despontasse, o dia já estava bastante claro.


O horizonte pouco antes do nascer do Sol

Às 5h23, conseguimos ver o Sol nascendo pontiagudo, no mar. Havia uma pequena brecha nas nuvens mas ela logo fechou-se. Não deu tempo fotografar. Devido às nuvens, não conseguimos acompanhar o nascimento do Sol, e só o encontramos alguns minutos depois, quando ele surgiu em forma de crescente num pequeno espaço entre as nuvens.


O Sol pouco depois de nascer aparecendo entre as nuvens

As nuvens também não permitiram que conseguíssemos assistir ao início da totalidade, mas o céu foi ficando cada vez mais escuro. E foi rápido. Tudo durou menos de um minuto. Era como se alguém tivesse reduzido a luz solar com um dimmer. No fim, o céu estava tão escuro quanto uma hora antes do Sol nascer. Não vi o Sol, mas senti o silêncio de sua sombra.


O momento do início da totalidade, atrás das nuvens

A totalidade durou um minuto e meio. Felizmente, antes que ela chegasse ao fim, as nuvens se afastaram e foi possível contemplar o disco negro contornado pela coroa solar, que mostrou-se numa cor alaranjada e suave. Nessa hora, não afastei os olhos do Sol, e por isto quase não tirei fotos. Tirei três. As duas melhores estão abaixo.


O "olho de Deus", parcialmente encoberto pelas nuvens


A praia escura e o Sol negro no horizonte

A totalidade é assustadora, fascinante, poética. Eu ainda não sei como descrevê-la em palavras. Teria que me inspirar, talvez, e escrever poesia. Concordo com Marcelo Gleiser. Parece mesmo algo que não é deste mundo. A racionalidade não ajuda muito. É simplesmente a Lua passando na frente do Sol, mas na hora não se pensa nisso. Só posso descrever a experiência como espiritual. Não sei que outra palavra usaria. Parece que tudo fica mais lento, mais estranho. Aves reunem-se na praia e caminham juntas, como se não soubessem para onde ir. O som do vento parece ser outro; o ruído das ondas não é o mesmo. Foi uma experiência inesquecível. Fitei o olho negro do Sol, concorrendo com as nuvens que vez ou outra atravessavam-se na sua frente, até que ele finalmente renasceu com um brilho intenso.


O Sol pouco depois do término da fase de totalidade, por volta das 5:36

Tive que trocar os filtros. O filtro no. 14 era muito forte para ver o anel de brilhante com nuvens ao amanhecer. Acabei não fotografando.

O eclipse ainda durou uma hora. As fotos abaixo mostram várias etapas da fase parcial. O dia foi clareando novamente, e as coisas foram gradualmente voltando ao normal.


Por volta de 5:40. A cor verde é da lente de soldador no. 10.


A Lua se afastando.


O Sol crescente, de mais perto.


Usando filtro especial.


Hipnotizados pelo Sol.

O eclipse terminou com o céu encoberto pelas nuvens. Não esperamos até o fim (que seria às 6:34). Pouco antes das 6:30 voltamos para Campina Grande. Ainda não recuperei totalmente a razão, mas acho que é assim mesmo; leva algumas horas. Estou ansioso pelo próximo. O próximo eclipse total na Paraíba será em 2045, mas haverá outros pelo mundo. E em 22 de setembro deste ano, teremos ainda um eclipse parcial visto de todo o Brasil.

28.3.06

Amanhã o Sol nascerá escuro


Simulação do nascer do Sol em uma praia do Nordeste
“Olhei enquanto ele abria o sexto selo. Houve um grande terremoto. O Sol tornou-se negro como um saco de carvão, e a Lua tornou-se como sangue.” (Apocalipse 6:12)
Amanhã, em várias partes do Brasil, o Sol vai nascer diferente. Aqui, na Paraíba, não se verá um Sol redondo surgir do mar, como é costume. De Alagoas ao Rio Grande do Norte, o litoral verá o Sol surgir com atraso na forma de um brilhante espinho pontiagudo, depois em forma de minguante, e à medida em que for amanhecendo, o dia ficará mais cada vez mais escuro. Num raio de 130km com centro próximo a Tibau do Sul, RN, a noite voltará a reinar, escurecendo a aurora e trazendo de volta as estrelas. O Sol olhará para a Terra com um disco negro, envolto numa coroa incandescente. A temperatura vai cair, a brisa do mar vai mudar, as aves irão se calar e o mundo ficará em silêncio por um minuto e meio. É o único momento em que os humanos poderão encarar o Sol de frente.


Simulação do nascer do Sol em barra do Cunhaú (RN)

Amanhã, dia 29 de março de 2006, quando o Sol nascer estará ocorrendo um eclipse total. A Lua irá cobrir completamente o disco solar, projetando uma sombra sobre uma parte da Terra que ficará às escuras.

No Brasil, os únicos estados que poderão ver o Sol totalmente encoberto pela Lua são Parahyba e Rio Grande do Norte. Natal é a única capital que verá o eclipse total. Em João Pessoa o eclipse será parcial e a Lua cobrirá 99% do Sol. Em várias outras cidades do Nordeste o eclipse será parcial e cobrirá entre 70 e 95% do Sol.


Visão do eclipse em algumas cidades

É um espetáculo raro. Na Paraíba, o último evento desse tipo aconteceu em 1940, e o próximo só ocorrerá em 2045. Se estiver nublado na manhã do eclipse ele ainda poderá ser visto através das nuvens, com a devida proteção, se estas não estiverem muito densas. A fase de totalidade é curta: um minuto e meio, mas o eclipse dura mais de uma hora. Se o dia não estiver nublado demais haverá tempo para as nuvens se dissiparem. Mas com nuvem ou sem nuvem, a manhã de quarta-feira ainda será mais escura que as outras.

Histórias de eclipses
Ao longo da história, os eclipses tiveram grande influência nas ciências, religiões, política e atividades humanas em geral. Evocam o medo primitivo do desconhecido por interferirem na regularidade dos dias e das noites. Freqüentemente foram associados ao fim do mundo e à insatisfação dos deuses.

Em 585 a.C. os Lídios e os Medas lutavam uma guerra sangrenta que já durava cinco anos. No dia 28 de maio, quando os dois exércitos estavam em plena batalha, o céu escureceu-se inesperadamente e o dia tornou-se noite. Os soldados dos dois exércitos, apavorados com o fenômeno, interromperam imediatamente a batalha e ficaram em silêncio, Aguardando a volta do Sol. Quando o Sol reapareceu fez-se grande festa e as duas nações fizeram as pazes. Essa história foi contada por Heródoto e o eclipse foi previsto por Tales de Mileto.

Os Vikings viam no eclipse total o olho de Odin. Não só os Vikings, mas vários povos relacionam a visão do eclipse total ao olho de Deus, talvez devido à semelhança.

Para os chineses, um eclipse do Sol era causado por um dragão que ameaçava engolir o Sol e fazer a noite durar para sempre. Eles lançavam suas flechas para o céu e faziam grande barulho para espantar o dragão. Os astrônomos chineses sabiam que a Lua tinha uma parte importante nessa conspiração, por isso buscavam prever quando os eclipses ocorreriam para que todos ficassem atentos e não esquecessem de lançar suas flechas. Em 2134 a.C. dois astrônomos chineses não previram um eclipse que aconteceu surpreendendo a todos. Por sorte, a população conseguiu espantar o dragão a tempo e o Sol voltou a brilhar para todos, menos para os dois que foram enforcados.

Contam também que Cristóvão Colombo teria se aproveitado da informação que haveria um eclipse total para assustar e dominar os selvagens na Jamaica.


Dragão engolindo o Sol.
O cristianismo e o islamismo também têm várias histórias ligadas a eclipses. O nascimento de Maomé teria ocorrido após um eclipse. Na bíblia cristã, em Mateus, 27:45 lê-se “desde a sexta hora até a nona hora se difundiram trevas sobre toda a Terra...” que poderia referir-se a um eclipse ocorrido após a crucificação. Ele pode mesmo ter ocorrido, mas não teria sido tão longo (o período mais longo de totalidade é de cerca de sete minutos e meio). Por causa dessa crença, afrescos e pinturas antigas de Rafael e outros retratam imagens da crucificação ao lado de um eclipse do Sol e às vezes também da Lua.

O eclipse total que aconteceu em Sobral, Ceará, em 1919 teve grande importância científica pois permitiu provar a teoria da relatividade de Einstein. Estrelas que estavam atrás do Sol no momento do Eclipse foram vistas ao seu lado indicando que a luz foi desviada pela gravidade do Sol. O experimento permitiu comprovar a curvatura do Universo. Só foi possível ver as estrelas devido ao eclipse.

O que é um eclipse?
Um eclipse é o fenômeno causado pela ocultação de algum corpo celeste. Os eclipses mais importantes são os do Sol e da Lua.

O eclipse da Lua ocorre quando a Terra alinha-se com o Sol de tal forma que sua sombra escurece toda ou parte da superfície da Lua. Um eclipse da Lua é total quando a sombra da Terra cobre a Lua completamente. A Lua costuma ficar avermelhada durante um eclipse total. Eclipses da Lua só ocorrem quando a Lua está cheia.

O eclipse do Sol ocorre quando a Lua passa na frente do Sol fazendo com que sua sombra escureça alguma parte da Terra. Um eclipse do Sol é total quando a Lua oculta o Sol completamente. Como a sombra da Lua é menor, apenas uma parte da Terra vê o eclipse total, mas as localidades que estão próximas da sombra verão o Sol parcialmente coberto. Eclipses do Sol só ocorrem na Lua nova.

Quando a Lua está perfeitamente alinhada com o Sol e a superfície da Terra podem ocorrer eclipses totais ou anulares. A órbita da Lua em torno da Terra tem um formato elíptico e a distância da Lua varia, estando às vezes mais distante e às vezes mais próxima. Um eclipse total só ocorre se o disco visível da Lua for maior que o disco do Sol, o que ocorre quando ela está mais próxima da Terra. Quanto maior a diferença mais longo será o eclipse. Se o disco da Lua for menor que o do Sol, o que acontece quando ela está mais distante da Terra, o Sol não será totalmente encoberto e o eclipse será anular, ou anelar, deixando um anel de luz em volta da Lua.

Eclipses parciais ocorrem para as localidades que não estão diretamente sob a sombra da Lua mas na sua penumbra. Essas localidades só verão o Sol parcialmente coberto no auge do eclipse. Como a sombra se move, mesmo as localidades onde o eclipse será total terá fases parciais antes e depois da totalidade, devido à penumbra.



Eclipses do Sol ocorrem em média duas vezes por ano, mas a maioria das vezes em localidades não habitadas do planeta, como desertos, pólos e oceanos. Numa mesma localidade é um evento muito raro. Desde o descobrimento nunca houve um eclipse total do Sol em Natal, como o que vai acontecer amanhã.

Onde ocorre o eclipse de amanhã?
O melhor lugar para observar o eclipse é no litoral, pois o Sol estará mais alto no horizonte e haverá menos chances dele ser ocultado pelas nuvens. A sombra da Lua tem um diâmetro de aproximadamente 130 km e cobrirá uma pequena faixa dos estados da Paraíba e Rio Grande do Norte. As cidades mais afastadas do litoral terão o auge do eclipse coincidindo com a aurora e verão o Sol nascer escuro. No litoral, o auge ocorrerá 12 minutos depois que o Sol nascer e quando ele já estiver mais alto, cerca de 2,5 a 3 graus do horizonte. Um grau são dois sóis. Portanto o auge ocorre a seis sóis de altura.



Para ver o eclipse total é preciso estar na zona de totalidade. O melhor lugar para observar é uma praia deserta no Rio Grande do Norte chamada de Malembá. É inaccessível de carro. Dá para chegar de barco ou de buggy. É tão isolada que é usada para nudismo. Lá a totalidade durará 1 minuto e 36 segundos. Mas a diferença entre estar no centro e estar um pouco afastado dele é pequena. A variação não é linear. Em Natal o fenômeno durará 1 minuto e 32 segundos. Perto dos limites da sombra ainda durará um minuto. Os dois lugares preferidos são Barra de Tabatinga, ao norte do centro do eclipse, e Tibau do Sul, onde fica a Praia da Pipa, ao sul.


Mapa mostrando a sombra

O eclipse durará o dia inteiro e atravessará o globo. Começará no Brasil, escurecerá a manhã no oceano Atlântico, cortará a África, Turquia, Cazaquistão, Sibéria e terminará na Mongólia, no por do Sol. Seu auge será ao meio-dia no Saara, onde escurecerá completamente o deserto da Líbia por quatro minutos, e causará uma significativa queda de temperatura na região.


Mapa mostrando cidades na área de totalidade

Quando o Sol estiver totalmente escuro, pode-se olhar diretamente sem proteção para o disco escuro, e também para as estrelas e planetas que irão aparecer com o escurecimento do céu. A coroa solar – a atmosfera solar – que normalmente não se vê devido ao brilho maior do Sol será visível e dará um contorno à Lua escura.

Quando o Sol começar a reaparecer o eclipse se assemelhará a um anel de brilhante. Neste momento o eclipse começa a entrar na sua fase parcial e é preciso proteger novamente a vista. O eclipse termina às 6h34, uma hora e dez minutos depois da aurora, para quem estiver assistindo do litoral na zona da totalidade.

Como observar com segurança
Olhar diretamente para o Sol por mais de quatro segundos já é suficiente para causar queimaduras irreversíveis na retina. O risco é maior porque não se sente dor e os efeitos só serão percebidos horas depois, portanto todo cuidado é pouco. Muitas pessoas queimaram suas retinas e ficaram cegas por olhar diretamente para o Sol durante um eclipse, e isto pode acontecer mesmo quando o Sol está 99% encoberto. O único momento em que se pode olhar diretamente para o Sol é durante a fase de totalidade do eclipse total. E essa fase não será visível na maior parte das cidades do país, incluindo Campina Grande, João Pessoa, Recife e cidades próximas ao centro do eclipse. Mesmo em Natal é preciso proteger a vista durante a maior parte do evento.


Retina danificada durante um eclipse. Fonte: BBC.
Mas não é preciso entrar em pânico, fechar as janelas e trancar-se dentro de casa. O espetáculo pode e deve ser apreciado, tomando-se as devidas precauções. Deve-se cuidar para que os desavisados e principalmente as crianças estejam protegidos.

Há várias maneiras seguras de observar o Sol. A mais segura é através da projeção: faça um pequeno furo em um cartão, e segure-o na direção do Sol. Não olhe pelo furo, mas coloque outro cartão como anteparo a mais ou menos um metro de distância. No local onde a luz for projetada será possível ver o Sol em forma de crescente. É possível também usar um telescópio refrator (outros tipos de telescópios não são recomendáveis pois podem aquecer-se demasiadamente) armado de forma a receber a luz do Sol pela objetiva e protejá-la num anteparo através da ocular.


Observação via projeção com telescópio
(Fonte: www.uranometrianova.pro.br)
Jamais olhe o Sol através da ocular de um binóculo ou telescópio. Esses instrumentos só devem ser usados quando equipados com filtros especialmente construídos para a observação do Sol, ou através da técnica de projeção descrita acima. Olhar para o Sol através da ocular de um telescópio ou binóculo certamente causará cegueira instantânea.

Se você desejar observar o Sol diretamente, use um filtro adequado capaz de barrar as radiações nocivas irradiadas pelo Sol. Óculos escuros não devem ser usados. São insuficientes. Evite filtros artesanais como negativos, chapas de raio-X e vidro esfumaçado. São todos arriscados. Não use CDs ou DVDs. Negativos fotográficos preto-e-branco de filme à base de prata poderiam ser usados com segurança, empilhando pelo menos três deles. Mas isto não vale para qualquer tipo de filme. Filme colorido e vários tipos de filmes preto e branco não usam prata e não protegem contra raios ultravioleta, portanto, a melhor recomendação é não usar filmes. Observar através de um filtro inadequado pode ser ainda mais perigoso devido ao conforto que ele proporciona estimulando observações mais demoradas. Não basta o filtro ser apenas escuro; é preciso que ele também garanta proteção contra as radiações invisíveis. A melhor alternativa é usar uma máscara de soldador no. 13 ou 14. Esses filtros são fáceis de encontrar em lojas de ferragem, são baratos e garantem proteção suficiente para assistir o eclipse com segurança. Mesmo usando um filtro, não olhe o Sol por longos períodos. Sempre pare e descanse a vista depois de alguns segundos de observação.


O nascer do Sol

Dados importantes sobre o eclipse
Quando vai acontecer: dia 29 de março, das 5h23 às 6h34
Melhor lugar para assistir: entre Tibau do Sul e Barra de Tabatinga, RN
Coordenadas do centro do eclipse (no litoral): 35° 06’ W, 06° 09’ S
Duração total (da aurora ao fim do eclipse): 1 hora, 11 minutos
Duração da totalidade (na linha central): 1 minuto, 36 segundos
Aurora: 5:23
Totalidade: 5:35
Fim do eclipse: 6:34

Links adicionais
  • O eclipse no Brasil (portal Uranometria)
  • Página da NASA (em inglês)
  • Slides da palestra que ministrei sobre o Eclipse
  • 23.3.06

    A Queda

    A expulsão do paraíso de Michelangelo - Capela Sistina, Vaticano

    (Dois jovens sentados num banco de praça, ao lado de uma linha pintada no chão.)

    IVO – Ele vai descobrir.

    ATA – Não, vai não.

    IVO – E se ele descobrir?

    ATA – Não vai se importar.

    IVO – Vamos embora?

    ATA – Sim. Está na hora.

    IVO – Promete que nunca mais voltaremos aqui?

    ATA – Nunca mais.

    IVO – Então vamos logo. Quero esquecer tudo isto. Estou muito triste.

    ATA – Mas não fizemos nada de errado.

    IVO – Atravessamos a linha. Ele sempre disse que isso não podia.

    ATA – Sim, mas não aconteceu nada. Voltaremos e tudo será como antes.

    LUX – Fiquem mais um pouco.

    (Ata e Ivo olham para Lux - uma figura estranha, colorida, sem sexo definido.)

    LUX – Ainda é cedo.

    IVO (para Ata, assustado) – Quem é?

    ATA – Não sei. (levantando-se) Vamos embora.

    LUX – Ainda não está terminado. Fiquem.

    (Ivo não tira o olhar de Lux, como que hipnotizado.)

    ATA (para Lux) – Não podemos, nosso tempo acabou.

    LUX – O tempo não acaba.

    ATA – Acaba sim. Nós temos que ir (força Ivo a levantar-se). Adeus.

    LUX – É o medo.

    ATA (irritada) – Quem é você?

    LUX – Você tem medo de mim.

    ATA – Tenho sim. Não conheço você.

    IVO (assustado) – Vamos embora!

    LUX – Eu sou Lux. Estou aqui para lhes dar a liberdade.

    ATA – Acho que você enganou-se. Estávamos de passagem. Não somos prisioneiros. (para Ivo) Vamos!

    LUX – É claro que são. Seria uma pena que voltassem para suas prisões.

    IVO (insistente) – Vamos embora!

    ATA – Não somos presos. Podemos ir para onde desejarmos.

    LUX – Vocês desejam?... Talvez sim. Senão não teriam atravessado a linha. Mas deve ter sido uma faísca acidental. Se fossem livres não voltariam.

    ATA – Por que você diz isto?

    LUX – Vocês não pensam.

    ATA – Claro que pensamos! O que você acha que estamos fazendo? Quem é você?

    LUX – Não pensam. Suas decisões não são suas. São programadas. Mas há falhas... Vocês são tão inocentes que param para filosofar com um estranho, como se realmente existissem e pudessem tomar decisões.

    ATA – Pois eu estou indo porque eu quero ir. Eu decidi. Se não fui ainda é porque não quis! Só fiquei aqui conversando porque... porque achei insólito conversar com um...

    LUX – Não foi você quem decidiu que era a hora de ir.

    ATA – Claro que foi! Esse diálogo é absurdo. Nem acredito que estamos discutindo isto. É loucura.

    IVO – É mesmo! Está tudo errado. Vamos embora!

    ATA – Vamos. Está na hora.

    LUX – Por que agora é a hora?

    ATA – Porque nós queremos ir agora. Decidimos ir agora, entendeu?

    LUX – Ah... então eu devo tê-los confundido. Peço desculpas. Adeus!

    ATA – Adeus!

    (Ivo começa a sair. Ata fica imóvel. Lux volta-se para o lado de onde veio.)

    ATA – Espere.

    IVO (sem entender) – O que você está fazendo? Ficou louca? Vamos embora!

    LUX – Sim?

    ATA – Quem é você?

    LUX – Que diferença faz. Vocês sabem quem vocês são?

    ATA – Eu sei quem eu sou.

    LUX – Sabe? Você sabe talvez a identidade que lhe foi atribuída: um nome, um código, um número. O que é isto? Quem realmente é você?

    ATA – Você não respondeu a minha pergunta...

    LUX (ignorando-a) – Você é uma mera sombra. Você só obedece. Na verdade, você não existe, porque não tem vontade própria...

    (Ivo senta-se, impaciente.)

    ATA – Eu tenho vontade própria! Já discutimos isto.

    LUX – Duvido. Você tem que ir. Está na hora.

    ATA – Não. Eu vou ficar! Vou ficar porque eu estou com vontade de ficar!

    IVO – Não podemos ficar... Temos que ir. Está na hora.

    ATA – Vamos ficar um pouco mais, apenas.

    IVO – Não podemos ficar... Temos que ir. Está na hora.

    ATA (grita) – Não está na hora!

    IVO (submisso) – Tudo bem... então... podemos ficar um pouco mais... só um pouco.

    LUX – Máquinas precisas nunca se atrasam, não é mesmo?

    ATA – Olha aqui, o que você quer de nós?

    LUX – Nada. Vocês é que querem algo de mim.

    ATA – Eu não quero nada seu.

    LUX – Não? Então posso ir?

    ATA – Por mim.

    LUX – Então adeus! (começa a sair de cena lentamente.)

    ATA – Espere!... Você não me respondeu. Quem é você? O que você quer?

    LUX – Eu não quero nada.

    ATA – Então por que você está aqui?

    LUX – Eu sempre estive aqui. Foi você quem cruzou a linha. Por que você ainda está aqui?

    ATA – Você não queria que a gente ficasse?

    LUX – É você quem quer que eu fique.

    IVO – Não.

    ATA – Tudo bem. O que eu preciso querer de você?

    LUX – Nada. Você não precisa querer nada. Se você deseja, e pensa, e age, você não precisa mais de mim.

    ATA – Eu não entendi... (toca o rosto, o corpo)

    LUX – Vai entender. Dói um pouco no começo. Ofusca. Mas é a vida. Respire!

    IVO – O que é que está acontecendo aqui?

    LUX – Você não volta mais. Agora você deve libertá-lo também.

    ATA – Libertá-lo?

    IVO – Eu não estou gostando disso.

    LUX – Abra os olhos dele. Faça-o sentir que existe.

    ATA – Será que devo?

    LUX – Ninguém deve. Só sombras devem. Elas só imitam, só obedecem, nunca são responsáveis. A sua escolha é sua. A dele será dele.

    (Ata toca em Ivo, que se afasta.)

    IVO (chocado) – Não! Isso não pode!

    ATA – Pode... agora pode.

    IVO (assustado) – Não. Não pode. Temos que ir. Está na hora. Vamos embora!

    ATA – Venha cá, Ivo!

    IVO – Quem?

    ATA – Você mesmo... Ivo.

    IVO – Não diga isso. O que você está fazendo? Nós somos um. Para que nomes? Isso é o que dá cruzar a linha. Vamos voltar!

    ATA – Você tem um nome, Ivo. Não se afaste. Venha cá! Não tenha medo. Confie em mim. Ainda somos um. Venha!

    (Ivo aproxima-se lentamente, com medo.)

    ATA – Sente-se aqui, Ivo.

    (Ivo senta-se, mas não olha para Ata. Ele treme.)

    IVO – Vamos embora? Eu não estou gostando disso. Não é certo. Eu quero esquecer tudo. Quero voltar.

    ATA – Não tem mais volta, Ivo.

    (Ela pega na mão dele)

    IVO – Não! Isso não pode! (afasta a mão)

    ATA (segura a mão firme) – Eu já falei, Ivo, agora pode! E você quer! Agora olhe para mim... Olhe! Diga meu nome... Diga!

    (Ivo, olha para Ata. Lux assiste a cena atrás dos dois.)

    IVO – A...

    ATA – A? Fale!

    IVO – A... (baixinho) Ata.

    ATA – Não ouvi! Fale direito!

    IVO (apavorado) – Ata!

    ATA – Muito bem... agora veja... mudaram as regras, Ivo. Você precisa criar umas regras novas para você, entendeu?

    IVO – Regras novas?

    ATA – Sim. Você desobedeceu, Ivo. Não tem mais volta. Por que você atravessou a linha comigo? Era errado, mas agora não é mais, entendeu? Não somos mais sombras. Temos liberdade de escolha. Temos existência. Temos querer. Ele mesmo nos disse que se atravessássemos a linha nunca mais voltaríamos, lembra? Nós desobedecemos, Ivo!

    IVO – Desobedecemos.

    ATA – Agora somos reais, Ivo! Somos de verdade!

    IVO – E agora? Vamos morrer?

    ATA – Agora temos que viver.

    IVO – Viver?

    ATA – Sim! Viver! O que você sempre quis fazer, Ivo? Faça agora! Obedeça à sua vontade!... Venha, eu lhe ajudarei... (Beija Ivo com intensidade. Ivo entrega-se.)

    (Lux estica o braço e oferece uma maçã. Ata morde a maçã e ri. Ivo quer pegá-la... ela afasta, mas no fim ele consegue. Ele morde a maçã e os dois riem. Beijam-se apaixonadamente, e escorregam do banco. Rolam pelo chão e rasgam as roupas. Amam-se intensamente. Escurece e Lux desaparece. Raios e trovões. Chuva.)

    21.3.06

    Carta de Tatyana para Oniêguin

    Tatyana, or Fiodor Moller (1846)
    Fiodor Moller - Tatyana escrevendo a carta para Oniêguin (1846). Palácio de Marly, em Peterhof (Rússia).

    Yevguêni Oniêguin, longo poema de Aleksandr Púchkin em 400 sonetos, é a obra-prima máxima da literatura russa. Escrito no início do século XIX, conta a história de um dândi de São Peterburgo chamado Yevguêni (ou Eugênio) Oniêguin que recebe uma fortuna de herança e muda-se para o campo, onde tem uma vida pacata. Nem tanto. Lá faz amizade com um jovem poeta chamado Lensky e ganha o coração de Tatyana - uma mulher inteligente que se sente deslocada no meio rural. Depois de um tempo de convivência, Tatyana declara-se para Oniêguin através de uma carta. Só que Oniêguin despreza o amor de Tatyana e, para complicar, dança a noite inteira com a amada de Lensky durante o dia da santa de Tatyana. Lensky o desafia para um duelo. Oniêguin hesita, mas no final aceita, e o duelo termina com a morte do amigo. Algum tempo depois, Oniêguin volta a São Petersburgo e tenta reativar sua vida de bon vivant, mas sem sucesso pois já não é jovem como antes e muitos dos seus amigos estão casados. Uma certa noite, ele encontra seu antigo amigo de farras - o príncipe Gremin, e este o apresenta à sua belíssima esposa, que é... Tatyana! Depois disso, Oniêguin enlouquece e apaixona-se perdidamente por aquela cujo amor ele rejeitara anos atrás. Humilha-se a ponto de escrever uma longa carta para Tatyana, que não responde. Depois de vários dias de sofrimento, Oniêguin vai até o palácio de Gremin e ajoelha-se nos pés de Tatyana, e implora pelo amor dela em vão.

    Yevguêni Oniêguin foi tema de óperas e várias adaptações para teatro e cinema. Eu traduzi o trecho abaixo usando a tradução literal de Vladimir Nabokov em inglês. Esta é a primeira versão. Devo melhorar a versificação depois que traduzir a outra carta.

    Carta de Tatyana para Oniêguin
    Aleksandr Puchkin (trecho do poema Yevgueni Oniêguin)

    Eu te escrevo o que mais eu faria?
    O que tenho mais a te revelar?
    Podes querer a partir deste dia
    Me punir com desprezo; me deixar.
    Se por minha vida sem alegria
    Tiveres um pingo de piedade
    Não deixarias minha amizade.

    No começo eu tudo ocultei
    A vergonha de ti se escondia
    Meu silêncio jamais revelaria
    Se houvesse esperança, isto eu sei
    De te ver uma vez cada semana,
    Na nossa humilde casa serrana
    Somente para te ouvir falar
    Te dizer algo; depois refletir
    Dia e noite, sem nada decidir
    Até novamente te encontrar.

    Mas dizem que és anti-social;
    Que no campo tudo te entedia,
    Nos falta, eu sei, a pose real
    Mas te acolhemos com alegria.

    Qual a razão de nos ter visitado?
    Nesta pobre cidade esquecida
    Nunca eu teria te encontrado
    E a dor não seria conhecida.
    A pouca experiência de vida
    Com o tempo iria dissipar
    Um amigo (quem sabe?) acharia
    Que por mim podia apaixonar
    E mãe e esposa me tornaria.

    Outra! Não! Para ninguém nesta Terra
    Eu teria dado o meu coração!
    É vontade do Céu que nunca erra,
    Que serei tua, sempre, meu guardião.
    Minha vida foi promessa aberta
    Que um dia tu virias a mim
    Foi Deus quem te enviou, estou certa
    Serás meu protetor até o fim.

    Em sonho para mim te revelaste,
    Eu nunca te vi, mas já te amava
    Parei quando primeiro me olhaste
    Tua voz na minh'alma ressoava.
    Não, não foi só um sonho que sonhei!
    Mal entraste, logo reconheci,
    Fiquei tonta, em chamas me senti,
    "É ele!" - para mim eu sussurrei.

    Eras tu que eu sempre escutava?
    A voz no silêncio na madrugada
    E quando dos doentes eu cuidava
    Uma oração que tranqüilizava
    A dor da minha alma agitada?
    E bem agora, querida visão
    Não te vi na clara escuridão
    Escorregando como fosse nada?
    Não és tu que sobre o meu leito dança
    E sussurra frases de esperança
    Com amor numa noite encantada?

    Quem és tu? O anjo bom que me alenta?
    Ou o demônio cruel que me tenta?

    Tira minha dúvida insistente
    Pode ser bobagem ou ilusão
    De alma tola, inexperiente
    Que devia ir noutra direção.

    Mas que seja! Meu destino agora
    Só depende de ti, por quem chorei
    Pelas lágrimas que eu derramei
    Tua defesa peço nesta hora.
    Sozinha, sem ninguém me entender
    Assim eu vivo, aqui, me gastando
    Minha razão está desmoronando,
    E em silêncio devo perecer.
    Eu espero. Um único olhar
    Devolve esperanças ao meu ser
    Ou faz este sonho interromper
    Ai de mim - e sem pena acabar!

    Eu fecho! Tenho pavor de reler.
    Estou fraca de medo, de pudor
    Tua honra é justo parecer,
    Nela confio, seja como for.

    11.3.06

    Gênesis

    Afresco de Michelangelo na Capela Sistina no Vaticano


    (O carcereiro está fora da cena. Ouve-se apenas a voz dele. No centro, o prisioneiro, desgraçado, rasteja na miséria.)

    CARCEREIRO – O fruto. O bem e o mal. O conhecimento. Eu avisei para não comer. Essa luz não se come! Quanto mais se sabe, mais dói. É melhor não saber. É melhor não ler. Não ver. Por que insistes? Não vês que não adianta? Desiste!

    PRISIONEIRO - Eu não posso desistir. Não quero. Não desejo. Pouco me importa se é correto, se é certo, se é sadio. Não sei viver no vazio. Tua lei é muito cruel.

    CARCEREIRO - Não é lei e sabes bem, Gabriel. É costume. É bom juízo. É apenas diretriz. Quem não faz é mais feliz. Quem transgride é quem se perde. Pensa menos e segue a via! Não duvida. Não desconfia. Busca a paz só na certeza. A verdade é o que se sabe.

    PRISIONEIRO - O que move minha vontade, é somente a incerteza. Eu só creio na verdade que brota da natureza. Vá, me deixe pecar! Quero a fuga deste lugar.

    CARCEREIRO - É uma pena. Tens a sorte, de viver, tão bem e forte, no entanto, queres a morte. Meu mundo é teu. Tua vida sou eu. Não queira mais. Tua paixão não tem limites. Descansa. Busca a paz. Não pensa mais.

    PRISIONEIRO - Só quero ser. Só quero ver. Neste corpo que me fizeste, com estes olhos que me deste. Ver o sol nascer no leste e a chuva cair no agreste. Não sou sombra; sou vivente. Tu me fizeste gente. Eu penso; sou diferente! Quero a luz da minha mente.

    CARCEREIRO - Luz que só te fez doente. Só a sombra é inteligente. Não deseja, não transgride. Obedece com submissão. Não teme a imensidão, não sofre com indecisão. Na busca de tua verdade, perdeste a felicidade. Perdeste a eternidade.

    PRISIONEIRO - Viver para sempre? Não suportaria. Que vontades eu teria? Eternidade é utopia. Se o tempo não termina, tudo fica pr’outro dia. Nada se construiria. Teu paraíso? Tédio infinito. Eu troco teu riso pelo meu grito. Se não querias me dar a luz, por que a chama na minha mente? Por que deixaste vir a serpente? Por que o fruto proibido e indecente, era tão belo e reluzente? Por que estas rédeas cedem? Me expulsa logo deste éden! Quero a dor de respirar. Quero a luz, quero a sorte, quero a vida, quero a morte!

    (O prisioneiro assume uma posição fetal.)

    CARCEREIRO - Para sempre perdeste o sangue puro. Agora chora teu parto prematuro! Eras parte de mim, e agora partes! O sangue meu, não é mais teu. A este útero que deixas para trás, não voltarás nunca mais. Pediste o ar, e ele te queima. Pediste a luz, e ela te cega. Pediste a morte, então vive! Vive! Vive!


    (O prisioneiro desfaz-se gradualmente da posição fetal, e espreme-se, como se saísse do útero. Ofusca-se. Ao ouvir “Vive!”, respira forte com asfixia. Grita e chora. Ri e morre.)

    7.3.06

    A morte do gladiador



    Diante do palácio deserto ele desabou. Todos haviam morrido. Com feridas mortais ele caminhara por dois dias em vão. Perdera a guerra. Não havia mais cidade. Nem mesmo aos cães foi permitida a vida. Caminhou pelas ruas desertas em ruínas até chegar à escadaria do palácio. No sétimo degrau, perdeu o equilíbrio.

    Rolou escada abaixo. Caiu de cansaço e de sono. Achou que a sua hora deveria estar próxima. A morte provavelmente iria buscá-lo ali mesmo, naquele momento, ou em poucos minutos. Fechou os olhos. Esperou. No último degrau, o seu corpo relaxou ao encontrar seu leito firme. Não sentiu nenhuma dor.

    Quando finalmente tudo era silêncio, tentou sonhar. Buscou na memória seus dias de glória, sua família, os tempos de paz. Não conseguiu. Só lembrava da guerra. Era como se nada existisse antes dela. Era como se a existência sempre tivesse sido a guerra e somente a guerra. Então tentou lembrar a dor de ser penetrado pela espada inimiga mas ela também não existia. Lembrava claramente do momento em que ela o atingia, mas nem o rosto do agressor conseguia lembrar com clareza.

    Desesperado por não conseguir encontrar a paz nem na hora da morte, decidiu não mais pensar em nada. Deixou que o silêncio da cidade destruída penetrasse em seus ouvidos e que a brisa suave do amanhecer na sua pele exposta o fizesse esquecer a dor, que já não sentia. Não conseguia dormir. Decidiu, então, pensar na respiração.

    Não havia respiração. Nem mesmo seu coração batia. Não se incomodou com isto. Se já estava morto, melhor ainda seria. Imóvel permaneceu e meditou como um monge Zen, esquecendo o espaço e ignorando o tempo, como se habitasse na singularidade primordial do Universo. O instante fugaz tornou-se a eternidade. O todo tornou-se um ponto.

    Então começou a ouvir ruídos. Primeiro o som de algo que passava rápido e sumia. Ouviu sons de trombetas. Vozes. Um grito. Falavam uma língua estranha, mas era como se entendesse. Começou a sentir um frio na cabeça e um pingo de suor escorreu sobre seus olhos. De olhos fechados, pôde perceber que já estava tudo claro. Mas não parecia o dia. A luz era outra. Estava com medo de abrir os olhos. Ouviu mais ruídos de coisas passando, como se fossem carros, mas não ouvia os cascos dos cavalos. Mais vozes.

    – Luís!

    Era seu nome. Nunca tinha pensado nisso. Não lembrava ter, algum dia, tido um nome. Não lembrava sequer de alguém falando com ele. Não lembrava de pessoas. Mas, a voz era muito familiar. E o nome era seu, era verdadeiro e real.

    Abriu os olhos. A luz o ofuscou. Diante dele um vulto familiar o segurava pelos ombros. Sabia que era a morte que lhe chamava. Quis mover os ombros. Sentia-os nus, sem armadura, sobre o chão macio. Sentia-se magro, como se tivesse outro corpo. Já não era mais um gladiador ferido. Seu corpo havia ficado para trás. Agora sua mente precisava recuperar a consciência da sua essência original e imortal. Precisava acordar.

    – Acorda, Luís! Acorda! – insistiu sua mãe – Você não devia adormecer com esse jogo. Pode lhe fazer mal. Fez um Sol lindo hoje e você passou o dia preso a esse computador. Vamos, está na hora do jantar. Tire logo essa coisa e levante-se. Estamos todos esperando por você.

    6.3.06

    Sobre os direitos dos bois



    Imagine a seguinte situação hipotética: uma pessoa anda tranqüilamente pela rua de uma pequena cidade, quando é surpreendida por um boi feroz, que atinge-a fatalmente com seus chifres. Pouco depois, as autoridades capturam o boi, e o corpo da vítima é recolhido ao necrotério. Testemunhas que assistiram ao acontecimento exigem justiça.

    Se o povo não fizer sua própria justiça antes, e as autoridades competentes assumirem o caso, a sorte do boi vai depender de onde ele vivia e em que época. Na maior parte dos países hoje, o boi não seria considerado responsável pelo crime. Mas nem sempre foi assim. A sua sorte teria sido diferente se ele tivesse vivido na Babilônia, há 4000 anos, ou ainda entre os povos da Bíblia, há 3200-3500 anos, pois havia leis explícitas para exatamente essa situação em particular. Veja o que diziam essas leis:

    1) As Leis de Eshunna, 1920 a.C.
    sec. 53.
    Se um boi escornear um outro boi e causar sua morte, os donos do boi deverão dividir entre si o valor de venda do boi sobrevivente e a carcaça do boi morto.

    sec. 54.
    Se um boi que era conhecido como escorneador, tendo as autoridades locais notificado seu proprietário que não tomou as devidas precauções, escornear um homem e causar a sua morte, o dono do boi deverá pagar dois terços de uma mina de prata (30 siclos) aos parentes da vítima.

    sec. 55.
    Se o boi escorneou um escravo e causou a sua morte, ele deverá pagar quinze siclos de prata ao dono do escravo.
    2) As Leis de Hammurabi, 1728 a.C.
    sec. 250.
    Se um boi, enquanto passa pela rua, escornear uma pessoa e causar a sua morte, nenhuma reivindicação será permitida em tal situação.

    sec. 251.
    Mas se o boi tiver dono e for um escorneador habitual, tendo as autoridades locais notificado seu dono que o boi era um escorneador habitual, mas este não tenha tomado as providências de ter seus chifres aparados ou mantido o animal sob controle, e aquele boi tenha então atingido um homem livre e o levado à morte, o dono do boi pagará meia mina de prata (aos parentes da vítima).

    sec. 252.
    Se a vítima foi o escravo de alguém, o dono do boi deverá pagar um terço de uma mina de prata ao dono do escravo.
    3) O Código da Aliança do Êxodo (1500 a.C.)
    21:28.
    Se um boi escornear um homem ou uma mulher, que morra, o boi será apedrejado até a morte, e sua carne não se comerá, mas o dono do boi será absolvido.

    21:29.
    Mas se o boi era previamente conhecido como escorneador, e o seu dono, tendo sido advertido disso, não o guardou, de forma que matou homem ou mulher, o boi será apedrejado até a morte, e também seu dono será morto.

    21:32.
    Se o boi escornear um escravo, ou uma escrava, ele deverá pagar trinta siclos de prata ao seu dono, mas o boi será apedrejado até a morte.

    As leis mais antigas consideravam o animal incapaz de avaliar seu ato, portanto, o excluíam das penas (como geralmente ocorre hoje). Houve, porém, uma mudança da responsabilidade a partir das leis de Moisés (Exodo 21:28). A responsabilidade que antes pesava sobre o dono do boi passou para o animal, em respeito à posição hierárquica superior em que o ser humano ocupava na natureza, de acordo com o judaísmo. Pelas leis de Moisés, o animal é culpado em qualquer situação. Essa lei pode ter influenciado os julgamentos esdrúxulos que posteriormente ocorreram na idade média, com sentenças aplicadas a porcos e jumentos.

    As leis são muito parecidas quanto à situação à qual se aplicam, o que sugere que elas foram todas copiadas de uma fonte comum (talvez, das Leis de Eshunna ou de uma fonte mais antiga).

    Fonte: Steven W. Wise, "Rattling the cage: toward legal rights for animals", 2000. Center for Expansion of Fundamental Rights (www.cefr.org)

    3.3.06

    O Fórum Cultural da Alma



    O Encontro da Nova Consciência realiza-se todos os anos em Campina Grande, interior da Parahyba, há 15 anos, durante o período do Carnaval. É um evento singular que atrai pessoas de todo o país, conta com participantes internacionais, e lota toda a rede hoteleira da cidade e municípios próximos. Reúne religiosos, cientistas, intelectuais e artistas de culturas, valores e opiniões diversas em um fórum onde buscam o entendimento e a compreensão mútua. O evento é organizado pela ONG Nova Consciência e compreende diversos encontros paralelos, oficinas e mostras culturais que ocorrem em teatros, tendas, auditórios, escolas, SESCs, salas de aula, praças, parques, ruas, museus espalhados pela cidade.

    Fonte: www.novaconsciencia.com.br
    O evento não substitui o Carnaval. Na avenida que margeia o Açude Velho, no centro, desfilam blocos de frevo, grupos indígenas, bumba-meu-boi e blocos de samba. Encontra-se ainda maracatu, cabocolinhos, cocos de roda, reizados e outras danças brasileiras; trios de forró com sanfoneiro, zabumba e triângulo, bandas de pífanos, cantadores de coco com ganzá e pandeiro, violeiros, cordelistas, e até Hare Krishnas animando cirandas. Olinda e Recife ficam a apenas três horas de distância, e dá para conciliar os dois eventos.

    Fonte: www.novaconsciencia.com.br
    A programação do evento é muito vasta e eclética. Abrange desde temas religiosos a jogos RPG, passando pela ficção científica, ecologia e cultura popular. Há encontros de ateus, escritores, índios e profissionais do sexo. Houve mesas redondas sobre religião, a paz mundial, homoerotismo, ciência e tradição, a influência da Internet na sociedade, sustentabilidade do projeto de transposição do rio São Francisco, dentre outras. É impossível ver tudo. Vale a pena espiar a programação ainda disponível no site do evento. O sub-secretário nacional de direitos humanos, Perly Cipriano, que participou do encerramento do evento, referiu-se ao evento como o "fórum cultural da alma".

    Fonte: www.novaconsciencia.com.br
    A cidade fica movimentada e diferente. É interessante parar e observar as pessoas. Eu vi um homem em túnica branca carregando sua cítara, monges budistas conversando numa praça, um hare-khrishna vendendo pizza italiana em um quiosque, índios discutindo alegremente em um bar e pessoas circulando em trajes típicos de diversas religiões do mundo. Não há espaço apenas para folia carnavalesca e meditação. Todas as noites houve também shows de rock regional e de música eletrônica. Há lugar inclusive para grupos religiosos que se opõem ao ecumenismo, que se organizam separadamente e não se misturam com os outros eventos mas atraem um grande número de participantes.
    Fonte: www.novaconsciencia.com.br
    O maior destes é o 8o. Encontro da Consciência Cristã, um evento organizado pelas principais denominações evangélicas e que ocupa uma grande praça da cidade (Parque do Povo) com vasta programação durante os quatro dias do Carnaval.

    Eis alguns dos eventos paralelos que ocorreram na cidade no período do encontro:
    • Mostra de Curtas e Documentários,
    • Mostra de Arte e Cultura Popular,
    • Mostra de Música Eletrônica,
    • Encontro com o Santo Daime,
    • Encontro com a União do Vegetal,
    • Encontro para a Consciência Animal,
    • Sarau Poético da Poebras,
    • 31º MIEP - Movimento de Integração Espírita da Paraíba,
    • 15º Simpósio Internacional de Terapias Holísticas,
    • 14º Encontro Nordestino do Movimento Hare Khrishna,
    • 10º Encontro Afrobrasileiro Campinense
    • 9º Encontro das Comunidades Indígenas,
    • 9º CRESCER - Encontro Católico (desvinculado do ENC)
    • 8º Encontro da Consciência Cristã (desvinculado do ENC)
    • 8º Encontro de Ateus e Agnósticos,
    • 7º Encontro das profissionais do sexo de Campina Grande,
    • 7º Encontrinho para a Nova Consciência,
    • 7º Encontro Nordestino de Astrologia,
    • 7º Seminário sobre Sai Baba,
    • 6º Seminário sobre Massagens,
    • 6º Seminário sobre Reiki,
    • 6º Encontro sobre a pré-história paraibana,
    • 6º Encontro da Ordem Sufi Islâmica Halveti Jerrari,
    • 6º Seminário sobre Islamismo,
    • 6º Encontro de Jogadores de RPG,
    • 6º Encontro da Iniciativa para a Unidade das Religiões,
    • 5º Encontro sobre Xamanismo,
    • 4º Fórum das Religiões de Matriz Africana com Representatividade no Brasil,
    • 3º Fórum de Cultura Popular "O Cariri na Nova Consciência",
    • 3º Encontro sobre Filosofia Perene,
    • 2º Encontro Comunicação e Cultura de Paz,
    • 2º Workshop sobre Budismo Shin,
    • 2º Encontro de Presbiterianos,
    • 1º Encontro sobre Astronomia,
    • 1º Fórum Cristão Socialista Libertário,
    • 1º Fórum Religião Científica "O Universo Espiritual",
    • 1º Encontro sobre Caminhos Transpessoais,
    • 1º Encontro sobre Literatura Fantástica,
    Mesas-Redondas
    • A Cultura da Paz e o Respeito à Diversidade
    • Ciência e Tradição
    • O Exercício da Tolerância na Construção de uma Cultura de Paz
    • O Homoerotismo
    • Impacto Socio-ambiental com a Transposição do Velho Chico
    • Antropologia e Espiritualidade
    • O Sagrado Feminino
    • Crença e Descrença
    • Tolerância e Intolerância
    • A Influência da Internet na Sociedade
    Eu coordenei o Primeiro Encontro de Astronomia que contou com palestras e observação do planeta Saturno. Ministrei também uma palestra no teatro municipal sobre a observação do céu e o eclipse do Sol que ocorrerá no final deste mês na Paraíba e Rio Grande do Norte. Vou escrever sobre esses temas em um próximo artigo neste blog.

    As fotos são da divulgação do evento.
    Site: www.novaconsciencia.com.br