7.12.06

Succubus



Era uma tarde de chuva, e eu estava sozinho em casa lendo um livro de Umberto Eco (que nunca terminei) quando algo me distraiu. A princípio não vi nada nem ninguém. Veio como apenas uma palavra. Não lembro se foi uma palavra vista, ou ouvida, ou simplesmente pensada.

- Olá!

Acho que depois vieram outras palavras, tanto que não foi possível continuar a leitura. Surgiram imagens, cartas inteiras, lembranças inexistentes, um eclipse do Sol e um ônibus viajando por estradas esburacadas numa madrugada chuvosa. Com tanta informação acho que adormeci e quando acordei já era noite. Ela estava lá, em pé na varanda observando a paisagem. Eu a vi de costas. Tinha cabelos loiros e as costas nuas. Acho que usava um corset e uma saia longa, brancos. O vento movia a saia e os cabelos. Parecia uma miragem. Ela percebeu que eu a observava, e sem se mover me chamou.

- Venha, vamos ver as estrelas!

- As estrelas?

Não lembro se falei ou se pensei, mas ela respondeu mesmo assim.

- Sim. Foi você que me falou delas, lembra?

Não lembrava. Lembrava que já havia falado de estrelas, mas não lembro de ter falado para ela. Eu não lembrava dela. Parecia alguém familiar, mas não lembrava.

- Não fique aí parado. Venha!

A preguiça era imensa, mas eu fui. Lembro quando cheguei na varanda e virei o rosto para olhá-la. Ela me olhou de volta. Era linda. Não consegui desviar o olhar. Não queria desviar. Não queria mais nada. Talvez por ter me ofuscado eu tenha fechado os olhos, mas então ela me abraçou e eu deixei-me encantar. Explorei suas curvas, abracei suas costas, deslizei sobre suas pernas e em algum momento escorregamos. Fizemos amor em queda livre e não lembro como terminou.

Acordei diante do mar. Estava claro. A luz era a luz de luar. A brisa era morna e a areia estava quente. Eu estava nu e ela ainda escorregava sobre minha pele como se fosse parte de mim.

- Hélio.

Ela me chamava de Sol. Não tinha pensado nisto. Mas como ela parecia lunar! Tinha uma luz azul, clara, suave. Me seduzia da forma mais sutil e preenchia todos os horizontes. Me tirou do meu cubículo e me trouxe para este universo vasto e sem limites.

- Hélio!

Mas a luz era pouca. Eu achava pouca. Imenso era o céu, mas a luz era de luar. A luz vinha dela e ela parecia estar em todos os lugares, em todas as estrelas, em todos os reflexos. Por um instante tentei me mexer, e senti sua pele outra vez. Tive uma breve asfixia e quis acordar.

- Hélio.

Me levantei e senti as mãos escorrendo pelas minhas costas. Novamente me senti preso. Olhei para o mar e vi seus olhos, senti o cheiro do mar e ouvi a brisa dizer:

- Hélio.

Isto começou a me incomodar profundamente. Ela estava em todos os lugares, ocupava o universo, e a luz azulada que não me nutria estava sugando minhas energias. Comecei a achar que estava sendo consumido. Tentei de todas as formas acordar mas foi em vão. Esperneei. Tentei gritar.

- Hélio.

- Não! - gritei, e me afastei dela.

Ela me olhou assustada sem entender, e não disse nada. Parecia uma criança. Me olhou de novo com aqueles olhos e parecia querer se aproximar.

- Não! Eu não sou o Sol! Não sou! Não quero! Não sou quem você procura!

Ela apagou-se. A brisa do mar mudou tornando-se vento e nuvens começaram a cobrir as estrelas. Seu olhar agora refletia tristeza. Fiquei com pena. Quase me arrependi do que disse. Ela não falou nada. Apenas me olhou, fechou os olhos, e quando abriu novamente, sorriu. Lágrimas desceram dos dois olhos. Quis abraçá-la naquele momento; achei que talvez estivesse errado, mas as nuvens finalmente cobriram o céu e logo começou a chover forte. Corremos para debaixo da árvore, mas ela não me olhou mais. Encarou o mar e a chuva que caia sobre as ondas. Sem se virar, ela me disse:

- Feche os olhos.

Eu obedeci. Então fez-se silêncio. Acho que adormeci. Quando acordei já eram dez horas da manhã. Estava atrasado e exausto. Não iria chegar a tempo. Peguei um trânsito infernal. Foi um dia péssimo.

8 comentários:

Julio Cesar Corrêa disse...

Vim através do Bia e encontrei literatura da boa e aqui vou levantar acampamento.
Este conto é bom, principalmente o início. Sensível e maduro. Me lembrou o "Caixinha de Música" do Caio Fernando Abreu, não sei pq. Conhece? O final seco como um martini, me agradou ainda mais. Gosto de finais assim. E de contos com estilo visual. Parabéns!
abração

lou. disse...

E assim acabam sendo quase todas as histórias de amor. Certo?

Anônimo disse...

perderam tanto, um ao outro, sublimes, acabram no trânsito, atrasados.

Hugoss disse...

Muito bom seu texto. No meio dele tive que parar de ouvir música para absorvê-lo melhor. Parabéns mais uma vez.

Anônimo disse...

mutio legal seu texto!!!
gostei pois em nada a mulher se parece com a descrição infernal que muitas pessoas dão as succubus!!
muito legal mesmo...

Rafael disse...

"Na lenda medieval ocidental, um súcubo (em latim, succubus) é um demônio com aparência feminina, que invade o sonho dos homens. Fazendo isso, elas podem corromper totalmente a pessoa.Succubus são demônios que se alimentam da força sexual das pessoas.Quando estes demônios invadem o sonho de uma pessoa eles tomam a aparência do desejo sexual deles,os atacados tem a melhor experiência sexual de sua vida nesse sonho e a energia vindo do prazer do atacado é sugada pelo succubus.A palavra Succubus vem do verbo em latim que quer dizer "deitar-se sob""


MUUUUITO LEGAL SEU TEXTO!!!
parabens

Natália Cibelle disse...

Há muito não encontrava um blog tão interessante, com leituras agradáveis e chocantes. Parabéns!
Ah, gostei também da tradução em prosa de "O Corvo".
De uma tradutora em formação, Natália Cibelle.

Ada disse...

Conheci teu blog através desse conto que minha irmã colocou na página dela do orkut.
Seu conto me comoveu por demais, imagens tão belas e o final tão cru, exatamente como são os finais das histórias de amor às quais (não) nos entregamos.
Tornei-me seguidora de teu blog.