23.9.06

Os últimos versos


Por do Sol no Cariri Paraibano (Lajedo Pai Mateus, Cabaceiras, PB). Foto de Helder da Rocha (Janeiro, 2006)

O poema abaixo foi publicado no livro Veinte poemas de amor y una canción desesperada do poeta chileno Pablo Neruda, falecido há exatamente 33 anos (23/09/1973). Os versos são tristes, mas não são lamentos: são versos de saudade. Celebram momentos felizes que ficaram para trás, que não voltam mais, mas que valeram a pena. Existem apenas na memória dos que os viveram. Somente momentos realmente felizes ganham versos tristes como estes versos de Neruda.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Pablo Neruda

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: 'A noite está estrelada,
e cintilam azuis, os astros, distantes'.

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a quis, e às vezes ela também me quis.

Em noites como esta eu a tive entre meus braços.
Beijei-a tantas vezes debaixo do céu infinito.

Ela me quis, às vezes eu também a queria.
Como não ter amado seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que eu a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto cai o sereno.

Que importa que meu amor não pôde guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isto é tudo. Bem distante alguém canta. Bem distante.
Minha alma não se contenta em tê-la perdido.

Como para aproximá-la meu olhar a procura
Meu coração a procura, e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.
Nós, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a quero, é certo, mas quanto eu a quis.
Minha voz buscava o vento para tocar o seu ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.

Já não a quero, é certo, mas talvez a queira.
É tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta eu a tive entre meus braços,
Minha alma não se contenta em tê-la perdido.

Ainda que seja esta a última dor que ela me causa
e sejam estes os últimos versos que eu a escrevo.

Traduzido do original em espanhol por Helder da Rocha.

2 comentários:

Gabi disse...

Putz...um dos meus favoritos, senão O meu favorito dele...

"Puedo iscribir..." afe.

Maravilhoso

Anônimo disse...

É um poema maravilhos. Gostaria que corrigisem o título para "Poema Vinte" Ou "Poema Veinte" como consta no original.