5.9.06

Frio


O ar está frio. O espaço é silêncio. O que um dia tinha cores vivas está a tornar-se pálido, comum. Perdeu-se o hábito de buscar novos ângulos desconhecidos. Na fria calmaria, as falhas vieram à tona, repetindo-se em tons irritantes. O amor exposto à dura realidade da razão tornou-se ridículo. Não tinha mais graça. Todas as fantasias, quando expostas, revelaram-se absurdas. A paciência esgotou-se com os truques do mágico, que, diante de tais olhos não mais surpreende. Seu mundo revelou ser apenas um palco vazio, comum, com manchas e rachaduras, como qualquer outro palco. O castelo era apenas a ruína de um casebre de taipa e o riso imaginário era apenas vento. O que um dia pulsava e aquecia, petrifica-se e volta a ser estátua, de gelo opaco. Se não acordar a tempo, derreterá no próximo Sol, até evaporar, tornando-se nada, espalhando-se pelo todo até o esquecimento.

10 comentários:

45iso disse...

Belíssima foto em um texto igualmente belo e poético. Mas que astro é esse?

Denise gpb disse...

Hoje descubro esse blog com fotos e fatos belissimos, mas parece que está fechando as portas, estou certa?

Marcelo Siqueira disse...

Excelente texto para marcar a volta. Espero que o blog continue ativo.

Guilherme Simon disse...

voltou com tudo, rapaz.

Anônimo disse...

Podemos chamar de amor aquele sentimento que não sobrevive à realidade, à razão? Seria amor de fato ou apenas paixão, que sobrevive apenas no plano da fantasia?

Será que o mundo, Helder, não é um grande palco, onde todos nós somos os atores, com máscaras? Talvez não devamos criticar o palco alheio, pois, quem sabe, você também viva no seu palco, supostamente étereo, mas igualmente imperfeito, como qualquer outro palco.

Não quero acreditar que você se julgue um Sol, sendo sua amada um cometa que só atinge o seu explendor quando próximo do Astro-rei, petrificando-se e tornando-se gelo opaco quando dele afastado.

Guarde o castelo e o riso na memória, como agradáveis recordações, mas não esta aparente mágoa...

Helder da Rocha disse...

Eu escrevi este texto quase como uma escrita automática, sem pensar muito. Era um dia frio. E pensei na estátua de gelo como metáfora para a criatividade congelada. Escrevi para acordar o blog. Mas nesse dia eu também pensava muito em outras coisas; e escrevi sobre elas mas não quis publicar. Acho que elas vazaram e apareceram nas entrelinhas desse texto. Eu só percebi depois dos comentários (se tivesse percebido antes faria uma metáfora mais precisa, e o texto provavelmente ficaria pior) Na sua interpretação, Anonymous, não acho que eu seria o Sol. Eu seria o cometa. Foi a minha magia que perdeu o efeito.

Paulo disse...

Olá Helder,

Que bom que voltou.
Quando soltamos as palavras elas revelam muito dos nossos sentimentos.
Ótimo f.d.s.

Anônimo disse...

Desculpe-me por ter interpretado mal o seu texto. Mas, não se preocupe: você é uma pessoa singular, única, com uma magia própria que não falha, e nem perde o efeito...

Karina disse...

"O amor exposto à dura realidade da razão tornou-se ridículo..."
Ai, que dureza.
Gostei do texto.
Beijo.

luma disse...

Transmutar-se para não perecer!!
Estive lendo todo o blogue, pelo bloglines, esse tempo todo, menos o tempo em que esteve afastado! (rs*) Beijus