23.7.06

A viagem para Amsterdã


A rua Damrak. A fundo está a estação central.

Eu estava em dúvida se ia ou não a Amsterdã. No dia anterior havia ido a Colônia e o resto do nosso grupo estava em Amsterdã e só voltaria no dia seguinte. Eu estava muito envolvido com o festival e estava preocupado que não ficasse ninguém do Brasil no acampamento. Além disso, estava trocando idéias com alguns atores para formarmos uma comunidade virtual com todos os participantes do festival. Precisávamos divulgar a idéia e juntar as pessoas, então pensei em ficar no acampamento na quinta-feira e cuidar disso. Quinta-feira era feriado e a organização havia planejado um tour em Dortmund, mas, devido à chuva, ao frio, e ao desinteresse geral, o evento foi cancelado e o dia ficou livre. Acordamos tarde. Esperamos algumas pessoas do acampamento que estavam interessadas em ir conosco. Como até 9h30 ninguém havia aparecido, fomos novamente apenas eu, Luís e Ricardo.

Ricardo tirou essas fotos da janela do trem, pouco antes de chegarmos na estação central.

Pegamos o metrô na estação Consolidation até a estação central de Gelsenkirchen onde compramos um bilhete de grupo para Amsterdã. Custou €247,00 para o grupo, ida e volta, o que seria €82,00 para cada. A viagem é rápida (2 horas e meia) no trem ICE da Deutsche Bahn. Seria uma viagem curta. Teríamos menos de seis horas em para aproveitar a cidade, pois o último trem para a Alemanha sairia as 19 e alguma coisa. Mas, quando descemos na estação de Oberhausen ficamos sabendo que o ICE iria atrasar cinqüenta minutos, ou seja, teríamos menos de cinco horas em Amsterdã.


Caminhada de 3km em Amsterdã, da estação central até o Rijksmuseum

Isto foi no dia 15 de junho, feriado de Corpus Christi. Chegamos em Amsterdã antes das duas horas da tarde, almoçamos e fomos caminhar. As atrações surgem logo que se deixa o trem, na bela Centraal Station de 1889, projetada por Pierre Cuypers (mesmo arquiteto que projetou o prédio do Rijksmuseum.) Seguimos para o Sul pela rua Damrak, depois entramos num beco e seguimos por uma rua paralela até a praça Dam, onde está o Palácio Real e a igreja nova (Neuwe Kerk), que não é tão nova assim. Estava frio e começava a chover levemente.


Rua estreita saindo da Damrak.
A praça Dam é o coração da cidade. Foi lá que surgiu, no início do século XIII, a pequena vila de pescadores que represou o rio que desaguava na baía Ij (pronuncia-se "ai"). É dela nasceu o nome da cidade: Amstel re dam. A rua Damrak, que segue da estação central até a praça Dam, e a rua Rokin, que segue para o Sul depois da praça, eram as margens dos portos onde os barcos eram atracados. Damrak era o porto que dava para a baía e que foi fechado com a construção da Centraal Station sobre uma ilha artificial em 1889. Rokin era o porto interno, que dava para o rio.


Damrak.

O prédio que mais chama atenção na praça Dam é a antiga Camara Municipal, que hoje é o Palácio Real. O prédio foi concluído em 1655. A escultura da fachada, em alto relevo, foi feita por de Artus Quellinus (1609-1668). Tem 20 metros de largura e representa os quatro continentes em referência ao status de centro do comercial mundial que a Holanda possuía na época.

O Palácio Real (antiga Câmara Municipal), de 1655. À esquerda, quadro de Gerrit Berckheyde (1672), exposto no Rijksmuseum. A foto a direita é minha.

No século XIV a cidade cresceu devido ao comércio com outras cidades do norte da Europa, e ganhou relativa importância, mas o maior crescimento ocorreu depois que sua rival na época - a cidade de Antuérpia, tornou-se o principal alvo dos espanhóis durante Guerra dos Oitenta Anos. Os massacres, assédios e perseguições por motivos religiosos afastaram banqueiros, comerciantes, artistas e empreendedores que migraram para Amsterdã. E assim, a cidade floresceu durante o século seguinte e tornou-se uma das cidades mais ricas do mundo. Foi nessa época que o famoso conjunto de canais que envolve o centro histórico foi construído e a Holanda, com suas duas companhias marítimas multinacionais, estabeleceu sua presença nos cinco continentes.

No início do século XIX a Holanda foi invadida pela França e foi convertida em uma monarquia presidida por Luís Napoleão (irmão de Napoleão Bonaparte), que estabeleceu seu palácio no prédio da antiga câmara municipal. Quando os franceses finalmente foram expulsos, os holandeses decidiram manter uma monarquia com sede em Amsterdã, nomeando como rei Willem IV de Orange (descendente direto de Willem I de Orange-Nassau, o pai da república holandesa.) Apesar de Amsterdã ser a capital oficial da Holanda, o parlamento holandês exerce suas funções em Haia (Den Haag). Hoje, Amsterdã ainda é o centro cultural e financeiro da Holanda. Na cidade vivem mais de 750 mil pessoas em uma região metropolitana de cerca de um milhão e meio. Apesar do desenvolvimento, a arquitetura do centro foi preservada e a cidade possui um dos maiores centros históricos da Europa, onde ainda predomina a arquitetura medieval.


Principal meio de transporte, em Amsterdam.

O lado onde fica a praça Dam é chamado de cidade nova, e o lado oposto de cidade velha, mas na verdade a cidade velha é mais nova que a velha. A confusão é por causa dos nomes das paróquias em volta das igrejas. Do lado da praça Dam fica a igreja nova (Nieuwe Kerk) e do outro fica a igreja velha (Oude Kerk).

Continuamos seguindo para o sul até até a torre Munttoren, que fica onde o rio Amstel se divide em canais. De lá seguimos pela Vijzelstraat, cruzando os canais até chegar na fábrica da Heineken, viramos à direita e fomos beirando o canal até o prédio do Rijksmuseum.


Rio Amstel. Foto de Ricardo Socalschi.


Prédio do Rijksmuseum. Foto de Ricardo Socalschi.

Casas belíssimas, ruas estreitas, canais e mais canais. Muitos canais. É fácil se perder em Amsterdã pois os canais, à primeira vista, parecem todos iguais. Também é preciso tomar cuidado com as bicicletas. A cidade tem mais de 600 mil e elas estão em todos os lugares, ocupando todos os espaços. Do lado da estação central, por exemplo, há um estacionamento para 2500 bicicletas, e estava praticamente lotado. Todas as ruas tem via para bicicletas e elas estão sempre buzinando para os pedestres desavisados que invadem sua pista. Na maior parte das ruas do centro também não existe desnível algum entre rua, trilho, ciclovia e calçada. Só mudam as cores do calçamento. Ou seja, ao caminhar, é preciso também ficar de olho nos carros (poucos) e principalmente nos trens.




Canais de Amsterdam. Eles são muito parecidos

Foi uma longa caminhada até o Rijksmuseum, mas não percebemos (só descobrimos o quanto andamos na volta). Como demos voltas e mais voltas, acho que andamos bem mais que 3km. Também fizemos algumas paradas. Nesse passo, chegamos no museu às 15h50. Calculamos que daria para ver o Rijksmuseum e também o museu Van Gogh, que ficava vizinho. A idéia era fazer uma visita de reconhecimento, ver apenas as pinturas em uma hora, e depois correr para fazer outra visita relâmpago no Van Gogh, pois ambos fechariam às 18h. Não deu. Ficamos no Rijks até 17h30. Ainda estávamos dispostos a passar 30 minutos, mas não deu para entrar no Van Gogh.

Uma hora e quarenta minutos no Rijksmuseum é muito pouco. As obras em exposição são janelas para o passado, contam histórias, revelam segredos que não estão óbvios, e é preciso tempo para ouvi-las. O Rijksmuseum conta a história da Holanda, desde o tratado de Westfalia, em 1648, ano em que foi oficialmente reconhecida a república holandesa, até o século XIX. Consegui fazer uma curta viagem no tempo, mas eu contarei essa história em outro post, que publicarei na seqüência.


Voltando do Rijksmuseum. Não sei que rua é esta. A torre atrás das casas deve ser a Munttoren.

Amsterdã e os Holandeses
Desde que libertou-se do domínio espanhol, e conseqüentemente da Igreja Católica, a Holanda tem mantido uma tradição de liberdade, tolerância e respeito aos direitos individuais. No século XVI, enquanto outras nações eram governadas por reis e tiranos, o país era uma república governada por representantes de cidadãos de suas províncias. Essa liberdade permitiu um grande desenvolvimento artístico, científico e comercial que fez do país uma potência mundial no século XVII. O mundo mudou, mas a Holanda continua sendo um dos países mais livres do mundo, e tem sobrevivido a atos de intolerância em seu próprio território como os assassinatos recentes de Pim Fortuyn e Theo van Gogh, em Amsterdã. Devido à sua política de liberdade e tolerância, na Holanda, várias coisas que são ilegais em outras partes do mundo aqui são legais, como a prostituição e a venda de cannabis e haxixe.


Não sei que rua é esta. Acho que é a Weteringschans ou alguma rua próxima. Estávamos perdidos.

Amsterdã faz muito sucesso entre os turistas, mas muitos holandeses não gostam de Amsterdã. Esta foi a impressão que eu tive entre os holandeses que eu conheci. Preocupam-se com a visão estereotipada e deturpada que a cidade passa ao mundo como se fosse a imagem da Holanda; reclamam que é uma cidade suja, que os holandeses estão indo embora e os estrangeiros estão tomando conta, que a prostituição passou dos limites, que é exagerada a quantidade de coffee-shops (onde a venda de Cannabis é legal), e que ela perdeu o charme que tinha no passado. Eu sei que ao visitar Amsterdã eu não conheci a Holanda. Isto seria como alguém conhecer o Rio de Janeiro e achar que conhece o Brasil. Eu gostei muito da cidade. Em outra viagem, com mais tempo, com certeza irei atrás de conhecer outros lugares na Holanda (recomendados por meus amigos holandeses), como Utrecht, Haia, (Den Haag), Maastricht, Leiden e Delft.


Centraal Station de Amsterdam. Foto: Ricardo Socalschi.

Perdendo o trem
Depois de desistir do museu Van Gogh iniciamos o caminho de volta caminhando pela cidade, porém os canais nos confundiram. Pegamos o sentido errado e nos perdemos. Estávamos sem relógio e nenhum relógio público da cidade marcava a mesma hora (até numa mesma torre havia relógios com horas diferentes). No fim, chegamos à estação de trem atrasados e perdemos o último trem para a Alemanha.


Distrito da luz vermelha.

Foi ótimo perder o trem. Fomos atrás de lugares para dormir e não achamos. Estava tudo lotado. Amsterdã vive cheia de gente. Muitos turistas. A impressão que se tem é que todo mundo perdeu o último trem e correu para um albergue ou hotel para passar a noite. Decidimos aproveitar o tempo: comer, beber, conversar, caminhar, visitamos bares e um coffee-shop. Lá pela meia-noite, caminhando em direção à estação, encontramos um hotel simples que, para a nossa surpresa, não tinha a placa Full (como todos os outros que havíamos encontrado).

Balada em Amsterdã
 Algum hóspede que precisou pegar um vôo tinha acabado de sair e liberado um quarto. Sem sono, ainda saímos para dar mais umas voltas. Circulamos pelo distrito da luz vermelha (que estava lotado de gente), andamos pelas ruas do centro (também cheias de gente), e entramos numa danceteria (€5,00) onde ficamos até fechar (as três da manhã acenderam as luzes e parou tudo). Voltamos para o hotel e no dia seguinte, às 7 horas, pegamos o trem para Herne onde chegamos a tempo de assistir às duas últimas apresentações do festival.


Canais Herengracht, Singel, Palácio Real (prédio retângular), Nieuwe Kerk (igreja) e Praça Dam. Foto de satélite do Google Maps. Clique na foto para ver Amsterdã no Google Maps (é possível ver pessoas e bicicletas lotando as praças e ruas da cidade.)

Veja mais fotos de Amsterdã na minha página no Flickr.
AmsterdamAmsterdamAmsterdam
AmsterdamAmsterdamAmsterdam City Hall
AmsterdamAmsterdam City HallAmsterdam

11 comentários:

Anônimo disse...

Nossa adorei o teu blog, fiz uma viagem virtual e fiquei conhecendo muita coisa desse maravilhoso país.
Seu texto está impecavél.
Parabéns!!!

Anônimo disse...

porra carai cade a fudança tipica de amsterdã e o resto das coisas ilegais eu to aqui com uma galera de 50 caras sedentos das loucuras de amsterdã e já estão com a passagem na mão e o pau na outra inclusive meu amigo bira que já comprou um pente de camisinhas com efeito retardante cafe com viagra.então por favor mandem umas noticia e fotos urgente. ps:mande se possivel agora estamos necessitados!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Emanuella disse...

ola!!!meu sonho conhecer Amsterdã, ainda não realizei, mas conheci um pouco atraves do seu blog!!! nossa o maximo!!!
PARABENS!!!

palmer disse...

GOSTEI DAS FOTOS ACHEI OTIMAS . É UMA CIDADE LINDA.

Anônimo disse...

gostei muito em conhecer amisterdam é meu sonho de mora lá o meu coração pulsa forte as foto muito linda ou seja, a cidade parabens
senna da bahia

sara disse...

o meu sonho é conhecer amsterdâ
é um lugar fantastico, romântico e ao mesmo tempo libertino
oh como eu queria morar em uma casa-barco,é lugar mto inspirador e
eu pode me apaixona ainda mais por ela atraves do seu blog
ficou da hora!!!!!!!!!!

so coisas boas disse...

nossa cara ficou massa a suas fotos meu sonho e ir para amsterda e muito loko dar um role ver as garotas da vitrine fumar um bk quem sabe um dia nao vou valeu por ter mostrado essas fotos parabens

Jorge Luiz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jorge Luiz disse...

Brother,
Gostei muito de viajar virtualmente no teu blog. Estou querendo viajar muito em breve fazendo um tur pela Europa dando uma esticada até Amsterdã. Tive a oportunidade de conhecê-la um pouco através de seu blog e das fotos inclíveis ilustrando o seu texto muito bem elaborado e relatando a história de Amsterdã.
Parebéns.

Anônimo disse...

Oiii! Parabens pelo texto, adorei todas as informações!! Estou indo pra Europa em julho e queria uma dica sua! Meu voo fará escala em amsterdam e ficarei 6 horas no aeroporto! Acho que da tempo de um passeio rapido, alem disso estarei sem malas! O que vc me aconselha fazer em no maximo 4 horas?? hahaha

Se puder responder, ficarei muito feliz!!

Obrigada!

Helder da Rocha disse...

Da para caminhar pela cidade, e talvez fazer uma visita curta ou no Rijksmuseum ou Museu Van Gogh (dependendo do horario que voce tiver livre).