4.7.06

Play-off/06: primeira semana

Ex-mineiro da mina Zollverein distribui presentes. Foto: Play-off
Como escrevi no post anterior, a festa na primeira noite não foi no camping, mas em Essen, no Studio-Bühne (estúdio-palco) que fica em uma mina de carvão mineral desativada chamada Zollverein (sobre a qual eu já escrevi em outro post). A cerimônia de abertura teve início de forma tradicional: discursos dos patrocinadores, apresentação os organizadores do festival, etc. Depois do blá, blá, blá, houve uma performance de um grupo local representando todos os países participantes, e depois todos os grupos presentes fizeram uma improvisação de três minutos para se apresentarem.
Carvão do Zollverein
 A abertura terminou com a chegada de vários ex- mineradores da Zollverein, vestidos em trajes de gala, que distribuíram presentes aos participantes. Os presentes eram pedras do "ouro negro" que por muitos anos moveu a economia da região: o carvão mineral. Depois que os mineiros partiram, foram finalmente abertas as portas da antecâmara do teatro onde havia um banquete - típicamente alemão - servido por personagens fantasiados. Quando a música começou no salão principal, a festa começou e se estendeu até as duas horas da madrugada.

O festival só começou mesmo na terça-feira no fim da tarde. O programa consistia de apresentações teatrais dos 16 grupos e oficinas de teatro, durante oito dias em duas semanas, em quatro teatros de quatro diferentes cidades. Havia ainda passeios e outras atividades agendadas nos finais de semana e feriados. A maior parte dos grupos apresentou-se duas vezes.
Festa de abertura no Zollverein
 O desafio era tentar montar uma agenda para não perder nenhuma apresentação. Participavam do evento 16 grupos de teatro de quinze países: África do Sul, Alemanha (com dois grupos), Argentina, Brasil, Coréia do Sul, Croácia, Equador, Estados Unidos, Holanda, Itália, México, Polônia, Sérvia e Montenegro, Togo e Trinidad e Tobago. Nosso grupo pôde assistir tudo com exceção de um dos grupos da Alemanha, ou seja, vimos 14 peças. Eu consegui assistir 12, pois além do grupo alemão, perdi as apresentações da Argentina e do México.

Eu perdi minhas anotações sobre as peças, então vou tentar lembrar o possível, de memória. Se eu lembrar de mais alguma coisa depois atualizarei este post.


Cena da peça da Coréia do Sul. Foto: Play-off.

Na terça-feira assistimos em Essen as apresentações da Coréia e de Trindad e Tobago. A Coréia apresentou uma peça chamada Kok Du, inspirada em mitos, com teatro de sombras, máscaras, bonecos e sons. Quando chegamos no teatro, fomos levados para dentro de uma tenda onde a peça acontecia, mas do lado de fora também acontecia muita coisa que percebíamos através de ruídos e sombras, som de gongos, vozes e percussão. O grupo de Trindad e Tobago apresentou uma peça folclórica: A viagem, que realizam há quase trinta anos e que conta a história de Trindad e Tobago explorando passos de dança caribenha. A peça não tinha muito de teatro contemporâneo (estava mais para peça "turística") e foi muito diferente de todas as outras que vimos no festival. Depois das apresentações, ficamos no teatro para preparar o palco para a nossa peça, que aconteceria no dia seguinte.

Na quarta-feira pela manhã apresentamos a nossa peça, sobre a qual eu falo em outro post. Na seqüência assistimos a peça do Ecuador, chamada Sin Papeles: a terra da oportunidade, sobre as tragédias reais dos imigrantes ilegais (sem papéis) que arriscam a vida para tentar entrar nos Estados Unidos.
Peça do Ecuador. Foto: Play-off
 A peça utilizava-se bastante de cores e movimentos. A impressão que tive era que os imigrantes retratados estavam mortos. Os atores usavam umas roupas que também os faziam parecer alienígenas ("alien" também é um termo usado para se referir aos imigrantes nos Estados Unidos.)

A partir da quinta-feira nos dividimos e parte do grupo foi para Dortmund enquanto que eu e Ricardo fomos de novo para Essen, onde vimos as peças dos Estados Unidos e da África do Sul. As peças começavam às 18 horas, então tínhamos tempo livre antes que pretendíamos utilizar para conhecer a cidade. Mas ficamos sabendo que haveria um ônibus que faria um passeio turístico pela cidade de Essen, então nós decidimos participar. Eu não gostei e tive sono durante o passeio. Não saímos quase do ônibus e vimos as atrações passando pela janela. Demos duas voltas no estacionamento da Abadia de St. Ludgero (não deu para ver a Abadia), e passamos pela frente da mansão da família Krupp na Villa Hügel. O único lugar que paramos e descemos foi em Margarethenhöhe, uma antiga colônia de operários das empresas Krupp. Eu gosto mais de passeios onde se caminha. Teria sido melhor se descêssemos do ônibus de vez em quando, mesmo que por pouco tempo, mesmo que não desse tempo ver tudo. O guia era muito detalhista e descrevia muitos detalhes irrelevantes das coisas que não conseguíamos ver, mas o passeio teve a vantagem de despertar meu interesse pela família Krupp, sobre a qual acabei escrevendo um post.


Cena de Night Breath, de Dennis Clontz (EUA). Foto: Benjamin Stöß.

A peça dos Estados Unidos foi Night Breath, do dramaturgo Dennis Clontz. Três mulheres se encontram num celeiro e descobrem um corpo feminino. Cada uma (são bem diferentes) declara ser a mulher morta e conta segredos do seu passado. Fica-se na dúvida se as mulheres são reais, se são a mesma pessoa, se é tudo um sonho. Há muita ação no subtexto (tanto que, Ricardo, que assistiu comigo e não compreendeu totalmente o inglês, percebeu coisas que eu não percebi por estar distraído pelo texto). Ukutipa (Bem-vindos), a peça da África do Sul começou com várias cenas cômicas representando turistas em visita à África do Sul. Os atores são muito livres e representam com muita naturalidade. A peça terminou com rituais, música e danças tribais.


Cena de Maanam byc lepiej, Polônia. Foto: Play-off

Na sexta-feira nosso grupo dividiu-se novamente e eu, Luís e Ricardo assistimos às peças da Polônia e Holanda. Maanam byc lepiej (não sei o que significa), a peça da Polônia, é bem impressionista. Parece ser o sonho de uma menina que dorme no palco. Enquanto ela dorme, várias pessoas entram e saem de cena. O telefone toca, e essas pessoas atendem. Explora temas como amor e ódio, vida e morte, e utiliza-se de linguagem corporal, luzes, cores e sons para transmitir essas questões através de impressões. A peça da Holanda, The Final Penalty, utilizou a Copa do Mundo como tema para um conjunto de improvisações cômicas inspiradas no futebol, misturando vídeo, música e teatro.

À esquerda: cena da peça da Holanda. Foto: Peterson Ramos. À direita: cena da peça da África do Sul. Foto: Benjamin Stöss.

Às 18h da sexta-feira houve uma reunião com todos os diretores para discutir teatro contemporâneo, organizado pelo Michael (assistente de diretor do Ecuador). Como nosso grupo não tinha diretor, eu participei da reunião como representante do nosso grupo. A reunião foi muito interessante pois cada grupo detalhou seus processos, suas dificuldades e suas idéias. Houve muito interesse no processo da nossa peça, que foi vista por vários dos diretores presentes. Foi interessante perceber que apesar das diferenças culturais e distância temos muito em comum. Michael entrevistou todos os diretores e gravou tudo. O encontro foi muito bom pois criou um canal de comunicação entre os diretores, que não se conheciam, e permitiu uma troca de idéias que pode trazer resultados depois do festival.

No fim de semana ainda houve outra festa e um passeio no domingo. Falarei da festa e dos passeios em posts que publicarei nos próximos dias. E ainda falta falar das peças da segunda semana e das viagens à Colônia e Amsterdam.

Nenhum comentário: