23.7.06

O Rijksmuseum, em Amsterdã


Rijksmuseum de Amsterdã visto da Museum Platz.

O Rijksmuseum de Amsterdã é o maior museu de arte e história da Holanda, com mais de um milhão de objetos em exposição, destacando obras de artistas holandeses do século XVII como Rembrandt, Vermeer, Frans Hals e outros. O museu é imenso, mas apenas uma pequena parte estava aberta, pois o prédio inteiro passa por uma reforma. Essa pequena parte, chamada De Meesterwerken (as obras-primas), concentra dois andares e 14 salas onde está em exposição uma seleção das obras primas do museu.

A exposição é organizada em ordem cronológica e conta a história da Holanda através das obras de arte. A viagem no tempo não se resume a quadros. Há vários objetos, esculturas, casas de boneca, móveis, armas, porcelana, jóias. Muitas vezes um objeto retratado em um quadro antigo também está em exposição. Não houve tempo para apreciar tudo. Como o tempo era pouco, eu preferi pular as exposições de objetos e concentrar-me nas pinturas.


Imenso quadro de Van der Helst (Banquete em celebração da paz de Münster) domina a entrada do Rijksmuseum na sala dedicada à república holandesa.

Nenhuma visita virtual ou livro de arte compara-se à visita a um museu. Não conheço fotografia que faça justiça às pinturas expostas no Rijksmuseum. Não descobriram ainda uma maneira de reproduzir em filme, impresso ou projetado, as cores e os efeitos que Rembrandt e seus contemporâneos conseguiam representar com tintas. Aquelas imagens estão além da fotografia. Algumas parecem até tridimensionais. Quase consigo tocar nos recipientes de barro do único quadro de Johannes Torrentius; e a mão do capitão Frans Cocq na Ronda Noturna de Rembrandt parece querer sair do mundo bidimensional onde está presa. O meu Rembrandt favorito - Jeremias lamentando a destruição de Jerusalém - tem detalhes em ouro e prata que brilham como se estivessem ali, de verdade. Nenhuma fotografia causaria uma ilusão tão perfeita.


Jeremias lamentando a destruição de Jerusalém (detalhe) de Rembrandt van Rijn. Clique na foto para ver a tela inteira.

Um imenso quadro de cinco metros e meio de largura retratando personagens em tamanho real ocupa a maior parede na sala de entrada do Rijksmuseum. São vinte e cinco militares comemorando a paz que permitiu o surgimento da Holanda: o Tratado de Münster (ou Tratado da Westfália) que marca o fim da guerra de oitenta anos com a Espanha em 1648, e o reconhecimento oficial das províncias holandesas como república independente. Nesta sala havia vários outros objetos relacionados ao início da república holandesa.


Banquete em celebração da paz de Münster, de Bartholomeus van der Helst. 1649 - Oléo sobre tela, 232x547. Clique na foto para ver uma versão maior no site do Rijksmuseum.

A sala seguinte é dedicada às conquistas holandesas pelo mundo. Uma das pinturas mostra a cidade de Olinda, Pernambuco, pintada por Frans Post, artista holandês que servia a Maurício de Nassau durante o período em que parte do nordeste brasileiro vivia sob o domínio holandes.


Frans Jansz Post (1612-1680): vista de Olinda, Brasil (Óleo sobre tela, 107,5 x 172,5cm, 1662). Clique na foto para ver uma versão maior no site do Rijksmuseum.

As outras três salas do andar térreo são dedicadas principalmente a objetos do cotidiano, porcelanas e tesouros da Idade de Ouro da Holanda (século XVII). Há duas casas de boneca, contendo salas ricamente mobiliadas em miniatura, que mostram em detalhes como eram as casas dos ricos habitantes de Amsterdã nessa época.

O segundo andar é ocupado principalmente por telas de pintores holandeses do século XVII, com destaque para Frans Hals, Rembrandt, Johannes Vermeer e Jan Steen. Há uma sala especial para o quadro mais importante do museu: a Ronda Noturna, de Rembrandt.

Frans Hals


Retrato de casamento de Isaac Massa e Beatrix van der Laen (Frans Hals, 1622). Clique para ver a tela inteira no site do Rijksmuseum.

Frans Hals nasceu na Antuérpia e mudou-se para o Haarlem quando a cidade foi tomada pelos espanhóis na Guerra dos Oitenta Anos. Ele é bastante conhecido pelos retratos que fez de personalidades famosas e ricas. O quadro de Hals que eu mais gostei foi o retrato de casamento de Beatrix e Isaac. Beatrix, 30, era filha de um burgomestre, e Isaac, 35, era um diplomata e historiador que vivera na Rússia. Casais normalmente retratavam-se separados em poses sérias, mas Isaac e Beatrix queriam algo diferente e foram pintados em um jardim, lado a lado, espontaneamente sorrindo para o artista. Hals pintou vários outros retratos de casais, mas nunca juntos, sorrindo ou na mesma tela.

Rembrandt van Rijn


A Noiva Judia (Rembrandt van Rijn, 1667). Este quadro era um dos preferidos do pintor Vincent Van Gogh.

Rembrandt van Rijn é o mais célebre pintor da Holanda e seus quadros aparecem em três salas da exposição De Meesterwerken do Rijksmuseum. Eu escrevi um texto sobre Rembrandt que postei aqui há alguns dias em homenagem aos seus 400 anos.

Johannes Vermeer


Fragmento da mais famosa tela de Johannes Vermeer (1632-1675) do Rijksmuseum: De Keukenmeid.
 Johannes Vermeer é considerado hoje um dos pintores holandeses mais importantes do século XVII, mas por séculos foi esquecido. Nasceu e viveu praticamente toda a sua vida na pequena cidade de Delft, onde teve onze filhos e morreu aos 43 anos de idade. Ele não assinava seus quadros e muitos podem ter se perdido. Reconhece-se a existência de 35 obras de sua autoria. A maior parte de suas obras retrata cenas do cotidiano. Sua principal obra no Rijksmuseum é A moça do leite, que mostra uma mulher vestida em roupas simples despejando leite em uma vasilha num ambiente iluminado pela luz indireta que penetra pela janela.

O quadro mais conhecido de Vermeer, Moça com brinco de pérola, não está no Rijksmuseum e nem em Amsterdã, mas na cidade próxima de Haia (Den Haag) onde é a principal atração do Mauritshuis, que também guarda outras obras célebres de Vermeer.

Jan Steen


A Família Feliz, de Jan Steen (1668)

Jan Steen era um contador de histórias. É preciso decifrá-las observando detalhes como objetos, gestos e olhares dos personagens que aparecem nos seus quadros. Nunca é óbvio. Sempre há mais acontecendo do que parece, e ele constuma esconder parábolas nas histórias. No quadro que retrata a família feliz, há uma folha que pende do teto onde está escrito "enquanto cantam os velhos, fumam os jovens", e há uma criança bebendo sem que os pais vejam.

A Ronda Noturna, de Rembrandt van Rijn

A obra mais famosa do Rijksmuseum é a Ronda Noturna (De Nachtwacht), de Rembrandt van Rijn. É o maior quadro que Rembrandt pintou e ocupa uma sala inteira do museu. Retrata a companhia militar do Capitão Frans Banning Cocq. Parece uma fotografia capturando os vários personagens em movimento. Na foto, vê-se o capitão Banning Cocq que desloca-se apressadamente para fora do quadro enquanto dá ordens ao seu tenente Van Ruytenburch para segui-lo. Movimento e contrastes de luz são característicos dos quadros de Rembrandt.


A Ronda Noturna (The Nightwatch) de Rembrandt van Rijn. Clique na foto para ver uma versão maior no site do Rijksmuseum.

O título verdadeiro do quadro não é Ronda Noturna, mas quando foi descoberto, ele estava coberto por um verniz escuro que o fazia parecer uma cena noturna, e assim ganhou o apelido. Na verdade, a cena é diurna e representa um grupo de mosqueteiros saindo de um prédio. Os contrastes são provocados pela luz do Sol. Nos últimos anos o quadro foi restaurado revelando suas cores originais (era bem mais escuro).

Nightwatching, de Peter Greenaway


Peter Greenaway.
Quando visitei o Rijksmuseum havia uma instalação recém inaugurada sobre a Ronda Noturna criada pelo cineasta inglês Peter Greenaway, que mora em Amsterdã. A apresentação utiliza-se de projeções feitas diretamente sobre a tela para revelar as histórias por trás dos personagens. Além da exposição interativa, Greenaway também está fazendo um filme e uma peça sobre Rembrandt em comemoração aos 400 anos do pintor.

O filme chama-se Nightwatching, e está ambientado no ano de 1642 (o ano em que a pintura foi feita). Mistura fatos com ficção. Um acidente fatal ocorrera com um dos militares que encomendara o quadro. Rembrandt teria descoberto que o ocorrido não fora um acidente e revelado o assassino através de pistas ocultas na pintura. Mas os outros teriam descoberto, porém não podiam mais destruir o quadro. Buscaram, então, sutilmente destruir o artista. Greenaway aproveitou-se de fatos históricos, de mistérios contidos na Ronda Noturna e na decadência do artista depois da pintura do seu quadro mais célebre. Nightwatching será lançado em 2007.

A peça, que deve estrear este ano, é basedada em relacionamentos domésticos, sociais e simbólicos de Rembrandt com suas três mulheres: Saskia, Geertje e Hendrickje. Mais detalhes sobre a peça e uma sinopse completa sobre o filme estão no site do cineasta.

Rijksmuseum, na Internet

Não é o mesmo que a experiência de visitar o museu, mas o site do Rijksmuseum é uma obra de arte do Web design e vale a pena ser visitado. Há informações sobre centenas de obras, imagens em alta resolução, vídeos e animações interativas que permitem navegar em diversas partes do museu em 3D. Há inclusive uma seção especial e interativa sobre a Ronda Noturna de Rembrandt. O site está disponível em holandês e inglês.

4 comentários:

Paulo disse...

Bom dia Helder!

Seu post está excelente!
Bem escrito e com belas imagens...
Gostaria de te linkar nos meus favoritos, porque sempre que sair para visitar os blogs estarei por aqui!

Um abraço e uma ótima semana.

Marcelo Naconeski disse...

Tenho a impressão de que as pinturas de Rembrandt tentavam mostrar que a inovação estava em fazer das coisas antigas e óbvias ,motivo de incursões reflexivas , para descobrir-se o novo através de uma nova perspectiva. Os olhos dele se perpetuam em cada pintura humana, como se observasse o observador. Incrivel!!!

Anônimo disse...

Uma das características que mais me chama atenção na pintura de Rembrandt é a perfeição com que ele se utiliza da luz nas suas obras. Também fiquei impressionado como sua pintura mudou de tom após a morte da esposa!

saudades disse...

Rembrandt, é o um dos melhos pintores em claro e escuro, sem igual. Êle é notável na riqueza de detalhes e na perfeição do belo! assino humuildemente o meu comentário. OSMAR MARQUES DA SILVA - SOBRADINHO-DF