5.7.06

A dinastia dos Krupp, em Essen


A Família Krupp. Fonte: WikiPedia.

Ao pesquisar a história de Essen, uma das principais cidades da região do Ruhr, é impossível não se deparar com a presença constante da família Krupp. Não é por acaso. Os Krupp têm uma história de 400 anos na cidade e região e seus negócios na indústria do aço e armamentos tiveram impacto mundial. E é uma história fascinante. Essa família fez sua fortuna na indústria do aço, forneceu armamentos para quatro grandes guerras e adquiriu um poder de manipulação econômica e política que se estendeu além das fronteiras da Alemanha. Ao mesmo tempo, ajudou a desenvolver uma importante região da Alemanha e estabeleceu relações trabalhistas inovadoras para a época da revolução industrial.


Margarethenhöhe, em Essen
Em Essen eu conheci dois lugares ligados à família Krupp: o bairro de Margarethenhöhe, construída por Margarethe Krupp em 1906 para abrigar 10 mil trabalhadores das indústrias Krupp, e a Villa Hügel - a mansão da família Krupp construída em 1873 e usada por três gerações da dinastia. Um pouco da história da família Krupp foi contada pelo guia em um dos passeios que fiz em Essen, mas descobri que há muito mais. Muitos detalhes, principalmente os relacionados com o envolvimento dos Krupp com o regime nazista, são pouco mencionados ou minimizados nas versões oficiais.

A parte mais interessante da história dos Krupp começa em 1811, quando Friedrich Krupp, aos 19 anos, assumiu uma pequena fundição da família que era administrada pela sua avó. Friedrich não administrou muito bem o negócio da família e em pouco tempo foi à falência, mas continuou a gastar o dinheiro que tinha à disposição.

Alfred Krupp (1812-87)
 Três anos depois sua avó morreu e, numa atitude que poderia ter sido desastrosa, deixou toda a fortuna da família para o neto gastador. Negligenciando os outros negócios da família, Friedrich decidiu investir na pesquisa de processos de fundição do aço. Teve pequenos sucessos mas na sua morte em 1926, a empresa acumulava muitas dívidas. Com grande dificuldade seu filho Alfred levou adiante os negócios da família. Alfred era um perfeccionista e dividia seu tempo entre o trabalho e a pesquisa. Quando expôs seus canhões de aço leves, seguros e de grande alcance em uma exposição militar logo tornou-se uma celebridade no ramo, e sua empresa em Essen ficou famosa. Com novos recursos, passou a investir também na fabricação de trilhos e realizar pesquisas com locomotivas a vapor. Adquiriu minas de carvão em várias partes da Europa.

Alfred Krupp era amigo do imperador do Brasil, D. Pedro II, com quem se correspondia regularmente desde 1837. O imperador várias vezes foi hóspede na mansão dos Krupp em Essen, na Villa Hügel. A Krupp forneceu ao Brasil não apenas canhões, mas milhares de toneladas de trilhos e outros acessórios para a construção de ferrovias.

A empresa especializou-se na fabricação de armas. No final dos anos 1880, 50% da produção estava envolvida na fabricação de canhões para exportação. Alfred Krupp, conhecido no mundo como o Rei do Canhão, já era uma das figuras mais importantes da revolução industrial. Sua empresa, herdada do pai com pouco mais de 5 empregados, já empregava mais de 25 mil pessoas apenas em Essen. Era a maior empresa industrial do mundo.


Friedrich Krupp AG, em Essen, 1906. Foto: Deutsches Historisches Museum, Berlin

Na área social, Alfred também foi um inovador. Numa época em relações trabalhistas praticamente não existiam, construiu e subsidiou as residências para seus empregados e suas famílias. As vilas residenciais tinham parques, escolas e áreas de recreação. Também criou para os empregados um programa de seguro de saúde e aposentadoria.

Após a morte de Alfred, em 1887, seu único filho Friedrich Alfred herdou a companhia. Em 1902 Friedrich foi acusado de pedofilia em um escândalo envolvendo crianças e adolescentes e cometeu suicídio poucas semanas depois. Bertha Krupp, casada com Gustav von Bohlen und Halbach, era a única herdeira viva. Ao casar-se, Gustav acrescentou o sobrenome Krupp ao seu nome, e em 1903, após a vaga deixada por Friedrich, assumiu a direção da empresa.

A história dramática da família Krupp até então já era lendária e inspirou escritores e dramaturgos, como George Bernard Shaw, que teria buscado inspiração nos Krupps para escrever sua peça Major Barbara.

Em 1914 a Krupp praticamente detinha o monopólio da fabricação de armas na Alemanha. Nesse ano ela produziu um dos principais armamentos usados na Primeira Guerra Mundial: um canhão móvel de grande potência e eficiência chamado Big Bertha (em homenagem à sua esposa).

De acordo com os historiadores oficiais, os Krupp nunca tiveram interesse por política e eram inicialmente hostis ao partido nazista, mas em 1930 eles aparentemente mudaram de idéia e filiaram-se ao Schutzstaffel (SS). Gustav, que era presidente da federação das indústrias alemãs, foi nomeado por Hitler como presidente do fundo industrial cujos recursos ajudaram a financiar o governo nazista.
Villa Hügel
Fachada da mansão Krupp, na Villa Hügel, em Essen.
 Nesta época, Alfried, filho de Gustav, já administrava a empresa junto com o pai, embora só tenha assumido a direção da empresa em 1943. Depois que Hitler assumiu o poder na Alemanha em 1933, as indústrias Krupp tornaram-se o centro do rearmamento alemão. No mesmo ano as fábricas Krupp começaram a fabricar tanques. Durante a Segunda Guerra Mundial, Krupp foi o maior fornecedor de armas ao exército alemão. De acordo com William Manchester, autor do livro The Arms of Krupp, as empresas Krupp também construíram fábricas em países ocupados pela Alemanha e usaram o trabalho de mais de 100 mil escravos residentes em campos de concentração.

Em 1940, o presidente Getúlio Vargas chegou a negociar com a Krupp a construção de uma siderúrgica no Brasil depois de várias negociações fracassadas com empresas americanas. A negociação foi um dos momentos mais tensos nas relações entre o Brasil e os Estados Unidos, que ofereceu crédito federal para a criação da Companhia Siderúrgica Nacional. De acordo com documentos militares confidenciais revelados nos anos 90, havia planos de invasão do país pelos Estados Unidos caso as negociações fracassassem.

Em 1943, Adolf Hitler nomeou Alfried Krupp como ministro da economia de guerra. No mesmo ano a SS autorizou que ele usasse 45 mil civis russos como escravos em suas fábricas de aço além de outros 120 mil prisioneiros de guerra em suas minas de carvão. Devido à sua associação ao regime nazista, suas fábricas eram os principais alvos dos bombardeios aliados. No fim da guerra, dois terços das fábricas tinham sido ou destruídas ou danificadas.

Preso pelo exército canadense em 1945, Alfried foi julgado como um criminoso de guerra em Nuremberg. O seu pai Gustav também foi indiciado, mas foi poupado por estar velho e demente. Gustav morreu em 1950.


Alfried Krupp. TIME Magazine, 19/08/1957.
A Krupp alegou que não teve escolha ao aliar-se ao regime nazista. Contou com os melhores advogados americanos e lobbies que atendiam a interesses não declarados. Durante a Segunda Guerra Mundial várias empresas alemãs utilizaram-se de trabalho escravo de prisioneiros capturados nos territórios ocupados. A versão oficial é que essas empresas foram forçadas pelos nazistas a aceitar os escravos. No caso das indústrias Krupp, segundo Manchester, documentos obtidos nos arquivos do próprio Alfried Krupp mostram que o industrial deliberadamente solicitou o fornecimento de escravos, muitas vezes exigindo mais que os nazistas estavam dispostos a fornecer. Alfried foi considerado culpado e condenado a doze anos de prisão e a ter sua propriedade confiscada.

Mas sua prisão não durou muito. Em 1951 o alto comissário americano da zona de ocupação na Alemanha, John McCloy, ordenou sua libertação e devolveu sua propriedade e suas indústrias (McCloy foi presidente do Banco Mundial, diretor do Chase-Manhattan e da Fundação Ford, além de conselheiro militar e de política exterior de vários presidentes americanos, entre eles Kennedy e Reagan). Poucos anos depois de reassumir suas funções, Alfried já era um dos homens mais ricos do mundo e sua empresa já estava novamente entre as maiores corporações. Sua expansão multinacional começou pouco depois com uma fábrica construída em Jundiaí, no Brasil nos anos 60. Alfried Krupp faleceu em 1967.

Em 1968 a família abriu mão do controle da firma e em 1999 fundiu-se a outra empresa tradicional do Ruhrgebiet e seu principal concorrente: a Thyssen da cidade de Duisburg, formando a Thyssen-Krupp: a quinta maior corporação da Alemanha e um dos maiores produtores de aço do mundo.

Fontes e referências

10 comentários:

Rafael Slonik disse...

Não poderia deixar de agradecê-lo por trazer esse conhecimento espetacular! Publiquei um dos seus links de referência.

E levando ao campo filosófico: Tanto poder na mão dos Krupp nunca foi suficiente, compactuaram com guerras, cometeram suicídio até alcançar o fim. Tornaram-se parte da história. Mas o que isso adianta?
Eta vida complicada essa!

Lara disse...

Ooi.
Nossa, eu estava precisando saber exatamento o que vc postou.
Hauhahuahua
Estava precisando saber quem ajudou a Alemanha a conseguir se armar pra a Segunda Guerra, sendo naquela epóca proibido o comercio e fabricaçao de armas (Segundo o meu livro de historia).
Achei exatamente o que eu precisava aqui.
Adoreii teu blog.

Bjuxx
=**

Darwin disse...

Gostei muito do conhecimento disponibilizado sobre a Dinastia Krupp, porém, gostaria de deixar um pergunta para um maior entendimento, se possível, mande em meu e-mail a resposta.
Em um parágrafo, o texto relata que o neto Krupp, assumi a pequena empresa de sua avó, porém, porém é um '' gastador''. Acaba investindo em aço sem muito sucesso e morre em 1914, quando assumi a empresa tem 19 anos isso é em 1816... seu filho Alfred assumi a empresa e mantem relações com Dom Pedro II em 1837, certo? Gostaria de saber se o neto Friedich(?) Krupp viveu todos esses( até 1914) anos e seu filho Alfred, morreu primeiro que o pai em mais ou menos 1886 ou é erro de digitação?

Obrigado.

Jessé - Ramoneme@bol.com.br

marcelo disse...

cara muito educativo, pois eu moro em campo limpo paulista aonde tem a metalurgica thissen krupp e queria mesmo saber daonde veio tanto poder aquisitivo, agora eu sei que veio de muita gente que sofreu no passado com toda essa guerra eu so espero que nao volte mais esse tempo.

Anônimo disse...

Parabens!
Adorei tomar conhecimento deste documentário.
Eu estava procurando informação sobre a empresa "KRUPP", devido
ao fato do meu trabalho ter estar ligado ao Teste de Carga
de um Pórtico Rolante de 660t,fabricado por esta empresa.
Muito obrigado por ter me proporcionado este conhecimento.
Abraços,
Etonil

Anônimo disse...

Elio, Joinville S.C

A história das fundições como a KRUPP,foram interessantes no passado,vivido por essas empresas, que segundo relatos usavam mão de obra dos campos de cocentração para seu funcionamento, apesar de ter apoiado o regime Nazi,,sem dúvida hoje é uma das maiores fundições do mundo.

luis disse...

sou um colaborador das empresas thyssen krupp antes mesmo delas se fundirem e uma otima empresa ja trabalho a 12 anos mas nao sabia desta triste historia pois tenho varias revistas da empresa e sempre maquiaram estas coisas! mas tambem nao vamos ser hipocritas e se nos fossemos alemaes ou da familia krupp???sei que me orgulho muito de trabalhar em umas das maiores empresas do mundo e amaior fornecedora de autopeças do mundo usinado e forjado!!

Bruno Acier Endalez Krupp disse...

Olá, admirei muito seu interesse para com a história da familia Krupp. Tenho grande orgulho de dizer que faço parte dessa família que escreveu várias páginas de uma história brilhante no passado.
Obrigado!

Anônimo disse...

A Krupp fabricava bombas-relógio no campo de concentração de Ravensbruck.

Marco disse...

Agora vou mesmo a Essen conhecer a cidade e os museus.