30.6.06

Play-off/06: a Vila


Amanhecer sobre a península Ibérica. Vôo São Paulo - Paris.

A nossa viagem começou no domingo, em São Paulo. O vôo para Paris sairia às quatro e meia da tarde. Nos encontramos todos em Guarulhos e ficamos esperando a hora do embarque. Chegamos cedo. O tempo foi suficiente para Ricardo se acidentar em um carrinho de transportar malas e para Aninha perder-se no aeroporto, mas no final todos embarcamos sem problemas.


Uma fila no Boeing 777 da Air France: Ricardo, Aninha e Peterson; Luís e Wanderley (na janela); Teka (na janela), Ana Pereira e Eu (fazendo cara de espanto). Fabiana, Andressa e Maria estavam em outra fila, à frente.

Acho que poucos dormiram no vôo da Air France até Paris (os que estavam perto de mim com certeza não dormiram). Chegando no imenso aeroporto Charles de Gaulle tivemos que pegar um ônibus para mudar de terminal, perdemos tempo esperando na fila errada, recebemos informações erradas mais de uma vez e só embarcamos no último instante no vôo para Düsseldorf, que durou aproximadamente uma hora. André Wülfing e vários organizadores do festival Play-off/06 estavam nos esperando no aeroporto. Todos chegaram bem menos a mala de Ricardo (não era mesmo o dia dele), que preferiu ficar em Paris. Mas ela foi resgatada e entregue no acampamento no final do dia. Embarcamos no mesmo ônibus que o pessoal do Togo e chegamos ao acampamento no início da tarde. Estava frio.


Antje. Foto: Play-off/06
Logo que chegamos, fomos recepcionados por uma moça exótica de cabelos vermelhos e levados até nossa nova residência na Alemanha. Era uma vila formada de diversas casinhas de pano (barracas) em volta de duas mansões (barracas grandes). A mansão colorida era uma extensão da praça de alimentação. A vermelha era o castelo de Antje, a moça de cabelos da cor de seu castelo, que estava sempre correndo de um lado para outro com um celular no ouvido e uma pasta na mão. Ela não parava. Visitava todas as casinhas da vila para saber se estava tudo em ordem. Acordava os habitantes para que não perdessem a hora, os eventos, as peças e os banquetes. Quando ela não estava, ou quando o trabalho era demais, aparecia André no mesmo ritmo, para nos lembrar que o ônibus sairia agora, e não se atrasaria, ou que não poderíamos deixar de assistir tal peça ou tal workshop.


A mina Consolidation e a vila internacional. Foto: Play-off/06

A vila ficava diante da torre de uma mina de carvão desativada. Do lado havia dois outros prédios onde ficavam os teatros. No lado oposto havia um parque gramado. Ao lado da torre foram instalados banheiros e chuveiros. Na entrada do acampamento havia uma cozinha (outra barraca) onde eram servidas as refeições, e várias mesas (a praça de alimentação) que tornaram-se o principal ponto de encontro do acampamento. Isto ficava do lado da barraca colorida.


Casinhas de pano. Foto: Ricardo Socalschi.

As casinhas de pano eram amplas e confortáveis. Tinham chão firme de madeira e cinco colchões cada. Éramos onze e ocupamos duas casinhas. Havia colchões extras, mas eu preferi usar meu colchão de ar. Além de nós, as casinhas também eram ocupadas por aranhas, de várias espécies e tamanhos, com as quais convivemos muito bem durante as duas semanas (eu pelo menos não tive problemas com elas). Entre as casinhas havia um lugar onde penduramos a nossa bandeira (que não durou muito, pois alguém gostou muito dela e levou-a embora).

Quando chegamos estava frio. Muito frio. Para piorar, fomos informados assim que chegamos que houve um problema no aquecimento no chuveiro masculino e não havia água quente. Só as mulheres tinham água quente. Antje nos deu a opção de tomarmos banho no chuveiro do teatro, mas eu Luís e Ricardo, os valentes, decidimos encarar a água gelada. A água do chuveiro não estava apenas fria. Estava muito gelada! Cada pingo que encostava ardia como se fosse uma chicotada, e não tinha essa de se acostumar com a temperatura da água. Depois que saí do chuveiro parecia que eu estava no céu. Dá um barato; tudo fica lindo, suave; é como estar no Nirvana.


Noites claras e madrugadas animadas em Gelsenkirchen-Bismarck. Foto: Ricardo Socalschi.

À noite, todos se reuniam nas mesas até tarde, ou até amanhecer. Todos. Os atores, os organizadores, os diretores dos grupos, os diretores dos teatros. O symposium misturava vozes em várias línguas, com vinho francês e cerveja alemã. Como a noite é curta no verão alemão, o sol se põe lá pelas dez da noite e as onze horas da noite o céu ainda estava claro. Amanhece rápido e nos dias mais quentes é impossível ficar dentro da barraca depois que está muito claro. Também não dá vontade de dormir cedo pois há muita gente interessante acordada. O resultado é que se dormiu pouco nessas duas semanas.

Mas na primeira noite a festa não foi na vila. Isto fica para o próximo post.

Há várias outras fotos no site do festival, no grupo Play-off/06 no Flickr e no site do fotógrafo Benjamin Stöß.

3 comentários:

Denise Arcoverde disse...

Suas fotos são maravilhosas, Helder! muito legal, seu blog :-)

Ana Lucia disse...

Helder que maravilha de viagem. O CDG é um inferno, o meu vôo pra Montreal era um desses bem baratos, a ida foi tranquilo, mas a volta foi um saco, filas enormes, eles entupiam os ônibus de gente, sem contar que o cara que fazia o controle da companhia qdo via um negro com passaporte canadense pedia pra pessoa mostrar um outro documento...coisa que nao se faz em lugar nenhum, com a desculpa de que fazia isso porque o passageiro nao era nascido no Canada, um absurdo, porque aqui nao se faz em lugar nenhum essa diferença...Enfim estou adorando o relato da viagem e as fotos. Brigada pelo codigo la no blog, eu coloquei no template, vamos ver se agora funciona ! Beijos

Padim disse...

Helder... cara... ainda to meio pasmo com tanta informação. Cheguei até aqui através do site sobre Dante. Parabenizo tanta dedicação. Seguindo, já baixei também algumas apresentações de Astronomia. Claro que são anos de estudo acumulados e processados, mas continuo impressionado com tanta informação. Isso lhe dá crédito: vou ter que voltar muitas vezes aqui para usufruir de tanto assunto bacana.
Abraço, Helder.