29.6.06

Como fomos parar na Alemanha?


O Núcleo durante ensaio no Consol Theater. Foto: Laerte Késsimos.

Fomos para a Alemanha por causa da peça Vestir o Corpo de Espinhos. A peça foi o resultado prático de um ano de pesquisas do nosso grupo: o Núcleo Experimental dos Satyros. Na minha opinião, o resultado final foi acidental, embora as cenas, imagens, temas e textos tenham sido inspirados pelo processo. Passamos o ano realizando exercícios criativos, explorando técnicas originais, estudando Antonin Artaud e explorando suas idéias através de improvisações, mas no final do ano ainda não tínhamos uma peça. Não havia texto; apenas um monte de idéias e ninguém concordava com elas. Estava tudo fragmentado, inclusive o grupo. Havia conflitos entre os membros do grupo e também entre o grupo e os Satyros. Havia pessoas querendo desistir de tudo, e vários desistiram. Fomos atrás de cenas nas idéias que tivemos no início do processo, quando mal sabíamos quem era Artaud. Diante da possibilidade de não realizar nada, começamos a perder o interesse. E aí veio a crise. Na primeira crise, surgiu o texto. Vários textos. Na segunda, veio a música, o movimento, até que começou a surgir algo que parecia ser uma unidade. Mas não foi fácil. A peça nasceu no último instante, movida por quase uma necessidade de sobrevivência, pois se não nascesse naquele momento morreria no útero, matando o grupo que tentou trazê-la à existência. A peça se fez porque seria insuportável que não houvesse algo para ser visto pelo público depois de um ano inteiro de trabalho. Então foi assim que no último final de semana útil de dezembro, depois de mais uma vez quase cancelarmos tudo, fizemos duas apresentações em dias seguidos. Seriam as únicas.


Cena das nove irmãs, no Studio-Bühne, Essen. Foto: Play-off/06.

Mas não foram as únicas. A platéia reagiu de forma totalmente inesperada. As pessoas saíram emocionadas. Na primeira apresentação em que haviam principalmente convidados e pessoas dos Satyros, eu ainda achei que fosse um caso isolado. Mas na segunda apresentação aconteceu a mesma coisa. Eu, que passo a peça inteira ocupado, ora atuando, ora fazendo a música, nunca consegui assisti-la para entender o que fazia as pessoas reagirem daquela forma. Mas o fato é que ninguém sabia o que seria da peça dali em diante. Havia a possibilidade de retomá-la no ano seguinte, mas ainda era algo incerto.

Quando o projeto do festival Play-off/06 foi divulgado em 2005, grupos interessados de todo o mundo foram convidados a inscreverem sua peça e enviarem um DVD com a apresentação gravada. Nós não sabíamos desse festival, mas na segunda das duas apresentações experimentais da peça Vestir o Corpo de Espinhos, Gustavo Fijaklow, um dos organizadores do projeto estava na platéia e assistiu à peça. Ele sugeriu à direção dos Satyros que inscrevesse a peça no festival.

Inscritos, precisávamos nos reunir para gravar um DVD da peça e enviá-lo para a Alemanha no prazo. O grupo selecionado iria representar o Brasil no festival. Havia vários outros grupos do Brasil e nossa peça tinha pouco a ver com o Brasil, mas não era isto que eles estavam procurando. Eles queriam exatamente o contrário: fugir dos estereótipos e descobrir as linguagens alternativas usadas pelo teatro contemporâneo em todo o mundo. Segundo Gustavo, um dos critérios usados na seleção foi exatamente a mistura de culturas. A maior parte das peças do festival tinham essa característica. Havia uma peça mexicana baseada em capoeira, atores dançando tango em uma peça polonesa, e várias outras peças com texto em mais de uma língua.


Maria Campanelii Haas, durante apresentação da peça no Flottmann-Hallen, Herne. Foto: Benjamin Stöß.

Estimulados pela possibilidade de sermos selecionados e pelas oficinas semanais do Núcleo coordenadas pelo ator do Teatro da Vertigem, Roberto Áudio, o grupo voltou a reunir-se e entramos em cartaz em São Paulo com apresentações aos sábados por dois meses. E foi no meio desse período que tomamos conhecimento de que havíamos sido selecionados para representar o Brasil no festival. Não seria fácil. O texto teria que ser traduzido, pois havia muito texto em português. Traduzimos algumas cenas para o inglês e outras para o alemão, e deixamos uma parte em português. Ensaiamos, discutimos, ensaiamos, brigamos, e no final fizemos, na véspera da viagem, duas apresentações seguidas: uma em inglês e alemão, e a última em português. No dia seguinte embarcamos para Düsseldorf em um vôo da Air France, e foi assim que fomos parar na Alemanha.

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