30.6.06

Play-off/06: a Vila


Amanhecer sobre a península Ibérica. Vôo São Paulo - Paris.

A nossa viagem começou no domingo, em São Paulo. O vôo para Paris sairia às quatro e meia da tarde. Nos encontramos todos em Guarulhos e ficamos esperando a hora do embarque. Chegamos cedo. O tempo foi suficiente para Ricardo se acidentar em um carrinho de transportar malas e para Aninha perder-se no aeroporto, mas no final todos embarcamos sem problemas.


Uma fila no Boeing 777 da Air France: Ricardo, Aninha e Peterson; Luís e Wanderley (na janela); Teka (na janela), Ana Pereira e Eu (fazendo cara de espanto). Fabiana, Andressa e Maria estavam em outra fila, à frente.

Acho que poucos dormiram no vôo da Air France até Paris (os que estavam perto de mim com certeza não dormiram). Chegando no imenso aeroporto Charles de Gaulle tivemos que pegar um ônibus para mudar de terminal, perdemos tempo esperando na fila errada, recebemos informações erradas mais de uma vez e só embarcamos no último instante no vôo para Düsseldorf, que durou aproximadamente uma hora. André Wülfing e vários organizadores do festival Play-off/06 estavam nos esperando no aeroporto. Todos chegaram bem menos a mala de Ricardo (não era mesmo o dia dele), que preferiu ficar em Paris. Mas ela foi resgatada e entregue no acampamento no final do dia. Embarcamos no mesmo ônibus que o pessoal do Togo e chegamos ao acampamento no início da tarde. Estava frio.


Antje. Foto: Play-off/06
Logo que chegamos, fomos recepcionados por uma moça exótica de cabelos vermelhos e levados até nossa nova residência na Alemanha. Era uma vila formada de diversas casinhas de pano (barracas) em volta de duas mansões (barracas grandes). A mansão colorida era uma extensão da praça de alimentação. A vermelha era o castelo de Antje, a moça de cabelos da cor de seu castelo, que estava sempre correndo de um lado para outro com um celular no ouvido e uma pasta na mão. Ela não parava. Visitava todas as casinhas da vila para saber se estava tudo em ordem. Acordava os habitantes para que não perdessem a hora, os eventos, as peças e os banquetes. Quando ela não estava, ou quando o trabalho era demais, aparecia André no mesmo ritmo, para nos lembrar que o ônibus sairia agora, e não se atrasaria, ou que não poderíamos deixar de assistir tal peça ou tal workshop.


A mina Consolidation e a vila internacional. Foto: Play-off/06

A vila ficava diante da torre de uma mina de carvão desativada. Do lado havia dois outros prédios onde ficavam os teatros. No lado oposto havia um parque gramado. Ao lado da torre foram instalados banheiros e chuveiros. Na entrada do acampamento havia uma cozinha (outra barraca) onde eram servidas as refeições, e várias mesas (a praça de alimentação) que tornaram-se o principal ponto de encontro do acampamento. Isto ficava do lado da barraca colorida.


Casinhas de pano. Foto: Ricardo Socalschi.

As casinhas de pano eram amplas e confortáveis. Tinham chão firme de madeira e cinco colchões cada. Éramos onze e ocupamos duas casinhas. Havia colchões extras, mas eu preferi usar meu colchão de ar. Além de nós, as casinhas também eram ocupadas por aranhas, de várias espécies e tamanhos, com as quais convivemos muito bem durante as duas semanas (eu pelo menos não tive problemas com elas). Entre as casinhas havia um lugar onde penduramos a nossa bandeira (que não durou muito, pois alguém gostou muito dela e levou-a embora).

Quando chegamos estava frio. Muito frio. Para piorar, fomos informados assim que chegamos que houve um problema no aquecimento no chuveiro masculino e não havia água quente. Só as mulheres tinham água quente. Antje nos deu a opção de tomarmos banho no chuveiro do teatro, mas eu Luís e Ricardo, os valentes, decidimos encarar a água gelada. A água do chuveiro não estava apenas fria. Estava muito gelada! Cada pingo que encostava ardia como se fosse uma chicotada, e não tinha essa de se acostumar com a temperatura da água. Depois que saí do chuveiro parecia que eu estava no céu. Dá um barato; tudo fica lindo, suave; é como estar no Nirvana.


Noites claras e madrugadas animadas em Gelsenkirchen-Bismarck. Foto: Ricardo Socalschi.

À noite, todos se reuniam nas mesas até tarde, ou até amanhecer. Todos. Os atores, os organizadores, os diretores dos grupos, os diretores dos teatros. O symposium misturava vozes em várias línguas, com vinho francês e cerveja alemã. Como a noite é curta no verão alemão, o sol se põe lá pelas dez da noite e as onze horas da noite o céu ainda estava claro. Amanhece rápido e nos dias mais quentes é impossível ficar dentro da barraca depois que está muito claro. Também não dá vontade de dormir cedo pois há muita gente interessante acordada. O resultado é que se dormiu pouco nessas duas semanas.

Mas na primeira noite a festa não foi na vila. Isto fica para o próximo post.

Há várias outras fotos no site do festival, no grupo Play-off/06 no Flickr e no site do fotógrafo Benjamin Stöß.

O Festival Play-off/06



Estou de volta depois de passar duas semanas na Alemanha participando do festival internacional de teatro Play-off/06. Foram duas semanas em que praticamente não peguei em computador (só usei nos cyber-cafés como meio de comunicação) e esqueci o que acontecia no mundo (exceto a Copa, que estava em toda parte, inclusive em Gelsenkirchen). Foram duas semanas em um acampamento com pessoas de quatro continentes, misturadas, e que se entendiam através do teatro. Para mim foram as melhores férias que eu poderia ter do trabalho. Além de atuar, assistir as peças e conhecer gente interessante, ainda descobri uma parte muito interessante e pouco visitada da Europa: a região do Ruhr, e visitei as cidades Colônia e Amsterdam, que ficavam próximas.

Há muitas histórias para contar. Todas as vezes em que alguém me pergunta o assunto não se esgota, então vou tentar contar tudo desde o início.

A ordem destes posts está um pouco confusa pois eu escrevi parte do texto na Alemanha em notas soltas em inglês e português, e misturei com textos que escrevi aqui, em São Paulo, quando voltei. Estou postando mais ou menos na ordem. Depois que eu terminar de publicar tudo vou tentar organizar melhor.

O Festival

Christian Strüder, diretor do Flottmann-Hallen, Herne; André Wülfing, diretor Play-off/06 e Berthold Meyer, diretor do Theater im Depot, Dortmund. Foto: Play-off/06.
O festival Play-off/06 foi idealizado há dois anos por André Wülfing, do Consol Theater em Gelsenkirchen. A idéia era reunir no Ruhr grupos jovens de teatro de todo o mundo e aproveitar a euforia em torno da Copa do Mundo ser na Alemanha para atrair interesse e obter recursos para a realização do evento. A princípio pensou-se em trazer grupos dos 32 países participantes da Copa do Mundo, mas no final só foi possível trazer 16. Com recursos governamentais e de empresas, o projeto pôde pagar as passagens e despesas de grupos que vieram da América do Sul, da Ásia, da África e da Europa, e agrupá-los em um acampamento internacional durante duas semanas, de onde partiriam para as apresentações em quatro cidades da região do Ruhr.


Kerstin Plewa-Brodam, diretora do Studio Bühne, Essen, dando boas vindas aos participantes na tenda central do acampamento. Foto: Play-off/06.
Não foi um festival como outro qualquer. A idéia mais original foi manter todos os grupos juntos em um acampamento. Vinte e quatro tendas padronizadas mais algumas outras avulsas abrigavam mais de 140 atores de 15 países e quatro continentes. Era uma babel de pessoas que se misturavam e se entendiam apesar das diferenças de idioma e cultura. O acampamento permitiu a aproximação que não teria acontecido se cada grupo tivesse ficado em seu hotel, como geralmente ocorre nos festivais. Tomar o café da manha em uma mesa compartilhada, esperar na fila do almoço, ou qualquer outra atitude do dia-a-dia poderia ser o pretexto para iniciar uma conversa e conhecer alguém que veio do outro lado do mundo. O acampamento era um pequeno mundo, e em duas semanas os grupos do mundo se misturaram. No final éramos como um só grupo.

E como nós, o Núcleo Experimental dos Satyros fomos parar na Alemanha? Isto eu já respondi isto em outro post.

29.6.06

Como fomos parar na Alemanha?


O Núcleo durante ensaio no Consol Theater. Foto: Laerte Késsimos.

Fomos para a Alemanha por causa da peça Vestir o Corpo de Espinhos. A peça foi o resultado prático de um ano de pesquisas do nosso grupo: o Núcleo Experimental dos Satyros. Na minha opinião, o resultado final foi acidental, embora as cenas, imagens, temas e textos tenham sido inspirados pelo processo. Passamos o ano realizando exercícios criativos, explorando técnicas originais, estudando Antonin Artaud e explorando suas idéias através de improvisações, mas no final do ano ainda não tínhamos uma peça. Não havia texto; apenas um monte de idéias e ninguém concordava com elas. Estava tudo fragmentado, inclusive o grupo. Havia conflitos entre os membros do grupo e também entre o grupo e os Satyros. Havia pessoas querendo desistir de tudo, e vários desistiram. Fomos atrás de cenas nas idéias que tivemos no início do processo, quando mal sabíamos quem era Artaud. Diante da possibilidade de não realizar nada, começamos a perder o interesse. E aí veio a crise. Na primeira crise, surgiu o texto. Vários textos. Na segunda, veio a música, o movimento, até que começou a surgir algo que parecia ser uma unidade. Mas não foi fácil. A peça nasceu no último instante, movida por quase uma necessidade de sobrevivência, pois se não nascesse naquele momento morreria no útero, matando o grupo que tentou trazê-la à existência. A peça se fez porque seria insuportável que não houvesse algo para ser visto pelo público depois de um ano inteiro de trabalho. Então foi assim que no último final de semana útil de dezembro, depois de mais uma vez quase cancelarmos tudo, fizemos duas apresentações em dias seguidos. Seriam as únicas.


Cena das nove irmãs, no Studio-Bühne, Essen. Foto: Play-off/06.

Mas não foram as únicas. A platéia reagiu de forma totalmente inesperada. As pessoas saíram emocionadas. Na primeira apresentação em que haviam principalmente convidados e pessoas dos Satyros, eu ainda achei que fosse um caso isolado. Mas na segunda apresentação aconteceu a mesma coisa. Eu, que passo a peça inteira ocupado, ora atuando, ora fazendo a música, nunca consegui assisti-la para entender o que fazia as pessoas reagirem daquela forma. Mas o fato é que ninguém sabia o que seria da peça dali em diante. Havia a possibilidade de retomá-la no ano seguinte, mas ainda era algo incerto.

Quando o projeto do festival Play-off/06 foi divulgado em 2005, grupos interessados de todo o mundo foram convidados a inscreverem sua peça e enviarem um DVD com a apresentação gravada. Nós não sabíamos desse festival, mas na segunda das duas apresentações experimentais da peça Vestir o Corpo de Espinhos, Gustavo Fijaklow, um dos organizadores do projeto estava na platéia e assistiu à peça. Ele sugeriu à direção dos Satyros que inscrevesse a peça no festival.

Inscritos, precisávamos nos reunir para gravar um DVD da peça e enviá-lo para a Alemanha no prazo. O grupo selecionado iria representar o Brasil no festival. Havia vários outros grupos do Brasil e nossa peça tinha pouco a ver com o Brasil, mas não era isto que eles estavam procurando. Eles queriam exatamente o contrário: fugir dos estereótipos e descobrir as linguagens alternativas usadas pelo teatro contemporâneo em todo o mundo. Segundo Gustavo, um dos critérios usados na seleção foi exatamente a mistura de culturas. A maior parte das peças do festival tinham essa característica. Havia uma peça mexicana baseada em capoeira, atores dançando tango em uma peça polonesa, e várias outras peças com texto em mais de uma língua.


Maria Campanelii Haas, durante apresentação da peça no Flottmann-Hallen, Herne. Foto: Benjamin Stöß.

Estimulados pela possibilidade de sermos selecionados e pelas oficinas semanais do Núcleo coordenadas pelo ator do Teatro da Vertigem, Roberto Áudio, o grupo voltou a reunir-se e entramos em cartaz em São Paulo com apresentações aos sábados por dois meses. E foi no meio desse período que tomamos conhecimento de que havíamos sido selecionados para representar o Brasil no festival. Não seria fácil. O texto teria que ser traduzido, pois havia muito texto em português. Traduzimos algumas cenas para o inglês e outras para o alemão, e deixamos uma parte em português. Ensaiamos, discutimos, ensaiamos, brigamos, e no final fizemos, na véspera da viagem, duas apresentações seguidas: uma em inglês e alemão, e a última em português. No dia seguinte embarcamos para Düsseldorf em um vôo da Air France, e foi assim que fomos parar na Alemanha.

Gelsenkirchen, Essen, Herne e Dortmund

St. Liudger Abbey Essen-Werden
Abadia de São Ludgero, em Essen-Werden, que hoje abriga a escola de artes Folkwang.

O festival Play-off/06 foi patrocinado e aconteceu em quatro cidades do Ruhrgebiet: Essen, Dortmund, Gelsenkirchen e Herne.

Essen é uma das maiores cidades da região do Ruhr, com pouco menos de 600 mil habitantes. Nasceu de um convento em 852 e cresceu junto com a ascensão da família Krupp (fiz um monte de notas sobre eles, e depois publicarei um artigo) e das mineradoras. Os Krupp eram industriais do aço e sua mansão, a Villa Hügel, que fica na periferia da cidade, é hoje um museu. A cidade viveu anos de intensa atividade industrial e riqueza em vários períodos do século XX. Hoje todas as minas e siderúrgicas da cidade estão fechadas, mas os escritórios centrais das maiores indústrias do ramo têm sede na cidade. A principal atração turística de Essen, na minha opinião, é o Zeche Zollverein XII, considerada a mais bela e mais eficiente indústria de carvão mineral do mundo quando foi construída. O teatro Studio-Bühne, onde apresentamos nossa peça, fica dentro do Zollverein.

Gelsenkirchen
Prédio no centro de Gelsenkirchen

Gelsenkirchen é uma cidade tranquila (quase: em dia de jogo da Copa do Mundo fica que nem o Brasil). Com cerca de 280 mil habitantes é a quinta cidade em população do Ruhrgebiet (depois de Dortmund, Essen, Duisburg e Bochum). Como as outras cidades do Ruhrgebiet, possui amplos parques, muitas casas e prédios baixos. A maior parte das construções da cidades é nova e muitas áreas residenciais são antigas colônias de mineiros. A cidade foi alvo de bombardeios aliados durante a Segunda Guerra Mundial devido à sua intensa concentração de indústrias e ao final da guerra, em 1945, um terço dos prédios públicos e casas da cidade haviam sido destruídos. A cidade é ótima para caminhar e há metrô, trem e ônibus para todo lugar. É facílimo sair de Gelsenkirchen e ir para qualquer outra cidade da região de metrô, ou pegar um trem para qualquer cidade da Europa. O acampamento do festival foi instalado ao lado de uma antiga mineradora (Bergwerk Consolidation) que hoje é o Consol Theater.

O sistema de transportes no Ruhrgebiet é bastante eficiente. No metrô, tudo é automático. Quando chegamos na estação de metrô Bergwerk Consolidation (a mais próxima do acampamento) ela estava deserta e tudo parecia desligado. Era engano. Ao aproximar-se da escada rolante ela começa a andar. Você compra os bilhetes através de um painel eletrônico, que tem instruções em alemão, inglês e outras línguas, e depois valida na estação ou no trem. O trem chega na hora. Os horários estão impressos na estação e quando o trem está perto de chegar, a informação aparece em um visor eletrônico. Do Consol Theater ao centro de Gelsenkirchen de metrô custava €2,00.

Flottmann-Hallen Herne
Flottmann-Hallen, em Herne

Não vimos muita coisa em Herne, cidade de 170 mil habitantes localizada entre Gelsenkirchen e Dortmund. Conhecemos apenas as estações de metrô e o teatro: o Flottmann-Hallen, onde nossa peça foi apresentada. O Flotmann-Hallen foi construído nos prédios e terreno de uma antiga fábrica, como a maior parte das instalações culturais do Ruhrgebiet. O prédio tem inspiração na arquitetura Art Noveau.

Dortmund é uma das principais cidades da região do Ruhr. Tem a mesma população que Essen, vários rinocerontes coloridos espalhados pela cidade (como a parada das vacas em São Paulo) e um monte de torcedores fanáticos pelo Borussia, o time da casa. Infelizmente eu não tive oportunidade de conhecer Dortmund nem vi nenhuma peça no Theater im Depot, que também participou do Play-off/06. Fica para a próxima viagem.

28.6.06

Zeche Zollverein


Zeche Zollverein Schacht XII. Foto: http://www.zollverein.de.

Projetada pelos arquitetos Fritz Schupp e Martin Kremmer em estilo Bauhaus, o complexo industrial Zollverein (Zeche Zollverein) é um símbolo que marca a ascensão e queda de toda uma indústria que dominou e formou a região do Ruhrgebiet. Na época de sua criação, foi considerada uma maravilha da eficiência. Foi a última mina a ser fechada na cidade de Essen em 1986. A coqueria (usada para transformar carvão mineral em carvão-coque, combustível essencial na indústria do aço) era a maior e mais moderna de toda a Europa na época de sua construção em 1961. Foi fechada em 1993.

Hoje Zollverein é um símbolo de renascimento. O complexo industrial, que desde 2001 é patromônio histórico mundial protegido pela UNESCO, busca hoje soluções inovadoras para reaquecer a economia de uma região que ainda possui um dos mais altos índices de desemprego da Europa. Foram investidos pela União Européia, o estado do NordRhine-Wesfalen (NRW) e a cidade de Essen um total de 110 milhoes de euros entre 2002 e 2007 para revitalizar Zollverein com um foco na industria criativa. O complexo hoje abriga diversas instituições culturais, uma incubadora de empresas, um museu de design: o Red Dot Museum, e a renomada Zollverein School of Management and Design.


Coqueria da Zollverein, fechada em 1993, hoje serve de espaço para shows e apresentações teatrais. Foto: http://www.zollverein.de

O complexo industrial Zollverein é imenso (veja uma foto de satélite). São dezenas de prédios interligados por túneis, pontes, tubos e cabos. É possível caminhar ou deslocar-se sobre trilhos de um setor para outro através das pontes suspensas que estendem-se por centenas de metros, interligando um setor a outro. Há muito espaço ainda a ser utilizado e parte do terreno está em obras. Todos os anos há alguma inauguração. Em 2007 Zollverein abrigará o Ruhr Museum e em 2010, quando o Ruhrgebiet for capital cultural da Europa, está prevista a inauguração da Cidade Invisível (Die Zweite Stadt), um museu subterrâneo 1000 metros abaixo da torre do poço 12 de Zollverein.

Eu estive no Zollverein várias vezes entre 5 e 9 de junho deste ano, participando do festival de teatro Play-off/06. Num dos prédios do Zollverein ocorreram a abertura do festival, apresentações teatrais (inclusive a nossa) e várias oficinas.

Veja mais imagens do Zeche Zollverein.
1) Zollverein Shaft XII2) Inside Zollverein3) Inside Zollverein
(4)(5)(6)
(7)(8)(9)

Crédito das fotos: 1, 2 e 3: Helder da Rocha. 4, 5 e 6: Uli Benke (Flickr).7: Gloria (Flickr). 8 e 9: Oliver Regelmann (Flickr)

27.6.06

O Ruhrgebiet

Ruhr Map by Daniel Ullrich (see URL below)
Mapa do Ruhr, por Daniel Ullrich

O Ruhrgebiet – ou região do Ruhr – é, com seus 5,3 milhões de habitantes, a maior metrópole da Alemanha e quarta maior da Europa (depois de Moscou, Londres e Paris). Está situada numa região localizada entre os rios Ruhr, Emscher e Lippe, afluentes do Reno, no estado de Nordrhine-Westfalen (NRW), oeste da Alemanha, bem próximo à fronteira com a Holanda e a Bélgica. É uma metrópole incomum formada por 11 cidades em quatro distritos e nenhuma cidade sede. As quatro maiores cidades, Dortmund, Essen, Duisburg e Bochum possuem juntas 2,1 milhões de habitantes. O restante da população reside nas cidades de Gelsenkirchen, Oberhausen, Herne, Mühlheim, Bottrop, Hagen e Hamm ou nas vilas e distritos. É uma metrópole multicultural: 12% da sua população tem origem estrangeira. O Ruhrgebiet é o coração industrial da Alemanha, a maior região industrial, pólo tecnológico, cultural e principal região produtora de carvão e aço da Europa.

Inner Harbour, in Duisburg
Porto, em Duisburg
É comum alguém morar em Gelsenkirchen, estudar em Essen, trabalhar em Bochum, ir ao teatro em Oberhausen e assistir um concerto em Dortmund. As cidades são tão próximas e tão bem integradas que parecem uma só. Por outro lado, o Ruhrgebiet difere bastante de cidades que cresceram da forma tradicional. Por ser descentralizada, une as vantagens das cidades pequenas, com seus comércios locais e áreas residenciais tranqüilas, com as vantagens das cidades grandes, principalmente em relação à cultura.

Houve uma época em que a cidade mais importante do Ruhrgebiet era invisível e ficava 1000 metros debaixo do chão. Toda a história da região está ligada à exploração do carvão e do aço. A crise do setor de mineração desde os anos 60 causou o fechamento da maior parte das minas e trouxe altíssimos índices de desemprego à região. Por concentrar tantas indústrias de aço e armamentos, as cidades do Ruhr foram fortemente bombardeadas pelos aliados durante a Segunda Guerra Mundial. Mas, apesar de todas as crises, a economia da região conseguiu sobreviver e ainda é o principal pólo econômico da Europa.

Tetrahedron in Ruhrgebiet
Tetraedro, em Bottrop
Antes conhecido pela poluição ambiental, o Ruhrgebiet é hoje uma referência em termos de recuperação do meio ambiente e social. Várias cidades têm investido em formas não poluentes de geração de energia (como energia solar) e em projetos de reaproveitamento do espaço urbano. Várias antigas indústrias e mineradoras hoje abrigam incubadoras de empresas, instalações culturais, restaurantes, clubes e outros espaços públicos. A metrópole conta com mais de 200 museus, mais de 100 centros culturais, 220 teatros e salas de concerto e 19 universidades e faculdades e é um dos centros de cultura mais importantes da Europa.

Um resultado dessa nova vocação é o recente título de Capital Européia da Cultura. Essen, como representante das cidades da região do Ruhr, foi selecionada pelo comitê de Cultura da União Européia para receber esse tíutulo em em 2010. O título é atribuído anualmente a uma cidade da Europa desde 1985. Desde 2005 as regras mudaram e as capitais são três: uma de um país fundador da comunidade européia, uma de um novo país membro, e uma de um país que não faz parte da comunidade européia. Em 2010, as capitais da cultura serão, além do Ruhrgebiet, as cidades de Pécs, na Hungria, e Istanbul, na Turquia.

Eu estive no Ruhrgebiet entre 5 e 18 de junho deste ano participando do festival internacional de teatro Play-off/06 que aconteceu em quatro cidades da região: Essen, Dortmund, Gelsenkirchen e Herne.

Veja outras fotos do Rurhgebiet
GelsenkirchenZollverein Shaft XIIBottrop Tetrahedron

Consol Theater

Consol Theater, seen from the camp

Em 1863, sete mineradoras combinaram suas minas de carvão mineral sob o nome Consolidation, popularmente chamado de Consol. Entre 1872 e 1876, Consolidation foi a maior mineradora da região do Ruhr. 15 mil toneladas de carvão por dia eram elevados da torre do prédio Consolidation 3, que deixou de operar em 1993.

Desde setembro de 2001 as áreas 3, 4 e 9 da antiga empresa mineradora Consolidation, que fica na localidade Bismarck de Gelsenkirchen, são ocupadas pelo Consol Theater. O teatro é localizado no prédio que era usado na ventilação das minas.

Entre 5 e 18 de junho deste ano, eu morei em um acampamento construído ao lado do Consol Theater, junto com outros integrantes de 15 países que participavam do festival internacional de teatro Play-off/06.

Outras fotos do Bergwerk* Consolidation e Consol Theater.
Bergwerk Consolidation (Consolidation coal mine)Camp and Consol TheaterBergwerk Consolidation from Google Earth

*Bergwerk significa mina em alemão. As minas, principalmente os complexos industriais, também são chamadas de Zeche.

22.6.06

De volta à realidade


Esta vila, que uniu pessoas de 15 países por 15 dias longos, noites curtas e madrugadas sem fim, hoje só existe na memória. Faz muita falta.

Estou de volta da Europa, tentando me adaptar as noites longas de São Paulo e à realidade. Estou preparando um post sobre a viagem, o festival, as cidades, as pessoas, as peças, as experiências. Talvez não seja um só, e se for, vai ser grande. Já postei algumas fotos no Flickr e no Fotolog.

16.6.06

Colonia (Köln)


Cologne (Köln), originally uploaded by Helder da Rocha.

Vista da cidade do alto de uma das torres da Catedral.

13.6.06

In Gelsenkirchen

Ainda estou na Alemanha. Este teclado nao tem acentos. Nao tive tempo para escrever no blog, mas assim que voltar ao Brasil eu vou escrever sobre tudo, sobre o Festival, sobre as pecas, sobre as pessoas que conheci e os lugares onde estive. As duas apresentacoes da peca, em Essen na semana passada, e ontem em Herne, foram otimas. A reacao foi muito boa. Gostei muito da maioria das pecas que vi dos outros 15 paises participantes. Vou escrever sobre todas elas. Tivemos reuniao com os diretores dos grupos e descobrimos muitas semelhancas tanto nas ideias e concepcao sobre o que eh teatro e quanto nos metodos de trabalho. Na sexta-feira havera outra reuniao com os diretores, e no sabado havera um grande evento de encerramento para 2000 pessoas. Fizemos Coloquei algumas fotos no Flickr.

1.6.06

Ein Körper in Dornen


Cena do início da peça (capturada de DVD gravado por Carlos Ebert). O cego que toca acordeón sou eu.

[An English version of this post is also available.]

Nas próximas duas semanas estarei na Alemanha, mas não tem nada a ver com futebol. Vou viajar com o núcleo experimental da companhia de teatro Os Satyros para participar de um festival internacional de teatro e fazer duas apresentações. A peça chama-se Vestir o Corpo de Espinhos. Foi criada através de um processo de dramaturgia coletiva que envolveu exercícios inspirados no surrealismo. Usou como ponto de partida a vida e obra do ator e escritor francês Antonin Artaud e procurou fundamentar-se sobre algumas de suas idéias. É uma peça impressionista.

Não é uma peça convencional daquelas que têm começo, meio e fim. Ela não tem estrutura aristotélica, não é tragédia, nem é comédia. É como se fosse uma poesia ou um quadro surrealista. É formada por várias cenas que têm em comum uma busca de consciência, de existência, ou de realidade. O tempo não existe e o espaço é a consciência, e o começo é tão incerto quanto o fim. Pode ser interpretada como um sonho que acontece dentro da mente da mulher atormentada que surge do nada antes do início da peça. E como é sonho, as imagens podem ser ilusões e as impressões podem não ser reais, mas o que se sente é real.


Cena dos cegos (capturada de DVD gravado por Carlos Ebert). Eu (atrás) e Ricardo Sochalschi.

Eu participo da peça de várias formas. Escrevi o texto de uma das cenas da peça, criei alguns objetos de cena (um feto, bengalas luminosas, olhos artificiais), faço o papel de um dos cegos e executo a trilha sonora ao vivo no piano, quando não estou em cena. Também fiz a tradução da peça para o inglês (na Alemanha a peça será apresentada em inglês com trechos em alemão e português).

No final do ano passado, nós fizemos duas apresentações experimentais. Numa delas, uns alemães que estavam passando pela praça Roosevelt entraram para assistir. Eles gostaram e nos convidaram para apresentar a peça na Alemanha. Não foi tão simples assim, houve ainda uma seleção, tivemos que gravar e enviar um DVD e no final nós fomos selecionados. Então no domingo viajaremos para a Alemanha para participar do festival internacional de teatro PlayOff'06 onde iremos representar o Brasil com esta peça, que terá apresentações em duas cidades do estado de Nordrhein-Westfalen.

Página da peça no site do festival
Link para a página da peça no
site do festival Play-off'06
A peça ainda está em cartaz em São Paulo até este sábado, dia 3 de junho, no Espaço dos Satyros I, na praça Roosevelt. Tem duração de 40 minutos. Há poucos lugares (apenas 40), portanto, quem quiser ver deve reservar o ingresso. Veja mais informações no final deste artigo. Veja também no meu site fotos das primeiras montagens da peça.

Então não vou mexer com tecnologia nas próximas duas semanas. Serão praticamente férias do computador (mas quando voltar eu vou ter que correr atrás do prejuízo). Não vou levar notebook, mas encontrando um cyber-café aproveitarei para olhar os e-mails e atualizar o blog com notícias e imagens. Vou aproveitar a viagem para ler O Fausto, de Goethe, na tradução inglesa de Walter Kauffman (ainda não vai ser desta vez que vou ler em alemão). Na segunda-feira pela manhã estarei em Paris esperando conexão. Ao meio-dia pousaremos em Düsseldorf (dizem que lá existe um vampiro). De lá iremos para Gelsenkirchen, onde ficaremos em um camping junto com os outros participantes de vários países. Fora o teatro, não planejei nada do que vou fazer por lá (só decidi que quero subir os 560 degraus da torre da catedral de Colônia; o resto eu decido no caminho.)

PS.: Os principais atores da companhia de teatro Os Satyros terminaram há pouco uma tournée de grande sucesso pela Alemanha, onde se apresentaram e foram ovacionados nos principais palcos do país com a premiada A Vida na Praça Roosevelt, da dramaturga alemã Dea Loher, dirigida por Rodolfo Vázquez (prêmio Shell de melhor diretor). Veja mais no blog do ator Ivam Cabral.

Vestir o Corpo de Espinhos
Espaço dos Satyros. Praça Roosevelt, 214. Tel.: 3258-6345. Sábado, 03 de junho às 19h. Duração aproximada: 40 minutos. Ingressos: R$20,00 (inteira) e R$10,00 (meia). Estacionamento: R$6,00.
Elenco: Fabiana Souza, Ana Lúcia Felipe, Ana Pereira dos Santos, Andressa Cabral, Helder da Rocha, Luis Paulo Maeda, Maria Campanelli Haas, Peterson Ramos, Ricardo Socalschi, Teka Romualdo, Wanderley Firmino
Texto: Regina Ciampi, Helder da Rocha, Luis Paulo Maeda, Andressa Cabral, Teka Romualdo e Wanderley Firmino.
Dramaturgia e figurino: Núcleo Experimental dos Satyros
Piano, acordeón e trilha sonora original: Helder da Rocha
Direção: Alberto Guzik
Assistencia dramaturgica e de direção: Laerte Késsimos
Coordenação do processo: Alberto Guzik, Ivam Cabral, Rodolfo Vázquez e Laerte Késsimos

A pedra de Ingá


Pedra de Ingá, originally uploaded by Helder da Rocha.

Os símbolos esquisitos que ilustram este blog e meu site não são invenções minhas. Estão escritas há pelo menos uns 500 anos (dizem que mais de 1000) em um monolito localizado no município de Ingá, na Paraíba. Não sei o que está escrito nem quem escreveu. Alguém sabe?