22.5.06

Os astrônomos



Quando deixaram a cidade não havia uma só nuvem no céu. Chegaram à casa do sítio na beira da estrada e em uma hora montaram os instrumentos. Elas logo perceberam e aos poucos foram cobrindo o céu em camadas finas e esparsas. Era sempre assim. Eles não desistiam. Eram pacientes. Esperavam o vento que as levaria embora.

O vento desta vez percebeu a prepotência e não gostou. Achou melhor acabar logo com a festa. Mandou uns cúmulos mais densos e uns estratos mais escuros que sorrateiramente cobriram o céu de branco.

Eles não saíram do lugar. Ficaram lá contando estórias e fazendo piadinhas com as formas das nuvens. Era só o que faltava! Notus agitou os nimbos que tornaram-se mais visíveis e mais barulhentos. Nuvens luminosas, em raios e faíscas secas, tremeram o ar com estrondos constantes. Um pingo, outro maior, dois, quatro, oito, dezesseis. Milhares. Em quinze minutos eles estavam loucos, correndo por todos os lados para guardar seus instrumentos de voyeurismo espacial, cobrir as lentes, fechar as malas, proteger as peças secas. Normalmente isto era suficiente. Mas não. Eles não iam embora! Estavam lá na varanda cantando felizes e esperando a chuva passar

O vento descontrolou-se. Mudou de forma. Tornou-se sádico, cruel. Maltratou árvores, arrancou folhas, espalhou a chuva sem dó aumentando o peso, o ritmo e o tom agudo dos seus pingos. Multiplicaram-se os raios e os trovões. Finalmente eles correram para os seus carros, mas já era tarde. Pedras de gelo afiadas já estalavam nas latarias, quebrando as telhas e estragando os telescópios. Equipamentos desmancharam-se e foram arrastados pela lama. Um raio cortou o horizonte e no estrondo nasceu Adamastor no céu incandescente. Molhado e perverso, arrancou duas árvores, lançou pedras, revirou a poeira, agitou os carros. Sua raiva materializou-se em funis negros e lamacentos, puxando fios, galhos, lentes, sapatos.

Os carros fugiam pela estrada. Até estavam tranqüilos ignorando a chuva no asfalto seguro. Boreas enfureceu-se. Minuano mesclou nuvens em cores e redemoinhos abrindo a terra e partindo a estrada. Instrumentos óticos, automóveis e corpos humanos desaguaram no rio, decorando com vidros e sangue seus penhascos de erosão. Bastou um raio para apagar toda a cidade. Por meia hora a terra estremeceu sob as nuvens, até que eles finalmente cansaram. Chega! Chega de violência. Era só um bando de astrônomos-pollyana, coitados! Calaram-se e deixaram Zéfiro espreguiçar-se numa brisa longa e suave. As nuvens relaxaram e aos poucos foram seguindo seu rumo, revelando as estrelas que iluminaram o céu como não acontecia há muito tempo, e a terra descansou em silêncio.

(jan/2005)

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