23.5.06

Encontro ao por do Sol



Havia neblina, mas era da imagem pois era como sonho. Foi num domingo à tarde (essas coisas sempre acontecem num domingo à tarde.) Eu estava dentro do ônibus. Eu conseguia vê-la esperando no segundo andar da plataforma, na sacada. Ela ficou lá em pé uns cinco minutos antes de ir embora. Não sei no que ela estava pensando. Ela olhava para o nada. Eu estava partindo, mas logo nos viríamos novamente. No entanto, ela estava lá esperando o ônibus partir, e aquele olhar eu nunca esqueci.

Anos depois ela partiu para sempre, ou fomos nós que partimos um do outro. O mundo nos afastou e hoje ela existe apenas na minha memória.

- Eu lembro desse dia.

- Sério?

- Sim. Eu não sabia se ia vê-lo de novo. Era como um sonho bom quando chega a hora de acordar. Eu não queria esquecer, não queria acordar.

Ela falava, mas eu não a via. Ela estava do meu lado e contemplávamos o Mediterrâneo que nunca vi. Eu apenas sentia a sua presença ao meu lado. Eu falava para o mar como se não houvesse ninguém ali, como se ela fosse a brisa.

- Você não veio, não é? Você não conhece?

- Não. Nunca fiz a viagem.

- Era seu sonho. Você devia fazer. Até brigamos por causa disso!

- Vou fazer.

- Este mar azul é lindo não é?

- É. Ainda vou vê-lo e lembrarei de você, quando vier.

As crianças estavam brincando no jardim. Eu era um cavalinho, e as duas estavam montadas nas minhas costas, as mãozinhas puxando meus cabelos. Riam tanto que soluçavam. E ela assistia a tudo e ria sem parar. Não sei de onde vieram essas imagens, esses sons e essas cores. Não sei de onde vieram os rostos das duas meninas que pareciam muito com ela. Mas nada disso existiu. Foi fabricado na memória.

- Era eu mesma. Você me escreveu uma carta em que falava disso.

- Eu sei.

- Foi quando nos separamos pela primeira vez. E tempos depois, perto do fim, eu mandei a carta para você, lembra? Você não lembrava dela.

- Lembrava sim. Eu não esqueceria essas imagens.

- Você me dizia que eram lembranças do futuro, e eu sonhei com ele também. Havia sapos e cajueiros e grilos cantando.

- Sapos. Era 23 de fevereiro.

- Era sempre 23 de fevereiro. Estávamos no balanço contemplando as estrelas. As mesmas que nos observaram quando tudo começou.

Diante de mim há uma parede. Atrás da parede há uma cidade. E na cidade há indiferença. Na cidade da indiferença tento respirar, mas o ar é pobre, e a angústia não consegue se materializar. A angústia é solitária, no meio da multidão, sou ninguém. Há contas para pagar. Mas essa é a parte menor da história. No escuro, não encontro uma mão para segurar e se encontro, é uma mão que segura a minha, mas que não irá buscá-la se ela se soltar novamente. Uma vez sonhei que no meio da multidão eu a perdia. Por um momento, um instante apenas, eu soltei a sua mão e nunca mais a vi.

- Eu segurei a sua mão no escuro. Mesmo cansada eu não soltaria nunca. E todas as vezes em que você se desvencilhou de mim, eu fui atrás. Você era minha vida, meu companheiro.

- Mas depois você não a quis mais.

- Nunca quis outra, mas ela sempre partia, e me deixava sozinha. Você queria o mundo.

- Foi o ipsilon.

- Foi. Lembra? Desde o início sabíamos os dois que ele chegaria um dia. Os universos paralelos se bifurcaram. Mas as lembranças eram reais. São mesmo lembranças do futuro. São lembranças dos outros universos que não aconteceram.

Ela calou-se. Ouvi apenas os ecos sumindo nas chapadas. Virei o rosto para sentir a brisa e acordei sozinho. O domingo chegava ao fim e a brisa tinha o cheiro da cidade.

(fev-2005)

3 comentários:

Aline disse...

Uau!!Simplesmente maravilhoso este texto.
Fiquei muito emocionada mesmo.
Parabéns!!!

Luly disse...

Vou usar suas palavras... Embarcamos em sonhos irracionais porque sabemos que é lá que está a intensidade da vida.
Gostei muito dessa frase e viajei no seu texto também.
Saudações e muita inspiração pra vc!
Luly.

Anônimo disse...

Mente brilhante...pensamneto brilhante, adorei suas frases, quanta inspiração.

Roseane