15.5.06

Ele é um bom menino


Foto: Fernando Donasci / Folha Imagem

Marquinho é um bom menino, pode confiar. God sempre dizia isto. Mesmo quando ele escapou da cozinha e tocou fogo na biblioteca. Ele é um bom menino. Mesmo quando ele queimava seus soldadinhos de plástico no banheiro só para ver os floquinhos pretos voando pelo ar. Ele só precisa de amor e carinho. É um anjinho.

Marquinho adorava brincar com fogo, mas a babá não deixava. Marquinho não gostava de babás. Elas sempre queriam conversar. Se ele era um bom menino, qual era o problema? É tão desumano não deixar ele brincar. Se todos podem, porque ele não pode?

Como ele conseguia, Ninguém sabe. Ninguém tem nome. Marquinho sempre arrumava fogo. Ninguém deixou que ele escapasse outra vez, mas não ligou quando ele mandou sinais de fumaça para ameaçar os seus amiguinhos. Na conversa tudo se acerta, não é babá? Um dia, Marquinho ligou para todos os seus amiguinhos para juntos brincarem de inferninho. God achou tudo uma gracinha. O doutor perguntou e ele disse que não era nada, que estava tudo sob controle. É melhor deixar quieto. Para que tanta sirene? É só fumaça. É só ameaça. Ele é um bom menino! Se o fogo se espalhou não é culpa dele, coitado. Deixa ele. Deixa ele ir.

Ele saiu para ver sua mamãe. Todos os seus amiguinhos bem comportados, foram correndo para os braços de suas adoráveis mamães, e receberam conselhos. Mamãe mandou que fossem brincar de carrinho, então espalharam-se pela casa para brincar de guerra. Partilharam os brinquedinhos e queimaram os carrinhos. Não perdoaram as babás malvadas. Bum! E foi-se a babá! Era um joguinho muito divertido. Rá-tá-tá-tá e vidro para todo lado. Rá-tá-tá-tá e sangue para todo lado. Rá-tá-tá-tá e gente para todo lado. A babá toca a sirene. Eba! Rá-tá-tá-tá e ela não mia mais. Tchau babá!

Marquinho e seus amiguinhos são bons meninos. Eles não têm culpa por suas travessuras. Se alguém tem culpa é você! Foi você que me colocou naquele lugar miserável, seu filho da puta! Você nunca me deu uma chance! Você ri da minha cara! Você me corrompe! Quero o que é meu de direito. O direito que você me deu. O que você tem não lhe pertence. Foi você que roubou de mim. Você não pode me tocar, mas eu posso lhe matar, assim, de brincadeirinha, quando eu sentir vontade. Pow-pow!

Marquinho é um bom menino. Ele sabe se comportar. Ele só pede que o deixem trabalhar em paz. God garantiu que já está tudo sob controle. Está mesmo! Ele sabia de tudo, era previsto. Se não soubesse, seria muito pior. Marquinho está de castigo. God proibiu-o de ligar para seus amiguinhos. Ele só pode receber telefonemas de sua mamãe. Está tudo sob controle. Rá-tá-tá-tá!

3 comentários:

Lafayette disse...

O problema do Marquinho foi ter "pai de novela" durante toda sua vida.

É assim que eu sou disse...

Olá Helder passei por aqui, e conseguí rir do Marquinho, pobre Marquinho, ou pobre de nós que estamos literalmente nas mãos do Marquinho? Mas ele não tem culpa né?
Um abraço

Ebert disse...

Se o Marquinhos estudou ou não, não faz diferença. Leia abaixo:
Escolaridade e criminalidade

Tese de Lula causa polêmica Maiá Menezes O Globo 19/5/2006
Ao responsabilizar a falta de investimento em educação, nos últimos 20 anos, pelo destino de milhares de jovens de 20 a 30 anos que lotam as prisões no país, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu uma polêmica. Especialistas debatem a declaração do presidente, dada anteontem, ao comentar a onda de violência em São Paulo. E alguns exemplos de estatísticas mostram que os rumos tomados pela juventude levada à criminalidade não estão exclusivamente relacionados ao índice de escolaridade.
Apesar de ter, segundo dados do IBGE de 2004, a quarta menor taxa de analfabetismo do país (4,8%), o Estado do Rio apresentou, em 2003, o segundo maior índice de homicídios dolosos (com intenção de matar) — 40,5 por cem mil habitantes. São Paulo, com 5,5% de taxa de analfabetismo em 2004, teve taxa de 28,3 homicídios por 100 mil habitantes em 2003 (quarto lugar no país). A segunda menor taxa de analfabetismo do Brasil (6,6%) não impediu a Região Sudeste de ser a primeira no triste ranking da violência, com 28,8 homicídios por cem mil habitantes. O Sudeste tem também o maior índice de freqüência escolar entre a população de 15 a 17 anos: 85,4%.
Estatísticas da ONU e da Unesco, com dados mundiais, reforçam a tese de que mais escolaridade não representa necessariamente menos violência. A ex-república soviética da Geórgia tem, por exemplo, 100% dos seus adultos alfabetizados, mais do que o Brasil, que tem 88,4%, mais do que o Peru (87,7%) e muito mais que o Egito (55,6%).
Entre os quatro, o Brasil encabeça o item número de homicídios por armas de fogo (19,54 por cem mil habitantes). A Geórgia também apresenta índices maiores (2,97 por 100 mil habitantes) que os de Peru (0,67) e Egito (0,02), menos alfabetizados.
Especialistas ouvidos pelo GLOBO concordam em um ponto: o investimento em educação é importante, mas precisa vir acompanhado de medidas federais de segurança pública.