5.5.06

Cría cuervos y te sacarán los ojos



Pedro Luís Inácio Brás criava corvos cubanos nas casas de suas amantes latinas. Alimentava-os com idéias genuínas. Beatriz Olívia os divertia com as folhas que Eva, sua governanta, colhia nos altiplanos. Uma tarde, as águias malvadas do norte sobrevoaram as proximidades da casa de Olívia, danificando as plantações. Eva revoltou-se e resolveu libertar os corvos insones. Foi nesse dia que Pedro, que era do leste, voltava de um bem sucedido mergulho em águas profundas. No caminho, ouviu os gritos de Nevermore e chegou a desconfiar da conspiração. Ligou para Olívia, mas ela o tranqüilizou com belas palavras. Ao chegar, tentou abrir a porta, mas não conseguiu. Eva havia mandado trancar tudo com novas Chaves e fechaduras Fiel, e ele não pôde entrar. Tentou entrar pela cozinha, ao sul, mas Nestor K., el cocinero, sempre atrapalhado, tinha perdido suas chaves. Chamou em vão por Beatriz Olívia, mas Eva, das muralhas, já controlava tudo com sua tribo. Os corvos sinistros estavam enlouquecidos. Apesar de livres, não partiam. Queriam estabelecer o que já tinham. Queriam tudo, queriam a casa, queriam a fazenda. Queriam Pedro, que estava lá, que não reagia, e que apesar de tudo, ainda cedia. Fortalecidos, cresciam em coragem e não mais hesitavam. Não mais reconheciam aquele que construíra a casa e que soube transformar ventos incandescentes em comida. Viam apenas um bandido, que roubara suas paisagens e agora queria seus ventos. Então, num rasante inesperado pela sinistra, golpearam Pedro Brás pelas costas, marcaram-lhe a face com suas cores, e sacaram-lhe os olhos. Beatriz Olívia assistiu tudo pela janela e por Luís Inácio nada pôde ou quis fazer. Acreditava em Eva, que sempre dizia: se os olhos foram levados, é porque as paisagens que ele via pertenciam aos nossos corvos; ele não as tinha quando chegou, e não era justo que as levasse embora. A casa ficou vazia e as torneiras foram lacradas, pois Eva acabou perdendo as Chaves, e as fechaduras Fiel continuaram, como sempre, muito bem fechadas. No dia seguinte, os ventos incandescentes se apagaram e os corvos espalharam-se pelo continente.

22 comentários:

Ana Lucia disse...

Oi Helder, vim retribuir sua visita, gostei do que vi e estou te linkando. Beijão.

Lucia Villa Real disse...

O que posso dizer deste post?
Me remontou a um filme de David Lynch.
Cenas inusitadas postas ao acaso mas cuja profundidade nos toca mais do que imaginamos ser possível.
Não chega a ser surreal, mas percebe-se uma busca pela imagem diferente; uma imagem arrebatadora e inesquecível, cuidadosamente trabalhada, e que, por vezes utiliza-se do surreal e do obscuro para causar impacto, e fazer-nos entrar no clima.
Adorei!

Helder da Rocha disse...

Oi Lucia,
As cenas não foram postas ao acaso, e a história é real. O problema são apenas as palavras, que deixei passearem sem coleira. Elas adoram metáforas e charadas. Tem muito, muito mais debaixo da superfície.

horvallis disse...

Helder,
Obrigada pela sua visita que me permeteu conhecer o seu blog e o seus outros trabalhos. Gosto muito - como não gostar, quando acho posts sobre o eclipse e uma tradução de Dante Alighieri ?

Lucia Villa Real disse...

História real Helder?
Agora me aguçou a curiosidade.
se quiser conversar sobre o post pois eu adoraria; lucia@serraon.com.br
Um abraço

Helder da Rocha disse...

Lúcia, tem uns personagens que aparecem em outras histórias de ficção escritas nos jornais. Essas histórias chamam de reais. Talvez haja mais por trás das máscaras de B. Olívia, Pedro Brás, Luís Inácio, Chaves, Fiel, Eva das Muralhas e o Kaiser da cozinha. O que seriam as folhas do altiplano que causam insônia, as tribos, os corvos, as águias do norte, o vento incandescente, as águas profundas, e os olhos que foram confiscados em troca das paisagens que eles roubaram? As histórias deste blog que mais parecem ficção, não o são, e outras que parecem reais, talvez só pareçam. As palavras aqui viajam para onde elas desejarem.

Helder da Rocha disse...

Para os que ainda não entenderam do que se trata este post de ficção, leiam esta outra versão.

Julio Cesar Corrêa disse...

Ôpa, Helder,
eu te achei através do Rafa Galvão e sabe como é blogueiro...vim parar aqui e não perdi a viagem. Seu texto me lembrou algo do Gabriel Garcia Marquez, não pelo título ou pelo local onde a ação se passa, mas pelo elemento fantástico. Escrito com muita maturidade. Parabéns!
gd ab e ótimo fds

luma disse...

Demorei um pouquinho pra perceber a sutileza dos seus escritos. Muita coisa subentendida, sem querer dar nome aos corvos! Gostei! Beijus

Guilherme Simon disse...

Olá Helder, também estou retribuindo a visita, declaradamente, já que não é a primeira vez que passo por aqui.

Assim como o Júlio, cheguei até o teu blog através de outros e gostei bastante por sinal.

Quanto ao texto, um convite. Ir além.
Muito bom.

Sonia disse...

Helder, vim retribuir sua visita e encontro esse texto intrigante. Voltarei para conhecer melhor o seu blog.

Sonia disse...

Fui ler a outra versão. Agora que os corvos têm nome, gostei ainda mais.

Mércia disse...

Que texto interessante!!!!
Obrigada pela sua visita lá no Espelho...bem-vindo!
Gostei do seu espaço.
Bjos...linda semana.

fernando cals disse...

Oi, Helder
Magnífica e edificante, a estória.
Os personagens estão aí mesmo e a alegoria esta perfeita.
Até quando?
Belo blogue, que vou, pedindo sua permissão, linhar nas plagas do Obs. Se voce não permitir, vai assim mesmo! Rsrsrsrssr.
Quanto ao Multiply, creio que você poderia, se tempo sobrar, voltar sua atenção para ele, que melhorou muito.
Abração
fernando cals

M. disse...

Esses amiguinhos safados.. vergonhoso.

Essa grande história já foi dita por alguns.

Dê uma conferida nesse blog para checar: http://s-walker.blogspot.com

Além disso, alguns outros amigos andam fazendo história por aí, como pode ser visto em meu próprio blog.

Parabéns pelo texto e voltarei sempre, com certeza! Allan Poe e críticos políticos ficariam orgulhosos de ti!

gugala disse...

...e a águia do norte, só observando...pronta pra caçar os corvos com os olhos ainda sendo digeridos . Ótima fábula(?) lat(r)ina! Abç

fernando cals disse...

Oi, Helder,
lembrei de outra coisa, em relação ao Bloglines. Quando coloquei o seu blogue, pelo Firefox, ele não aceitou.
Fui para o IE, e tudo bem.
Poderia ser essa a razão da não aceitação do Obs?
Quem sabe?
abraços
fernando cals

Anônimo disse...

Historinha legal. Metáfora errada. Pedro é ladrão. Ele roubava a fortuna de Olivia pagando menos de 10% do que devia e agora quer se fazer de santo benfeitor.

ailton disse...

eu entendi de cara, rapaz. E gostei muito. O lance de "amantes latinas" me lembrou Garcia Marquez. Tenho que dizer que não consegui descobrir quem era Beatriz Olívia. Outra coisa: vc não devia ter explicado o conto. Se não entenderam, é porque os corvos tinham arrancado os olhos da política desses. Era ora ter deixado assim.

Helder da Rocha disse...

Olá Ailton. Eu não expliquei tanto; foi apenas uma hipótese. E na verdade, a outra versão não tem nada a ver. É mera coincidência. Houve quem seguiu o link e ainda não ligou uma coisa com a outra.

B.Olívia solta muito pum, mas ninguém reclama de seus gases. Ela é mãe de Eva, mas não de Pedro, que é filho de Brás. B. Olívia e Brás são vizinhos. É claro que tudo isto é especulação. Estou inventando interpretações que não existem.

Lafayette disse...

Caramba! Através de um "viaje..." cheguei neste "viajando..." (até postei no meu o teu excelente comentário).

Coisa fina aqui, heim? Vou ficar.

Rafael Slonik disse...

Cacete!
Somente um palavrão para definir minha forte e positiva impressão do texto.

Linkado ao novo-mundo.org amigo.