17.5.06

Amores imaginários



Eu pensei que fosse ciúme. Não era. Descobri enquanto caminhava, enquanto subia e descia as ladeiras e desviava dos buracos nas calçadas. A noite estava fria. A lua estava bela. Iluminava as nuvens. Havia estrelas.

Não era ciúme. Talvez fosse inveja. Acho que era. Era inveja. Inveja do espaço, do mundo, da liberdade de mostrar, de amar e de gritar. Talvez de não poder mostrar, como outros puderam. Talvez de não poder gritar. Uma liberdade não exercida, talvez, por reciprocidade.

O grito é restrito. Te olho com desejo, te beijo calorosamente na frente de todos, te toco, te faço carinho; exponho ao mundo o amor que sinto. Mas tudo fica naquele recinto, naquela praça, naquele palco. Para o resto do mundo, como no mundo das palavras, eu existo sozinho. É como se não nos conhecêssemos, ou como se fôssemos apenas conhecidos, amigos virtuais, nada mais.

Há liberdade em não se expor. Mas acho que há mais em revelar. Gosto da transparência, de não precisar esconder o que existe, ou penso que existe. Assumo o risco das tragédias, dos desmoronamentos, das mágoas, dos ressentimentos. Desconfio que a verdade das coisas que precisam se esconder é limitada ao universo onde elas se escondem. Mas meu amor transborda. Ignora limites. Ignora verdades. É faminto. É megalomaníaco. Quer existir em todos os mundos. Quer revelar-se sem pudor. Quer ser tudo. Talvez queira demais, e por querer tanto sente-se preso, e sentindo-se preso, talvez queira fugir, talvez queira arriscar-se em universos maiores, irracionalmente, como sempre age o amor.

Meu amor não quer esconder nada. De ninguém. Se amamos porque o mundo não pode saber? Talvez o mundo nem se importe tanto. Se nos revelamos ao mundo, nos revelamos apenas por apelidos e charadas. Disseminamos a incerteza, e a incerteza agora nos atinge.

Selecionei fotos de viagens, de paisagens deslumbrantes. Cogitei publicá-las, mas me vi escolhendo apenas aquelas em que ela não estava. Não quis misturá-la com a realidade. Mas é a realidade que eu temo, pois a realidade existe e aparece. Pode não ter borboletas, pode não ter cerejeiras, pode não entender a profundidade do que significa comer-se, mas espalha-se transparentemente, expõe-se pelos espaços vastos e permanece, intensifica-se, e cresce, sem temer revelar-se, mesmo quando ainda é um mistério. O que está oculto, por mais belo e mais intenso, por mais autêntico, livre e sincero, vira apenas sonho, memória ou bela história. A realidade está me levando, com um amor que espalha-se sem pudor, mesmo com dor e amor incerto. O meu outro amor que ainda quero, que mais eu quero, que eu quero livre, que eu amo, ninguém conhece. Oculto permanece sem nunca revelar o nome.

4 comentários:

Alessandra disse...

Nossa imaginação é infinita, mas nós mesmos somos reais. Eu te amo muito, Sputnik.

Séverine disse...

Helder, obrigada pela dica - muito útil - e pela visita! Passarei aqui mais vezes, sem dúvida.

E, pra retribuir, deixo aqui uma dica também. Nem tudo é como gostaríamos que fosse, mas se valer a pena do jeito que é, por que não?

Copo Vermelho disse...

Helder, enviei detalhes sobre a Festa do Copo Vermelho para o hlsr@uol.com.br. Aguardo sua resposta no email confirmafesta@oquetemnocopovermelho.com.br

Abs,
Copo

Anônimo disse...

Achei lindo, profundo e dolorido o texto. Parabéns! Um abraço, Re