18.4.06

O retrato de Rosa



Era uma tarde muito quente; tão quente que parecia que o tempo havia parado. Nada se mexia. Não havia brisa nem vento. Ao lado da porta havia um cão morto. Talvez não estivesse morto, mas parecia. Não se mexia. A porta estava fechada. A porta e todas as janelas da casa. Ele bateu três vezes.

Depois das três batidas houve um silêncio profundo. O cão não se mexeu. Nem as folhas do umbuzeiro, nem as flores dos cactos. Geralmente nesses cariris há galinhas; pelo menos bodes. Não havia galinhas; e nem bodes. Só um cão estirado estirado na areia quente que parecia morto.

– Ô de casa! – ele gritou, e bateu palmas sete vezes. – Talvez estejam dormindo, como o cão – pensou. – Está muito quente. O ar não se move. A preguiça é infinita. Não seria muito improvável que estivessem dormindo, pois era uma tarde muito quente.

Depois do grito e das sete palmas o silêncio retornou. Desta vez parecia mais profundo, pois nem o eco ele foi capaz de manter na memória. Até esqueceu que havia batido na porta três vezes, do ô de casa e das sete palmas. Era como se tivesse sonhado, mas não como se tivesse feito. Talvez não tivesse feito nada mesmo. Então repetiu tudo outra vez: as três batidas, – Ô de casa! – e as sete palmas.

Desta vez, diferente das outras vezes, o silêncio não ficou mais profundo. Mas o eco de tudo repetido reverberava na memória de forma sinistra. As batidas pareciam estrondos, o grito parecia dizer outra coisa, e as palmas pareciam pancadas na água. Sentiu um cheiro forte, de sangue ou de brisa úmida, como se estivesse diante de um rio. Mas não havia rio algum. E não havia brisa.

A pele do cão mexia-se, como para livrar-se das moscas que ele não conseguia ver, e pôde perceber que respirava. Mas o cão não teve a coragem de sequer abrir um olho para saber quem batia naquela porta.

O silêncio continuava e o tempo parecia não passar. Finalmente ele rendeu-se e sentou-se na soleira da porta. Alisou a cabeça do cão que parecia morto, que pareceu gostar porém não teve ainda a coragem de abrir um olho qualquer, nem mesmo mexer a orelha. Contemplou o horizonte e lamentou, por um instante, que o tempo tivesse parado para o mundo inteiro, mas que ele precisasse sentir cada segundo que passava. Estava muito quente. Ouviu vozes, pessoas correndo. Era miragem. Sentou-se e talvez tenha adormecido.

É provável que tenha mesmo adormecido, pois quando tomou consciência de si, o cão já não estava mais lá. O Sol já havia baixado bastante, embora ainda estivesse muito quente e claro. Por um instante sentiu frio nas suas costas molhadas. O cão não estava mais. Era tão incrível que chegou a pensar que o cão nunca estivera. Não era verdade. Lá estava o cachorro estirado diante da porteira, com o pescoço colado no chão duro. Parecia morto, como da primeira vez.

É provável que tenha adormecido outra vez, pois na segunda vez que tomou consciência de si foi ao ouvir alguém tentando abrir o trinco da porta. Agora já anoitecia e era difícil distinguir o que se via. Mas lá estava o cão bem vivo e alegre balançando o rabo diante dele como se fosse conhecido. Levantou-se rapidamente e ficou de pé, diante da casa, esperando que abrissem a porta. Ouviu estalos, as duas metades se abriram por igual, e ela apareceu.

– Pois não? – falou a simpática senhora gorda que o encarava com olhos semicerrados. – O que o senhor deseja?

Ele não sabia. Havia esquecido. Quanto mais pensava, mais improvável parecia o lugar, o cachorro, o calor, a senhora gorda, o cheiro da brisa que não havia. E ficou em silêncio.

Mas algo o incomodava na garganta. Queria falar. Tinha algo para falar. Sabia o que era, mas não sabia. Era como se a idéia não viesse de dentro. Uma coceira na garganta.

– Valdecir.

Quem era Valdecir? Nunca ouvira falar. Mas, porque perguntava isto. Quis olhar para o lado, mas não conseguiu. Buscou na mente palavras mais certas, mais precisas, mas elas não se encaixavam. Começou a ficar tonto. Sentiu alguém lhe apertar a mão molhada, uma pancada na cabeça, um arranhão. Muita dor. Não. Era outra ilusão. Estava tudo calmo, e a senhora gorda sorria. A garganta ardia, como se tivesse bebido gasolina, mas ela falou antes.

– Valdecir não está, meu filho. Ele viajou. Volta amanhã. Se quiser esperar, fique à vontade. Você vem de longe? Seja bem-vindo. Como é seu nome? Não quer entrar?

Na verdade, tinha vontade de perguntar o que estava acontecendo, o que era absurdo. Por que ela saberia? Mas sua boca não lhe obedecia. A garganta doía e parecia estar entupida. Sentia como estivesse se afogando, mas alguém puxou a sua mão.

– Rosa?

Foi a única coisa que pronunciou.

– Sou eu! – ela respondeu sorrindo, quase rindo – O senhor conhece Valdecir?

O cachorro sentou-se aos seus pés e continuou a abanar o rabo feliz. A sensação era de quem volta para casa depois de uma longa viagem. Ele a conhecia; tinha certeza. Queria dizer alguma coisa, mas só conseguia falar com os olhos.

E ela entendeu. Seja o que foi que ele falou através do olhar, ela entendeu e não falou mais uma palavra. Os dois se abraçaram e ela chorou. Ele, ainda confuso, deixou-se levar por aquele momento e chorou junto, com sinceridade, como se fosse despedida.

Não lembro quanto tempo permaneci assim. Em algum momento, certamente devo ter adormecido, pois quando acordei, não havia mais nada.

O gosto do rio ficou mais intenso, mas meus lábios ainda tinham gosto de sangue. Senti minhas costas de novo molhadas. O corpo inteiro doía e minha garganta ardia. Ouvi vozes de pessoas correndo e som de água caindo. Cheiro de gasolina. Não era sonho. Abri os olhos e vi o céu.

– Você está bem, meu filho?

Era minha mãe, me olhando do alto. Parecia. Não, não era minha mãe. Era sonho. Som de serra elétrica. De um lado, no alto, a ponte com a guia quebrada. Do outro o ônibus virado na água. Alguém me levantou pelas pernas e pelo braço, e depois fui virado de lado, numa maca dura. Lá estava ele, com seu rosto olhando para mim. Os olhos fechados. A pela rachada. Seu bigode sujo de lama parecia sorrir, silenciosamente, me dizendo adeus. Naquela mão fria a vida não mais existia. Mas na minha mão havia um retrato. Era o retrato de Rosa.

Um comentário:

Lucia Villa Real disse...

Verbalizar o que este texto me fez sentir é quase impossível.
São os ciclos se repetindo, com ondas do mar, gestos há muito repetidos sem que saibamos o porque, três batidas na porta, sete palmas, silêncio profundo, um grito; - Alguém em casa?
Silêncio, e o eco volta em ondas, reverbeando contra as paredes da alma, como os ecos do passado; lembranças antigas que costumam povoar nosso inconsciente, voltando em ondas, sem nexo, nos momentos mais improváveis.
Tenho um post semi-alinhavado sobre esse tema, um dia quem sabe tomo coragem para verbalizar os medos escondidos por trás dessas dúvidas tão antigas.
Excelente texto.