10.4.06

Ensaios sobre a nudez



Isto é uma revelação. Inútil, talvez. Excessiva exposição. Talvez não. Vou publicar, por embriaguez. E já que você está lendo, considere-me humano, sensível, confuso e honesto. Considere-me vivo. Considere-me bom. Sou uma criança de 37 anos. Amo a vida, amo meus pais, meus amigos, minhas mulheres. Não acredito que exista quem saiba como se vive no mundo, quem tenha tido acesso às instruções de uso. Eu não ligo muito para isto, mas me interesso em tentar descobrir, mesmo que não faça sentido para ninguém mais. Eu acho que existem leis na natureza, mas ninguém as conhece. Não creio que elas estejam escritas em algum livro, muito menos reveladas em palavras a algum iluminado, e se foram, só servem para ele. Nós criamos teorias sobre elas, e isto é o mais próximo que conseguimos chegar. Eu tenho um corpo. É assim que percebo. E meu corpo interage com o mundo e me causa sensações. Eu tenho uma mente, que talvez só exista no corpo, mas que é capaz de pensar sobre ela mesma, dando a impressão que é algo além do corpo. Talvez seja. Talvez não. Eu não sei a verdade e tenho certeza que você não sabe. E isto não me importa. Isto não faz diferença. Isto não vai fazer o mundo melhor. O que pode fazer o mundo melhor é o que você acredita que é sua verdade, e o que eu acredito que é a minha. Minha verdade, nas suas questões mais profundas, dificilmente será a mesma que a sua. Só podemos concordar com o que vemos, com o que sentimos, com o que medimos. Nosso deus é pessoal. Se é o mesmo para todos, assim podemos até crer, mas nunca podemos argumentar.

Pois eu tenho uma mente e não posso impedi-la de pensar. Eu tenho um corpo e não posso impedi-lo de descobrir-se, de se tocar, de querer tocar os outros. Eu vivo num mundo e desejo decifrá-lo, e para isto busco explorar seus limites. Seus limites estão, talvez, nos limites dos outros vivos, nas forças da natureza, na gravidade, no preço de viver em sociedade, nos costumes, nas autoridades, no dinheiro, nos riscos, nas fatalidades. A ética do mundo me deprime, às vezes, mas às vezes me enche de vida. É contradição? Não sei. Sou ignorante. Às vezes quero ser. Mas geralmente sinto incontrolável vontade de não ficar quieto. Interesso-me por tudo. Uma faísca pode causar um incêndio. Uma faísca acidental pode nortear uma vida, ou destrui-la. Sou inconstante? Não sei. O que é ser constante? Pedras são constantes? Bichos deveriam ser? Eu sou um bicho. E se for melhor para a saúde dos bichos que eles sejam inconstantes, e se for mais prazeroso, e se for mais belo, mais misterioso, provavelmente seja certo ser inconstante. Eu procurarei uma máscara, ou talvez um vidro translúcido e áspero para me adaptar ao mundo sem perder a identidade.

Identidade. Certeza. Palavras surgem nas frases sem que eu tenha tempo de entendê-las. Essas duas eu também não entendo. E eu sei que escrever não ajuda tanto, só piora. Se o mundo fosse governado pela razão, pelas palavras, não haveria necessidade de escrever. As palavras são ocas, esponjosas, e qualquer coisa que passar por elas, boa ou ruim, doce ou amarga, imaculada ou podre, penetra nelas, deixando-as impregnadas.

Eu escrevo isto para quem puder me ver como um animal. Humano. Eu vou me despir. De perto você não me achará normal, assim como de perto eu não vou encontrar a pessoa que você é. Ninguém chega tão perto. Ficamos à distâncias adequadas. Geralmente ficamos mais distantes que o adequado, e talvez por isso sejamos tão infelizes, tão solitários. Eu tenho uma imagem sua. Meu amigo, minha irmã, minha mãe, meu pai, meu irmão, minha amiga, minha namorada, meu conhecido, meu colega. Você tem uma imagem minha. Cada um de vocês tem uma imagem diferente. E eu, tenho uma imagem minha também, e que não sou eu. Eu tenho muitas imagens. São teorias sobre quem eu sou. De vez em quando, rasga uma cortina, ou cai um penhasco, e minhas teorias desmoronam.

Mas eu ainda não escrevi o que eu queria escrever. Talvez hoje não seja o dia. Hoje estou feliz, e as coisas estão claras demais. A chave abriu mais portas do que eu imaginei que pudessem existir. Ainda estou acostumando a vista. Desisti de me despir. Tem luz demais. Isto não é um diário. É um jornal. Aqui tudo é ficção. E o idioma não é adequado.

2 comentários:

Julliana Veloso disse...

E esse foi o melhor post que eu li aqui em todos os tempos.

Como estás?

ps: grata pelo "visual" =)

Ricardo Marinelli disse...

sobre a a nudez?

vamos conversar sobre o que significa estar nu diante das pessoas e do mundo. É o que estou tentando fazer em meu próximo espetáculo:
www.nudezmentiracumplicidade.blogspot.com

abraços,
ricardo