13.4.06

A palavra que não encontro


In the beginning was the word, the word
That from the solid bases of the light
Abstracted all the letters of the void;
And from the cloudy bases of the breath
The world flowed up, translating to the heart
First characters of birth and death.
(Dylan Thomas, In the Beginning)
Ela foge porque odeia a definição. Não adianta procurar. A mente é muito vasta e os sons infinitos. Essa roupa ela não quer vestir. Não vai. É melhor esquecer; tomar um café, caminhar. Pensar mais só ajuda a afastá-la. O som não corresponde. A forma está errada. A imagem é distorcida. É suave onde deveria ser dura e áspera onde deveria ser lisa. Não tem cheiro. Não arranha. Não cabe.

Ah, mas é lei. Está escrita, estática, em traços mortos, claramente, no vocabulário da academia. Se a lei exige, o que fazer? Não tem como escapar. Tem que aceitar. Até porque está lá, impressa e classificada. Não se pode inventar outra sem justificativa racional. Se existe, é para ser usada. Não lembra? Vai lá procurar!

Mas se tentares lembrar, assim, na hora, no repente, no desamparo, não terás chance. Tomara que esqueças a ordem das letras, que tropeces nos sons semelhantes. De onde veio esta coisa? Não nasceu da fala humana. Parece obra de burocrata. Talvez de escrita estrangeira impondo-se à voz. Por que é tão grande? Por que é tão feia. Vai, escolhe outra. Inventa! Não muda de idioma. Arranja outra abstração. A luz tem base sólida, é natural, é intensa, é verdadeira. Não sacrifiques o essencial. Ao poeta, só interessa o essencial. O essencial é invisível às letras, que são apenas fantoches, talvez iscas, talvez nada. Agora é a hora de criá-la, inventá-la a partir do nada. Deixa que ela te possua, revelando seu ritmo no sopro vital e traduzindo-se ao teu coração, e com sangue pulsante escreva sua morte, dando-lhe a vida.

Um comentário:

Renata disse...

"A gente pode não controlar o sentimento mas deve controlar a atitude"

Obrigada pelo comentário no Kit Básico.
Renata