23.3.06

A Queda

A expulsão do paraíso de Michelangelo - Capela Sistina, Vaticano

(Dois jovens sentados num banco de praça, ao lado de uma linha pintada no chão.)

IVO – Ele vai descobrir.

ATA – Não, vai não.

IVO – E se ele descobrir?

ATA – Não vai se importar.

IVO – Vamos embora?

ATA – Sim. Está na hora.

IVO – Promete que nunca mais voltaremos aqui?

ATA – Nunca mais.

IVO – Então vamos logo. Quero esquecer tudo isto. Estou muito triste.

ATA – Mas não fizemos nada de errado.

IVO – Atravessamos a linha. Ele sempre disse que isso não podia.

ATA – Sim, mas não aconteceu nada. Voltaremos e tudo será como antes.

LUX – Fiquem mais um pouco.

(Ata e Ivo olham para Lux - uma figura estranha, colorida, sem sexo definido.)

LUX – Ainda é cedo.

IVO (para Ata, assustado) – Quem é?

ATA – Não sei. (levantando-se) Vamos embora.

LUX – Ainda não está terminado. Fiquem.

(Ivo não tira o olhar de Lux, como que hipnotizado.)

ATA (para Lux) – Não podemos, nosso tempo acabou.

LUX – O tempo não acaba.

ATA – Acaba sim. Nós temos que ir (força Ivo a levantar-se). Adeus.

LUX – É o medo.

ATA (irritada) – Quem é você?

LUX – Você tem medo de mim.

ATA – Tenho sim. Não conheço você.

IVO (assustado) – Vamos embora!

LUX – Eu sou Lux. Estou aqui para lhes dar a liberdade.

ATA – Acho que você enganou-se. Estávamos de passagem. Não somos prisioneiros. (para Ivo) Vamos!

LUX – É claro que são. Seria uma pena que voltassem para suas prisões.

IVO (insistente) – Vamos embora!

ATA – Não somos presos. Podemos ir para onde desejarmos.

LUX – Vocês desejam?... Talvez sim. Senão não teriam atravessado a linha. Mas deve ter sido uma faísca acidental. Se fossem livres não voltariam.

ATA – Por que você diz isto?

LUX – Vocês não pensam.

ATA – Claro que pensamos! O que você acha que estamos fazendo? Quem é você?

LUX – Não pensam. Suas decisões não são suas. São programadas. Mas há falhas... Vocês são tão inocentes que param para filosofar com um estranho, como se realmente existissem e pudessem tomar decisões.

ATA – Pois eu estou indo porque eu quero ir. Eu decidi. Se não fui ainda é porque não quis! Só fiquei aqui conversando porque... porque achei insólito conversar com um...

LUX – Não foi você quem decidiu que era a hora de ir.

ATA – Claro que foi! Esse diálogo é absurdo. Nem acredito que estamos discutindo isto. É loucura.

IVO – É mesmo! Está tudo errado. Vamos embora!

ATA – Vamos. Está na hora.

LUX – Por que agora é a hora?

ATA – Porque nós queremos ir agora. Decidimos ir agora, entendeu?

LUX – Ah... então eu devo tê-los confundido. Peço desculpas. Adeus!

ATA – Adeus!

(Ivo começa a sair. Ata fica imóvel. Lux volta-se para o lado de onde veio.)

ATA – Espere.

IVO (sem entender) – O que você está fazendo? Ficou louca? Vamos embora!

LUX – Sim?

ATA – Quem é você?

LUX – Que diferença faz. Vocês sabem quem vocês são?

ATA – Eu sei quem eu sou.

LUX – Sabe? Você sabe talvez a identidade que lhe foi atribuída: um nome, um código, um número. O que é isto? Quem realmente é você?

ATA – Você não respondeu a minha pergunta...

LUX (ignorando-a) – Você é uma mera sombra. Você só obedece. Na verdade, você não existe, porque não tem vontade própria...

(Ivo senta-se, impaciente.)

ATA – Eu tenho vontade própria! Já discutimos isto.

LUX – Duvido. Você tem que ir. Está na hora.

ATA – Não. Eu vou ficar! Vou ficar porque eu estou com vontade de ficar!

IVO – Não podemos ficar... Temos que ir. Está na hora.

ATA – Vamos ficar um pouco mais, apenas.

IVO – Não podemos ficar... Temos que ir. Está na hora.

ATA (grita) – Não está na hora!

IVO (submisso) – Tudo bem... então... podemos ficar um pouco mais... só um pouco.

LUX – Máquinas precisas nunca se atrasam, não é mesmo?

ATA – Olha aqui, o que você quer de nós?

LUX – Nada. Vocês é que querem algo de mim.

ATA – Eu não quero nada seu.

LUX – Não? Então posso ir?

ATA – Por mim.

LUX – Então adeus! (começa a sair de cena lentamente.)

ATA – Espere!... Você não me respondeu. Quem é você? O que você quer?

LUX – Eu não quero nada.

ATA – Então por que você está aqui?

LUX – Eu sempre estive aqui. Foi você quem cruzou a linha. Por que você ainda está aqui?

ATA – Você não queria que a gente ficasse?

LUX – É você quem quer que eu fique.

IVO – Não.

ATA – Tudo bem. O que eu preciso querer de você?

LUX – Nada. Você não precisa querer nada. Se você deseja, e pensa, e age, você não precisa mais de mim.

ATA – Eu não entendi... (toca o rosto, o corpo)

LUX – Vai entender. Dói um pouco no começo. Ofusca. Mas é a vida. Respire!

IVO – O que é que está acontecendo aqui?

LUX – Você não volta mais. Agora você deve libertá-lo também.

ATA – Libertá-lo?

IVO – Eu não estou gostando disso.

LUX – Abra os olhos dele. Faça-o sentir que existe.

ATA – Será que devo?

LUX – Ninguém deve. Só sombras devem. Elas só imitam, só obedecem, nunca são responsáveis. A sua escolha é sua. A dele será dele.

(Ata toca em Ivo, que se afasta.)

IVO (chocado) – Não! Isso não pode!

ATA – Pode... agora pode.

IVO (assustado) – Não. Não pode. Temos que ir. Está na hora. Vamos embora!

ATA – Venha cá, Ivo!

IVO – Quem?

ATA – Você mesmo... Ivo.

IVO – Não diga isso. O que você está fazendo? Nós somos um. Para que nomes? Isso é o que dá cruzar a linha. Vamos voltar!

ATA – Você tem um nome, Ivo. Não se afaste. Venha cá! Não tenha medo. Confie em mim. Ainda somos um. Venha!

(Ivo aproxima-se lentamente, com medo.)

ATA – Sente-se aqui, Ivo.

(Ivo senta-se, mas não olha para Ata. Ele treme.)

IVO – Vamos embora? Eu não estou gostando disso. Não é certo. Eu quero esquecer tudo. Quero voltar.

ATA – Não tem mais volta, Ivo.

(Ela pega na mão dele)

IVO – Não! Isso não pode! (afasta a mão)

ATA (segura a mão firme) – Eu já falei, Ivo, agora pode! E você quer! Agora olhe para mim... Olhe! Diga meu nome... Diga!

(Ivo, olha para Ata. Lux assiste a cena atrás dos dois.)

IVO – A...

ATA – A? Fale!

IVO – A... (baixinho) Ata.

ATA – Não ouvi! Fale direito!

IVO (apavorado) – Ata!

ATA – Muito bem... agora veja... mudaram as regras, Ivo. Você precisa criar umas regras novas para você, entendeu?

IVO – Regras novas?

ATA – Sim. Você desobedeceu, Ivo. Não tem mais volta. Por que você atravessou a linha comigo? Era errado, mas agora não é mais, entendeu? Não somos mais sombras. Temos liberdade de escolha. Temos existência. Temos querer. Ele mesmo nos disse que se atravessássemos a linha nunca mais voltaríamos, lembra? Nós desobedecemos, Ivo!

IVO – Desobedecemos.

ATA – Agora somos reais, Ivo! Somos de verdade!

IVO – E agora? Vamos morrer?

ATA – Agora temos que viver.

IVO – Viver?

ATA – Sim! Viver! O que você sempre quis fazer, Ivo? Faça agora! Obedeça à sua vontade!... Venha, eu lhe ajudarei... (Beija Ivo com intensidade. Ivo entrega-se.)

(Lux estica o braço e oferece uma maçã. Ata morde a maçã e ri. Ivo quer pegá-la... ela afasta, mas no fim ele consegue. Ele morde a maçã e os dois riem. Beijam-se apaixonadamente, e escorregam do banco. Rolam pelo chão e rasgam as roupas. Amam-se intensamente. Escurece e Lux desaparece. Raios e trovões. Chuva.)

3 comentários:

Rodrigo Nóbrega disse...

Texto muito interessante, este. Realmente bem bolado.
O autor é você mesmo, Helder?

Abraço.

Helder da Rocha disse...

Olá Rodrigo. Muito obrigado pelo comentário. Neste blog, todos os textos são meus exceto quando indicado o contrário.

Rodrigo Nóbrega disse...

Massa! Beleza então. Foi só pra confirmar.
Muito bom mesmo.
Valeu!!!