29.3.06

Hoje eu vi o olho de Deus


Eclipse total do Sol, fotografado hoje, em Tabatinga, RN

“Lá estava o olho de Deus novamente, assustador e magnífico. Após a luz azul-metálica nos envolver por completo, fui invadido por uma vaga sensação de terror, ao mesmo tempo primordial e sublime. Essa luz não vinha deste mundo, mas de um mundo que existe além do tempo; mais uma vez, passados 34 anos, eu vislumbrava o eterno nos céus.” Marcelo Gleiser, físico e escritor, ao presenciar pela segunda vez, aos 40 anos um eclipse total do Sol (trecho de “O fim da terra e do céu”)

Hoje de madrugada viajei para o Rio Grande do Norte em uma van fretada pela ONG Nova Consciência, que organizou as palestras que ministrei aqui, em Campina Grande, sobre o eclipse do Sol. Éramos 17. Partimos de Campina Grande às 23 horas de ontem com destino a Tibau do Sul. Felizmente, nos perdemos e passamos reto, chegando em Nísia Floresta. Então, já que havíamos errado o caminho, mudamos de idéia e fomos para Barra de Tabatinga, que era a praia mais próxima. Felizmente, porque Tibau teve tempo encoberto. Quando chegamos, ainda era madrugada e faltavam mais de duas horas para o Sol nascer. Ficamos conversando, caminhando na praia, molhando os pés nas ondas da maré que já baixava. Observamos as estrelas, os planetas e as luzes piscantes que cruzavam o céu noturno. Vimos as nuvens chegarem e torcemos para que ficassem longe. Aos poucos, o céu foi clareando, as nuvens foram aumentando, mas nunca o céu ficou encoberto. Escolhemos o melhor lugar. Parecia que havia uma clareira aberta somente para nós. Havia nuvens dispersas ao norte, na direção de Natal, e ao Sul nuvens densas cobriam o céu na região de Tibau do Sul, onde estaríamos caso não tivessemos errado o caminho. No lugar onde estávamos, conseguíamos ver as estrelas, as constelações e Vênus, cuja luz atravessava as fracas nuvens e refletia nas ondas do mar.

Uma hora antes do Sol nascer, as estrelas já começavam a sumir e as nuvens destacavam-se no céu que já clareava. Às cinco horas da manhã, quando ainda faltavam 23 minutos para que o Sol despontasse, o dia já estava bastante claro.


O horizonte pouco antes do nascer do Sol

Às 5h23, conseguimos ver o Sol nascendo pontiagudo, no mar. Havia uma pequena brecha nas nuvens mas ela logo fechou-se. Não deu tempo fotografar. Devido às nuvens, não conseguimos acompanhar o nascimento do Sol, e só o encontramos alguns minutos depois, quando ele surgiu em forma de crescente num pequeno espaço entre as nuvens.


O Sol pouco depois de nascer aparecendo entre as nuvens

As nuvens também não permitiram que conseguíssemos assistir ao início da totalidade, mas o céu foi ficando cada vez mais escuro. E foi rápido. Tudo durou menos de um minuto. Era como se alguém tivesse reduzido a luz solar com um dimmer. No fim, o céu estava tão escuro quanto uma hora antes do Sol nascer. Não vi o Sol, mas senti o silêncio de sua sombra.


O momento do início da totalidade, atrás das nuvens

A totalidade durou um minuto e meio. Felizmente, antes que ela chegasse ao fim, as nuvens se afastaram e foi possível contemplar o disco negro contornado pela coroa solar, que mostrou-se numa cor alaranjada e suave. Nessa hora, não afastei os olhos do Sol, e por isto quase não tirei fotos. Tirei três. As duas melhores estão abaixo.


O "olho de Deus", parcialmente encoberto pelas nuvens


A praia escura e o Sol negro no horizonte

A totalidade é assustadora, fascinante, poética. Eu ainda não sei como descrevê-la em palavras. Teria que me inspirar, talvez, e escrever poesia. Concordo com Marcelo Gleiser. Parece mesmo algo que não é deste mundo. A racionalidade não ajuda muito. É simplesmente a Lua passando na frente do Sol, mas na hora não se pensa nisso. Só posso descrever a experiência como espiritual. Não sei que outra palavra usaria. Parece que tudo fica mais lento, mais estranho. Aves reunem-se na praia e caminham juntas, como se não soubessem para onde ir. O som do vento parece ser outro; o ruído das ondas não é o mesmo. Foi uma experiência inesquecível. Fitei o olho negro do Sol, concorrendo com as nuvens que vez ou outra atravessavam-se na sua frente, até que ele finalmente renasceu com um brilho intenso.


O Sol pouco depois do término da fase de totalidade, por volta das 5:36

Tive que trocar os filtros. O filtro no. 14 era muito forte para ver o anel de brilhante com nuvens ao amanhecer. Acabei não fotografando.

O eclipse ainda durou uma hora. As fotos abaixo mostram várias etapas da fase parcial. O dia foi clareando novamente, e as coisas foram gradualmente voltando ao normal.


Por volta de 5:40. A cor verde é da lente de soldador no. 10.


A Lua se afastando.


O Sol crescente, de mais perto.


Usando filtro especial.


Hipnotizados pelo Sol.

O eclipse terminou com o céu encoberto pelas nuvens. Não esperamos até o fim (que seria às 6:34). Pouco antes das 6:30 voltamos para Campina Grande. Ainda não recuperei totalmente a razão, mas acho que é assim mesmo; leva algumas horas. Estou ansioso pelo próximo. O próximo eclipse total na Paraíba será em 2045, mas haverá outros pelo mundo. E em 22 de setembro deste ano, teremos ainda um eclipse parcial visto de todo o Brasil.

5 comentários:

Magnólia Félix disse...

As fotos ficaram lindas!!!Mas nada se compara à sensação de presenciar uma dádiva daquela...Felizes de nós que fomos à caça daquele momento maravilhoso!Ainda estou sob efeito inebriante daqueles minutos.

ailton disse...

belíssimas fotos. As mais belas que já vi! Rapaz, vcs deram sorte, hein? Erraram o caminho e por isso viram o eclipse! A gente foi pra Barra de Cunhaú, mas tinha uma nuvem safada lá que não nos deixou ver o sol. Os lados estavam limpos, só essa nuvem danada que estava lá. Foi dose, frustrante, fiquei meio mal... Mas passa. Outros virão. Vc passou em Nisia Floresta, onde estavam Damião Carvalho e José Rodrigues.

Alessandra disse...

Não basta que a beleza exista, ela precisa de olhos sensíveis e dignos dela para que possa se espalhar. Um beijo.

Nathalia disse...

Helder, que espetáculo! Que presente divino...suas fotos foram certamente uma migalha infinitamente menor que o momento presenciado por vocês, disso não tenho dúvida. Mas por elas, e pelo seu texto simples e belo, pude experimentar um pouco da vibração que odulou sobre as ondas desse mar e dessa areia. Pude me conetar com essa divindade cósmica por meio dos corações pulsantes e possantes que ali se arrebataram. Um beijo grande e muuuuuito obrigada por compartilhar essa experiência inesquecível!

keylla disse...

Ainda continuo sem palavras para relatar fisicamente o q foi aquela manhã,acho q essa sensação está na alma de todos que depois de tantas surpresas durante a viagem conseguiram maravilhar aquele presente dos céus,obrigada por deixar guardado nas nossas mentes esse magnifico espetáculo.