7.3.06

A morte do gladiador



Diante do palácio deserto ele desabou. Todos haviam morrido. Com feridas mortais ele caminhara por dois dias em vão. Perdera a guerra. Não havia mais cidade. Nem mesmo aos cães foi permitida a vida. Caminhou pelas ruas desertas em ruínas até chegar à escadaria do palácio. No sétimo degrau, perdeu o equilíbrio.

Rolou escada abaixo. Caiu de cansaço e de sono. Achou que a sua hora deveria estar próxima. A morte provavelmente iria buscá-lo ali mesmo, naquele momento, ou em poucos minutos. Fechou os olhos. Esperou. No último degrau, o seu corpo relaxou ao encontrar seu leito firme. Não sentiu nenhuma dor.

Quando finalmente tudo era silêncio, tentou sonhar. Buscou na memória seus dias de glória, sua família, os tempos de paz. Não conseguiu. Só lembrava da guerra. Era como se nada existisse antes dela. Era como se a existência sempre tivesse sido a guerra e somente a guerra. Então tentou lembrar a dor de ser penetrado pela espada inimiga mas ela também não existia. Lembrava claramente do momento em que ela o atingia, mas nem o rosto do agressor conseguia lembrar com clareza.

Desesperado por não conseguir encontrar a paz nem na hora da morte, decidiu não mais pensar em nada. Deixou que o silêncio da cidade destruída penetrasse em seus ouvidos e que a brisa suave do amanhecer na sua pele exposta o fizesse esquecer a dor, que já não sentia. Não conseguia dormir. Decidiu, então, pensar na respiração.

Não havia respiração. Nem mesmo seu coração batia. Não se incomodou com isto. Se já estava morto, melhor ainda seria. Imóvel permaneceu e meditou como um monge Zen, esquecendo o espaço e ignorando o tempo, como se habitasse na singularidade primordial do Universo. O instante fugaz tornou-se a eternidade. O todo tornou-se um ponto.

Então começou a ouvir ruídos. Primeiro o som de algo que passava rápido e sumia. Ouviu sons de trombetas. Vozes. Um grito. Falavam uma língua estranha, mas era como se entendesse. Começou a sentir um frio na cabeça e um pingo de suor escorreu sobre seus olhos. De olhos fechados, pôde perceber que já estava tudo claro. Mas não parecia o dia. A luz era outra. Estava com medo de abrir os olhos. Ouviu mais ruídos de coisas passando, como se fossem carros, mas não ouvia os cascos dos cavalos. Mais vozes.

– Luís!

Era seu nome. Nunca tinha pensado nisso. Não lembrava ter, algum dia, tido um nome. Não lembrava sequer de alguém falando com ele. Não lembrava de pessoas. Mas, a voz era muito familiar. E o nome era seu, era verdadeiro e real.

Abriu os olhos. A luz o ofuscou. Diante dele um vulto familiar o segurava pelos ombros. Sabia que era a morte que lhe chamava. Quis mover os ombros. Sentia-os nus, sem armadura, sobre o chão macio. Sentia-se magro, como se tivesse outro corpo. Já não era mais um gladiador ferido. Seu corpo havia ficado para trás. Agora sua mente precisava recuperar a consciência da sua essência original e imortal. Precisava acordar.

– Acorda, Luís! Acorda! – insistiu sua mãe – Você não devia adormecer com esse jogo. Pode lhe fazer mal. Fez um Sol lindo hoje e você passou o dia preso a esse computador. Vamos, está na hora do jantar. Tire logo essa coisa e levante-se. Estamos todos esperando por você.

Um comentário:

Julliana Veloso disse...

"eu penso, quase desisto". rs...

Boa, Hélder.

Avisa então :-)