11.3.06

Gênesis

Afresco de Michelangelo na Capela Sistina no Vaticano


(O carcereiro está fora da cena. Ouve-se apenas a voz dele. No centro, o prisioneiro, desgraçado, rasteja na miséria.)

CARCEREIRO – O fruto. O bem e o mal. O conhecimento. Eu avisei para não comer. Essa luz não se come! Quanto mais se sabe, mais dói. É melhor não saber. É melhor não ler. Não ver. Por que insistes? Não vês que não adianta? Desiste!

PRISIONEIRO - Eu não posso desistir. Não quero. Não desejo. Pouco me importa se é correto, se é certo, se é sadio. Não sei viver no vazio. Tua lei é muito cruel.

CARCEREIRO - Não é lei e sabes bem, Gabriel. É costume. É bom juízo. É apenas diretriz. Quem não faz é mais feliz. Quem transgride é quem se perde. Pensa menos e segue a via! Não duvida. Não desconfia. Busca a paz só na certeza. A verdade é o que se sabe.

PRISIONEIRO - O que move minha vontade, é somente a incerteza. Eu só creio na verdade que brota da natureza. Vá, me deixe pecar! Quero a fuga deste lugar.

CARCEREIRO - É uma pena. Tens a sorte, de viver, tão bem e forte, no entanto, queres a morte. Meu mundo é teu. Tua vida sou eu. Não queira mais. Tua paixão não tem limites. Descansa. Busca a paz. Não pensa mais.

PRISIONEIRO - Só quero ser. Só quero ver. Neste corpo que me fizeste, com estes olhos que me deste. Ver o sol nascer no leste e a chuva cair no agreste. Não sou sombra; sou vivente. Tu me fizeste gente. Eu penso; sou diferente! Quero a luz da minha mente.

CARCEREIRO - Luz que só te fez doente. Só a sombra é inteligente. Não deseja, não transgride. Obedece com submissão. Não teme a imensidão, não sofre com indecisão. Na busca de tua verdade, perdeste a felicidade. Perdeste a eternidade.

PRISIONEIRO - Viver para sempre? Não suportaria. Que vontades eu teria? Eternidade é utopia. Se o tempo não termina, tudo fica pr’outro dia. Nada se construiria. Teu paraíso? Tédio infinito. Eu troco teu riso pelo meu grito. Se não querias me dar a luz, por que a chama na minha mente? Por que deixaste vir a serpente? Por que o fruto proibido e indecente, era tão belo e reluzente? Por que estas rédeas cedem? Me expulsa logo deste éden! Quero a dor de respirar. Quero a luz, quero a sorte, quero a vida, quero a morte!

(O prisioneiro assume uma posição fetal.)

CARCEREIRO - Para sempre perdeste o sangue puro. Agora chora teu parto prematuro! Eras parte de mim, e agora partes! O sangue meu, não é mais teu. A este útero que deixas para trás, não voltarás nunca mais. Pediste o ar, e ele te queima. Pediste a luz, e ela te cega. Pediste a morte, então vive! Vive! Vive!


(O prisioneiro desfaz-se gradualmente da posição fetal, e espreme-se, como se saísse do útero. Ofusca-se. Ao ouvir “Vive!”, respira forte com asfixia. Grita e chora. Ri e morre.)

Um comentário:

ailton disse...

muito bom seu trabalho, especialmente sobre dante. Eu tbm fiz uma adaptação (nada q se compare a sua, claro) do inferno para mestrar um rpg certa vez. Ah, e respondi seu comentário sobre a felicidade no meu blog, cara. Vc mora em SP mas tem links da paraíba no blog. Vc nasceu nesta terra? Bom, um abraço e espero que vc possa ver o eclipse, embora eu ache que não será possível porque as nuvens vão encobrir.