21.3.06

Carta de Tatyana para Oniêguin

Tatyana, or Fiodor Moller (1846)
Fiodor Moller - Tatyana escrevendo a carta para Oniêguin (1846). Palácio de Marly, em Peterhof (Rússia).

Yevguêni Oniêguin, longo poema de Aleksandr Púchkin em 400 sonetos, é a obra-prima máxima da literatura russa. Escrito no início do século XIX, conta a história de um dândi de São Peterburgo chamado Yevguêni (ou Eugênio) Oniêguin que recebe uma fortuna de herança e muda-se para o campo, onde tem uma vida pacata. Nem tanto. Lá faz amizade com um jovem poeta chamado Lensky e ganha o coração de Tatyana - uma mulher inteligente que se sente deslocada no meio rural. Depois de um tempo de convivência, Tatyana declara-se para Oniêguin através de uma carta. Só que Oniêguin despreza o amor de Tatyana e, para complicar, dança a noite inteira com a amada de Lensky durante o dia da santa de Tatyana. Lensky o desafia para um duelo. Oniêguin hesita, mas no final aceita, e o duelo termina com a morte do amigo. Algum tempo depois, Oniêguin volta a São Petersburgo e tenta reativar sua vida de bon vivant, mas sem sucesso pois já não é jovem como antes e muitos dos seus amigos estão casados. Uma certa noite, ele encontra seu antigo amigo de farras - o príncipe Gremin, e este o apresenta à sua belíssima esposa, que é... Tatyana! Depois disso, Oniêguin enlouquece e apaixona-se perdidamente por aquela cujo amor ele rejeitara anos atrás. Humilha-se a ponto de escrever uma longa carta para Tatyana, que não responde. Depois de vários dias de sofrimento, Oniêguin vai até o palácio de Gremin e ajoelha-se nos pés de Tatyana, e implora pelo amor dela em vão.

Yevguêni Oniêguin foi tema de óperas e várias adaptações para teatro e cinema. Eu traduzi o trecho abaixo usando a tradução literal de Vladimir Nabokov em inglês. Esta é a primeira versão. Devo melhorar a versificação depois que traduzir a outra carta.

Carta de Tatyana para Oniêguin
Aleksandr Puchkin (trecho do poema Yevgueni Oniêguin)

Eu te escrevo o que mais eu faria?
O que tenho mais a te revelar?
Podes querer a partir deste dia
Me punir com desprezo; me deixar.
Se por minha vida sem alegria
Tiveres um pingo de piedade
Não deixarias minha amizade.

No começo eu tudo ocultei
A vergonha de ti se escondia
Meu silêncio jamais revelaria
Se houvesse esperança, isto eu sei
De te ver uma vez cada semana,
Na nossa humilde casa serrana
Somente para te ouvir falar
Te dizer algo; depois refletir
Dia e noite, sem nada decidir
Até novamente te encontrar.

Mas dizem que és anti-social;
Que no campo tudo te entedia,
Nos falta, eu sei, a pose real
Mas te acolhemos com alegria.

Qual a razão de nos ter visitado?
Nesta pobre cidade esquecida
Nunca eu teria te encontrado
E a dor não seria conhecida.
A pouca experiência de vida
Com o tempo iria dissipar
Um amigo (quem sabe?) acharia
Que por mim podia apaixonar
E mãe e esposa me tornaria.

Outra! Não! Para ninguém nesta Terra
Eu teria dado o meu coração!
É vontade do Céu que nunca erra,
Que serei tua, sempre, meu guardião.
Minha vida foi promessa aberta
Que um dia tu virias a mim
Foi Deus quem te enviou, estou certa
Serás meu protetor até o fim.

Em sonho para mim te revelaste,
Eu nunca te vi, mas já te amava
Parei quando primeiro me olhaste
Tua voz na minh'alma ressoava.
Não, não foi só um sonho que sonhei!
Mal entraste, logo reconheci,
Fiquei tonta, em chamas me senti,
"É ele!" - para mim eu sussurrei.

Eras tu que eu sempre escutava?
A voz no silêncio na madrugada
E quando dos doentes eu cuidava
Uma oração que tranqüilizava
A dor da minha alma agitada?
E bem agora, querida visão
Não te vi na clara escuridão
Escorregando como fosse nada?
Não és tu que sobre o meu leito dança
E sussurra frases de esperança
Com amor numa noite encantada?

Quem és tu? O anjo bom que me alenta?
Ou o demônio cruel que me tenta?

Tira minha dúvida insistente
Pode ser bobagem ou ilusão
De alma tola, inexperiente
Que devia ir noutra direção.

Mas que seja! Meu destino agora
Só depende de ti, por quem chorei
Pelas lágrimas que eu derramei
Tua defesa peço nesta hora.
Sozinha, sem ninguém me entender
Assim eu vivo, aqui, me gastando
Minha razão está desmoronando,
E em silêncio devo perecer.
Eu espero. Um único olhar
Devolve esperanças ao meu ser
Ou faz este sonho interromper
Ai de mim - e sem pena acabar!

Eu fecho! Tenho pavor de reler.
Estou fraca de medo, de pudor
Tua honra é justo parecer,
Nela confio, seja como for.

5 comentários:

Silvana disse...

Kra esse poema é piegas pra karalho!!! Eu detesto Pushkin: é chato , overrated, acho q só russo pra gostar. Os americanos adoram , mas os americanos adoram todo tipo de shit.

Helder da Rocha disse...

Silvana, se o poema parece piegas, pode ser por duas razões: 1) está fora de contexto (a história anterior justifica a carta); 2) a tradução não está boa. Não está mesmo. Neste primeiro exercício de tradução há muitas rimas fracas (verbos no infinitivo, repetições de sufixos) e pior de tudo: rimas não intencionais no meio dos versos e muitos sons de "ia" devido a palavras no futuro do pretérito. Isto ainda pode ser muito melhorado. Talvez os americanos gostem mais de Púchkin porque tenham traduções melhores.

barbara eliask disse...

Helder!Eu AMO a carta de Tatiana à Eugène Onéguine.
Como alguém pode nao gostar?!So se nao souber entrar no contexto e no universo sutil e imagético de Pouchkine!
Alias, la vai a versao francesa:

LETTRE DE TATIANA à ONéGUINE

JE vous écris;voilà.C\’est tout.
Et je n\’ai plus rien à vous dire.
Maintenant,je sais,vous pouvez
Me mépriser pour me punir.
Mais vous aurez pour mon malheur
Juste un petit peu de pitié.
Vous ne m\’abandonnerez pas.
Au début, je voulais me taire.
Croyez-moi: vous n\’auriez jamais
Rien su de ce qui fait ma honte,
Si j\’avais pu avoir l\’espoir
De vous dire un mot,pour, ensuite,
Jour et nuit,penser et penser,
Jusqu\’à ce que vous reveniez.
Oui, mais on vous dit misanthrope.
Notre campagne vous ennuie.
Ce que nous offrons est bien peu.
Mais nous vous l\’offrons de bon coeur.

Il a fallu que vous veniez.
Perdue au fond de mon village,
J\’aurais pu ne pas vous connaître,
Ignorer cet affreux tourment.
Aurait passé avec le temps
(Qui sait?) et j\’aurais rencontré
Un compagnon; j\’aurais été
Fidèle épouse et bonne mère.

Un autre!Non, personne au monde.
Mon coeur n\’était pas fait pour eux.
Le ciel en avait décidé;
Il l\’a voulu: je suis à toi.
Toute ma vie fut la promesse
De cette rencontre avec toi.
C\’est Dieu qui t\’envoie, je le sais
Pour me garder jusqu\’à la mort...
Tu apparaissais dans mes rêves;
Sans te voir, je te chérissais.
Ton regard me fasait languir,
Ta voix réssonait dans mon âme
Depuis toujours...En vérité
Je t\’ai reconnu tout de suite.
Ce fut en moi un froid,un feu,
Et dans mon coeur,j\’ai dit:c\’est lui!
Je t\’entendais, tu le sais bien.
Tu me parlais dans le silence,
Quand j\’allais secourir les pauvres
Ou quand la pière apaisait
L\’angoisse de mon âme en peine.
Et maintenat,à l\’instant même,
C\’est toi que viens de te glisser,
Chère vision,dans la pénombre,
De te pencher à mon chevet,
De me dire de mots de espoir,
Ces mots d\’amour qui me consolent.
Qui est-tu? Mon ange gardien?
Ou le perfide Tentateur?
Je doute.Viens me rassurer.
Tout cela,serait-ce un mirage?
Mon âme naïve se trompe!
Et l\’avenir sera tout autre...
Eh bien! J\’y consens! à jamais
Je te confie ma destinéé.
Je suis là,devant toi, je pleure.
Protège-moi, je t\’en supplie.
Songe que je suis seule ici,
Que personne ne me comprend.
Songe que ma raison s\’égare,
Que je vais mourir sans rien dire.
Je t\’attends,que, d\’un seule regard,
Tu rendes l\’espoir à mon coeur,
Ou qu\’un reproche mérité,
Hélés! Mette fin à mon rêve.

J\’achève.J\’ai peur de relire...
Je frémis de peur et de honte...
Mais je compte sur votre honneur.
Hardiment, je me fie en lui.

Anton disse...

Helder, se a tradução foi feita por você, parabéns. Estou a fazer tradução de outro texto de russo para português que está cheio de citações de Puchkin. O teu texto ajudou, obrigado.

Matheus Demetrio disse...

Em quais livrarias posso eu econtrar a obra
'Eugênio Oniêguin'?