28.3.06

Amanhã o Sol nascerá escuro


Simulação do nascer do Sol em uma praia do Nordeste
“Olhei enquanto ele abria o sexto selo. Houve um grande terremoto. O Sol tornou-se negro como um saco de carvão, e a Lua tornou-se como sangue.” (Apocalipse 6:12)
Amanhã, em várias partes do Brasil, o Sol vai nascer diferente. Aqui, na Paraíba, não se verá um Sol redondo surgir do mar, como é costume. De Alagoas ao Rio Grande do Norte, o litoral verá o Sol surgir com atraso na forma de um brilhante espinho pontiagudo, depois em forma de minguante, e à medida em que for amanhecendo, o dia ficará mais cada vez mais escuro. Num raio de 130km com centro próximo a Tibau do Sul, RN, a noite voltará a reinar, escurecendo a aurora e trazendo de volta as estrelas. O Sol olhará para a Terra com um disco negro, envolto numa coroa incandescente. A temperatura vai cair, a brisa do mar vai mudar, as aves irão se calar e o mundo ficará em silêncio por um minuto e meio. É o único momento em que os humanos poderão encarar o Sol de frente.


Simulação do nascer do Sol em barra do Cunhaú (RN)

Amanhã, dia 29 de março de 2006, quando o Sol nascer estará ocorrendo um eclipse total. A Lua irá cobrir completamente o disco solar, projetando uma sombra sobre uma parte da Terra que ficará às escuras.

No Brasil, os únicos estados que poderão ver o Sol totalmente encoberto pela Lua são Parahyba e Rio Grande do Norte. Natal é a única capital que verá o eclipse total. Em João Pessoa o eclipse será parcial e a Lua cobrirá 99% do Sol. Em várias outras cidades do Nordeste o eclipse será parcial e cobrirá entre 70 e 95% do Sol.


Visão do eclipse em algumas cidades

É um espetáculo raro. Na Paraíba, o último evento desse tipo aconteceu em 1940, e o próximo só ocorrerá em 2045. Se estiver nublado na manhã do eclipse ele ainda poderá ser visto através das nuvens, com a devida proteção, se estas não estiverem muito densas. A fase de totalidade é curta: um minuto e meio, mas o eclipse dura mais de uma hora. Se o dia não estiver nublado demais haverá tempo para as nuvens se dissiparem. Mas com nuvem ou sem nuvem, a manhã de quarta-feira ainda será mais escura que as outras.

Histórias de eclipses
Ao longo da história, os eclipses tiveram grande influência nas ciências, religiões, política e atividades humanas em geral. Evocam o medo primitivo do desconhecido por interferirem na regularidade dos dias e das noites. Freqüentemente foram associados ao fim do mundo e à insatisfação dos deuses.

Em 585 a.C. os Lídios e os Medas lutavam uma guerra sangrenta que já durava cinco anos. No dia 28 de maio, quando os dois exércitos estavam em plena batalha, o céu escureceu-se inesperadamente e o dia tornou-se noite. Os soldados dos dois exércitos, apavorados com o fenômeno, interromperam imediatamente a batalha e ficaram em silêncio, Aguardando a volta do Sol. Quando o Sol reapareceu fez-se grande festa e as duas nações fizeram as pazes. Essa história foi contada por Heródoto e o eclipse foi previsto por Tales de Mileto.

Os Vikings viam no eclipse total o olho de Odin. Não só os Vikings, mas vários povos relacionam a visão do eclipse total ao olho de Deus, talvez devido à semelhança.

Para os chineses, um eclipse do Sol era causado por um dragão que ameaçava engolir o Sol e fazer a noite durar para sempre. Eles lançavam suas flechas para o céu e faziam grande barulho para espantar o dragão. Os astrônomos chineses sabiam que a Lua tinha uma parte importante nessa conspiração, por isso buscavam prever quando os eclipses ocorreriam para que todos ficassem atentos e não esquecessem de lançar suas flechas. Em 2134 a.C. dois astrônomos chineses não previram um eclipse que aconteceu surpreendendo a todos. Por sorte, a população conseguiu espantar o dragão a tempo e o Sol voltou a brilhar para todos, menos para os dois que foram enforcados.

Contam também que Cristóvão Colombo teria se aproveitado da informação que haveria um eclipse total para assustar e dominar os selvagens na Jamaica.


Dragão engolindo o Sol.
O cristianismo e o islamismo também têm várias histórias ligadas a eclipses. O nascimento de Maomé teria ocorrido após um eclipse. Na bíblia cristã, em Mateus, 27:45 lê-se “desde a sexta hora até a nona hora se difundiram trevas sobre toda a Terra...” que poderia referir-se a um eclipse ocorrido após a crucificação. Ele pode mesmo ter ocorrido, mas não teria sido tão longo (o período mais longo de totalidade é de cerca de sete minutos e meio). Por causa dessa crença, afrescos e pinturas antigas de Rafael e outros retratam imagens da crucificação ao lado de um eclipse do Sol e às vezes também da Lua.

O eclipse total que aconteceu em Sobral, Ceará, em 1919 teve grande importância científica pois permitiu provar a teoria da relatividade de Einstein. Estrelas que estavam atrás do Sol no momento do Eclipse foram vistas ao seu lado indicando que a luz foi desviada pela gravidade do Sol. O experimento permitiu comprovar a curvatura do Universo. Só foi possível ver as estrelas devido ao eclipse.

O que é um eclipse?
Um eclipse é o fenômeno causado pela ocultação de algum corpo celeste. Os eclipses mais importantes são os do Sol e da Lua.

O eclipse da Lua ocorre quando a Terra alinha-se com o Sol de tal forma que sua sombra escurece toda ou parte da superfície da Lua. Um eclipse da Lua é total quando a sombra da Terra cobre a Lua completamente. A Lua costuma ficar avermelhada durante um eclipse total. Eclipses da Lua só ocorrem quando a Lua está cheia.

O eclipse do Sol ocorre quando a Lua passa na frente do Sol fazendo com que sua sombra escureça alguma parte da Terra. Um eclipse do Sol é total quando a Lua oculta o Sol completamente. Como a sombra da Lua é menor, apenas uma parte da Terra vê o eclipse total, mas as localidades que estão próximas da sombra verão o Sol parcialmente coberto. Eclipses do Sol só ocorrem na Lua nova.

Quando a Lua está perfeitamente alinhada com o Sol e a superfície da Terra podem ocorrer eclipses totais ou anulares. A órbita da Lua em torno da Terra tem um formato elíptico e a distância da Lua varia, estando às vezes mais distante e às vezes mais próxima. Um eclipse total só ocorre se o disco visível da Lua for maior que o disco do Sol, o que ocorre quando ela está mais próxima da Terra. Quanto maior a diferença mais longo será o eclipse. Se o disco da Lua for menor que o do Sol, o que acontece quando ela está mais distante da Terra, o Sol não será totalmente encoberto e o eclipse será anular, ou anelar, deixando um anel de luz em volta da Lua.

Eclipses parciais ocorrem para as localidades que não estão diretamente sob a sombra da Lua mas na sua penumbra. Essas localidades só verão o Sol parcialmente coberto no auge do eclipse. Como a sombra se move, mesmo as localidades onde o eclipse será total terá fases parciais antes e depois da totalidade, devido à penumbra.



Eclipses do Sol ocorrem em média duas vezes por ano, mas a maioria das vezes em localidades não habitadas do planeta, como desertos, pólos e oceanos. Numa mesma localidade é um evento muito raro. Desde o descobrimento nunca houve um eclipse total do Sol em Natal, como o que vai acontecer amanhã.

Onde ocorre o eclipse de amanhã?
O melhor lugar para observar o eclipse é no litoral, pois o Sol estará mais alto no horizonte e haverá menos chances dele ser ocultado pelas nuvens. A sombra da Lua tem um diâmetro de aproximadamente 130 km e cobrirá uma pequena faixa dos estados da Paraíba e Rio Grande do Norte. As cidades mais afastadas do litoral terão o auge do eclipse coincidindo com a aurora e verão o Sol nascer escuro. No litoral, o auge ocorrerá 12 minutos depois que o Sol nascer e quando ele já estiver mais alto, cerca de 2,5 a 3 graus do horizonte. Um grau são dois sóis. Portanto o auge ocorre a seis sóis de altura.



Para ver o eclipse total é preciso estar na zona de totalidade. O melhor lugar para observar é uma praia deserta no Rio Grande do Norte chamada de Malembá. É inaccessível de carro. Dá para chegar de barco ou de buggy. É tão isolada que é usada para nudismo. Lá a totalidade durará 1 minuto e 36 segundos. Mas a diferença entre estar no centro e estar um pouco afastado dele é pequena. A variação não é linear. Em Natal o fenômeno durará 1 minuto e 32 segundos. Perto dos limites da sombra ainda durará um minuto. Os dois lugares preferidos são Barra de Tabatinga, ao norte do centro do eclipse, e Tibau do Sul, onde fica a Praia da Pipa, ao sul.


Mapa mostrando a sombra

O eclipse durará o dia inteiro e atravessará o globo. Começará no Brasil, escurecerá a manhã no oceano Atlântico, cortará a África, Turquia, Cazaquistão, Sibéria e terminará na Mongólia, no por do Sol. Seu auge será ao meio-dia no Saara, onde escurecerá completamente o deserto da Líbia por quatro minutos, e causará uma significativa queda de temperatura na região.


Mapa mostrando cidades na área de totalidade

Quando o Sol estiver totalmente escuro, pode-se olhar diretamente sem proteção para o disco escuro, e também para as estrelas e planetas que irão aparecer com o escurecimento do céu. A coroa solar – a atmosfera solar – que normalmente não se vê devido ao brilho maior do Sol será visível e dará um contorno à Lua escura.

Quando o Sol começar a reaparecer o eclipse se assemelhará a um anel de brilhante. Neste momento o eclipse começa a entrar na sua fase parcial e é preciso proteger novamente a vista. O eclipse termina às 6h34, uma hora e dez minutos depois da aurora, para quem estiver assistindo do litoral na zona da totalidade.

Como observar com segurança
Olhar diretamente para o Sol por mais de quatro segundos já é suficiente para causar queimaduras irreversíveis na retina. O risco é maior porque não se sente dor e os efeitos só serão percebidos horas depois, portanto todo cuidado é pouco. Muitas pessoas queimaram suas retinas e ficaram cegas por olhar diretamente para o Sol durante um eclipse, e isto pode acontecer mesmo quando o Sol está 99% encoberto. O único momento em que se pode olhar diretamente para o Sol é durante a fase de totalidade do eclipse total. E essa fase não será visível na maior parte das cidades do país, incluindo Campina Grande, João Pessoa, Recife e cidades próximas ao centro do eclipse. Mesmo em Natal é preciso proteger a vista durante a maior parte do evento.


Retina danificada durante um eclipse. Fonte: BBC.
Mas não é preciso entrar em pânico, fechar as janelas e trancar-se dentro de casa. O espetáculo pode e deve ser apreciado, tomando-se as devidas precauções. Deve-se cuidar para que os desavisados e principalmente as crianças estejam protegidos.

Há várias maneiras seguras de observar o Sol. A mais segura é através da projeção: faça um pequeno furo em um cartão, e segure-o na direção do Sol. Não olhe pelo furo, mas coloque outro cartão como anteparo a mais ou menos um metro de distância. No local onde a luz for projetada será possível ver o Sol em forma de crescente. É possível também usar um telescópio refrator (outros tipos de telescópios não são recomendáveis pois podem aquecer-se demasiadamente) armado de forma a receber a luz do Sol pela objetiva e protejá-la num anteparo através da ocular.


Observação via projeção com telescópio
(Fonte: www.uranometrianova.pro.br)
Jamais olhe o Sol através da ocular de um binóculo ou telescópio. Esses instrumentos só devem ser usados quando equipados com filtros especialmente construídos para a observação do Sol, ou através da técnica de projeção descrita acima. Olhar para o Sol através da ocular de um telescópio ou binóculo certamente causará cegueira instantânea.

Se você desejar observar o Sol diretamente, use um filtro adequado capaz de barrar as radiações nocivas irradiadas pelo Sol. Óculos escuros não devem ser usados. São insuficientes. Evite filtros artesanais como negativos, chapas de raio-X e vidro esfumaçado. São todos arriscados. Não use CDs ou DVDs. Negativos fotográficos preto-e-branco de filme à base de prata poderiam ser usados com segurança, empilhando pelo menos três deles. Mas isto não vale para qualquer tipo de filme. Filme colorido e vários tipos de filmes preto e branco não usam prata e não protegem contra raios ultravioleta, portanto, a melhor recomendação é não usar filmes. Observar através de um filtro inadequado pode ser ainda mais perigoso devido ao conforto que ele proporciona estimulando observações mais demoradas. Não basta o filtro ser apenas escuro; é preciso que ele também garanta proteção contra as radiações invisíveis. A melhor alternativa é usar uma máscara de soldador no. 13 ou 14. Esses filtros são fáceis de encontrar em lojas de ferragem, são baratos e garantem proteção suficiente para assistir o eclipse com segurança. Mesmo usando um filtro, não olhe o Sol por longos períodos. Sempre pare e descanse a vista depois de alguns segundos de observação.


O nascer do Sol

Dados importantes sobre o eclipse
Quando vai acontecer: dia 29 de março, das 5h23 às 6h34
Melhor lugar para assistir: entre Tibau do Sul e Barra de Tabatinga, RN
Coordenadas do centro do eclipse (no litoral): 35° 06’ W, 06° 09’ S
Duração total (da aurora ao fim do eclipse): 1 hora, 11 minutos
Duração da totalidade (na linha central): 1 minuto, 36 segundos
Aurora: 5:23
Totalidade: 5:35
Fim do eclipse: 6:34

Links adicionais
  • O eclipse no Brasil (portal Uranometria)
  • Página da NASA (em inglês)
  • Slides da palestra que ministrei sobre o Eclipse
  • 3 comentários:

    ELENILSON disse...

    PARTICIPEM: SELETIVA DE CONTISTAS E POETAS

    O que conta quando se analisa uma obra literária de um autor iniciante? Existem no mercado bons lançamentos desses "autores eleitos"? Ora, a resposta é muito simples: NÃO. Principalmente porque não foram editados tantos livros com essas "novas cabeças". Mas deveriam existir, levando-se em conta o expressivo número de autores sem publicação no Brasil. Isso tem demonstrado que o nosso País, no entanto, ainda vive décadas de atraso quando o assunto é "renovação". O preconceito contra os novos autores, que era encarado há alguns anos como algo sem importância, passou a ser velado, assim como o preconceito racial e a orientação sexual os são. Se as próprias editoras ainda vêem os novos autores com restrição, essas vozes tendem a ser abafadas. Principalmente quando se trata de escritores iniciantes, que têm de enfrentar uma verdadeira "via crucis" pelas editoras que, invariavelmente, resultam em espera inglória, frustração e mais um trabalho engavetado. E para onde iria a nossa literatura? Sem oportunidade para publicar seus escritos num livro, seria a morte súbita da nossa cultura.

    Por isso, em razão da grande quantidade de trabalhos enviados para a nossa seletiva de CONTOS, divulgada exclusivamente aqui no Orkut e em sites de literatura, estamos abrindo também inscrição para a seletivas de POEMAS. De forma INDEPENDENTE, estamos formando um grupo de AUTORES para o lançamento de duas antologias. Quem se interessar mandar um e-mail para LITERATURA CLANDESTINA: atendimentoleitor@hotmail.com

    Ou, então, visite o Portal LITERATURA CLANDESTINA: www.glx.com.br/literaturaclandestina

    Um abraço

    Elenilson Nascimento

    P.S. VC DEVERIA PARTICIPAR.

    Anônimo disse...

    Adorei a sua descrição sobre o eclipse.

    Sou astrônomo amador, moro em Recife e me desloquei a Natal para ver o fenômeno e senti exatamente isso que vc falou.


    Parabéns pela ótima descrição do eclipse, esse evento único do universo !!!!!

    Anônimo disse...

    ah! Meu nome é Eduardo Burichel.
    Um abraço.