4.1.06

As políticas do tempo

Calendário Azteca

Este post foi publicado em dezembro de 2003 em um blog que não existe mais. É uma história do tempo. Não sei se é tudo certo nem se as datas são precisas.

O tempo começou em Roma. Esta é a versão ocidental dos fatos. Antes de Júlio César, o calendário em Roma tinha os anos contados a partir da data da fundação da cidade (Anno Urbis Conditae - A.U.C.) e tinha 10 meses úteis e, posteriormente, 2 a 3 meses adicionais com uma quantidade de dias que variava. As variações eram menos de acordo com os cálculos dos astrônomos e mais de acordo com a corrupção dos sacerdotes e políticos da república.

Os meses úteis eram aqueles nos quais se praticava a agricultura. O calendário começava no equinócio da primavera mas tinha uma contagem regressiva que fazia com que, na prática, começasse 21 dias antes. O primeiro dia era Calendas que significa "dia de pagar as contas". Depois de Calendas, conta-se os dias de trás para frente até a mudança de fase da lua, 14 dias depois. Esses dias eram chamados de nonas. Das nonas em diante, vêm os idos, que são contados progressivamente. Tudo isto, óbvio, em algarismos romanos e sem zero. Não bastava ser alfabetizado para entender de calendário naquele tempo, tinha que ser culto. Por ser tão complicado, era fácil a manipulação política do tempo para enganar a população que votava nos seus representantes e achava que vivia numa democracia. Os sacerdotes frequentemente adiavam as datas dos solstícios e equinócios para esticar os mandatos de seus correligionários. Também faziam, menos frequentemente, o contrário. O resultado é que, na época em que Júlio César implantou o calendário egípcio em Roma, a contagem do tempo estava um caos. Já nevava na época da colheita. A defasagem já era de quase dois meses ou algo assim.

O tempo que contamos hoje tem a ver com o Egito e com o romance de Júlio César com Cleópatra. O calendário egípicio era altamente preciso. Previa até a precessão dos equinócios: a mudança da posição das constelações no céu em um ciclo de 26 mil anos. Mas na época de Júlio César o calendário egípcio era praticamente mantido por tradição pois já não existiam mais os astrônomos de antigamente. O calendário egípcio era solar. Compensavam a desigualdade entre a contagem de dias e do ano acrescentando um dia extra a cada quatro anos. Júlio César levou os astrônomos egípcios para Roma e eles elaboraram o que chamamos hoje de calendário Juliano. O calendário era bem organizado. O único mês que tinha menos de 30 dias era o último: Februarius. E a cada quatro anos, todos os meses alternavam 30 e 31 dias. O calendário dividia os dias da seguinte forma:

Martius (em homenagem a Marte): 31 dias
Aprilis (em homenagem a Aphrodite - Vênus): 30 dias
Mayus (em homenagem a Maya): 31 dias
Junius (em homenagem a Juno): 30 dias
Quintilius: 31 dias
Sextilius: 30 dias
September: 31 dias
October: 30 dias
November: 31 dias
December: 30 dias
Januarius (em homenagem a Janus): 31 dias
Februarius (purificação - februa): 29 ou 30 dias (em 4 anos)

Bem fácil de lembrar. O ano em que Februarius ganhava um novo dia foi chamado de anno bi-sextus. Lembrando que os romanos adoram complicar e contar de trás para frente, publicaram que deveria-se acrescentar no quarto ano, um dia, seis dias antes das calendas de Martius. Ou seja, seis dias antes de se começar o ano, no dia primeiro de março, deve-se repetir o dia. Esse sexto dia repetido era o dia bi-sexto. Além dessa mudança, o calendário passou a iniciar no mês não-útil de Januarius, de forma que Februarius passou a ser o segundo mês, e não mais o último. Na prática isto não mudava muita coisa e a população continuava considerando o início da primavera como o início do ano. É mais ou menos como começar a semana no domingo e não na segunda.

Até aí tudo bem. Mas então a história deu uma reviravolta: Júlio César foi assassinado pelos seus melhores amigos e demorou um pouco para as coisas voltarem ao normal. As indicações de assessores provavelmente passaram a ser um pouco mais políticas e menos técnicas, e alguns erros no calendário não foram corrigidos (pelo jeito os astrônomos que assessoravam Júlio César não foram mantidos). Augustus assumiu e decidiu-se homenagear Júlio César mudando o mês de Quintilius para Julius. Mas os decretos foram cumpridos ao pé da letra e nunca mais acrescentaram um dia a cada quatro anos. Foi só uma vez, pois o decreto dizia "no quarto ano" e não "a cada quatro anos".

Levou 16 anos para perceberem (ou aceitarem) o erro, e finalmente Augustus o corrigiu. Por isto foi homenageado com a mudança do nome do mês de Sextilius, que se tornou Augustus. E aí começou a bagunça. Como é que Júlio César tinha 31 dias e Augustus apenas 30? Não se poderia tolerar tamanha discriminação então, tirou-se um dia do último dia do ano (tradicionalmente ainda era Februarius) e acrescentou-se em Augustus. Para não ficar três meses seguidos com 31 dias, September perdeu um dia e os meses foram alternados a partir dele.

As coisas chegaram a ficar piores, mas felizmente foram revertidas. Calígula e Nero (ou Tibério - não lembro) tentaram se apropriar dos nomes de September e October (mudando, obviamente, tudo para 31 dias e tomando de Februarius) mas seus decretos foram posteriormente anulados.

Chegou o dia em que o império romano caiu (ou foi substituído pelo sagrado império católico romano) e a Igreja Católica assumiu o controle do tempo. Na idade média a maioria não sabia ler nem escrever. Calcular calendários em algarismos romanos então, nem pensar. As pessoas conheciam os dias pelos nomes de santos. Muitos eram santos locais, santos pagãos e era comum de uma vila para outra as datas não coincidirem. A elite, o clero e a nobreza marcavam o tempo na época de Santo Agostinho (início da idade média) contando os anos ainda desde o tempo da fundação de Roma. O ano 1, por exemplo, era na verdade 753 A.U.C (Anno Urbis Conditae). O povo media o tempo olhando para as estrelas.

Uns 500 anos depois de Cristo um monge chamado Dionísio - o pequeno (ele era pequeno) propôs que os cristãos passassem a contar os anos a partir do nascimento de Cristo, que seria chamado de ano 1 (os romanos não tinham zero). Ele baseou-se em pesquisas históricas que apontavam o ano de 753 A.U.C. como o ano da morte de Herodes, que foi governador da Judéia na época de Cristo. Acontece que havia muitos Herodes. Os sucessores do primeiro frequentemente adotavam seu nome (assim como fizeram com Cesar). O último faleceu na verdade em 749 A.U.C. Ou seja, na melhor das hipóteses, considerando serem corretos os relatos bíblicos, Cristo teria nascido pelo menos 4 anos antes de Cristo. Mas poderia ter sido ainda 20 anos antes.

Seja como for, a contagem dos anos proposta por Dionísio só chegou a ser adotada pra valer lá pelo ano 1000 (o que tornou a chegada do ano 1000 mais assustadora) com Carlos Magno. A idade média estava chegando ao fim e os árabes estavam trazendo de volta a cultura perdida, o interesse pelo tempo, os calendários, as ciências. O Al Magestum de Ptolomeu era o livro texto para Astronomia, Medicina e Astrologia. A própria igreja havia abandonado Platão e agora procurava utilizar Aristóteles, através do árabe Averrois, para adequar seus dogmas às descobertas científicas nos textos de Tomás de Aquino. O Universo era Diabocêntrico: tudo gira em torno da Terra, mas no centro da Terra está o Inferno, e lá, no nono círculo está o Satanás mastigando os assassinos de Júlio César e o pobre do Judas, como descreveu Dante. Houve a reforma protestante e finalmente, no século XVI, a igreja decidiu dar ouvidos ao que seus próprios sacerdotes propunham há meio milênio: a correção do calendário. Como um ano não tinha 365 dias e 1/4 exatamente, mas na verdade algo em torno de 365,2422, era preciso corrigir os 0,0078 (11 minutos e 14 segundos) que não eram contados. O Papa Gregório finalmente publicou um decreto, baseado principalmente nos cálculos do jesuita Christopher Clavius, corrigindo o calendário. Com isto, 10 dias foram omitidos do calendário. O dia após 4 de outubro de 1582, quinta-feira, que seria o dia 5, passou a ser a sexta-feira dia 15 de outubro.

Mas a transição não foi fácil. Os protestantes levaram 200 anos para aceitar a mudança. Havia cidades na Inglaterra que adotavam o calendário antigo (Old Style - O.S.) e outras que adotavam o novo. Os católicos ortodoxos até hoje não o aceitaram. O calendário russo só passou a levar em conta a correção em 1917 (já com desvio de 14 dias). E esse calendário: o juliano corrigido pelo Clavius e decretado pelo papa Gregório é o calendário civil que usamos hoje o ocidente: o calendário gregoriano.

Há muitas outras histórias do tempo que eu não mencionei. Existe o calendário da ONU, criado em 1945, com 13 meses de 28 dias cada onde todas as sextas-feiras são 13 e os dias sempre caem nos mesmos dias da semana. Há o calendário islâmico, que flutua para trás no calendário gregoriano pois é lunar e possui menos dias. Houve o exdrúxulo calendário decimal da Revolução Francesa que durou apenas alguns anos. Ainda se usa o calendário egípcio na astrologia, mas sem levar em conta a precessão dos equinócios o que causa uma considerável defasagem em relação à posição real dos astros. E, para os que se decepcionaram com o fim do mundo que não chegou em 2000, ainda existe a esperança no calendário maia que só termina no último dia de existência do mundo, marcada para 21 de dezembro de 2012.

4 comentários:

Anônimo disse...

Se o autor não sabe se é verdade porque eu vou ler?

Helder da Rocha disse...

Porque é uma história interessante mesmo que seja inventada. Leia como se fosse ficção, e você vai gostar. Acho que nenhum autor sabe se o que escreve é verdade; ele pode acreditar que é, mas saber mesmo não sabe. Jornalismo e história é ficção. É da natureza das próprias palavras não permitir que existam relatos isentos.

32!C disse...

muito bom.. um post q valeu a pena ser republicado

andrea paula disse...

Dear Helder....I miss you so much!!!!
Mandei um email pra vc,me responda!!!!
Beijos!
Andrea