25.12.06

O Blogger é o Grinch

Não publiquei as historinhas assustadoras de Natal porque o Blogger não deixou. O Blogger.com migrou (ou está migrando) para uma nova versão, e no último dia 25 eu converti o sistema antigo para o novo, que até então era chamado Beta (não é mais.) Não foi o melhor dia e hora para fazer isto. Os programas devem ter confundido meu usuário e senha do Google com os dados do Blogger, e me vetaram a entrada. Passei uns dias sem acesso mas agora tudo (aparentemente) está normal.

Mas não vou publicar nada hoje (tenho que pegar um ônibus para o litoral). O destino não quis que eu assombrasse o Natal de 2006, mas estarei de volta em 2007 com mais viagens.

17.12.06

Somente hoje



Haverá mais um ensaio aberto da peça Prólogo no Bunker, inspirada em Sonho de uma Noite de Verão de Shakespeare, e produzida pelo Núcleo Experimental dos Satyros.

Direção: Roberto Audio
Elenco: Alessandra Souza, Andressa Cabral, Ana Lucia Felipe, Ana Karina Linhares, Ana Pereira dos Santos, Angela Ribeiro, Fabiana Souza, Helder da Rocha, Luis Paulo Maeda, Peterson Ramos, Ricardo Socalschi, Teka Romualdo, Thammy Alonso, Wagner Mendonça, Wanderley Firmino, Washington Calegari.

Domingo 17 de dezembro, às 23 horas, no Espaço dos Satyros 2 (Praça Roosevelt, 124). (11) 3258-6345. Capacidade: 60 pessoas. Duração aproximada: 1 hora.

7.12.06

Succubus



Era uma tarde de chuva, e eu estava sozinho em casa lendo um livro de Umberto Eco (que nunca terminei) quando algo me distraiu. A princípio não vi nada nem ninguém. Veio como apenas uma palavra. Não lembro se foi uma palavra vista, ou ouvida, ou simplesmente pensada.

- Olá!

Acho que depois vieram outras palavras, tanto que não foi possível continuar a leitura. Surgiram imagens, cartas inteiras, lembranças inexistentes, um eclipse do Sol e um ônibus viajando por estradas esburacadas numa madrugada chuvosa. Com tanta informação acho que adormeci e quando acordei já era noite. Ela estava lá, em pé na varanda observando a paisagem. Eu a vi de costas. Tinha cabelos loiros e as costas nuas. Acho que usava um corset e uma saia longa, brancos. O vento movia a saia e os cabelos. Parecia uma miragem. Ela percebeu que eu a observava, e sem se mover me chamou.

- Venha, vamos ver as estrelas!

- As estrelas?

Não lembro se falei ou se pensei, mas ela respondeu mesmo assim.

- Sim. Foi você que me falou delas, lembra?

Não lembrava. Lembrava que já havia falado de estrelas, mas não lembro de ter falado para ela. Eu não lembrava dela. Parecia alguém familiar, mas não lembrava.

- Não fique aí parado. Venha!

A preguiça era imensa, mas eu fui. Lembro quando cheguei na varanda e virei o rosto para olhá-la. Ela me olhou de volta. Era linda. Não consegui desviar o olhar. Não queria desviar. Não queria mais nada. Talvez por ter me ofuscado eu tenha fechado os olhos, mas então ela me abraçou e eu deixei-me encantar. Explorei suas curvas, abracei suas costas, deslizei sobre suas pernas e em algum momento escorregamos. Fizemos amor em queda livre e não lembro como terminou.

Acordei diante do mar. Estava claro. A luz era a luz de luar. A brisa era morna e a areia estava quente. Eu estava nu e ela ainda escorregava sobre minha pele como se fosse parte de mim.

- Hélio.

Ela me chamava de Sol. Não tinha pensado nisto. Mas como ela parecia lunar! Tinha uma luz azul, clara, suave. Me seduzia da forma mais sutil e preenchia todos os horizontes. Me tirou do meu cubículo e me trouxe para este universo vasto e sem limites.

- Hélio!

Mas a luz era pouca. Eu achava pouca. Imenso era o céu, mas a luz era de luar. A luz vinha dela e ela parecia estar em todos os lugares, em todas as estrelas, em todos os reflexos. Por um instante tentei me mexer, e senti sua pele outra vez. Tive uma breve asfixia e quis acordar.

- Hélio.

Me levantei e senti as mãos escorrendo pelas minhas costas. Novamente me senti preso. Olhei para o mar e vi seus olhos, senti o cheiro do mar e ouvi a brisa dizer:

- Hélio.

Isto começou a me incomodar profundamente. Ela estava em todos os lugares, ocupava o universo, e a luz azulada que não me nutria estava sugando minhas energias. Comecei a achar que estava sendo consumido. Tentei de todas as formas acordar mas foi em vão. Esperneei. Tentei gritar.

- Hélio.

- Não! - gritei, e me afastei dela.

Ela me olhou assustada sem entender, e não disse nada. Parecia uma criança. Me olhou de novo com aqueles olhos e parecia querer se aproximar.

- Não! Eu não sou o Sol! Não sou! Não quero! Não sou quem você procura!

Ela apagou-se. A brisa do mar mudou tornando-se vento e nuvens começaram a cobrir as estrelas. Seu olhar agora refletia tristeza. Fiquei com pena. Quase me arrependi do que disse. Ela não falou nada. Apenas me olhou, fechou os olhos, e quando abriu novamente, sorriu. Lágrimas desceram dos dois olhos. Quis abraçá-la naquele momento; achei que talvez estivesse errado, mas as nuvens finalmente cobriram o céu e logo começou a chover forte. Corremos para debaixo da árvore, mas ela não me olhou mais. Encarou o mar e a chuva que caia sobre as ondas. Sem se virar, ela me disse:

- Feche os olhos.

Eu obedeci. Então fez-se silêncio. Acho que adormeci. Quando acordei já eram dez horas da manhã. Estava atrasado e exausto. Não iria chegar a tempo. Peguei um trânsito infernal. Foi um dia péssimo.

2.12.06

Vista o corpo de espinhos



Domingo (amanhã) eu farei minha última participação como ator na peça Vestir o Corpo de Espinhos, que está em cartaz no Espaço dos Satyros I. A peça voltou depois que retornamos da Alemanha mas com outro elenco e minha participação normalmente resume-se à executar parte da trilha sonora em acordeón e piano. Mas domingo irei subtituir um ator e atuar em três cenas da peça representando uma das personagens que criei no texto Crepúsculo (que agora faz parte do texto da peça, criado coletivamente). Quem quiser e puder ir, me avise ou ligue para os Satyros para garantir lugar (o teatro é pequeno, a disposição dos assentos foi alterada e cabem apenas 40 pessoas).

É uma pessa impressionista. Eu já escrevi sobre ela neste outro post. As imagens acima são do vídeo da peça gravado por Carlos Ebert, com o elenco original, que foi usado para nossa inscrição no festival Play-off/06, na Alemanha.

Vestir o Corpo de Espinhos
Domingos, dia 3 e 10, 18h.
Espaço dos Satyros 1. Praça Roosevelt, 214. (11) 3258-6345.
R$ 20 (desconto de 50% para estudantes).
Duração aproximada: 40 minutos.
Estacionamento em frente ao teatro.

Ficha Técnica:
Elenco: Ana Karina Linhares, Ana Lúcia Felipe, Ana Pereira dos Santos, Andressa Cabral, Angela Ribeiro, Fabiana Souza, Helder da Rocha, Paulo Maeda, Peterson Ramos, Ricardo Socalschi, Teka Romualdo, Wagner Mendonça, Wanderley Safir, Washington Calegari.
Texto: Criação coletiva.
Dramaturgia e figurino: Núcleo Experimental dos Satyros, Rita Fernandes e Regina Ciampi.
Piano, acordeón e trilha sonora original: Helder da Rocha
Direção: Alberto Guzik
Cenários e objetos de cena: Fabiana Souza, Rita Fernandes, Helder da Rocha e Regina Ciampi.
Produção visual: Angela Ribeiro.
Operador de Luz: Peterson Ramos
Operador de som: Andressa Cabral

28.11.06

Não pense mais nisso

http://denise-r.smugmug.com

     Ela era uma menina brilhante, e ele apenas um cara qualquer, um sonhador. Eles representavam seus papéis na vida, como todo mundo. Mas um dia ela descobriu sua ilha de tesouros e o viu com outros olhos. E alguns dias depois ele se encontrou nos olhos dela. No início nada foi dito e nada foi realizado. Eles apenas falavam suas próprias línguas e entendiam tudo. No princípio foram levados pelo vento, leves, brilhando. Como sementes de dente-de-leão deixaram-se levar, sem saber onde iriam se encontrar, ou se iam mesmo pousar em algum lugar.

     – O que você acha de tudo isto? – ela perguntou, um dia.

     – Eu não sei – respondeu ele – Eu não penso nisso, eu só deixo levar.

     Ela era uma menina esperta, e ele apenas um sonhador qualquer, apaixonado. Eles representavam seus papéis na vida, para todo mundo. Mas um dia ela descobriu outra ilha de tesouros e o viu com outros olhos. E alguns dias depois ele não mais se encontrou nos olhos dela. No final nada foi dito e tudo foi realizado. Eles apenas falavam suas próprias línguas e entendiam nada. No final foram separados pelo vento, bruscos, sangrando. Como sementes de dente-de-leão deixaram-se afastar, sem saber por que nunca se acharam, ou se queriam ir mesmo pousar em algum lugar.

     – O que você acha de tudo isto? – ele perguntou, um dia.

     – Eu não sei – respondeu ela – Não pense mais nisso; só deixe que eu vá.

(Adaptada de versão que escrevi originalmente em inglês)

24.11.06

Singularidades



Na manhã em que acordei sozinho fui despertado por um beijo gelado em meu rosto. Era o vento. A janela aberta agitava as cortinas como naqueles filmes de terror, iluminadas por uma luz suave ou sinistra (não sei) de um amanhecer lento, meio azulado, meio amarelado. Levantei-me para fechá-la quando percebi que não estava no meu quarto, pois na janela do meu quarto não há cortinas.

Não eram cortinas. Eu as toquei e elas se desfizeram. Pareciam de seda, mas ao tocá-las percebi que eram de algo pegajoso que se desmanchava como teia de aranha, como açúcar. As paredes me pareceram normais. Eram ásperas, frias e duras.

Finalmente eu encarei a paisagem. Um horizonte plano, imenso, amarelo em baixo e azul em cima. Era um azul meio pálido, assim como o amarelo era meio cinza ou marrom. A cena parecia fotografia com baixa saturação e lembrava pintura em aquarela. Mas não era estática. O vento assobiava em notas dissonantes e rabiscava desenhos na relva. Talvez fosse uma plantação de trigo (mas não sei se era trigo; eu não tenho certeza se sei com que se parece uma plantação de trigo.) As folhas não eram verdes. Eram meio amareladas, desbotadas.

Por alguns instantes, as folhas se mexendo pareciam multidões (de gente mesmo). Pareciam pessoas se deslocando de um lado para o outro, como numa praça de uma cidade grande. Era uma miragem, eu creio. Gente circulando sem parar como se fossem robôs. Era uma visão turva, às vezes transparente, meio névoa, porque quando eu parava para olhar com atenção eu via apenas um campo de folhas amarelas sendo agitadas pelo vento.

Fechei a janela porque não suportei a visão. Tudo parecia estranho demais. Voltei para a cama e deitei-me novamente. Procurei nos lençóis cheiros que não fossem meus, mesmo que imaginários e voltei a dormir na esperança que despertaria em um lugar menos deserto.

Acho que até dormi. Não estou certo. Só sei que acordei no mesmo lugar. Era tudo igual. As cortinas eram as mesmas e ainda estavam rasgadas. Era desanimador. Restou a porta, fechada, que ainda estimulava minha curiosidade. Não precisei de muita coragem para me levantar, girar a maçaneta e abri-la deixando entrar uma luz ofuscante. Quando abri os olhos lá estava ela: a mesma paisagem desbotada, azul, amarela, pálida, cinza, chata! Novamente eu estava sozinho num mundo familiar que eu não queria encontrar.

Sim, era familiar. Era o mesmo universo, sempre! A mesma casa, as mesmas paredes, os mesmos campos. Eu o conhecia. Sabia que se andasse o suficiente, de um lado eu encontraria o mar, e do outro, um penhasco. Conhecia os castelos, as ruínas, os jardins, as fontes, os rios, as árvores, os labirintos, as passagens secretas, as estrelas e as paisagens mágicas. Eu sabia exatamente onde estava e que eu poderia andar para sempre em qualquer direção e nunca encontraria outra alma viva naquele universo senão a minha. Eu estava preso dentro de mim. Era um pesadelo.

Então senti como se alguém me tocasse as costas; uma mão macia acariciando a minha nuca. Fechei os olhos e tentei tocar a mão que me acariciava, mas quando toquei ela derreteu. Não havia nada. Eram as cortinas me iludindo! Estendidas pelo quarto, ondulavam-se como luzes da aurora boreal, desenhando um mundo colorido. Nesse mundo eu a vi surgir no meio das luzes como em holograma.

Ah, mas não durou. Pelas costas, o vento me atingiu batendo a porta violentamente. A onda de choque trincou as cortinas como cristal, que fragmentou-se em milhões de pedacinhos junto com todas as ilusões. O pó que restou espalhou-se pelo chão, e quando abri novamente a porta o vento soprou tudo embora. Não havia mais ninguém (nunca houve, eu imagino), então eu fugi. Saí pela porta da frente para enfrentar a relva e tentar encontrar o sentido de tudo.

Encontrei. Foi um encontro inesperado. Caminhei por mais de uma hora até perceber, no meio do campo amarelado, a silhueta que surgira no horizonte. Eu sabia quem era. Era eu. Ansioso, eu corri na minha direção. Corremos. Mas quando cheguei perto eu parei, ou paramos, por um instante. Encontramo-nos ali, nós, a sós, eu e eu. Olhei, ou olhamos, sem coragem de tocar a visão narcisística. Mas certa hora o medo foi esquecido e me abracei sem pensar em mais nada. Foi um longo abraço. Eu e eu choramos juntos a nossa solidão em meio às multidões que balançavam ao vento, comemoramos juntos a nossa solidão em meio às plantações que recuperavam suas cores, brindamos juntos à nossa solidão rindo no meio das ilusões que se desfaziam, e a terra tremeu.

Começou com um tremor leve, mas logo a paisagem começou a se derreter e as cores tornaram-se mais saturadas. Senti que tornava-me o mundo, mas também que sempre fui o chão, o vento e o espaço. Enquanto estávamos eu e eu abraçados, nós, as plantações, fomos despertando aos poucos, acordamos nas cores saturadas e percebemo-nos vivas. Levantando-nos, corremos para também nos abraçar. Eu, todos nós, de todos os anos, de todos os minutos, de todos os segundos, de todos os lugares. Chegamos e partimos em espirais, girando como estrelas numa grande festa que durou por uma eternidade e que acelerava-se ansiosa pelo fim. Giramos eu e todos os eus na crescente curvatura de mim, este universo, até que um lado dos meus lados encontrou o outro – o mesmo, e o espaço que me define foi encolhendo, encolhendo, até consumir-se completamente, no silêncio do vácuo, numa autofagia urobórica.

14.11.06

A máquina do tempo



- Fico imaginando. Se com meu beijo o sapo vira príncipe, e com outras coisas, no que será que ele se transforma?

- Acho que ele se transubstancializa em outra dimensão; acho que ele enxerga o infinito. Sabia que sapos vêem fótons individuais? Eles percebem quando o espaço encolhe, quando o tempo pára.

- O que é muito mais maravilhoso que ser príncipe.

- Croac!

***

- Será que existe uma máquina do tempo?

- Quando não há mais espaço entre nós o tempo pára de repente, por um instante apenas.

- É verdade. Quando o tempo pára as outras pessoas ficam minúsculas como grãos de poeira.

- Isso tem uma explicação física. A atração cresce de forma infinitesimal, a luz fica presa, a matéria some e o tempo pára. É a verdadeira máquina do tempo: um buraco negro que dilacera a matéria mas que faz tudo renascer em outro universo.

- E que mundo será esse que surge quando o espaço entre eu e você desaparece? Será que fica próximo a uma certa paisagem de cerejeiras?

- Sem dúvida. Lá existe um grande jardim de cerejeiras.

- Ao lado de um oceano lunar.

- Com um riacho que flui entre elas, de pedras polidas, de águas claras. É mesmo aquela paisagem de sonho que existe, que se deseja, da qual se sente falta, e que se só se alcança por breves instantes.

- Instantes que valem mais que muitos e muitos dias terrenos. No mundo das cerejeiras o tempo tem uma lógica própria.

- Sim. O lugar é como se fosse o próprio tempo, e se ele passa nós passamos juntos. É o espaço que fica para trás.

- É uma visão que não tem preço. É uma das coisas mais lindas que há no mundo.

- É outro mundo. As estrelas são outras.

***

- Mas como é se faz uma maquina do tempo?

- Pode ser com uma Sonata de Vênus?

- Sonata de Vênus?

- Preciso de um vinho. Você tem algum?

- Tem Merlot, Pinot Noir.

- Acho que eu tenho Syrrah e Malbec.

- E então.

- Eu faço assim, derramando um pouco nesta superfície quente e macia.

- Ui!

- Lentamente. É preciso deixar que escorra um pouco, pelos caminhos curvos. Prova-se com uma língua ávida, mas suavemente, lentamente, deixando que ele passe por lugares interessantes antes de saboreá-lo. Tem um sabor unico! Dizem que uma mistura do vinho com esses temperos e líquidos vivos tem o poder de parar o tempo por um instante.

- Eu acredito. Um instante tão breve que parece infinito. Não consigo pensar em mais nada.

- Também não. Apenas vejo os rios de vinho descendo o planalto na direção do monte, atravessando a selva, buscando o vale. Preciso controlar o fluxo das afluentes. Acho que uma mistura de merlot com syrrah e malbec ficará bem. Um no meio e dois nas laterais, para misturar melhor com as nascentes.

- Acho que o chão está tremendo.

- Sim. Eu também sinto. É o músico deslizando suas notas sobre os caminhos lisos. Ele é um barítono e precisa exercitar a língua. Os sons vibram em passadas transversais, ressoam em cortes diagonais, e de vez em quando silenciam em uns mergulhos verticais bastante profundos.

- Estou ficando tonta.

- Deve ser o vinho.

- Não. Deve ser o tempo.

- Ainda falta preparar a orquestra. Preciso sentir o território, inspecionar os instrumentos. Desço devagar e paro no alto do monte. Está ótimo. Agora deixo-me escorregar para um dos lados, fazendo pressão para não cair no solo liso.

- Eu que vou cair.

- O chão está mesmo vibrando. É isto. É o músico. Ele gira como um redemoinho até tornar-se onda. Lamberá as costas até inundar toda a selva rolando sobre suas praias úmidas, em um ritmo constante, como um pulso.

- Vai começar a música. Já sinto que ela se inicia.

- Sim. A princípio parecem notas tocadas em um piano. Mas não são ouvidas. São sentidas como dedos que fazem pressão suave em todas as teclas, formando acordes nas notas altas e arpejos nas notas baixas. Às vezes parecem violinos, esticando as cordas em pizzicatto ou sendo feridos com stacattos. Outras vezes arrastam-se escorregadios como legatos e gemem como se fossem rabecas.

- As palavras vão virar pontinhos.

- É o tempo que já desacelera, e se o tempo muda as freqüências mudam junto. Cada vez surge uma nova composição, ora harmônica, ora melódica, sempre espasmódica, que no auge será...

- Orgásmica!

- Mas ainda repetem. Da Capo Al Fine, Al Coda, Ad Infinitum. Por ora accellerando, depois ritardando, rallentando, a tempo em diferentes intensidades: piano, mezzo piano. Em ritmo de pulso, às vezes mazurca, às vezes valsa, às vezes ardendo num rock intenso. A crina passa arranhando as cordas com firmeza enquanto os dedos as apertam em vibrato. E assim cresce a melodia que entra em ressonância intensa e constante até o instante em que...

- ... o tempo pára!

3.11.06

Satyrianas



Ontem começaram as Satyrianas – o evento anual promovido pelo teatro dos Satyros. O evento geralmente na semana que dá início à primavera, mas este ano, a prefeitura não autorizou o evento - que dura 78 horas ininterruptas - e ele acabou não acontecendo em setembro.

Participam do evento os dois espaços dos Satyros, o espaço dos Parlapatões, o Next, a Compania do Feijão, o Teatro Fábrica São Paulo e a Biblioteca Mário de Andrade. Há uma vasta programação cultural que envolve 46 espetáculos teatrais, saraus poéticos e literários, shows, intervenções teatrais, oficinas, teatro de rua, uma peça de 78 horas de duração (o Uroborus), um festival de curtas e outras coisas que não lembro agora.

A abertura aconteceu no teatro dos Parlapatões na praça Roosevelt, onde o Mário Bortolotto cantou umas músicas e depois iniciou, com a atriz Helena Ignez, o Uroborus.

É a segunda vez que acontece o Uroborus nas Satyrianas. Eu participei dele no ano passado e escrevi um post. O esquema é o mesmo: 78 duplas revezam-se e interpretam o mesmo texto, inventam, criam, e fazem qualquer coisa para que a peça não pare e que continue interessante. Este ano vou participar e entrarei em cena às 7 horas da manhã de sábado (amanhã, eu creio – eu estou meio desorientado). O texto é outro (chama-se Ai de Mim, e agora, neste momento, ai de mim, não lembro do nome do autor – depois eu atualizo isto). Recebi o texto ontem, é enorme, não sei o que vai ser dele, mas prometo que farei o melhor teatro para os corajosos que por acaso aparecerem na platéia.

As Satyrianas é uma ótima oportunidade para quem ficou em São Paulo no feriado e sabiamente evitou os aeroportos e as estradas. As peças custam o valor que você quiser pagar. E são ótimas peças que geralmente custam de 15 a 35 reais. A qualquer hora do dia, da noite ou da madrugada acontece alguma coisa. É um programa ótimo para os insones. A programação está disponível no site dos Satyros.

Do Núcleo Experimental dos Satyros haverá duas peças. Chico em Obras (sábado, 16 horas), produzido pelos oficineiros dos Satyros de 2005, é uma peça inspirada nas músicas e peças de Chico Buarque. A apresentação nas Satyrianas é única pois a peça saiu de cartaz no ano passado. Vestir o Corpo de Espinhos (domingo, 17 horas) foi produzida pelo Núcleo no ano passado e representou o Brasil no festival Play-off/06 na Alemanha. Voltou neste segundo semestre com novo elenco. Eu participei da criação do texto da peça, fiz objetos usados em cena e compus a trilha sonora original. Nesta temporada participo tocando acordeón e piano. Excepcionalmente nas Satyrianas eu estarei também atuando como um personagem cego.

Há mais sobre as Satyrianas no site dos Satyros, no blog do Ivam Cabral e no portal de teatro do UOL (que ainda não foi inaugurado oficialmente, mas que já tem conteúdo).

14.10.06

No meu quarto há um anjo

No meu quarto há um anjo. Eu não consigo vê-la, mas eu sei que ela está aqui; sempre esteve desde que eu me lembro. Ela está lá, no meu quarto, no meu sonho. Ela tem meus olhos e algo mais que eu só encontro na minha mente, mas ela não sou eu, assim como eu não sou ela. Disto eu estou certo.

Diante da janela assisto o universo girar, e eu canto. Eu olho para baixo e não vejo nada, então deixo que minha cabeça escorregue janela abaixo. Eu caio como se voasse. É uma sensação estranha. Sinto o vento, ele me estica; é meio doloroso, mas não há dor ao atingir o chão. Sinto o cheiro do oceano, e como sempre, ela está lá. Eu consigo sentir sua respiração acariciando minha orelha.

Este lugar perto do mar está bem além da janela. Para chegar aqui da última vez cruzei um labirinto de pontes e monstros. Quando eu a encontrei dentro do castelo, nos demos as mãos e subimos pelas escadas espirais da torre mais alta. Lá em cima, ela abriu a porta e nos deparamos com esta mesma praia iluminada pelo luar. E lá, diante do mar, estava a mesma árvore torta e azulada.

Mas isto foi da outra vez. Desta vez eu simplesmente caí da janela.

Naquele mundo eu sou apenas um menino. Lá nos sentamos no balanço que pende do galho mais longo da cerejeira azulada. Sentamos face a face, e nos olhos dela eu vejo a mim. Eu nunca consigo lembrar do seu rosto.

Adormeci mais uma vez e quando acordei estava novamente diante da janela. Parecia a mesma janela, mas o céu estava nublado e abaixo de mim não havia mais o nada, apenas a cidade.

(publicado originalmente em inglês)

13.10.06

Ela se foi

" But our love it was stronger by far than the love
Of those who were older than we-
Of many far wiser than we-
And neither the angels in heaven above,
Nor the demons down under the sea,
Can ever dissever my soul from the soul
Of the beautiful Annabel Lee."
(Edgar Allan Poe, Annabel Lee)

Não consigo dormir, apesar do sono. Então fico aqui, sozinho, escrevendo, expondo-me, nesta manhã nublada, buscando algo que mude as cores do dia. Eu sou aquele que deixou-se apaixonar, eu diria, perdidamente (que outra palavra poderia usar?), que deixou-se cegar, que deixou-se acreditar, que abriu espaço na sua alma para que fosse preenchida por ilusões inventadas (belíssimas, por sinal), que deixou-se entorpecer por carinhos e palavras, que acreditou em sputniks, cerejeiras, e em sonhos felizes e distantes (e que faria tudo isto de novo e de novo). Tão perdido estava que quando caí (ou fui empurrado) do navio em alto mar, a princípio achei que era sonho, ou pesadelo, e sequer tentei nadar para me salvar. Tendo escapado do afogamento e dos tubarões famintos, escrevo isolado no alto de um penhasco de uma ilha deserta que apenas eu conheço (antes diria que ela também conhecia). Escrevo palavras inúteis, inebriadas, numa folha encharcada, que depois lançarei ao mar aberto dentro desta garrafa de vinho tinto (que ainda não está vazia.) Escrevo que amo, e que amei-a, que aprendi a amá-la, incondicionalmente, a amá-la de amor, e agora de saudade. Escrevo que preciso do cheiro do seu corpo, do qual tornei-me dependente. Escrevo para aquela que um dia chamei de minha sputnika; aquela com a qual por dois verões, dois outonos, dois invernos, e uma primavera foi minha companheira de viagem, com a qual fui feliz. Escrevo em vão, pois este mar é vasto, e ela está longe, e a garrafa é escura.

Hoje, sinto dor na minha alma vazia. As feridas, que cicatrizam, de vez em quando abrem e sangram, como agora. Do alto deste penhasco eu vejo o meu mundo, eu me vejo, eu vejo o meu paraíso, mas eu não a vejo mais quando acordo. Sinto apenas a brisa, e escrevo.

4.10.06

Call me Ishmael

Capa do Audio Book da Penguin Classics

Estou lendo Moby Dick, de Herman Melville através do serviço Daily Lit, que envia livros para o seu e-mail em fragmentos diários. Descobri o serviço através do blog do Alexandre Soares Silva. O serviço é gratuito e tem vários livros disponíveis. Você se cadastra e escolhe os livros que quer receber, e a periodicidade. Os livros não são necessariamente enviados por capítulo. Se você ler um trecho e quiser continuar, não precisa esperar até o dia seguinte e pode solicitar o próximo imediatamente.

Eu li uma tradução em português de Moby Dick quando tinha 13 anos, mas nunca tinha lido o original em inglês. Adoro a forma como Melville forma imagens com palavras. Parece um filme.

28.9.06

Sobre o sentido da vida

Ontem eu estive em uma conferência muito séria. Como eu estava na platéia, e não em pé, defendendo pontos de vista, eu naturalmente adormeci, como sempre faço nas conferências. Na verdade, eu não lembro de ter ido à conferência, apenas lembro de ter acordado quando meu vizinho me cutucou, provavelmente porque eu estava roncando, embora eu tenha certeza que eu não ronco.

Eu demorei para perceber o tema da conferência, pois apesar de muito séria, os argumentos dos palestrantes me pareciam totalmente absurdos. Tinham uma lógica precisa, uma abordagem cuidadosa e tudo parecia claro, óbvio, perfeito, conseqüentemente absurdo.

Meu despertar foi lento, e a sala estava um tanto escura. Foi por isto que só algum tempo depois percebi que se tratava de um simpósio. Era o que estava escrito numa faixa que pendia da mesa que estava atrás do palestrante: XVII Simpósio Internacional sobre o Sentido da Vida. Era mesmo absurdo! Como é que se discute uma coisa dessas? Todos sabem que o sentido da vida é 42.

O próximo palestrante era o Paulo Betti. Concluí que só poderia estar tendo um pesadelo. Não sei o que ele estava fazendo ali, mas ele veio com uma tese interessantíssima: o sentido da vida é a Merda. Ele já havia, em outros fóruns, convincentemente demonstrado por argumentos filosóficos chauístas o papel importantíssimo da Merda na política e desenvolvimento das nações. Ele aparentemente foi convidado para desenvolver o seu argumento. Mas o que isto tem a ver com o sentido da vida? Ora, segundo o palestrante, toda a evolução da humanidade e das espécies visa unicamente à perpetuação dela: a Merda. É a principal fonte de vida e de energia. É ela quem nutre o solo, que nutre as plantas, que são comidas pelos animais, que são comidos pelos humanos, e que um dia irão fazer cocô em outros planetas e espalhar-se Universo. Mostrou que se o mundo parasse de fazer cocô, toda a civilização e a biosfera entrariam em colapso e a Terra viraria um deserto estéril. Através de complicadas equações matemáticas demonstrou sua tese de que era a Merda a misteriosa matéria escura cuja massa ocupa a maior parte do Universo, e o principal componente dos buracos negros que devoram as galáxias. Conseqüentemente, o Big Bang foi um gigantesco pum que espalhou os gases incandescentes e partículas fecais que formam todo o Universo conhecido. Em suma, enterrar as mãos na Merda é uma forma sublime de encontro com a divindade, com a essência primordial do Universo.

Eu não consegui assistir até o fim. Ele começou a viajar em digressões absurdas contrastando sua tese com as teorias do Rev. Dawkins e do Dr. Pangloss e eu cochilei. Tive pesadelos com lulas gigantes, porcos falantes e sanguessugas barbudas que me perseguiam. Fugi para a floresta. No meio do caminho, no fim da rua encontrei um precipício. Não tive dúvidas: pulei.

Fui salvo por um indiano de turbante rosa, hálito de alho, olhos enormes e um sorriso desdentado que se apresentou como Mustafá Smith. Ele por acaso passava no momento do meu salto em seu tapete voador fabricado em Ashgabat. A única coisa que ele falou que eu entendi foi seu nome. Depois passou o resto da noite contando piadas na língua dele e rindo da minha cara. Eu não entendia nada, mas ele ria tanto que eu ria também sem saber por que. O tapete era ridículo. Tinha ursinhos rosas estampados e uma etiqueta enorme onde se lia "Made in Ashgabat". Era tudo tão ridículo que não havia sentido em fazer outra coisa a não ser rir. Quando eu já não aguentava mais de tanto rir, Mustafá falou alguma coisa, fez umas caretas grotescas e me empurrou violentamente. Pude ouvir suas gargalhadas histéricas enquanto eu caia das alturas a espatifar-me nas areias do deserto. Doeu horrores. Fiz fumacinha que nem o coiote. Morri rindo, com a cabeça estourada e sem mandíbula. Tudo era uma grande piada.

Acordei algum tempo depois em outras terras com o Sol queimando a pele do meu rosto. Foi demais para uma noite. Tive uma crise de riso tão intensa que quase morri de asfixia. Passei o resto do dia rindo à toa, como um louco.

Acho que na noite passada corri um grande risco de levar a vida a sério, mas fui salvo por um tal de Mustafá Smith em seu tapete de ursinhos rosas.

25.9.06

Vincent, de Tim Burton (1982)



Adoro Tim Burton, e adoro este curta-metragem que ele fez em 1982, que conta a história de um menino chamado Vincent Malloy, que tinha 7 anos, e que queria ser Vincent Price. Ele me lembra outro menino que também criava seus mundos, que realmente acreditava que eles existiam, e neles vivia dia após dia. Esses mundos ainda estão lá, esperando que ele os acorde.

I once was a young boy, somewhat, like Vincent Malloy.

Vincent, by Tim Burton (1982)

Vincent Malloy is seven-years-old,
He's always polite and does what he's told,
For a boy his age, he's considerate and nice,
But he wants to be just like Vincent Price.

He doesn't mind living with his sister dog and cats,
Though he'd rather share a home with spiders and bats,
There, he could reflect on the horrors he's invented,
And wonder dark hallways alone and tormented.

Vincent is nice when his Aunt comes to see him,
But imagines dipping her in wax for his wax museum.

He likes to experiment on his dog Abercrombie,
In the hopes of creating a horrible zombie,
So he and his horrible zombie dog,
Could go searching for victims in the London fog.

His thoughts though aren't always of ghoulish crime,
He likes to paint and read to pass some of the time,
While other kids read books like Go Jane Go,
Vincent's favourite author is Edgar Allan Poe.

One night, while reading a gruesome tale,
He read a passage that made him turn pale,
Such horrible news, he could not survive,
For his beautiful wife had been buried alive!

He dug out her grave to make sure she was dead,
Unaware that her grave was his mother's flowerbed.

His mother sent Vincent off to his room,
He knew he'd been banished to the Tower Of Doom.
Where he was sentenced to spend the rest of his life,
Alone with the portrait of his beautiful wife.

All alone and insane, incased in his doom,
Vincent's mother burst suddenly into the room.
She said, "If you want to, you can go out and play"
"It's sunny outside, and a beautiful day."

Vincent tried to talk, but he just couldn't speak,
The years of isolation had made him quite weak,
So he took out some paper, and scrawled with a pen,
"I am possessed by this house, and can never leave it again."

His mother said, "You're not possessed,
     and you're not almost dead!"
"These games that you play are all in your head!"
"You're not Vincent Price, you're Vincent Malloy!"
"You're not tormented and insane, you're just a young boy!"

"You're seven-years-old and you are my son,"
"I want you to get outside and have some real fun."

Her anger now spent, she walked out through the hall,
And while Vincent backed slowly against the wall,
The room started to sway, to shiver and creak,
His horrid insanity had reached it's peak!

He saw Abercrombie, his zombie slave,
And heard his wife call from beyond the grave,
She spoke from her coffin, and made ghoulish demands,
While through crackly walls, reached skeleton hands.

Every horror in his life, that had crept through his dreams,
Swept his mad laughter to terrified screams!

To escape the madness, he reached for the door,
But fell limp and lifeless down on the floor.

His voice was soft and very slow,
As he quoted The Raven, from Edgar Allan Poe,
"And my soul from out that shadow that lies floating on the floor,
Shall be lifted--Nevermore!"

23.9.06

Os últimos versos


Por do Sol no Cariri Paraibano (Lajedo Pai Mateus, Cabaceiras, PB). Foto de Helder da Rocha (Janeiro, 2006)

O poema abaixo foi publicado no livro Veinte poemas de amor y una canción desesperada do poeta chileno Pablo Neruda, falecido há exatamente 33 anos (23/09/1973). Os versos são tristes, mas não são lamentos: são versos de saudade. Celebram momentos felizes que ficaram para trás, que não voltam mais, mas que valeram a pena. Existem apenas na memória dos que os viveram. Somente momentos realmente felizes ganham versos tristes como estes versos de Neruda.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Pablo Neruda

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: 'A noite está estrelada,
e cintilam azuis, os astros, distantes'.

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a quis, e às vezes ela também me quis.

Em noites como esta eu a tive entre meus braços.
Beijei-a tantas vezes debaixo do céu infinito.

Ela me quis, às vezes eu também a queria.
Como não ter amado seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que eu a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto cai o sereno.

Que importa que meu amor não pôde guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isto é tudo. Bem distante alguém canta. Bem distante.
Minha alma não se contenta em tê-la perdido.

Como para aproximá-la meu olhar a procura
Meu coração a procura, e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.
Nós, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a quero, é certo, mas quanto eu a quis.
Minha voz buscava o vento para tocar o seu ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.

Já não a quero, é certo, mas talvez a queira.
É tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta eu a tive entre meus braços,
Minha alma não se contenta em tê-la perdido.

Ainda que seja esta a última dor que ela me causa
e sejam estes os últimos versos que eu a escrevo.

Traduzido do original em espanhol por Helder da Rocha.

22.9.06

O Sol da primavera


Manhã de hoje durante o eclipse parcial.
"These late eclipses in the sun and moon portend
no good to us: though the wisdom of nature can
reason it thus and thus, yet nature finds itself
scourged by the sequent effects: love cools,
friendship falls off, brothers divide: in
cities, mutinies; in countries, discord; in
palaces, treason; and the bond cracked 'twixt son
and father. "
(William Shakespeare, King Lear, act I, scene 2)

No final, as nuvens se dissiparam e a Lua escureceu um quarto do Sol na manhã de hoje. Tirei umas fotos. Meu equipamento fotográfico é terrível. Tenho uma câmera digital velha, de 4 anos, 2 mega pixels e que não filma. Por outro lado tenho um telescópio que eu equipei com um filtro especial para apontar para o Sol. Tirei umas 10 fotos equilibrando a câmera na ocular do telescópio. Salvou-se uma:


Foto do Sol usando telescópio ETX-125 com ocular de 40mm.

Minha câmera de vídeo é pior ainda: uma web cam da Creative com resolução 320x240 ligada ao computador. Ela capta luz de forma estranha. Quando apontei para o Sol, no lugar apareceu uma bola preta, como se ela estivesse detectando a sombra da Lua. Mas não tenho certeza. Vou ter que fazer uns testes. Eu gravei um vídeo mesmo assim.


Vídeo gravado às 7h55 do dia 22/09.

Dois eclipses escureceram o país neste ano. Para compensar as superstições de Gloucester (na citação acima), vou terminar com outra citação da mesma peça (Rei Lear):
"This is the excellent foppery of the world, that,
when we are sick in fortune,--often the surfeit
of our own behavior,--we make guilty of our
disasters the sun, the moon, and the stars: as
if we were villains by necessity; fools by
heavenly compulsion; knaves, thieves, and
treachers, by spherical predominance; drunkards,
liars, and adulterers, by an enforced obedience of
planetary influence; and all that we are evil in,
by a divine thrusting on: an admirable evasion
of whoremaster man, to lay his goatish
disposition to the charge of a star!"
(É a resposta lúcida de Edmund, o filho bastardo. Mas oh não! Ele é o vilão! Quem será que está com a razão?)

Atualização
O eclipse em São Paulo cobriu apenas 25% do Sol. No nordeste a crescente ficou bem mais bonita. A foto ao lado, que mostra 68% do Sol encoberto pela Lua, foi tirada pelo meu pai, em Campina Grande, na Paraíba, usando uma câmera digital com filtro.

21.9.06

O Sol e o equinócio



O Sol, flagrado às 8h20 de hoje, véspera do equinócio de primavera, em São Paulo. Ele tem uma "pintinha"! Amanhã ele tem um encontro com a Lua.

Os Quatro Elementos - O Fogo
(Vinicius de Moraes)

O Sol, desrespeitoso do equinócio
Cobre o corpo da amiga de desvelos
Amorena-lhe a tez, doura-lhe os pelos
Enquanto ela, feliz, desfaz-se em ócio.

E ainda, ademais, deixa que a brisa roce
O seu rosto infantil e os seus cabelos
De modo que eu, por fim, vendo o negócio
Não me posso impedir de pôr-me em zelos.

E pego, encaro o Sol com ar de briga
Ao mesmo tempo que, num desafogo
Proíbo-a formalmente que prossiga

Com aquele dúbio e perigoso jogo...
E para protege-la, cubro a Amiga
Com a sombra espessa do meu corpo em fogo.

Fonte: http://www.viniciusdemoraes.com.br

O anel da primavera


Simulação do eclipse anular de sexta-feira sobre o rio Oiapoque, no Amapá.

A primavera do hemisfério sul vai começar no Brasil com um eclipse anelar do Sol, nesta sexta-feira, dia 22, pouco depois do amanhecer. Há seis meses, foi o outono que começou pouco antes de um eclipse total, também visto no Brasil (veja videos, fotos e relatos no post anterior.) Depois de sexta-feira, os dias voltarão a ser mais longos que as noites.


O eclipse em Oiapoque
O fenômeno será visível em quase todo o país na sua fase parcial. O melhor lugar para vê-lo no Brasil será no município de Oiapoque, no Amapá, que fica próximo da linha central (veja figura abaixo). Acontecerá pela manhã, cerca de duas horas após o amanhecer. No resto do país o eclipse será parcial. As fases parciais dos eclipses anulares são mais bonitas, pois a crescente do Sol encoberto é maior.


A faixa entre as linhas vermelhas mostram onde o eclipse será visto na fase anelar.

A imagem abaixo mostra como o eclipse será visto no seu auge em várias cidades brasileiras. A passagem da Lua pelo Sol durará em torno de duas horas.


O eclipse em várias cidades no Brasil

Na terça-feira consultei a previsão do tempo para a sexta-feira pela manhã em São Paulo e fiquei animado pois havia a possibilidade de haver céu limpo. Ontem a previsão já mudou para céu nublado, então não sei se iremos conseguir ver qualquer coisa. Mas, como as previsões podem falhar, quem sabe se as nuvens não se dissipam na hora do eclipse? A imagem abaixo mostra várias fases do eclipse em São Paulo. O auge do eclipse ocorrerá às 7h42.


O eclipse em São Paulo.

Para observar um eclipse parcial ou anular é preciso tomar cuidados especiais. Nunca aponte um binóculo ou telescópio para o Sol e para observar o Sol diretamente use um filtro de soldador número 11 ou superior (você encontra em qualquer loja de ferragens e custa cerca de R$ 2,00). Não olhe diretamente para o Sol sem proteção ou com óculos escuros.

Leia mais sobre eclipses no meu post de 28 de março: Amanhã o Sol vai nascer escuro.

Informações mais detalhadas sobre o eclipse do dia 22 de setembro podem ser encontradas no site Uranometria Nova dos astrônomos Irineu Varella e Priscilla Oliveira do planetário municipal de São Paulo. Há uma tabela para várias cidades brasileiras com horários, percentagem de cobertura, e outros dados. As simulações da visão do eclipse neste artigo foram calculadas usando as ferramentas do site CalsSky.

Atualização

The Sky
A previsão do tempo agora está mais desfavorável: o Sol só é esperado à tarde. Mas astrônomos são seres otimistas. A previsão para hoje de manhã era de céu nublado e o Sol apareceu. Esta foto ao lado foi tirada da varanda do meu apartamento pouco antes do meio-dia de ontem. O clima muda rapidamente; muda mais rápido que as previsões.

20.9.06

Vídeos do eclipse total de 29 de março


O vídeo do ecplise total do Sol que eu assisti há seis meses (29 de março) está no YouTube. O vídeo foi feito na praia de Tabatinga (próximo de Natal) por Lucas Medeiros e eu editei as cenas no Movie Maker. Na época escrevi vários posts onde publiquei relatos e fotos:
Bruno Ávila fez outro vídeo que vale a pena assistir e que mostra a fase de totalidade do eclipse inteira sem interrupção.

O assunto está de volta porque haverá outro eclipse do Sol nesta sexta-feira, visível em todo o Brasil. Falarei sobre ele no próximo post.

5.9.06

Frio


O ar está frio. O espaço é silêncio. O que um dia tinha cores vivas está a tornar-se pálido, comum. Perdeu-se o hábito de buscar novos ângulos desconhecidos. Na fria calmaria, as falhas vieram à tona, repetindo-se em tons irritantes. O amor exposto à dura realidade da razão tornou-se ridículo. Não tinha mais graça. Todas as fantasias, quando expostas, revelaram-se absurdas. A paciência esgotou-se com os truques do mágico, que, diante de tais olhos não mais surpreende. Seu mundo revelou ser apenas um palco vazio, comum, com manchas e rachaduras, como qualquer outro palco. O castelo era apenas a ruína de um casebre de taipa e o riso imaginário era apenas vento. O que um dia pulsava e aquecia, petrifica-se e volta a ser estátua, de gelo opaco. Se não acordar a tempo, derreterá no próximo Sol, até evaporar, tornando-se nada, espalhando-se pelo todo até o esquecimento.

25.7.06

Até a próxima viagem

Vou dar um tempo (breve) no blog e mudar de assunto a partir do próximo post. Organizei abaixo um índice dos 22 artigos, notícias e relatos que escrevi nos últimos dias. Todos são de alguma forma relacionados à viagem que fiz à Alemanha e à Holanda, entre 2 e 18 de junho, por ocasião do festival internacional de teatro Play-off/06, para o qual fui convidado a participar como ator junto com o Núcleo Experimental dos Satyros.

Notícias
 2. In Gelsenkirchen (13/jun).
 3. Colonia (Köln) (16/jun).
 4. De volta à realidade (22/jun).
Sobre a peça e montagens
 1. Ein Körper in Dornen (01/jun).
 9. Como fomos parar na Alemanha? (29/jun)
13. Nossas apresentações na Alemanha (04/jul).
Sobre o festival
10. O Festival Play-off/06 (30/jun).
11. Play-off/06: a Vila (30/jun).
12. Play-off/06: primeira semana (04/jul).
15. Play-off/06: Ruhrgebiet tour (07/jul).
16. Play-off/06: segunda semana (07/jul).
22. Play-off/06: encerramento e despedida (25/jul).
Relatos e artigos inspirados pela viagem
 5. Consol Theater (27/jun).
 6. O Ruhrgebiet (27/jun).
 8. Gelsenkirchen, Essen, Herne e Dortmund (29/jun).
 7. Zeche Zollverein (28/jun).
14. A dinastia dos Krupp, em Essen (05/jul).
17. A viagem para Colônia (17/jul).
18. A Catedral de Colônia (18/jul).
19. Rembrandt van Rijn, 400 anos (18/jul).
20. A viagem para Amsterdã (23/jul).
21. O Rijksmuseum, em Amsterdã (23/jul).
Fotografias
1. Play-Off/06 no Flickr.
2. Colônia, no Flickr.
3. Amsterdam, no Flickr.

Play-off/06: encerramento e despedida


O pianista e compositor Michael Gees regendo a orquestra de 90 músicos durante uma peça musical de 40 minutos que encerrou o Play-off/06.

Este é o último post da série sobre a minha viagem para a Alemanha e o festival Play-off/06. Ainda bem, pois preciso mudar de assunto. Sobre a viagem e sobre o festival acho que eu já falei tudo. Faz mais de um mês que tudo terminou e eu não lembro mais dos detalhes. Então vou deixar que as fotos falem o que não estiver escrito, e vou apenas relatar o essencial.


Todos os atores e diretores reunidos na tenda, no sábado, antes da festa de encerramento.

A festa final do festival Play-off/06 foi parte de um grande evento que acontece anualmente em todo o Ruhrgebiet chamada de Extraschicht. A vasta programação cultural acontece em várias antigas instalações industriais nas 11 cidades da região. No Consol Theater o evento foi o encerramento do festival Play-off/06, que atraiu milhares de pessoas ao local onde estávamos acampados.

A área da mina Consolidation encheu de gente. Foram montados quatro palcos de rua onde os atores dos vários grupos apresentaram cenas e improvisações simultaneamente. Nosso grupo fez três improvisações em dois desses palcos. À meia-noite, no palco principal, houve um concerto de encerramento com uma apresentação musical de 50 minutos, ilustrada com coreografias realizadas por todos os grupos de teatro presentes. A peça musical foi composta e executada pelo pianista alemão Michael Gees e sua orquestra.


Milhares de pessoas da região compareceram para assistir ao encerramento.

A festa terminou com luzes, música e fogos de artifício. Depois que as milhares de pessoas foram embora restaram apenas nós: os pouco mais de cem habitantes internacionais da vila. Era a vez da nossa festa de despedida. Então ficamos acordados, esperando os grupos que partiam, conversando até o dia amanhecer.


A mina, pouco depois do final da festa.

O domingo foi um dia estranho, silencioso. Alguns grupos já partiram de madrugada, outros foram partindo ao longo do dia. Quando chegava o ônibus para levar um grupo para o aeroporto, quem estava dormindo acordava. As despedidas eram intensas, com abraços, fotos e lágrimas. No fim da tarde o acampamento estava quase vazio. Nós fomos um dos últimos grupos a partir. Partimos junto com os argentinos, sul-africanos e equatorianos.


Atores do Brasil, Polônia, Estados Unidos


Montagem com fotos tiradas por Ricardo Socalschi durante a festa de encerramento.

O embarque e as conexões foram tranqüilos. No vôo Paris - São Paulo, ficamos separados em assentos espalhados pelo avião, e eu dormi quase toda a viagem. Só acordei para o café da manhã pouco antes da chegada. A semana da volta à realidade foi esquisita e levei vários dias até me acostumar com a rotina urbana, noites longas, e vozes falando apenas português. Viagens sempre mexem comigo. Demorei para achar o rumo, mas agora é hora de seguir outros caminhos, até a próxima viagem.

23.7.06

O Rijksmuseum, em Amsterdã


Rijksmuseum de Amsterdã visto da Museum Platz.

O Rijksmuseum de Amsterdã é o maior museu de arte e história da Holanda, com mais de um milhão de objetos em exposição, destacando obras de artistas holandeses do século XVII como Rembrandt, Vermeer, Frans Hals e outros. O museu é imenso, mas apenas uma pequena parte estava aberta, pois o prédio inteiro passa por uma reforma. Essa pequena parte, chamada De Meesterwerken (as obras-primas), concentra dois andares e 14 salas onde está em exposição uma seleção das obras primas do museu.

A exposição é organizada em ordem cronológica e conta a história da Holanda através das obras de arte. A viagem no tempo não se resume a quadros. Há vários objetos, esculturas, casas de boneca, móveis, armas, porcelana, jóias. Muitas vezes um objeto retratado em um quadro antigo também está em exposição. Não houve tempo para apreciar tudo. Como o tempo era pouco, eu preferi pular as exposições de objetos e concentrar-me nas pinturas.


Imenso quadro de Van der Helst (Banquete em celebração da paz de Münster) domina a entrada do Rijksmuseum na sala dedicada à república holandesa.

Nenhuma visita virtual ou livro de arte compara-se à visita a um museu. Não conheço fotografia que faça justiça às pinturas expostas no Rijksmuseum. Não descobriram ainda uma maneira de reproduzir em filme, impresso ou projetado, as cores e os efeitos que Rembrandt e seus contemporâneos conseguiam representar com tintas. Aquelas imagens estão além da fotografia. Algumas parecem até tridimensionais. Quase consigo tocar nos recipientes de barro do único quadro de Johannes Torrentius; e a mão do capitão Frans Cocq na Ronda Noturna de Rembrandt parece querer sair do mundo bidimensional onde está presa. O meu Rembrandt favorito - Jeremias lamentando a destruição de Jerusalém - tem detalhes em ouro e prata que brilham como se estivessem ali, de verdade. Nenhuma fotografia causaria uma ilusão tão perfeita.


Jeremias lamentando a destruição de Jerusalém (detalhe) de Rembrandt van Rijn. Clique na foto para ver a tela inteira.

Um imenso quadro de cinco metros e meio de largura retratando personagens em tamanho real ocupa a maior parede na sala de entrada do Rijksmuseum. São vinte e cinco militares comemorando a paz que permitiu o surgimento da Holanda: o Tratado de Münster (ou Tratado da Westfália) que marca o fim da guerra de oitenta anos com a Espanha em 1648, e o reconhecimento oficial das províncias holandesas como república independente. Nesta sala havia vários outros objetos relacionados ao início da república holandesa.


Banquete em celebração da paz de Münster, de Bartholomeus van der Helst. 1649 - Oléo sobre tela, 232x547. Clique na foto para ver uma versão maior no site do Rijksmuseum.

A sala seguinte é dedicada às conquistas holandesas pelo mundo. Uma das pinturas mostra a cidade de Olinda, Pernambuco, pintada por Frans Post, artista holandês que servia a Maurício de Nassau durante o período em que parte do nordeste brasileiro vivia sob o domínio holandes.


Frans Jansz Post (1612-1680): vista de Olinda, Brasil (Óleo sobre tela, 107,5 x 172,5cm, 1662). Clique na foto para ver uma versão maior no site do Rijksmuseum.

As outras três salas do andar térreo são dedicadas principalmente a objetos do cotidiano, porcelanas e tesouros da Idade de Ouro da Holanda (século XVII). Há duas casas de boneca, contendo salas ricamente mobiliadas em miniatura, que mostram em detalhes como eram as casas dos ricos habitantes de Amsterdã nessa época.

O segundo andar é ocupado principalmente por telas de pintores holandeses do século XVII, com destaque para Frans Hals, Rembrandt, Johannes Vermeer e Jan Steen. Há uma sala especial para o quadro mais importante do museu: a Ronda Noturna, de Rembrandt.

Frans Hals


Retrato de casamento de Isaac Massa e Beatrix van der Laen (Frans Hals, 1622). Clique para ver a tela inteira no site do Rijksmuseum.

Frans Hals nasceu na Antuérpia e mudou-se para o Haarlem quando a cidade foi tomada pelos espanhóis na Guerra dos Oitenta Anos. Ele é bastante conhecido pelos retratos que fez de personalidades famosas e ricas. O quadro de Hals que eu mais gostei foi o retrato de casamento de Beatrix e Isaac. Beatrix, 30, era filha de um burgomestre, e Isaac, 35, era um diplomata e historiador que vivera na Rússia. Casais normalmente retratavam-se separados em poses sérias, mas Isaac e Beatrix queriam algo diferente e foram pintados em um jardim, lado a lado, espontaneamente sorrindo para o artista. Hals pintou vários outros retratos de casais, mas nunca juntos, sorrindo ou na mesma tela.

Rembrandt van Rijn


A Noiva Judia (Rembrandt van Rijn, 1667). Este quadro era um dos preferidos do pintor Vincent Van Gogh.

Rembrandt van Rijn é o mais célebre pintor da Holanda e seus quadros aparecem em três salas da exposição De Meesterwerken do Rijksmuseum. Eu escrevi um texto sobre Rembrandt que postei aqui há alguns dias em homenagem aos seus 400 anos.

Johannes Vermeer


Fragmento da mais famosa tela de Johannes Vermeer (1632-1675) do Rijksmuseum: De Keukenmeid.
 Johannes Vermeer é considerado hoje um dos pintores holandeses mais importantes do século XVII, mas por séculos foi esquecido. Nasceu e viveu praticamente toda a sua vida na pequena cidade de Delft, onde teve onze filhos e morreu aos 43 anos de idade. Ele não assinava seus quadros e muitos podem ter se perdido. Reconhece-se a existência de 35 obras de sua autoria. A maior parte de suas obras retrata cenas do cotidiano. Sua principal obra no Rijksmuseum é A moça do leite, que mostra uma mulher vestida em roupas simples despejando leite em uma vasilha num ambiente iluminado pela luz indireta que penetra pela janela.

O quadro mais conhecido de Vermeer, Moça com brinco de pérola, não está no Rijksmuseum e nem em Amsterdã, mas na cidade próxima de Haia (Den Haag) onde é a principal atração do Mauritshuis, que também guarda outras obras célebres de Vermeer.

Jan Steen


A Família Feliz, de Jan Steen (1668)

Jan Steen era um contador de histórias. É preciso decifrá-las observando detalhes como objetos, gestos e olhares dos personagens que aparecem nos seus quadros. Nunca é óbvio. Sempre há mais acontecendo do que parece, e ele constuma esconder parábolas nas histórias. No quadro que retrata a família feliz, há uma folha que pende do teto onde está escrito "enquanto cantam os velhos, fumam os jovens", e há uma criança bebendo sem que os pais vejam.

A Ronda Noturna, de Rembrandt van Rijn

A obra mais famosa do Rijksmuseum é a Ronda Noturna (De Nachtwacht), de Rembrandt van Rijn. É o maior quadro que Rembrandt pintou e ocupa uma sala inteira do museu. Retrata a companhia militar do Capitão Frans Banning Cocq. Parece uma fotografia capturando os vários personagens em movimento. Na foto, vê-se o capitão Banning Cocq que desloca-se apressadamente para fora do quadro enquanto dá ordens ao seu tenente Van Ruytenburch para segui-lo. Movimento e contrastes de luz são característicos dos quadros de Rembrandt.


A Ronda Noturna (The Nightwatch) de Rembrandt van Rijn. Clique na foto para ver uma versão maior no site do Rijksmuseum.

O título verdadeiro do quadro não é Ronda Noturna, mas quando foi descoberto, ele estava coberto por um verniz escuro que o fazia parecer uma cena noturna, e assim ganhou o apelido. Na verdade, a cena é diurna e representa um grupo de mosqueteiros saindo de um prédio. Os contrastes são provocados pela luz do Sol. Nos últimos anos o quadro foi restaurado revelando suas cores originais (era bem mais escuro).

Nightwatching, de Peter Greenaway


Peter Greenaway.
Quando visitei o Rijksmuseum havia uma instalação recém inaugurada sobre a Ronda Noturna criada pelo cineasta inglês Peter Greenaway, que mora em Amsterdã. A apresentação utiliza-se de projeções feitas diretamente sobre a tela para revelar as histórias por trás dos personagens. Além da exposição interativa, Greenaway também está fazendo um filme e uma peça sobre Rembrandt em comemoração aos 400 anos do pintor.

O filme chama-se Nightwatching, e está ambientado no ano de 1642 (o ano em que a pintura foi feita). Mistura fatos com ficção. Um acidente fatal ocorrera com um dos militares que encomendara o quadro. Rembrandt teria descoberto que o ocorrido não fora um acidente e revelado o assassino através de pistas ocultas na pintura. Mas os outros teriam descoberto, porém não podiam mais destruir o quadro. Buscaram, então, sutilmente destruir o artista. Greenaway aproveitou-se de fatos históricos, de mistérios contidos na Ronda Noturna e na decadência do artista depois da pintura do seu quadro mais célebre. Nightwatching será lançado em 2007.

A peça, que deve estrear este ano, é basedada em relacionamentos domésticos, sociais e simbólicos de Rembrandt com suas três mulheres: Saskia, Geertje e Hendrickje. Mais detalhes sobre a peça e uma sinopse completa sobre o filme estão no site do cineasta.

Rijksmuseum, na Internet

Não é o mesmo que a experiência de visitar o museu, mas o site do Rijksmuseum é uma obra de arte do Web design e vale a pena ser visitado. Há informações sobre centenas de obras, imagens em alta resolução, vídeos e animações interativas que permitem navegar em diversas partes do museu em 3D. Há inclusive uma seção especial e interativa sobre a Ronda Noturna de Rembrandt. O site está disponível em holandês e inglês.

A viagem para Amsterdã


A rua Damrak. A fundo está a estação central.

Eu estava em dúvida se ia ou não a Amsterdã. No dia anterior havia ido a Colônia e o resto do nosso grupo estava em Amsterdã e só voltaria no dia seguinte. Eu estava muito envolvido com o festival e estava preocupado que não ficasse ninguém do Brasil no acampamento. Além disso, estava trocando idéias com alguns atores para formarmos uma comunidade virtual com todos os participantes do festival. Precisávamos divulgar a idéia e juntar as pessoas, então pensei em ficar no acampamento na quinta-feira e cuidar disso. Quinta-feira era feriado e a organização havia planejado um tour em Dortmund, mas, devido à chuva, ao frio, e ao desinteresse geral, o evento foi cancelado e o dia ficou livre. Acordamos tarde. Esperamos algumas pessoas do acampamento que estavam interessadas em ir conosco. Como até 9h30 ninguém havia aparecido, fomos novamente apenas eu, Luís e Ricardo.

Ricardo tirou essas fotos da janela do trem, pouco antes de chegarmos na estação central.

Pegamos o metrô na estação Consolidation até a estação central de Gelsenkirchen onde compramos um bilhete de grupo para Amsterdã. Custou €247,00 para o grupo, ida e volta, o que seria €82,00 para cada. A viagem é rápida (2 horas e meia) no trem ICE da Deutsche Bahn. Seria uma viagem curta. Teríamos menos de seis horas em para aproveitar a cidade, pois o último trem para a Alemanha sairia as 19 e alguma coisa. Mas, quando descemos na estação de Oberhausen ficamos sabendo que o ICE iria atrasar cinqüenta minutos, ou seja, teríamos menos de cinco horas em Amsterdã.


Caminhada de 3km em Amsterdã, da estação central até o Rijksmuseum

Isto foi no dia 15 de junho, feriado de Corpus Christi. Chegamos em Amsterdã antes das duas horas da tarde, almoçamos e fomos caminhar. As atrações surgem logo que se deixa o trem, na bela Centraal Station de 1889, projetada por Pierre Cuypers (mesmo arquiteto que projetou o prédio do Rijksmuseum.) Seguimos para o Sul pela rua Damrak, depois entramos num beco e seguimos por uma rua paralela até a praça Dam, onde está o Palácio Real e a igreja nova (Neuwe Kerk), que não é tão nova assim. Estava frio e começava a chover levemente.


Rua estreita saindo da Damrak.
A praça Dam é o coração da cidade. Foi lá que surgiu, no início do século XIII, a pequena vila de pescadores que represou o rio que desaguava na baía Ij (pronuncia-se "ai"). É dela nasceu o nome da cidade: Amstel re dam. A rua Damrak, que segue da estação central até a praça Dam, e a rua Rokin, que segue para o Sul depois da praça, eram as margens dos portos onde os barcos eram atracados. Damrak era o porto que dava para a baía e que foi fechado com a construção da Centraal Station sobre uma ilha artificial em 1889. Rokin era o porto interno, que dava para o rio.


Damrak.

O prédio que mais chama atenção na praça Dam é a antiga Camara Municipal, que hoje é o Palácio Real. O prédio foi concluído em 1655. A escultura da fachada, em alto relevo, foi feita por de Artus Quellinus (1609-1668). Tem 20 metros de largura e representa os quatro continentes em referência ao status de centro do comercial mundial que a Holanda possuía na época.

O Palácio Real (antiga Câmara Municipal), de 1655. À esquerda, quadro de Gerrit Berckheyde (1672), exposto no Rijksmuseum. A foto a direita é minha.

No século XIV a cidade cresceu devido ao comércio com outras cidades do norte da Europa, e ganhou relativa importância, mas o maior crescimento ocorreu depois que sua rival na época - a cidade de Antuérpia, tornou-se o principal alvo dos espanhóis durante Guerra dos Oitenta Anos. Os massacres, assédios e perseguições por motivos religiosos afastaram banqueiros, comerciantes, artistas e empreendedores que migraram para Amsterdã. E assim, a cidade floresceu durante o século seguinte e tornou-se uma das cidades mais ricas do mundo. Foi nessa época que o famoso conjunto de canais que envolve o centro histórico foi construído e a Holanda, com suas duas companhias marítimas multinacionais, estabeleceu sua presença nos cinco continentes.

No início do século XIX a Holanda foi invadida pela França e foi convertida em uma monarquia presidida por Luís Napoleão (irmão de Napoleão Bonaparte), que estabeleceu seu palácio no prédio da antiga câmara municipal. Quando os franceses finalmente foram expulsos, os holandeses decidiram manter uma monarquia com sede em Amsterdã, nomeando como rei Willem IV de Orange (descendente direto de Willem I de Orange-Nassau, o pai da república holandesa.) Apesar de Amsterdã ser a capital oficial da Holanda, o parlamento holandês exerce suas funções em Haia (Den Haag). Hoje, Amsterdã ainda é o centro cultural e financeiro da Holanda. Na cidade vivem mais de 750 mil pessoas em uma região metropolitana de cerca de um milhão e meio. Apesar do desenvolvimento, a arquitetura do centro foi preservada e a cidade possui um dos maiores centros históricos da Europa, onde ainda predomina a arquitetura medieval.


Principal meio de transporte, em Amsterdam.

O lado onde fica a praça Dam é chamado de cidade nova, e o lado oposto de cidade velha, mas na verdade a cidade velha é mais nova que a velha. A confusão é por causa dos nomes das paróquias em volta das igrejas. Do lado da praça Dam fica a igreja nova (Nieuwe Kerk) e do outro fica a igreja velha (Oude Kerk).

Continuamos seguindo para o sul até até a torre Munttoren, que fica onde o rio Amstel se divide em canais. De lá seguimos pela Vijzelstraat, cruzando os canais até chegar na fábrica da Heineken, viramos à direita e fomos beirando o canal até o prédio do Rijksmuseum.


Rio Amstel. Foto de Ricardo Socalschi.


Prédio do Rijksmuseum. Foto de Ricardo Socalschi.

Casas belíssimas, ruas estreitas, canais e mais canais. Muitos canais. É fácil se perder em Amsterdã pois os canais, à primeira vista, parecem todos iguais. Também é preciso tomar cuidado com as bicicletas. A cidade tem mais de 600 mil e elas estão em todos os lugares, ocupando todos os espaços. Do lado da estação central, por exemplo, há um estacionamento para 2500 bicicletas, e estava praticamente lotado. Todas as ruas tem via para bicicletas e elas estão sempre buzinando para os pedestres desavisados que invadem sua pista. Na maior parte das ruas do centro também não existe desnível algum entre rua, trilho, ciclovia e calçada. Só mudam as cores do calçamento. Ou seja, ao caminhar, é preciso também ficar de olho nos carros (poucos) e principalmente nos trens.




Canais de Amsterdam. Eles são muito parecidos

Foi uma longa caminhada até o Rijksmuseum, mas não percebemos (só descobrimos o quanto andamos na volta). Como demos voltas e mais voltas, acho que andamos bem mais que 3km. Também fizemos algumas paradas. Nesse passo, chegamos no museu às 15h50. Calculamos que daria para ver o Rijksmuseum e também o museu Van Gogh, que ficava vizinho. A idéia era fazer uma visita de reconhecimento, ver apenas as pinturas em uma hora, e depois correr para fazer outra visita relâmpago no Van Gogh, pois ambos fechariam às 18h. Não deu. Ficamos no Rijks até 17h30. Ainda estávamos dispostos a passar 30 minutos, mas não deu para entrar no Van Gogh.

Uma hora e quarenta minutos no Rijksmuseum é muito pouco. As obras em exposição são janelas para o passado, contam histórias, revelam segredos que não estão óbvios, e é preciso tempo para ouvi-las. O Rijksmuseum conta a história da Holanda, desde o tratado de Westfalia, em 1648, ano em que foi oficialmente reconhecida a república holandesa, até o século XIX. Consegui fazer uma curta viagem no tempo, mas eu contarei essa história em outro post, que publicarei na seqüência.


Voltando do Rijksmuseum. Não sei que rua é esta. A torre atrás das casas deve ser a Munttoren.

Amsterdã e os Holandeses
Desde que libertou-se do domínio espanhol, e conseqüentemente da Igreja Católica, a Holanda tem mantido uma tradição de liberdade, tolerância e respeito aos direitos individuais. No século XVI, enquanto outras nações eram governadas por reis e tiranos, o país era uma república governada por representantes de cidadãos de suas províncias. Essa liberdade permitiu um grande desenvolvimento artístico, científico e comercial que fez do país uma potência mundial no século XVII. O mundo mudou, mas a Holanda continua sendo um dos países mais livres do mundo, e tem sobrevivido a atos de intolerância em seu próprio território como os assassinatos recentes de Pim Fortuyn e Theo van Gogh, em Amsterdã. Devido à sua política de liberdade e tolerância, na Holanda, várias coisas que são ilegais em outras partes do mundo aqui são legais, como a prostituição e a venda de cannabis e haxixe.


Não sei que rua é esta. Acho que é a Weteringschans ou alguma rua próxima. Estávamos perdidos.

Amsterdã faz muito sucesso entre os turistas, mas muitos holandeses não gostam de Amsterdã. Esta foi a impressão que eu tive entre os holandeses que eu conheci. Preocupam-se com a visão estereotipada e deturpada que a cidade passa ao mundo como se fosse a imagem da Holanda; reclamam que é uma cidade suja, que os holandeses estão indo embora e os estrangeiros estão tomando conta, que a prostituição passou dos limites, que é exagerada a quantidade de coffee-shops (onde a venda de Cannabis é legal), e que ela perdeu o charme que tinha no passado. Eu sei que ao visitar Amsterdã eu não conheci a Holanda. Isto seria como alguém conhecer o Rio de Janeiro e achar que conhece o Brasil. Eu gostei muito da cidade. Em outra viagem, com mais tempo, com certeza irei atrás de conhecer outros lugares na Holanda (recomendados por meus amigos holandeses), como Utrecht, Haia, (Den Haag), Maastricht, Leiden e Delft.


Centraal Station de Amsterdam. Foto: Ricardo Socalschi.

Perdendo o trem
Depois de desistir do museu Van Gogh iniciamos o caminho de volta caminhando pela cidade, porém os canais nos confundiram. Pegamos o sentido errado e nos perdemos. Estávamos sem relógio e nenhum relógio público da cidade marcava a mesma hora (até numa mesma torre havia relógios com horas diferentes). No fim, chegamos à estação de trem atrasados e perdemos o último trem para a Alemanha.


Distrito da luz vermelha.

Foi ótimo perder o trem. Fomos atrás de lugares para dormir e não achamos. Estava tudo lotado. Amsterdã vive cheia de gente. Muitos turistas. A impressão que se tem é que todo mundo perdeu o último trem e correu para um albergue ou hotel para passar a noite. Decidimos aproveitar o tempo: comer, beber, conversar, caminhar, visitamos bares e um coffee-shop. Lá pela meia-noite, caminhando em direção à estação, encontramos um hotel simples que, para a nossa surpresa, não tinha a placa Full (como todos os outros que havíamos encontrado).

Balada em Amsterdã
 Algum hóspede que precisou pegar um vôo tinha acabado de sair e liberado um quarto. Sem sono, ainda saímos para dar mais umas voltas. Circulamos pelo distrito da luz vermelha (que estava lotado de gente), andamos pelas ruas do centro (também cheias de gente), e entramos numa danceteria (€5,00) onde ficamos até fechar (as três da manhã acenderam as luzes e parou tudo). Voltamos para o hotel e no dia seguinte, às 7 horas, pegamos o trem para Herne onde chegamos a tempo de assistir às duas últimas apresentações do festival.


Canais Herengracht, Singel, Palácio Real (prédio retângular), Nieuwe Kerk (igreja) e Praça Dam. Foto de satélite do Google Maps. Clique na foto para ver Amsterdã no Google Maps (é possível ver pessoas e bicicletas lotando as praças e ruas da cidade.)

Veja mais fotos de Amsterdã na minha página no Flickr.
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